31 dezembro 2008

A espiral do tempo




Alguns pensam que o tempo é uma linha reta. Começa-se num determinado ponto e segue-se em marcha batida para onde nos indica a flecha. Para outros, o tempo é um grande carrossel, em que os cavalinhos tangem infinitamente os mesmos lugares.Cada um tem o direito de pensar o tempo como achar melhor, mais conveniente. Para mim, a melhor imagem do tempo é a da espiral. Como aquelas escadas que sobem como um caracol e dão medo de cair a quem olha pra baixo.Alguns mais cultos chamariam, a escada e a figura geométrica, de helicoidal. Mas não há tempo para sermos cultos: o tempo é uma espiral, e pronto. E o que ganhamos com essa imagem do tempo em espiral? Que vantagem tiramos em subir (ou descer) pelo tempo dando voltas e sentindo vertigens?As vantagens, sugiro eu, são exatamente as voltas e as vertigens. Se o tempo é uma espiral, a cada volta sua não passamos exatamente pelo mesmo lugar. Se estamos subindo, passamos mais acima. Se descemos, passamos mais abaixo. Para cima ou para baixo, haverá sempre uma novidade a nossa espera. Subindo ou descendo, nosso corpo se afetará tanto com o movimento quanto com a novidade. Daí a vertigem, daí a sensação de redemoinho, de mar agitado que o tempo às vezes nos traz.Mas nem sempre é tempo de novidade e vertigem. Existem momentos de calma e repetição que merecemos desfrutar. É um tempo assim que eu desejo para você nas festas de Natal e Ano Novo. Em paz, na sua casa ou fora dela, com as pessoas queridas de sempre.E se alguém ou algo novo se insinuar neste tempo, que esse novo seja acolhido na calma repetição dos momentos de confraternização que aprendemos a viver com nossos antepassados e teimamos em transmitir aos que sobreviverão a nós.

imagem obtida emwww.mat.uc.pt/.../conchas/imagens/helicoidal.png

29 dezembro 2008

Edifício do tempo
















Edificar
pedra sobre pedra

pelo tempo esperar

com o tempo
ver passar a dor
e o que finge ser dor

ver passar o bem
e o seu avesso

o amor
e a sua falta

ver o próprio tempo passar
tombando pedras.

Tempo de novo
pedra sobre pedra
edificar.

Do livro "Tecelagem noturna" (2000).
Ilusttração: Time



26 dezembro 2008

Um poema de Márcia Maia






anti-elegia

para Rona




a dor
sobrepõe-se ao silêncio
quase religioso
do azul sem nuvens
que
opressivo
derrama-se
sobre o vidro da janela

corrói e corrompe
conspurca a beleza do instante

numa concretude impalpável
indizivelmente real



Márcia Maia

Imagem obtida em: olhares.aeiou.pt

22 dezembro 2008

Grávidos de Deus



Mais uma vez vai nascer um menino. Cada um, a seu modo, neste lado do mundo, quer deixar marcado este dia em que se convencionou que o menino vai nascer.
De quem é o menino que nasce? Quem é seu pai, sua mãe? Ele mesmo nos dirá mais tarde: sou o filho do homem. Nasce, pois, de cada um de nós, de nossa humanidade. Isto quer dizer que ele é o que virá depois de nós. O modelo daquilo em que o ser humano se transformará, se tempo nos sobrar para tanto.
Mesmo que daqui a pouco estejamos lamentando sua morte, por nós mesmos decretada e executada, nada impede que agora estejamos contentes com o seu próximo nascimento. Por agora não sabemos nada da nossa maldade. Agora somos puros, somos virgens, inocentes de toda crueldade de que somos capazes. Por enquanto somos inocentes. E neste lapso de memória da matéria corruptível que nos forma corpo e alma, estamos prontos mais uma vez para gerar o menino e esperar que com ele renasçam nossas esperanças.
Esperemos, pois, com a paz possível, que mais uma vez nasça este menino. Façamos de conta que somos bons, que amamos nosso próximo, que cuidamos do planeta em que moramos. E se ele também se diz filho de Deus e nascerá mais uma vez de nós, estamos todos grávidos de Deus. Este é o milagre que se renova a cada ano no ventre da humanidade.


Imagem obtida em:raquel2006.flogbrasil.terra.com.br

20 dezembro 2008

A porta















A maçaneta girou, a porta rangeu e ficou entreaberta. Estava só em casa. Estava só no quarto. Ficou olhando a fresta com uma clara convicção: tinha alguém ali.
Estava só no quarto, estava só em casa, estava só no mundo. A solidão era seu elemento natural. A suposta presença atrás da porta desequilibrava seu modo de ser. Seja lá quem ou o quê estivesse ali, exigia que saísse de sua letargia, do seu alheamento às coisas do mundo.

Era penoso situar-se no lado de lá da fronteira de si. Só sentia segurança da pele pra dentro. E agora, alguém ou algo espreitava, aguardando o menor descuido para entrar de vez no centro do seu refúgio.

Respiração pesada, suor pegajoso, olhos pregados na fresta que lançava um ângulo de luz quarto adentro.
Respiração pesada, suor pegajoso, olhos fechados pelo peso da vigília. A paz do escuro dentro do círculo fechado do sono.
Respiração pesada, suor pegajoso, olhos abertos em susto. A porta toda aberta.

Ninguém nem nada para além do umbral.


Ronaldo Monte - Clube do Conto da Parahyba
20.12.2008

Ilustração: Fábio Cavalcanti

16 dezembro 2008

O olhar como gesto




Está cada vez mais difícil olhar o mundo com nossos próprios olhos. Antes de olharmos o mundo, somos doutrinados a ver apenas o que os meios nos mostram. E os meios nos treinam para ver um mundo ruim, onde a ganância e a maldade dirigem todas as ações humanas. Se quisermos ver o mundo, é preciso, antes, limparmos os olhos de toda a cinza que turva a nossa visão.

Sair para a rua, conversar, andar por aí de olhos e ouvidos abertos. Fugir do lugar comum das opiniões consagradas. Não deixar passar a frase feita que nivela a todos pela medida mais rasa. Não, brasileiro não é preguiçoso. Nem todo político é ladrão. Não, as periferias das cidades não são povoadas por marginais. A grande maioria é gente solidária e batalhadora. Não, as pessoas não gostam de pornografia. Elas se extasiam na presença da poesia.

Superar o lugar comum dos olhares requer uma disposição ao espanto do novo. Requer esforço que nos arranque do ponto de vista caduco e nos ponha noutra posição de visada. Ver como os artistas. Os poetas e os pintores. Abandonar o olhar passivo que recebe o mundo que nos mostram. Exercer o olhar como gesto. O que inventa o mundo enquanto vê.

Ilustração: Flávio Tavares

05 dezembro 2008

Meus prêmios



Acabei de ganhar dois prêmios no Concurso Literário da Cidade do Recife. O primeiro lugar em poesia, com o livro “Onde a minha Rolleiflex?” e o primeiro lugar em ficção, com o romance “Peccata mundi”. Quem vai receber o primeiro prêmio é a minha Amiga Márcia Maia. O segundo, quem vai receber é o meu amigo Geraldo Maciel, o bom e velho Barreto. Nada mais justo, pois foram eles que escreveram os livros. Eu apenas fui premiado.

Há muito tempo sou premiado com o privilégio de participar da lista de correspondência de Márcia Maia. Conheço, pois, os seus poemas muito antes de se transformarem em livros. Fui escolhido por Barreto como um dos primeiros leitores dos originais de “Peccata mundi”, além de ter acesso à ouriversaria dos seus contos nos fins de tarde dos sábados do Clube do Conto.

Os prêmios de Márcia e Barreto não são os únicos que a literatura me deu. Eles fazem parte de um prêmio bem maior. O privilégio de conhecer e conviver com um bando de insanos que, premiados ou não, tecem as palavras com as quais transcendemos a banalidade do mundo.


Ilustração obtida em: www.imagensdahora.com.br

29 novembro 2008

Pequenina



Ele tomou teu corpo, Pequenina, e usou como alcova de todos os vícios. Ele te seduziu com o engodo da beleza e da juventude, mas não estava só. Trouxe com ele os homens velhos que se serviram de ti sem dó da tua pequenez, do teu desvalimento. Ele era apenas mais um daqueles que há muito tempo te cobrem de sangue e de luto.

Por duas vezes o mandaste embora, Pequenina. Mas ele sempre deu um jeito de ficar. E a raiva do desprezo fez com que viesse à tona o que restava oculto no porão dos vícios.

Teu pequeno corpo minguou mais ainda à sanha dos maus-tratos. Outros tentaram obrigá-lo a ir embora. Mas ele os convenceu de que ainda eras sua posse. E quando já pensavas em descansar e curar tuas feridas, uma nova carga de ódio se abateu sobre ti, pela ousadia de te pensares livre.
E teu corpo pequenino, exausto e arfante, espera indefeso o pontapé que te quebre a última costela.

Ronaldo Monte
Clube do Conto da Paraíba, 29.11.2008
Imagem obtida em: www.parceria.nl

28 novembro 2008

O prêmio no mural




Existem muitas formas de um autor ser premiado. O meu prêmio mais recente me foi dado por uma adolescente do Centro Comunitário de Mandacaru. Quando cheguei para a oficina de leitura, na terça-feira passada, ela me chamou pelo nome completo e me mostrou um painel escrito em letra cursiva. Fui eu que fiz, disse. E se afastou depressa, arisca como sempre. Tive uma emoção muito forte quando vi o fragmento de um texto que escrevi a algum tempo chamado “Consciência mestiça”. E estava lá como parte das atividades da semana da consciência negra:

O que me faz homem não é o lugar em que nasci, não é a cor da minha pele, não são as ondas do meu cabelo. O que nos faz a todos humanos é a linguagem que nos salva do isolamento e da morte. E o que me faz ser este ser humano particular é a língua que falo. Para saber quem sou, não precisa analisar meu sangue, vasculhar meus cromossomos, rotular a cor da minha pele. Basta escutar a língua que falo. E é nesta língua que encontro minha identidade.

A menina era participante do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil – PETI e há algum tempo eu tinha dado dois livros meus à monitora do Programa. Foi do livro de crônicas “Pequeno Caos” que ela tirou o texto.

Das várias maneiras de se receber um prêmio, esta é uma das mais preciosas. Vale para me reafirmar que é necessário continuar escrevendo, pois nunca sabemos que caminhos tomarão os nossos textos. E é uma emoção muito grande encontrar um deles escrito à mão numa cartolina, colado numa parede de um centro comunitário.

20 novembro 2008

Luto e espera




Definitivamente, a vida não é para principiantes. A minha, pelo menos, não é. Não fez nem três dias que perdi um irmão e já me vem a notícia de que vou ganhar mais um neto (ou neta, ainda não dá pra saber). E eu, que mal me introduzia nas sombras do tempo do luto, sou convocado às pressas ao tempo da espera.

O trabalho do luto nos serve para limar as arestas contundentes do morto, esmaecer os tons rascantes de sua índole, até que fique na memória um quadro resumido de suas qualidades, com o qual conviveremos em paz pelo tempo que nos sobra. O luto é uma conta de diminuir.
A espera de um nascimento é, ao contrário, uma conta de somar. A notícia nos coloca frente a uma tela em branco que nos cabe aos poucos preencher com os traços do nosso desejo. O rosto deve ter o contorno suave da mãe, com certos traços mais fortes do pai. Claro que não deve faltar alguma coisa dos avós, detalhes que admiramos nos tios, um fio da beleza de algum parente distante. Daqui a um tempo, vamos saber se é menina ou menino, o que nos exige certas correções no projeto. E ao fim dos breves nove meses, temos que fazer os ajustes finais entre o sonho e a sua realização.

Estava eu, pois, em plena operação de diminuir, quando me atropela a exigência de uma conta de somar. E aqui estou, diminuindo com uma das mãos e somando com a outra. Como um pedreiro contratado para uma demolição e que, mal começa o trabalho, sabe que terá, ao mesmo tempo, de construir uma nova casa no mesmo terreno. Ainda bem que não sou principiante.

Imagem obtida em: www.mexicanbeautygiftshop.com

17 novembro 2008

A vida depois da morte

Para meu irmão Othon Celso

Depois de bem lacrada a sepultura, esgotadas todas as lágrimas possíveis, os que singraram o tempo espesso da vigília têm pressa em sair dali. Cansados da roda em volta do esquife, anseiam pela intimidade de uma mesa, em torno da qual se quer comer e beber em memória do morto.

Pouco importa o sabor da comida improvisada. O que se quer é ouvir as vozes íntimas e em cada uma delas reconhecer um pouco da voz ausente. Pouco a pouco, a conversa vai se afastando das coisas da morte. A gravidade da falta vai aos poucos sendo vencida pelo relato dos pequenos casos, a lembrança dos cacoetes, das frases preferidas que não mais se repetirão.

A trama das palavras realiza uma vez mais o seu milagre. Cada relato revela uma pessoa diferente, vista como pai, avô, irmão, sogro, amigo. O que era um, agora se torna múltiplo. Revive de formas diversas na memória e no coração de cada comensal.

Desfeita a mesa, começa um novo tempo. Lentamente, a densidade da perda irá cedendo espaço para o sentimento leve da presença do ente amado dentro de nós. E desta forma ele partilhará conosco das infinitas surpresas que a vida nos reserva. Esta é a prova da vida após a morte.

09 novembro 2008

Ao animal que vai morrer


Há uma certeza inabalável no olho do animal que vai morrer. Vejam o boi no matadouro, o rato na pata do gato, o homem à margem do Hades.
Há um certo ar de nunca, um quê de último ato, uma antecipação da falta que dali a pouco se fará.
É obsceno se opor a esta certeza. Qualquer piedade é pornográfica. O Animal que vai morrer não nos pede nada. Ele quer apenas que fiquemos aqui, no cais dos sobreviventes, passivos ao desatar dos nós que deixarão fluir a barca de Caronte.
Há uma certa urgência no olho do animal que vai morrer. Ele tem pressa em apagar de vez a visão de nossas faces constritas e piedosas. Pois é esta visão que o impede de nos esquecer e se entregar por inteiro à novidade do nada.


Imagem obtida em : quadradoredondotriangular.blogspot.com

05 novembro 2008

A Cidade de Lau Siqueira










O troar dos tambores do urso, a doçura da flauta e dos pés dos caboclinhos, as ondas suaves da ciranda, o atávico gingar da capoeira e a dança nervosa das ruas louvam ao cidadão Lau Siqueira.


Todas as tribos, todas as vozes livres da Cidade das Acácias vieram acolher o homem que veio das lhanuras de um país sem fronteiras mostrar que as fronteiras não existem.

E ao nome de homem que lembra o ódio e a morte, por certo a Cidade escolherá este outro. O nome do poeta que junta os amantes, combate as misérias do corpo e da alma e constrói um futuro em que música, dança e poesia andem nas ruas de mãos dadas com a gente.

E por um tempo que os relógios não marcam, música dança e poesia habitaram a Câmara Municipal da Cidade de Lau Siqueira. E fomos todos cidadãos de Lau Siqueira, uma cidade feita de palavras e gestos de amor e solidariedade.




Texto sentido
Para Lau Siqueira










Um tênue manto envolve a pele do poeta.
Tecido de palavras ditas e a dizer,
esconde o corpo do poeta à cobiça da morte.
Engodo inconsútil,
finge proteger das asperezas do mundo
mostrando-se flagelo de enigmas
claros e escuros.
O poeta não vê,
não ouve,não cheira,não tateia
nem sente sabor.
O poeta sofre o peso do seu manto
e dele suga as palavras
que matam a sua fome de sentido.
Ronaldo Monte
08.11.2007

02 novembro 2008

Tempo e palavra


Para Waldir Pedrosa Amorim
Sessenta vezes o poeta
deu voltas em torno do sol
em busca da luz
que lhe mostrasse a palavra perdida.
E a cada nova estação
a palavra faltava ao encontro marcado
com o poeta.

Fez também o poeta
vinte e um mil,
oitocentos
e quarenta e oito
voltas em torno de si mesmo.
E a cada metade de luz
em que a palavra ao longe acenava,
sucedia uma metade de sombra
em que ela novamente
se perdia.

Por mais tempo que viva,
restará ao poeta as palavras-migalha
jogadas pelo tempo
como esmola
no seu chapéu de pedinte,
que ele catará ao fim do dia,
ávido de re-encontrar o verbo
que nunca chegou a conhecer.

Ilustração obtida em: terrag2.pbwiki.com

25 outubro 2008

Desabrigo


Estava sob as cobertas numa cama confortável, na penumbra de um quarto aconchegante de um apartamento amplo e seguro. Com tudo isto, sentia um enorme mal-estar. Era seu corpo que não mais servia de continente para aquilo que também sentia como si mesmo. O corpo e a coisa, definitivamente, não se entendiam.
Por mais que tivesse lido e ouvido os argumentos sobre a unidade do corpo e do espírito, o que sentia agora era todo o peso da velha doutrina dualista. O que mais lhe chamava a atenção é que os filósofos e os religiosos nunca encontraram um termo que nomeasse esta suposta entidade única e indivisível. Ao fim de todos os arrazoados, o vício lingüístico se impunha: corpo e alma, corpo e espírito, corpo e psiquismo, corpo e mente.
Ali estava ele, a mais crassa expressão do velho dualismo. Alguma coisa sobrava no seu corpo. Algo espesso e frio pendia das bordas da sua matéria. Era algo invisível, impalpável, mas percebido confusamente como uma coisa fora do seu lugar. Isto ele podia perceber do ponto de vista do seu corpo. Mas se tomasse o lugar da coisa transbordante, o que sentia era uma imensa sensação de desamparo, uma necessidade enorme de contenção. Pois à medida em que pendia, ameaçava dividir-se em gotas espessas, ao mesmo tempo em que se experimentaava como angústia pela deformação e o gotejamento da memória.
Não suportava mais a dupla condição em que jazia. Como corpo, sentia-se fracassar em sua função de continente. Como espírito, alma, mente, psiquismo, seja lá que nome tenha esta coisa informe e espessa, perdia a consistência da memória e da continuidade. Foi assim que desejou morrer. Se matar. Mas não sabia por qual parte começar.


Imagem obtida em: dois-rios.blogspot.com

Cila


Caminhava na praia entre o mar e a falésia quando avistei sobre as pedras um vulto que me pareceu de uma mulher. Enquanto andava em sua direção, configurava-se o corpo acinzentado de uma morta, fendido pelo sal e pelo sol. A boca meio aberta calava angústias. A cabeça pendida denunciava um longo tempo de agonia. Cheguei mais perto e mostrou-se a cauda ressequida de sereia. O ventre alto tinha marcas de coisas que antes pendiam dali.
Próximo daquela criatura que o tempo me trouxera, pude entender o que queria de mim: que contasse a sua história. Que a salvasse do esquecimento e da tortura a que estava condenada. A cada vez que o mar subia, à medida em que as águas molhavam suas carnes, sua memória despertava aos poucos, revelando traços, formando quadros, ligando tempos, mostrando cenas. Mas quando alguma história parecia se formar, já era tempo de baixar as águas. E com o líquido se esvaía também a possibilidade das lembranças. Seca e esquecida ficava ao pé da falésia até que novamente o mar subisse. Então eram outros os traços, os quadros, os tempos e as cenas. Uma história outra se insinuava. Mas antes de qualquer esboço de sentido, a maré novamente vazava.
Adivinhei seu nome: Sila. Busquei os antigos que narraram seu mito. Assumi o fardo de contar seus infortúnios. Até onde permitir o engenho, tecerei uma memória para Sila. Para que ela enfim possa livrar-se do esquecimento e eu possa enfim livrar-me do peso da sua presença.

20 outubro 2008

Teatro Falado




Atores falam a crônica trágica, Campinas, SP · 26/10
Neutzscha · Campinas (SP) · 8/10/2008 22:37 · 5 ·

Ainda, se fosse mulher feita, se entendia! Capava,mas se entendia! Mas um nada de calçola e nariz escorrendo!" - A atrocidade exposta no corpinho magro da criança morta e estragada -Atores montando a literatura de Ronaldo Monte O Grupo teatro falado foca a literatura do dia -a- dia, crônicas de amor e humor,autores nossos, que moram pertinho e podem participar do processo de criação e montagem. O Teatro Falado é descartável,dispensa altas produções, pode ser levado em bares, cafés e livrarias,pequenos eventos literários. A “Lógica” conto de Ronaldo Monte. A literatura envolvente e macia nos conduz ao miolo da violência sexual infantil, desfecho inesperado. Mas que escrito de uma forma contundente, onde os moradores resolvem a morte do estrupador. O Grupo abraçou a poesia dolorida com que foi escrito o conto. Uma cena ágil e trabalhada. Nada dramático. Não queremos chocar. Isso é inútil. Somos pela comoção. Pela emoção. Coincidentemente, a Secretaria de Cultura tem parceria com Ongs, entidades assistenciais que trabalham com crianças vítimas da violência sexual. Vamos apresentar o trabalho para esses profissionais. Vamos apresentar o Conto de Ronaldo Monte para as pessoas mais comuns da nossa sociedade, e para o segmento social que convive com a violência sexual infantil. Ronaldo Monte é Alagoano. Alem de escritor, é psicanalista e professor ,publica crônicas em jornais da Paraíba. A autoria e direção do projeto é de Neusa Doretto. No elenco,Carlos Gomes,Ademar Santos,Diego Pereira,Sonia Paiva,Jéssica Paiva e Elen Fernandes.
tags: Campinas SP artes-cenicas
onde fica

As apresentações serão na Casa de Cultura" Antonio da Costa Santos", durante o Evento Via das Artes, dia 25 às 17 horas,para Entidades que trabalhem com crianças vítimas da violência sexual. Maiores informações,com Neusa Doretto, cel.: 19-8173 3693 e 19-32587828 , das 13 às 18 horas.

12 outubro 2008

Construir um amor

Já faz algum tempo que escrevi este poema, inspirado na canção de Bola de Nieve. Compartilhe.

http://video.google.com/googleplayer.swf?docid=2768798523833005718&hl=en&fs=true

10 outubro 2008

Eu, Pio XII e a morte




O tempo voa. Um portal de informações me lembra: faz cinqüenta anos que morreu o meu primeiro Papa. Eu tinha onze anos. Meu pai tinha deixado de ser crente e minha mãe, com medo de que eu ardesse no inferno, me matriculou na escola da paróquia de Água Fria, no Recife, onde eu deveria me iniciar nos mistérios do catolicismo. E um dos mistérios mais indecifráveis era sobre o que fazia o bom pároco pra lá e pra cá no seu jipe, sempre acompanhado de duas ou três jovens paroquianas.

Uma certa manhã, todos reunidos no salão nobre da escola, transido em sofrimento, o padre nos anunciava a morte de Pio XII. Minha condição de católico adventício não me deixou contaminar pelo clima de consternação que tomou conta de todos. Como todas as tragédias têm seu lado bom, as aulas foram suspensas. No caminho de casa, pude ver que o clima de orfandade tinha se alastrado por toda a rua, todo o bairro. Em casa, sob os olhos marejados de minha mãe, soube pelo rádio que era o mundo todo que sofria de súbito desamparo. Eu me senti um estrangeiro, alheio àquele sentimento de perda e sofrimento.

Até hoje, cinco papas depois, não consigo compartilhar da comoção que se alastra pelo mundo toda vez que morre um Papa. Para mim são mortais comuns, sujeitos, portanto, à morte. Lutaram ferozmente pelo poder e o conseguiram na esperança de viver no fausto e no gáudio o resto de suas vidas. Se tivessem um mandato limitado, pouquíssimos deles resistiriam como figuras históricas dignas de respeito. Aí estão as suspeitas cada vez mais prováveis sobre as vistas grossas feitas pelo mesmo Pio XII à perseguição dos judeus pelos nazistas. Um dia saberemos dos bastidores da cruzada de João Paulo II e sua Opus Dei contra os avanços da doutrina do Vaticano II e suas investidas obscurantistas contra os avanços na ciência e nas relações sociais.

Numa coisa, porém, a igreja católica merece o meu respeito: é a sua capacidade de produzir espetáculos. Seja na exibição terrificante dos autos de fé medievais, ou no minucioso planejamento dos funerais de um pontífice. Se existe hoje uma sociedade do espetáculo, sua precursora é a igreja católica, com seus paramentos exuberantes, suas piedosas e sangrentas vias sacras, suas catedrais magníficas banhadas de arte e ouro.

Tive sorte em não ser envolvido pelo comoção global causada pelos funerais do controvertido Pio XII. Era apenas mais um espetáculo que a velha senhora oferecia ao mundo. Nada comparável ao sucesso permanente do seu carro-chefe publicitário, o melhor exemplo de espetacularização da morte nos últimos dois mil anos.

05 outubro 2008

Sinal


Uma mulher com uma criança no colo e uma menina agarrada à sua saia esperava que o trânsito pesado diminuísse para poder atravessar em direção a uma favela no outro lado da pista. Estava ansiosa e a menina tinha medo. Parei o carro perto dela e aconselhei que procurasse atravessar na faixa que estava ali, a uns dez metros, sob um semáforo operado pelos pedestres. Ela olhou intrigada para mim, com cara de quem não entendeu, e continuou no mesmo canto, com a mesma agonia.
O pequeno incidente me deixou com algumas perguntas para as quais ensaio umas respostas. Em primeiro lugar, o que faz com que uma pessoa escolha arriscar sua vida e a de seus filhos, tendo a pouca distância um sistema confiável que os deixaria com segurança no outro lado da pista? Em segundo lugar, por que, mesmo com a minha intervenção, essa pessoa insistiria em não usar a faixa e o sinal tão fáceis de alcançar?
A tentativa de resposta à primeira pergunta seria que a camada da população à qual a mulher pertencia está condicionada à desproteção, à ausência de serviços e equipamentos públicos que cuidem da sua segurança. De tal modo que não percebem quando um destes serviços ou equipamentos é colocado à sua disposição. O desamparo histórico ao qual estão condenadas faz com que essas pessoas simplesmente não registrem qualquer alteração nesse tipo de tratamento por parte do poder público. A faixa e o sinal de trânsito não foram feitos para aquela mulher. Por isso ela não os vê, mesmo que estejam instalados na entrada da favela em que mora.
Quanto à ineficácia da minha recomendação, a resposta não é muito diferente. Desde quando um motorista de um carro particular pára na pista para dizer qualquer coisa que não seja um impropério a uma pessoa daquela? Pelo olhar de intriga que ela me lançou, tenho certeza de que não entendeu nada do que eu disse, pois não faz parte da expectativa dela que uma pessoa como eu se preocupe com a sua segurança.
Não estou muito seguro do que digo, mas suponho que aquela mulher e as duas crianças são vítimas da falta de cuidado. E não basta uma faixa e um semáforo para que se sintam protegidos. Muito menos lhes serve a advertência de um motorista bem intencionado. O cuidado que lhes falta é atávico. São mais de quatro séculos de desamparo, à margem de políticas públicas que lhes permitam se perceber como cidadãos dignos de usar uma faixa e um sinal de trânsito e de escutar sem medo o que um outro cidadão lhes tem a dizer.

Imagem obtida em: melquilima.blogspot.com

28 setembro 2008

Trigal


Urubus em revoada
denunciam
a orelha decepada
que o trigal esconde.

Ronaldo Monte
Clube do conto da Paraíba
26.09.2008
Imagem obtida em: docafundo.blogspot.com

27 setembro 2008

Entre a Lapa e o Abasto






Estive na Lapa um dia destes. Quer dizer, não estive na Lapa. Pois a bem dizer, a Lapa não existe. O lugar onde estive é um arremedo daquilo que um dia foi a Lapa. Gastaram-se fortunas para fazer com que os bares ficassem parecidos com os botequins de antigamente. Um considerável aparato policial garante a segurança do faz de conta da classe média que devaneia procurando dar de cara com Madame Satã, ou sentar na mesma mesa de Noel Rosa e Araci de Almeida.

Um dia destes estive em Abasto. Da mesma forma, não estive em Abasto. Assim como a Lapa, o velho reduto portenho do tango, com seus becos, suas putas e cafetões foi maquiado para receber a classe média. Seu belo e imponente mercado público foi transformado em um shopping de luxo, sob o olhar complacente de uma estátua de Gardel.

Lapa e Abasto retratam muito bem o destino de muitos lugares do mundo. Transformaram-se em não-lugares. Ninguém mais mora lá. As pessoas passam, olham, compram, comem, bebem e vão embora.

O não-lugar foi o que restou para nós, a classe média da contemporaneidade. Vivemos nostálgicos de antigos lugares que não nos pertenceram. E os lugares que nos pertenceram viraram, quase todos, não-lugares. A casa em que nasci, a rua em que cresci, o colégio em que estudei, tudo isso desapareceu ou se transformou em ruína, supermercado ou templo evangélico.

Lapa, Abasto, Cidade Baixa, Recife Antigo, Centro Histórico de João Pessoa. São muitos os não-lugares que a pós-modernidade nos oferece na impossibilidade de nos preservar uma continuidade histórica.
Estive na Lapa, estive no Abasto. Pisei o mesmo chão que os antigos pisaram. Dobrei as mesmas esquinas que os bambas dobraram. Mas a linha do tempo se partiu. Entre mim, Gardel e Noel existe um abismo que a saudade não pode transpor. Melancolia é o nome deste abismo.

19 setembro 2008

O bom ladrão


Ainda tem gente que continua mantendo opiniões conclusivas sobre o caráter das pessoas, como se o ser humano fosse uma tela uniforme e monocromática. O exemplo do ladrão de carro de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, pode nos ensinar muito sobre a cordilheira multicolorida que constitui cada um de nós.
Depois de furtar um carro numa madrugada, o ladrão descobriu, quarenta minutos depois, que uma criança dormia no banco de trás. Levou o carro para os fundos de um posto de gasolina e telefonou indignado para o plantonista do 190: “Vou ser sincero: eu roubei um carro que tinha um piazinho dentro e eu não vi. Manda uma viatura lá pegar o guri e avisa ao filho da puta do pai dele para não fazer mais isso. Avisa que, da próxima vez que eu pegar esse auto e tiver o piá lá, eu mato ele.”
Por conta da violência generalizada com que nos habituamos a conviver, seria muito mais congruente esperar que o ladrão abandonasse a criança em um lugar qualquer e mantivesse a posse do carro. Acontece que ele é ladrão, mas provavelmente é um bom pai. E foi o sentimento de revolta pelo descuido com a criança que o fez abdicar do fruto do seu trabalho. E a muito mais: ter de se denunciar parcialmente como ladrão à própria polícia.
Alguns psicólogos chamam de “dissonância cognitiva” a este tipo de ambigüidade, como se cada um de nós estivesse condenado a um comportamento coerente, lógico, linear. Na verdade, todos nós somos muito parecidos com o bom ladrão de Passo Fundo. Roubamos e amamos, muitas vezes à mesma pessoa, sem nenhuma obrigatoriedade de uma dessas ações anular o efeito da outra.
Isto fica bem claro no final do telefonema do ladrão: a sua indignação é tão grande quanto o seu amor à profissão. Vai continuar roubando, sim. Mas o suposto pai da criança está avisado: se esquecer mais uma vez o piá no carro, morre.


14 setembro 2008

O mal da inveja




Faz muito tempo que um amigo meu me advertiu: “olha cara, aqui em João Pessoa, o melhor parâmetro para se medir o sucesso de uma pessoa é a quantidade de invejosos que falam mal dela. Te cuida, pois já começaram a ter inveja de você”.
Esta advertência me veio à cabeça durante o lançamento dos dois livros de Tarcísio Pereira, quarta-feira passada, no bar do Teatro Santa Roza. O pobre do autor quase pediu desculpas pelo duplo lançamento. Sabia que iam falar mal dele pelos dois romances editados pelo Fundo de Incentivo à Cultura, do Governo do Estado.
Não é de hoje este pendor de Tarcísio para provocar a ira dos invejosos. Teve um ano em que ele publicou, de uma tacada só, doze peças de teatro. Caíram em cima do rapaz, chamando-o de prolixo e ambicioso, dentre outras coisas que deixaram arregalados os seus olhos infantis (como os olhos de um bandido).
Claro que ainda não li os novos romances de Tarcísio, O homem que comprou a rua e O sacrifício dos anjos. Mas talvez deixe que eles furem a fila, pois conheço a prosa do autor desde Agonia na tumba, de 1993. Gosto muito de tudo que ele escreve.
O que eu quero que Tarcísio Pereira saiba é que seus leitores não esperam dele qualquer pedido de desculpas pela sua capacidade de produção. O que não vamos desculpar é que seus livros fiquem dormindo no fundo da gaveta, ou num canto perdido de um HD.

Quando Tarcísio veio na minha casa me dar a honra de apresentar sua novela Uma noite no céu, em 2006, me falou que tinha mais quatro romances prontos esperando publicação. Juro por Deus que não senti nenhuma inveja. Principalmente porque achei que era mentira.
Imagem obtida em releitura.wordpress.com

11 setembro 2008

Publicado no número 100 do Rascunho




A CONDIÇÃO E O EXERCÍCIO QUE TRANSTORNARAM A VIDA DO SR. QUIJADA - Ronaldo Monte

En un lugar de la Mancha, de cuyo nombre no quiero acordarme, no ha mucho tiempo vivía un hidalgo de los de lanza en astilero, adarga antigua, rocín flaco e galgo corredor. (....) En resolución, él se enfrascó tanto en su lectura, que se pasaban las noches leyendo de claro en claro, y los días de turbio en turbio, y así, del poco dormir e del mucho leer, se le secó el cerebro, de manera que vino a perder el juicio.
Herdara o sobrenome do pai espanhol que cansou de viver na pobreza fora das muralhas da cidade de Toledo e veio morrer de pobreza numa casa de vila no bairro de Jaguaribe. Foi a única herança que seu pai lhe deixou: o sobrenome de Quijada. Odiava que o chamassem pelo nome de Miguel, pois ninguém o pronunciava como gostava, com o "ele" final acentuado, como seu pai o chamava. Também não gostava quando abrasileiravam seu sobrenome, esquecendo de pronunciar o "rê" no lugar do "jota". Antigamente reclamava, mas ninguém ligava. Afinal, quem iria saber como se pronunciava o nome de um contínuo de repartição pública estadual, de paletó puído e a barba sempre por fazer?
Pelo menos aqui, nestas páginas, vamos chamá-lo do jeito que gosta: Miguéll Quirrada. Mas vamos também respeitar a grafia original do seu nome, pois ele a preza muito: Miguel Quijada. É a única coisa na vida que o torna diferente da massa de contínuos que vagam invisíveis pelas repartições públicas municipais, estaduais e federais de qualquer lugar do mundo.
Miguel Quijada tinha um sonho. Possuir uma grande biblioteca, daquelas que as pessoas vêm de longe visitar, que os professores do bairro vêm pedir livros emprestados, que os vizinhos desdenham de pura inveja ou ignorância. Vivia à míngua, guardando cada centavo para gastar nos sebos ou nas prateleiras modestas reservadas nas livrarias às edições de bolso. Mas não se pense que comprava livros por vaidade. Lia cada um antes de acomodá-los na estante.
Quando a mãe morreu, ocupou o quarto dela com seus livros. Sem ninguém mais com quem se preocupar, passou a torrar com livros o que antes gastava com remédios. Sua biblioteca crescia a olhos vistos, agora acrescida de livros de edições recentes das grandes editoras, alguns até de encadernação em couro. Miguel Quijada amava sua biblioteca.
Acontece que livros não fazem café, não varrem a casa, não forram cama nem se deitam nela. Miguel Quijada quis uma mulher e a teve. Chamou para morar com ele uma vizinha solteirona, de nome Dulcinéia, que um dia ficou impressionada com sua biblioteca. Se gosta de livros, há de gostar de mim.
Dizem que algumas pessoas têm os olhos maiores que a boca. Não era o caso de Dulcinéia. Por mais que gostasse de livros, por mais que os devorasse com os olhos, seu estômago roncava, atrapalhando a concentração na leitura. Não teve dúvida. Pegou o exemplar d'O crime do Padre Amaro que acabara de ler e trocou por uns pacotes de bolacha de água e sal e um pouco de manteiga. Num domingo de manhã, em que foi procurar o exemplar das Edições de Ouro d'Os Lusíadas, Miguel Quijada notou a banguela na prateleira do lado da porta. Faltavam bem uns vinte livros. Interrogada, Dulcinéia fuzilou: livro não enche barriga de ninguém.
Miguel Quijada amava os livros. Mas não podia viver sem Duilcinéia. Muito menos impedir que ela vendesse os livros nas horas em que tinha de ir para o trabalho. Instalou-se então uma batalha cruenta. Miguel Quijada decidiu-se a reler todos os livros que ainda lhe restavam, antes que Dulcinéia os trocasse por bolachas. Varava as noites de olhos pregados naquelas páginas preciosas, se despedindo de uma em uma. A cada manhã, Dulcinéia entrava no quarto e levava para trocar por comida o livro que a mão do homem adormecido tentava proteger.
Um dia, ela entrou no quarto e encontrou Miguel Quijada sentado, de olhos abertos, apertando contra o peito um grosso volume de capa de couro verde, com o título impresso a ouro. Ela estendeu a mão, imperativa. Ele fez um não com a cabeça. Ou ele, ou eu. Você escolhe. Ele olhou para o livro e deu as costas para ela. Ela saiu porta afora para nunca mais.
Sozinhos, enfim, o homem e o livro. Miguel Quijada olhou para as estantes vazias, pronto para recomeçar. Não perdera tudo. Restava aquele ali, que colocou com cuidado sobre a mesa, abriu numa página qualquer, com os olhos anuviados pelo sono. O vento que folheou as páginas em sua frente movia agora as pás de um velho moinho lá para as bandas da linha do horizonte. Miguel Quijada montou em seu Rocinante e avançou de lança em riste contra o gigante que roubara sua amada.

RONALDO MONTE mora em João Pessoa (PB). É autor do romance Memória do fogo (Objetiva).

06 setembro 2008

Força estranha



Ela me ataca por dentro. Toma meu corpo de assalto. Não importa onde eu esteja. Na cama, na mesa, em frente ao computador. Não se anuncia. Assume o comando dos meus músculos, dos meus ossos, das entranhas. Obriga-me a movimentos desordenados, a estertores, solavancos, caretas e contorções. Deixa-me os olhos arregalados e turvos de lágrimas. O corpo todo dói.
A noite é o seu tempo de rainha. Odeia me ver dormir. Mas a luz do dia não inibe seu exibicionismo. Prefere os momentos em que preciso de calma e concentração. Tira-me do sério.
Não entendo o que ela diz, essa estrangeira. Emite sons de fera enlouquecida. Grunhidos de monstro de outro mundo. Nada nela faz sentido. Não sei a que vem, nem por qual motivo vai embora.
Meu pânico se antecipa ao seu ataque. Já me dou por vencido ao menor sinal de sua presença. Não adianta qualquer reação. Por isso continuo escrevendo, mesmo sabendo que agora mesmo ela vai entrar em erupção.
Não suporto mais esta tosse seca.

Ilustração obtida em: nautilus.fis.uc.pt

31 agosto 2008

Matéria prima
























Lá vem o som que não diz o que me quer
e entra em mim cravando garras
num dentro qualquer
de onde fica espinhando
querendo dizer
querendo dizer
e não dizendo
e me fazendo repetir o que não sei.

Lá vem a sombra e sua luz em movimento.
Vem de longe, chega perto e logo foge
me embaraça sem dizer a que me vinha.
Fica presa nos meus olhos
essa luz e sua sombra
sugerindo uma forma que não sei denunciar.

Lá vem o frio e seu calor
que me envolve e acarinha
me toca, me aperta, me alisa, me crespa
me larga, me foge e se aloja
num lugar que não sei como alcançar.

Lá vem cheiro e catinga
com notícias de outro mundo
que me entram pelas ventas
e se entranham nas entranhas
desta carne que deseja se juntar a outra carne
de onde partem os odores, sem jamais a encontrar.

Lá vem esta carne tenra se alojar em minha boca
jorrar essa água morna que desliza nos meus ocos
e se infiltra nos meus ossos construindo meus volumes
definindo meus limites para logo me deixar
no mais profundo abandono
no mais atroz desamparo
na mais cruenta agonia.

Lá vem, lá vem a palavra
que me recria o som perdido nos ouvidos
que desenha meus fantasmas
que me devolve o calor
que me relembra dos cheiros
que me devolve a carne
que me lembra quem eu sou.

Lá vem de novo a palavra
reavivando os enigmas
desalojando fantasmas
me deixando sem dormir.








Ilusração: Manabu Mabe, obtida em http://www.sp-arte.com

21 agosto 2008

Melhor assim



Talvez eu não fosse este homem
se ao chegar numa esquina da vida
tivesse dobrado para o outro lado.
Não sei se o caminho que fiz
foi o melhor, o menos árduo.
Não sei que outro homem seria
se fossem outras as ruas,
outras as pessoas,
fossem outros os bares e igrejas
em que rocei meu corpo e minha alma.
Mas eu prefiro assim,
esse um e não outro.
Prefiro assim,
essas marcas
e esse andar um pouco penso.
Prefiro estas mãos ansiosas
que estalam por si mesmas,
essa miopia de infância,
esse joelho inseguro.
Eu prefiro essa história
feita de encruzilhadas
em que me encontro
a cada vez
atônito
e só.
Foto de Ana Patrícia

16 agosto 2008

A mancha vermelha



O velho Wan Tsu já tinha perdido a conta dos deslocamentos que tivera de fazer, obedecendo às ordens do Partido. De tanto que já havia se mudado, não sabia se sua mulher ainda estava viva, nem qual destino tinham dado a seus filhos. Jogado de um lado para outro, a depender dos grandes planos plurianuais, Wan Tsu tinha se despojado de seus míseros bens. Tudo o que lhe restava era a roupa do corpo, as botas surradas e um velho exemplar do Livro Vermelho do Camarada Mao Zedong.
Não entendia muito bem porque, mas depois da morte do Grande Timoneiro, quiseram confiscar o seu exemplar do Livro Vermelho. Teve que escondê-lo sob as tábuas do celeiro da fazenda para onde tinha sido mandado trabalhar na colheita. Carregou o volume escondido sob as calças quando foi removido para apertar parafusos numa fábrica de trator em Beijim. Agora estava carregando vergalhões de aço para a construção de um gigantesco estádio olímpico, mas o seu velho companheiro estava bem escondido dentro do forro do colchonete nos fundos do alojamento.
Wan Tsu nunca reclamou da vida. “A nossa posição é a do proletariado e das massas populares”, tinha escrito o Farol dos Povos. E o velho proletário acreditava que “o sistema socialista acabará por substituir o sistema capitalista”, como rezava o Livro, pois “essa é uma lei objetiva, independente da vontade do homem.”
Os olhos de Wan Tsu nunca viram o que se passava no mundo. Quando não estavam fechados, guardando o sono do velho dono nos longos deslocamentos, estavam olhando para baixo, pois o corpo gasto vivia curvado sob o peso das tarefas. Mas ali, de cima dos andaimes da construção monumental, seus olhos se assustaram com a visão maravilhosa do paraíso socialista. As largas avenidas apinhadas de automóveis que levavam os companheiros proletários para o trabalho. Rechonchudos e bem vestidos, os filhos dos proletários passeavam com sacolas cheias de tudo que o homem socialista necessitava para viver sem os excessos burgueses. Edifícios luzidios arranhavam os céus abrigando as famílias proletárias do sol e da chuva, do vento e da neve. Policiais elegantes e de luvas protegiam e orientavam os trabalhadores na volta para casa, depois de uma dura jornada de trabalho.
Turvados pelas lágrimas, os olhos de Wan Tsu não viram a chegada do mestre de obras que em nome do partido informou que aquela tinha sido a última etapa de trabalho da turma. Todos tinham que apanhar seus pertences e abandonar a cidade de Beijim, pois as Olimpíadas iam começar no próximo mês e o Comitê Gestor não queria nenhum maltrapilho perambulando pelas ruas da Capital.
Wan Tsu recordou a sua passagem preferida do Livro Vermelho e vociferou na cara assustada do mestre de obras: “A revolução não é o convite para um jantar, a composição de uma obra literária, a pintura de um quadro ou a confecção de um bordado. Ela não pode ser assim tão refinada, calma e delicada, tão branda, tão afável e cortês, comedida e generosa. A revolução é uma insurreição, é um ato de violência pelo qual uma classe derruba a outra."
Antes que a polícia atendesse aos apitos de alerta, Wan Tsu atracou-se ao mestre de obras e jogou-se com ele do último andar do colosso olímpico. Depois do baque, uma mancha vermelha maculava o asfalto proletário de Beijim.

Clube do Conto, 16.08.2008

14 agosto 2008

Os endereços do mal



De vez em quando, o mal nos comunica um novo endereço. O mais recente fica na Geórgia, uma ex-república soviética, país espremido entre o mar Negro e as montanhas do Cáucaso.
Não me interessa aqui compreender os motivos políticos que levaram a Rússia a invadir este pedaço de terra um pouco maior do que a Paraíba. É muito difícil saber quem tem razão. Tudo o que sei é que o último conflito entre a Rússia e a Geórgia começou na última sexta-feira quando tropas russas entraram na região separatista da Ossétia do Sul, que havia sido atacada por forças georgianas. A Geórgia, por sua vez alega que os separatistas estavam atacando povoados georgianos. A Rússia então mandou seus tanques para defender tropas de paz e cidadãos russos que vivem na ex-república soviética.
De nada vale entender os motivos do mal. Não há nada que justifique os seus efeitos. Insisto em não acostumar meus olhos ao cenário que banalmente se repete nos noticiários. Velhos e crianças vasculhando o que sobrou sob os escombros de suas casas. Multidões de rostos atônitos sem saber que direção tomar. Super-homens arrombando portas frágeis com as botas e atirando a esmo no escuro das salas vazias. Declarações vazias dos poderosos que alimentam seu poder com a chacina. Hienas de paletó e gravata.
São muitos os endereços do mal. E muitos deles não ficam tão longe como a Geórgia, o Quênia ou o Iraque. Muitas vezes o mal é nosso vizinho. Algumas vezes mora em nossa casa. E o seu endereço mais certo é dentro de cada um de nós. O mal está sempre presente no intervalo entre mim e o estranho a quem não consigo acolher. Quando decreto a extinção ou o degredo desse estranho, por não aceitar a sua diferença.
Imagem obtida em O Globo Online

10 agosto 2008

Bem fiz eu



Ainda bem que eu não escrevi nada no livro de lembranças dos quinze anos de Marcela. Não escrevi porque André roubou o livro de minhas mãos e se escondeu com ele no banheiro. André morria de ciúmes de mim. E não somente de mim, mas de qualquer cara que se aproximasse de Marcela. Principalmente hoje, em que ela simplesmente arrasou com esse vestido branco bordado a fios de prata, suspenso por finas alças sem qualquer serventia, pois os peitos de Marcela eram suficientes para sustentar o peso de todo aquele luxo.
Por nada neste mundo André abriria mão do privilégio de ser o primeiro a escrever no livro de lembranças de Marcela. Entrou sôfrego no banheiro, passou o trinco na porta e sentou-se na bacia sanitária com o livro apoiado nas pernas. A Bic tremia em suas mãos quando ele começou a desenhar com sua letra escarrapichada:
Aonde quer que vás, meus pensamentos Contigo irão...
Com quem quer que estejas,
teu amor sempre me pertencerá...

André leu e releu, achou bom, mas achou pouco. Daí, arriscou:

Qualquer que sejam os lábios que toques,
recordarás do sabor de meus beijos...
Bem sabes que jamais amará outro.
Sem reparar nos tropeções da concordância, a mão, já menos trôpega, bordou mais um arroubo ditado pelo coração:
Teu coração e teus sentimentos são meus...
Por mais que tentes fugir,
será inútil, Pois estás presa a mim...
Não dava mais para esperar. Bati com força na porta do banheiro e tentei arrancar o livro das mãos de André. Mas ele me empurrou e correu para junto de Marcela. Fiquei de longe olhando ela se afastar para junto das suas damas de honra com o livro nas mãos. Fizeram uma roda e riam olhando para André a cada estrofe lida com afetação por Marcela. Todas elas conheciam aqueles versos. Eles estavam impressos num cartão que eu entreguei junto com uma pulseira de artesanato. Claro que Marcela nunca iria usar a tal pulseira, o presente mais caro que pude comprar com meu salário de cobrador de movelaria. Mas os versos, feitos por um certo Hélio Marques, sabia que não esqueceria. Ela somente não esqueceu, como me devolveu pulseira e cartão, depois de enfiar nas mãos de André a folha arrancada do livro.
Bem fiz eu, que não escrevi nada, consolava-me enquanto descia a rua junto com o pobre André para nos consolarmos no botequim da esquina.


Ronaldo Monte. Clube do Conto, 09.08.2008

Imagem obtida em: projectoamizade.blogspot.com

02 agosto 2008

A ocasião


Passei boa parte da vida escutando que a ocasião faz o ladrão. Até que um dia alguém me disse que não, a ocasião apenas põe o ladrão em frente ao objeto a ser roubado. Para que haja o roubo, é preciso que o ladrão já exista, pelo menos em potencial. Uma outra frase que não roubo, mas peço emprestado ao autor que desconheço, diz ser mentira que o poder corrompa. Ele apenas revela o corrupto que alcança o poder.
Acreditar que a ocasião faz o ladrão e que o poder corrompe a qualquer um que o exerça é aceitar que dentro de cada um de nós dormem um ladrão e um corrupto esperando ser despertados assim que encontrarmos uma velhinha distraída ou um cargo de faxineiro em qualquer prefeitura do interior.
Por mais que os fatos queiram me provar o contrário, não creio que todo político seja ladrão. E se todos os políticos fossem ladrões, isto não quer dizer que todos os cidadãos deste País sejam ladrões.

Não vou recorrer aos exemplos edificantes de pessoas simples que encontram malas de dinheiro e as devolvem a seus donos. As pessoas comuns não precisam de grandes exemplos para ser boas. Alguma coisa interna orienta suas condutas em função do respeito ao próximo e ao bem comum. E não é por obediência a um preceito moral, como os mandamentos que proíbem matar ou roubar. É algo mais sólido, como o imperativo que exige que a conduta de qualquer um possa servir de modelo à conduta de todos.

Não, a ocasião não faz o ladrão, nem todo poder corrompe. Ladrões e corruptos existem antes de qualquer ocasião ou poder. O que os faz ladrões e corruptos é um impulso, uma fome que os leva a procurar os objetos mais expostos ao roubo e os cargos mais propícios à corrupção. Nós, as pessoas comuns, devemos estar atentos a estas e outras figuras de retórica dos ladrões e corruptos que nos querem fazer pensar que somos iguais a eles.


Imagem obtida em www.fraudes.org/images/bassotto2a.jpg

27 julho 2008

Política no diminutivo



Impressiona como tem zezinhos, joãozinhos, almeidinhas e silveirinhas candidatos a um cargo nas próximas eleições. É fácil de entender. Os josés, joões, almeidas e silveiras estão pendurando as chuteiras, mas não querem largar o osso.
O protótipo da jogada é o Diduzinho, da novela das oito. Seu pai, Romildo Rosa, é uma velha raposa que chegou onde está por conta de muita mutreta e mal-caratismo. Seu plano em continuar por cima, porém, desmoronou por conta do próprio filho. Diduzinho é alcoólatra, sem nenhuma vocação política e um ferrenho crítico dos métodos paternos.
É uma pena que Diduzinho seja um personagem de ficção. Na vida real, os diminutivos dos pais topam a jogada. E lá estão, rosados e de banho tomado, a nos sorrir desde o vidro traseiro dos carros. Em breve serão vereadores, logo mais, deputados estaduais, depois virão os plenários de Brasília e, se der, uma cadeira de governador.
A prática é uma velha conhecida nossa. É de se esperar que as velhas raposas queiram legar a seus filhotes a chave do galinheiro. O que chama a atenção é a quantidade de propostas de continuísmo para as próximas eleições. Não deve ser cansaço dos pais. Este tipo de trabalho não cansa. Fico até tentado a pensar que tem muita gente com medo de se submeter diretamente ao julgamento do eleitor. E em vez de suas caras manjadas nos oferecem o rosto angelical de seus filhinhos, tentando nos convencer de que estes nos tratarão melhor do que seus pais.
Enquanto nós, eleitores, não interrompermos este jogo de cartas marcadas, continuaremos cúmplices desta política pequena, chifrim. Política de pai para filho. Diminutiva.

Ilustração:Diduzinho, personagem de Fabrício Boliveira na novela A Favorita.
Obitada em :
http://afavorita.globo.com/Novela/Afavorita/Personagens/

20 julho 2008

Guerra santa




A borracharia já estava lá quando a igreja se instalou na casa em frente. E desde o começo dos tempos os cartazes enfeitavam as paredes encardidas com aquelas mulheres exuberantes, algumas mal cobertas no essencial, outras generosamente nuas. Perto da hora dos cultos, lá vinham os irmãos, paletó, gravata e o indefectível livro de capa preta nas mãos. Curioso é que vinham pelo lado da borracharia, só atravessando depois de um olhar furtivo para os cartazes. As irmãs, não. Ajuntavam-se na porta da igreja e ficavam dando muxoxos para o lado dos borracheiros. Deus estava vendo. Vão todos queimar no fogo do inferno. Uma pouca vergonha, confirmava um irmão. Eu vi com meus próprios olhos.
As coisas caminhavam assim, quando um fato novo quebrou a monotonia da desavença. O poster da Mulher Melancia. Era gritante demais, volumoso demais, pecaminoso demais para ser tolerado por aquelas ovelhas prontas para ruminar nos pastos divinos. Depois do culto da noite, o assunto foi discutido a portas fechadas. Na manhã seguinte, decidiu-se, o pastor iria falar com o dono da borracharia. Ele mesmo se comprometeu a avaliar o teor pecaminoso do cartaz e exigir sua retirada da parede.

Não adiantou nada. O borracheiro estava irredutível. A borracharia é minha, o poster é meu. Quem não quiser olhar, vire a cara ou feche os olhos. Acho que as irmãs sentem inveja da melancia da moça. E o senhor precisa ver o tanto de crente que deixa para atravessar a rua aqui em frente da borracharia. O senhor me desculpe, pastor, mas eu tenho mais o que fazer. Depois da Mulher Melancia, aumentou muito o movimento por aqui.
A indignação tomou conta do rebanho. Se a missão de paz não obteve resultado, o borracheiro ia ver o quanto podia a ira do Senhor manifestada em seus servos. No outro dia de manhã, toda a congregação estava presente, excitada pela voz estridente do pastor, pronta para invadir a borracharia e expulsar de lá o demônio dos fartos glúteos.
Convocados pelo celular, borracheiros de toda a vizinhança acudiram em defesa do colega ameaçado. Os ânimos se exaltaram. A ocasiões como esta não se ajusta melhor expressão. Definitivamente, os ânimos se exaltaram. Igreja, ataque a borracharia, bradou o pastor. Em resposta, ouviu-se o grito roufenho do inimigo: borracharia, enfrente a igreja.
Os irmãos não tiveram tempo de dar um passo. O borracheiro arrancou o poster da parede, mostrou fervorosamente o seu conteúdo ao valorosos companheiros e avançou com aquela bunda enorme lhe cobrindo o peito em direção ao exército inimigo. Atrás dele, tomados pelo espírito de Thor, armados com seus martelos de borracha maciça, os homens gritavam seu grito de guerra: Créu – Créu – Créu.
A massa de fiéis abriu-se como o Mar Vermelho. Créu – Créu – Créu, avançava o exército igreja adentro. Aleluia, Aleluia, gritavam os irmãos, alucinados pelas formas excessivas da mulher que ondulava ao sabor dos passos do borracheiro. Créu – Aleluia – Créu – Aleluia, gritavam as irmãs, muitas já sem as longas saias, comparando suas bundas com a da mulher do cartaz, fazendo bruscos movimentos de ir e vir com a pélvis, numa cópula frenética com o nada.
Em nome de Deus, tire este demônio daqui. Atirou-se o pastor aos pés do borracheiro. O homem enrolou cuidadosamente o pôster e ordenou a seus comandados: borracharia, abandonar a igreja. Saíram em silêncio, mas sem esconder um ar triunfante. Atrás deles, os irmãos tentavam cobrir as vergonhas de suas mulheres que acordavam do transe ainda aos estertores.
No culto seguinte, o pastor teve trabalho para botar pra dentro da igreja os homens e mulheres que vagavam em frente da borracharia.

18 julho 2008

Sejamos injustos


No final de 2005, Angélica Aparecida de Souza tinha dezenove anos e um filho de dois. Estava desempregada e seu filho tinha fome. Angélica entrou num mercadinho e escondeu um pote de 200 gramas de manteiga debaixo do boné. O dono do mercadinho, Seu Dadiel de Araújo, chamou a polícia. Azar de Angélica. Presa em flagrante, passou 128 dias no Cadeião de Pinheiros, em São Paulo. Quatro vezes o seu advogado pediu a sua liberdade provisória. Só conseguiu depois de apelar ao Superior Tribunal de Justiça. Depois de um tempo em liberdade, Angélica foi julgada e condenada a quatro anos de prisão em regime semi-aberto. Vai poder trabalhar durante o dia, só voltando à noite para a prisão. Vejam só o privilégio. Angélica, antes desempregada, agora pode sair para trabalhar. Não adianta perguntar onde. Isto não é problema da Justiça.
No dia oito de julho de 2008, a Polícia Federal botou na cadeia o banqueiro Daniel Dantas, o megainvestidor Naji Nahas e o ex-prefeito de São Paulo, Celso Pitta. Todos com ficha suja na polícia, acusados de comandar uma quadrilha responsável por desvio de verbas, lavagem de dinheiro, remessa ilegal de valores para o exterior, envolvendo altas autoridades do atual Governo Federal e do anterior.
Três dias depois, todos estavam soltos por decisão do Presidente do Supremo Tribunal Federal. Preso novamente onze horas mais tarde, o banqueiro Daniel Dantas foi presenteado novamente com um habeas corpus do STF. Não adianta a suspeita de que, em liberdade, terão todo o tempo e espaço para destruir provas, intimidar testemunhas, subornar autoridades. Isto não é problema da justiça.
Eis aqui dois casos em que a justiça foi aplicada em todo o seu rigor técnico. Mas existe alguma coisa dentro de nós que denuncia, em ambos os casos, a ausência de um critério ético na aplicação das leis.A fome de Angélica e a ganância de Daniel Dantas não podem ser julgadas pelo mesmo padrão de legalidade. A discrepância entre os seus crimes exige algo mais do que uma suposta igualdade de todos perante a lei. Daniel Dantas é mais “igual” do que Angélica. Ele é igual aos criminosos de colarinho branco, aos poderosos corruptos, aos freqüentadores de paraísos fiscais. Ela é igual aos milhões de famintos desesperados que escondem o furto no boné.
Se a aplicação dos códigos da justiça resulta em tratamentos tão díspares como nos casos de Angélica e Daniel, está na hora de sermos injustos. Antes do código penal, apelemos para o código de ética.


Imagem obtida em www.eu2007.pt/.../tribunal_de_justica.htm

16 julho 2008

Vesga


Encomendado por Betomenezes

Antes disso - ela falou, interrompendo o trabalho ávido dos dedos dele no primeiro botão da blusa -, preciso lhe contar uma coisa: eu sou vesga. Ele ficou parado olhando para os olhos dela que não davam o menor sinal de desencontro.
Não é dos olhos que estou falando. Virou-se de costas e ela mesma tirou a blusa. Voltou-se girando colada ao corpo dele, entregando a boca, entretendo os olhos.
O corpo do homem exausto na cama não notou quando ela foi ao banheiro. Só a viu voltar, enrolada no roupão. Ele quis espionar pelas frestas, mas tudo o que conseguiu foi um beijo em cada olho.
Ele tomava um café forte na mesa da cozinha quando ela veio lá de dentro já pronta para sair. Curvou-se para o beijo de despedida com a mão protegendo o decote.
Ele a viu se afastar, ouviu seus passos ecoando pela sala e sentiu uma leve tristeza quando a porta bateu. Passou o resto do dia todo assim, os olhos pulando de uma coisa para outra, procurando algo que ele sabia que não estava ali.

Clube do Conto, 19.07.2008

11 julho 2008

Caros amigos



A primeira coisa que fiz hoje de manhã foi abrir a caixa de correspondência para ler os e-mails de parabéns pelo meu aniversário. Não fui frustrado em minha expectativa. Estavam lá três mensagens carinhosas: uma do meu provedor de internet, outra do Orkut e a terceira de um desses catálogos de endereços de que não lembro de ter me inscrito.
Que boa memória, a das máquinas. E quanto amor em suas palavras. Elas me desejam toda a felicidade do mundo, agradecem pela minha existência e me prometem bons serviços até a morte.
Os amigos não me mandaram emails. Alguns telefonaram, outros ficaram de dar uma passadinha para um abraço. Mas nenhum se dignou a me mandar uma mensagem pelo mais sublime dos meios de comunicação. As máquinas sabem disso. E por saberem, alçam-se acima dos homens no que tange a demonstrações de apreço e consideração.
Sigo, pois, a tendência geral das gentes pós-modernas. Vou prescindir do amor dos homens. Somente as máquinas me escrevem. Há muito amor por mim no coração das máquinas.

O presente



Era véspera do meu aniversário. Era também dia de oficina de leitura no Centro Comunitário de Mandacaru. Quando cheguei, havia uns panos coloridos no chão e, sobre eles, alguns livros meus, além de outros escritos que o grupo conhecia. Durante duas horas, ouvi de vozes amigas os poemas, crônicas e contos que escrevi ao longo da minha vida. No terraço onde nos encontramos, havia um painel com um retrato meu feito a lápis por um dos componentes. No final, todos os presentes escreveram mensagens de carinho para mim. Não podia ganhar presente melhor.
O melhor presente, porém, não era a simples devolução aos meus ouvidos das palavras que um dia de mim haviam saído. O verdadeiro presente era assistir um punhado de jovens repartir o poder e a beleza das palavras, superando todas as resistências de um meio hostil e degradante.
O melhor presente é saber que existem muitos grupos iguais ao nosso pelo País afora. O verdadeiro presente é constatar que a palavra ainda não foi destituída do seu poder em resgatar a dignidade do ser humano.
Somos seres de fala. A palavra é nossa carne. Temos sede de invenção e beleza. E a prova disto é o trabalho dos meninos e meninas de Mandacaru. Eles alimentam minha crença em um mundo mais rico, em que cada um tenha direito a dizer sua palavra e repartir sua beleza com os seus semelhantes.

07 julho 2008

Rosa

"Ladrão? se pega com tiro." - CDA




Ele era leiteiro. No tempo em que os leiteiros deixavam as garrafas de leite nas portas.
Ela era Rosa. No tempo em que as rosas casadas mal saíam às portas.
Ele amava as rosas. E colhia rosas nos jardins das casas em que deixava o leite para deixá-las nas casas de jardins sem rosas.
Ela amava as rosas. E gostava quando ele deixava uma rosa junto com o leite em sua porta.
Ele não sabia de Rosa. Rosa não sabia dele.
Mas o marido sabia que ela entrava feliz com o leite, sem mostrar-lhe a rosa.
Uma manhã, um tiro, um vidro estilhaçado.
Por debaixo da porta deslizava a cor trágica da aurora.

Clube do Conto, 05.07.2008
Ilustração obtida em: mapadonada.blogspot.com

29 junho 2008

Assunto


Aconteceu hoje, no começo da tarde. Duas moças e um rapaz caminhavam por uma rua deserta de muros altos, quando ouviram gritos vindos de uma casa. Uma mulher suplicava que alguém telefonasse chamando uma ambulância. Seu filho tinha se sufocado. Nenhum vizinho saiu da sua paz dominical para acudi-la O grupo atendeu ao pedido. Em poucos minutos, a criança era atendida por uma equipe de para-médicos. Mas já estava cianótica. Talvez já estivesse morta.
O que chamou a atenção do grupo de jovens foi que, depois que a ambulância chegou, com sua sirene e seu aparato de filme de televisão, os vizinhos se acotovelaram nos portões de suas casas, especulando, dando opiniões.
Sei que mais uma vez estou me expondo à crítica dos amigos por criticar mais uma pequena perversão dos meus semelhantes. Mas não é de hoje este alheamento ao sofrimento vizinho. Fazemos de tudo para adiar o compromisso com a dor ao lado.
Os gritos da mãe não foram suficientes para tirar os vizinhos da pachorra dominical. Somente quando soou a sirene, quando abriram-se as portas para o espetáculo das urgências é que deram as caras. Para ver, para fruir, para contar depois no escritório ou no salão de beleza.
. Agora sim. Terão um bom assunto para animar o almoço e rechear os intervalos do Domingão do Faustão.

Imagem obtida em: artigosdepsicologia.files.wordpress.com/2007/...

20 junho 2008

Migrantes

Somos todos migrantes. Para ter o direito à vida, somos expulsos de um lugar que nos guardava como um paraíso. E o nosso primeiro trabalho é construir um simulacro desse espaço dentro de nós. Construímos um eu. E jogamos para fora dele tudo o que ousar perturbar a paz reencontrada. E assim criamos um outro diferente do que pensamos ser.
Somos todos migrantes. Fugimos da solidão procurando a união com os mais próximos, os mais parecidos a nós mesmos. Criamos um grupo e jogamos para fora dele tudo aquilo que ameaçar esta frágil comunhão. E assim criamos nossos inimigos. Pode ser os vizinhos, os moradores de outra cidade, outro estado, outro país. O de outra cor, outro credo, outra ou nenhuma posse.
Somos todos migrantes. Migramos da nossa humanidade e prendemos, humilhamos e devolvemos ao horror aqueles que nos procuram em busca de um pouco de paz e trabalho. Se antes fazíamos isto às escondidas, agora criamos leis que nos permitem o mal sem culpa.
Ainda somos migrantes. Nosso desejo nos faz migrar para um lugar onde todos poderemos nos reconhecer como semelhantes. Onde todas as diversidades serão acolhidas, onde a diferença será o nosso traço de união. O outro, o diferente, alegrará com luz e cor o cinza da nossa mesmice. Este lugar ainda está longe. Mas é para lá que migramos.

Imagem recolhida em www.radio.usp.br

17 junho 2008

Se arrependimento matasse...


Bem que Glória me avisou. Eu não tinha nada que falar sobre o assunto da porta aberta. Não desconfiava do tamanho do vespeiro em que estava metendo a mão. Fui chamado de ranzinza, insensível, desviante e portador de “neura de psicólogo”. Teve até uma coisa mais séria, o relato da mãe e da irmã de uma amiga muito querida que foi jogada para fora de um táxi aos quatro anos de idade, por causa de uma porta mal fechada.
Não sabia que estava criticando uma instituição nacional tão consolidada. E olha que já falei mal do PT, dos católicos, dos protestantes, até do Créu e a respectiva bunda da mulher melancia. Nunca recebi tanto e-mail em protesto quanto agora.
De qualquer forma, é bom saber que as pessoas se interessam pelo que escrevo. Melhor ainda é ver uma opinião minha ser criticada com respeito e carinho, mostrando a boa vontade de muitos em acolher um pensamento que foge à unanimidade.
Claro que continuo achando que a má fé e a hipocrisia costumam se esconder por trás de certos comportamentos estereotipados. Mas se alguém notar qualquer porta do meu carro mal fechada e minha neta Gabriela estiver lá dentro, me avise, pelo amor de Deus.

Imagem obtida em gatocomvertigens.blogs.sapo.pt

13 junho 2008

A porta e a senha


Eu voltava para casa num fim de tarde, o carro passeando pelas ruas internas do bairro. De repente, um carro de trás buzina, dá sinal de luz. Encosto para deixá-lo passar, mas ele emparelha com o meu. Lá de dentro, o motorista e o carona gritam quase com raiva: a porta. A porta está aberta.
Este é um comportamento urbano que me intriga. Ninguém pode ver uma porta de carro mal fechada. Já cheguei a pensar que seria uma das poucas demonstrações sobreviventes do famoso estilo cordial brasileiro. Já não penso assim. Esta pretensa solidariedade esconde, a meu ver, pelo menos duas atitudes em nada louváveis. Uma delas seria a necessidade de se mostrar preocupado com o semelhante, sem se comprometer com o seu bem-estar. Dá-se um grito, faz-se uma cara simpática de compreensão e toca-se (literalmente) em frente. A outra atitude, mais autêntica, seria aquela dos ocupantes do carro no meu bairro: eu sou melhor do que você e estou me dando ao trabalho de denunciar o seu erro.
Outro comportamento, de desenvolvimento mais recente, ocorre quando o vendedor da loja ou do posto pede para você registrar sua senha na maquininha. Ostensivamente, ele (e quem mais estiver ao redor) vira a cara para o lado, como quem diz: veja como sou honesto. Não quero saber a sua senha. Um mínimo de psicologia de botequim serve para deduzir o tamanho do seu desejo em nos roubar a senha.
A porta e a senha: dois símbolos do acesso a lugares restritos, são boas metáforas para a aproximação entre as pessoas. Pena que estejam sendo usadas como expressão da má fé e da vaidade.


Ilustração obtida em picasaweb.google.com/.../XcviuxGFKuV6XMOXjahU9w

08 junho 2008

Cara nova


Enquanto físicos, filósofos, psicanalistas e poetas não chegarem a um acordo a respeito do tempo, vamos sempre ter problemas ao falar dele. Ontem mesmo, conversando com Glória a respeito da idade de uma apresentadora de televisão, lembrei que a cara antiga dela era bem diferente da nova cara que víamos agora na televisão. Vejam bem, neste pequeno exemplo, a confusão que dá falar do tempo. A cara de antigamente era de uma pessoa nova. É, portanto, uma cara velha. A cara nova é a cara de uma mulher sábia e rodada, que se apresenta como novidade.
Perde-se no passado a cara nova que um dia já tivemos. Emerge da velha pele a nova cara que o tempo nos fabrica. Se gostamos ou não da nova cara, se aceitamos ou não a novidade, não é problema do tempo. O operário silencioso molda nossas máscaras à nossa revelia. E vinga-se dos que tentam mascarar o seu trabalho. A todos nós, sujeitos passivos do tempo, resta o trabalho de contemplar a cada dia as novidades que o espelho nos revela.


Imagem obtida em blogdajetx.blogs.sapo.pt

01 junho 2008

O poema roubado

São muitos os destinos dos poemas. Coração na chuva, um poema meu, feito quase de brincadeira, foi roubado. O ladrão é um cara de uns dezesseis anos, da Oficina de Leitura de Mandacaru. Desde que foi lido, o poema fez o maior sucesso entre a moçada. E o cara estava apaixonado por uma menina do grupo. Coisa séria e sabida por todos. Um dia, a menina trouxe uma cópia do poema diagramado por ela no computador, ilustrado por dois corações em chamas. Daí, ele passou a dizer que o poema era dele. E, na maior cara de pau, afirma que fui eu que roubei e publiquei no livro o poema que ele fez.
Acho que a forma simples e direta do poema cai no gosto da turma. Ele é assim:

Os olhos do meu amor
são muito grandes
e chovem.
E o meu seco coração
fica secando os olhos dela,
querendo se molhar nos olhos dela.
Eu digo ao meu coração: esquece.
Meu coração não está nem aí.
Meu coração está lá,
debaixo dos olhos dela,
dos enormes olhos dela
que chovem.
Que chovem muito,
deixando meu coração ensopado,
encharcado,
resfriado de amor.


Dos muitos destinos dos poemas, coube ao Coração na chuva servir de brinquedo a um amor adolescente, fornecendo juntos, amor e poema, um pouco de leveza ao mundo tenso em que se encontraram.

Imagem obtida em essenciafeminina1.spaces.live.com

22 maio 2008

Nossas senhoras



Eu fui fazendo vista grossa, deixando para a semana que vem e de repente minha casa virou um inferno de pequenos defeitos.
Comecemos pelo muro da frente e vamos contando pela ordem dos cômodos. O interruptor da campanhinha estava quebrado pela enésima vez, pois um maluco dá um murro nele toda vez que lhe é negada uma esmola. O portão automático estava fora do trilho, com a fechadura emperrada e uma das placas magnéticas danificada. Na certa tentaram arrombá-lo. Na área de serviço, a máquina de lavar, uma torneira e uma telha transparente esperavam conserto. Na cozinha, o gelágua parecia ter queimado o motor. O micro de apoio só ligava quando bem queria. O aparelho de ar condicionado do quarto estava com o compressor furado.
Podem não acreditar, mas esta revolta geral das coisas se concentrou numa única semana. O suficiente para deixar claro quem manda aqui em casa.
Tem pra mais de trinta anos que escrevi um poema sobre o poder que as coisas têm sobre nós. Veja que coisa singela:
O direito das coisas
meus óculos
meu relógio
minha caneta
minha maquina de escrever
meu carro
meu copo gravado com meu nome.

meus livros
meus discos
meu toca-discos
minha calça listrada
meus tamancos
minha carteira profissional.

as coisas a que pertenço
exercem sobre mim o seu direito
dando-me forma e movimento
determinando o que sou
mantendo a ilusão de que são minhas.

Quando escrevi o poema, não tinha a menor idéia do que me esperava pela frente. As coisas ainda disfarçavam a sua ascendência sobre mim. Hoje, elas jogaram suas máscaras fora. Exercem abertamente sua tirania e não perdoam qualquer tentativa de insubordinação.

imagem obtida em: casa.hsw.uol.com.br

18 maio 2008

Meia hora


Todo mundo tem medo de alguma coisa. André tinha medo de meia hora. Seu analista chegou a interpretar que ele temia perder a virilidade. Por isso lhe dava pavor o ponteiro dos minutos totalmente voltado para baixo do mostrador. Erro freudiano. André também tinha medo da meia hora em relógio digital.
A coisa era tão séria que, ao ver o ponteiro se aproximar do tempo fatal, ele tirava o relógio do pulso e ia se esconder em um lugar seguro. Só voltava quando já fosse qualquer hora e trinta e poucos minutos.
Não sabia muito bem o que poderia lhe acontecer de meia em meia hora. Mas a coisa era automática. Uma ponta de angústia lhe tomava o peito e ele já sabia. Nem precisava olhar o relógio. Prendia a respiração, fechava os olhos, controlava o tremor das pernas para depois ver tudo ir embora junto com o ponteiro em direção ao trigésimo sexto minuto.
Poeta famoso no quarteirão onde mora, André costumava ser reconhecido pelas meninas da vizinhança como aquele rapaz delicado que fazia versos de amor muito bonitos. Foi por isso que Marcela sentou junto dele na sorveteria e pediu: faz uma poesia pra mim. Olha, são quatro horas. Daqui a meia hora eu volto pra buscar.
O problema não era o prazo, pois André vivia treinando umas rimas para ocasiões extraordinárias como essa. O problema era a hora. Pegou o guardanapo, traçou as catorze linhas do soneto, mexeu um pouco para disfarçar o plágio, ficou uma beleza. Ainda admirava a obra quando começou a sentir o aperto no peito. Marcela não podia encontrá-lo assim, tremendo, resfolegando, suando as mãos. Correu para o banheiro.
Quando voltou, Marcela já saía pela porta da sorveteria. O relógio marcava quatro e trinta e cinco.
Clube do Conto da Paraíba, 17.08.2008
Imagem obtida em brandusblog.blogspot.com