05 outubro 2008

Sinal


Uma mulher com uma criança no colo e uma menina agarrada à sua saia esperava que o trânsito pesado diminuísse para poder atravessar em direção a uma favela no outro lado da pista. Estava ansiosa e a menina tinha medo. Parei o carro perto dela e aconselhei que procurasse atravessar na faixa que estava ali, a uns dez metros, sob um semáforo operado pelos pedestres. Ela olhou intrigada para mim, com cara de quem não entendeu, e continuou no mesmo canto, com a mesma agonia.
O pequeno incidente me deixou com algumas perguntas para as quais ensaio umas respostas. Em primeiro lugar, o que faz com que uma pessoa escolha arriscar sua vida e a de seus filhos, tendo a pouca distância um sistema confiável que os deixaria com segurança no outro lado da pista? Em segundo lugar, por que, mesmo com a minha intervenção, essa pessoa insistiria em não usar a faixa e o sinal tão fáceis de alcançar?
A tentativa de resposta à primeira pergunta seria que a camada da população à qual a mulher pertencia está condicionada à desproteção, à ausência de serviços e equipamentos públicos que cuidem da sua segurança. De tal modo que não percebem quando um destes serviços ou equipamentos é colocado à sua disposição. O desamparo histórico ao qual estão condenadas faz com que essas pessoas simplesmente não registrem qualquer alteração nesse tipo de tratamento por parte do poder público. A faixa e o sinal de trânsito não foram feitos para aquela mulher. Por isso ela não os vê, mesmo que estejam instalados na entrada da favela em que mora.
Quanto à ineficácia da minha recomendação, a resposta não é muito diferente. Desde quando um motorista de um carro particular pára na pista para dizer qualquer coisa que não seja um impropério a uma pessoa daquela? Pelo olhar de intriga que ela me lançou, tenho certeza de que não entendeu nada do que eu disse, pois não faz parte da expectativa dela que uma pessoa como eu se preocupe com a sua segurança.
Não estou muito seguro do que digo, mas suponho que aquela mulher e as duas crianças são vítimas da falta de cuidado. E não basta uma faixa e um semáforo para que se sintam protegidos. Muito menos lhes serve a advertência de um motorista bem intencionado. O cuidado que lhes falta é atávico. São mais de quatro séculos de desamparo, à margem de políticas públicas que lhes permitam se perceber como cidadãos dignos de usar uma faixa e um sinal de trânsito e de escutar sem medo o que um outro cidadão lhes tem a dizer.

Imagem obtida em: melquilima.blogspot.com

2 comentários:

Juliêta Barbosa disse...

Ronaldo seus argumentos são mais que pertinentes. Já passei por algo semelhante e sei bem do que você está falando. Belo texto! Deveria publicá-lo no Jornal para servir de reflexão. Parabéns.

Neusa Doretto disse...

QUERIDÃO, voa pra cá, vem ver a gente!

abração,abração!!!!!!!

grupo teatro falado/campinas

http://www.overmundo.com.br/agenda/atores-falam-a-cronica-tragica