10 Fevereiro 2010

Um certo mal-estar




Existe algo no ar que não está nos deixando sentir muito bem. Comente com qualquer pessoa ao seu lado, seguramente ela também está sentindo o incômodo. Ninguém está dormindo direito, o tempo não está dando para nada, o resultado é pouco para o muito que se gasta de energia. Há um palpável excesso de mal-estar pairando em nossa volta.


O mal-estar, a angústia, são companheiros inseparáveis em nossa permanência no mundo. E se os suportamos é porque há sempre dentro de nós um projeto, uma esperança de que um dia essa coisa ruim vai passar. É uma ilusão necessária para que permaneçamos vivos. Os que perdem suas esperanças, os desesperados, fazem a opção extrema de desistir do mundo. Matam-se.

Até um certo tempo não era muito difícil ter um projeto de vida. A gente nascia já com um percurso esboçado pela família, pela geografia e pela classe social. Podíamos pensar em seguir a profissão dos nossos pais, ou entrar para o seminário, o convento ou o exército, se quiséssemos dar uma turbinada no projeto. Os mais abastados não precisavam mudar nada. Bastava seguir o curso tranqüilo do macro-projeto familiar.


De uns tempos pra cá, a maioria das profissões dos nossos pais desapareceu. Mais do que isso, desapareceram os postos de trabalho. Com isto, desapareceram muitos projetos de vida. O mundo de hoje, simplesmente, não dá para todos. A maior categoria de excluídos, hoje, é a dos sem-projeto. Sem esperança, portanto.



Antes, havia um jogo de cartas marcadas, em que se sabia de antemão quem ia ganhar ou perder. Hoje, ficou patente, com o recente desmantelo global, que nem o croupier nem o dono do cassino sabem como o jogo vai terminar.

O que fazer, então, frente ao caos e a incerteza? Só encontro uma resposta: manter a esperança, esta teimosia inata que nos mantém vivos. E junto a ela, construir uma coisa que não faz parte da natureza humana: a solidariedade. Você pode até discordar, mas a solidariedade não é uma qualidade inata. Inato é o nosso apego ao que nos é mais próximo, mais semelhante. A solidariedade exige o cuidado com o distante, o diferente, o estrangeiro. E a nossa tendência natural de humanos é nos fecharmos em nossa etnia, nossa família, nossa classe social. Em nosso mínimo eu.


Quanto mais nos excluirmos mutuamente, mais nos sentiremos sós e desesperançados. Pensemos nisto quando olharmos alguém à nossa frente com distância, indiferença e estranheza. A ponte que construirmos em direção a esse outro é a única saída para o nosso mal-estar no mundo.


Foto: Ana Patrícia Almeida - http://www.flickr.com/photos/anap/page7/

04 Fevereiro 2010

Os olhos de Anita



Eu gostaria de viver no mundo refletido nos teus olhos. Mundo de manhãs serenas, tardes apenas mornas e noites de ilha sem farol.

Eu gostaria de dormir nas redes avarandadas dos teus olhos. Para ter pequenos sonhos, realizar ínfimos desejos e acordar ávido de novas imagens.
Teus olhos já choraram lágrimas prematuras que o amor e o cuidado estancaram. Sentiste cedo que o mundo dói, pois o mundo, então, era teu corpo. Agora já sabes toscamente que existe um mundo fora de ti. E sorves este mundo com teus olhos, filtrando já o que é bom e o que é mau. Tua mãe é boa. A ausência de tua mãe é má. O peito que dá o leite é bom, é mau o peito que não chega na hora em que dele necessitas. O aconchego morno é bom, muito calor ou frio não presta. É isto e mais teus olhos que constroem um mundo dentro de ti.
Eu queria teus olhos emprestados para fazer um mundo novo para mim. Um mundo diferente deste que meus olhos me mostram. Eu queria teus olhos para ver novas manhãs, inaugurar um céu e um mar estalando novidades em minhas retinas. Para ver o sol arrastar as sombras das coisas tarde a fora até que viesse a noite e com ela o meu descanso sossegado.

Eu queria morar nos teus olhos para olhar nos olhos dos outros e decidir na hora para quem estender os braços. Eu queria fitar-me com teus olhos para me ver um pessoa melhor, mais solidária, mais confiante naqueles que repartem comigo esta visão de terra devastada que eu não queria que teus olhos vissem.

28 Janeiro 2010

O mal e os outros



Há exatamente 65 anos, revelava-se aos olhos do mundo um dos retratos mais hediondos do mal. No dia 27 de janeiro de 1945, o Exército Vermelho liberava o mais importante dos campos de extermínio alemães: Auschwitz Birkenau. Ali, a poucos quilômetros da Cracóvia, na Polônia, morreram mais de um milhão e duzentas mil pessoas. Muitas delas foram conduzidas para a câmara de gás imediatamente após a chegada ao campo.
Aproximadamente, seis milhões de homens, mulheres e crianças desapareceram da face da terra vítimas da loucura ideológica que contaminou uma das nações mais cultas de toda a história.
Não me interessa agora, todos esses anos depois, se eram judeus as vítimas e alemães os algozes. Os papéis históricos são permutáveis e as vítimas de ontem podem ser vistas, hoje, como algozes de outras vítimas. Outros massacres mais ou menos espetaculares aconteceram antes e depois de Auschwitz, mostrando que o mal não é privilégio de nenhum povo ou nação. Hiroshima ainda fere nossas retinas e a faixa de Gaza está aí, agora, fumegando.
O que me interessa hoje é compreender esta intemporal e onipresente insanidade destruidora e sua capacidade de contaminação. É uma doença, acreditem, é uma doença que leva um povo a ver em outro povo a encarnação do mal a ser destruído. É a mesma doença que leva uma torcida de futebol a avançar sem piedade contra seus adversários pelo simples fato de torcerem por um outro time qualquer. É o mesmo impulso que leva um motorista apressado a avançar sobre os pedestres na faixa, por conta da única diferença de andarem a pé.
É uma doença que nos leva a projetar no outro tudo aquilo de mal que rejeitamos em nós. Para tanto, é necessário que se fabrique esse outro para que seja destruído por nós, em nosso lugar. São muitos esses outros: judeus, muçulmanos, negros, asiáticos, mulheres, pobres, homossexuais, doentes mentais... Enfim, qualquer indivíduo, grupo ou etnia que possamos eleger como causa das nossas carências e fraquezas.

21 Janeiro 2010

Oposição






Um dia, minha filha mais nova chegou em casa muito irada. Sua chapa havia perdido a eleição para o Diretório Acadêmico. Além de irada, estava inconsolável. Mas os pais existem para consolar os filhos. Fui cumprir minha missão de pai. Disse então que fazer oposição é também uma forma de governar. É a vigilância da oposição que arrefece a voracidade dos governantes, exercendo uma crítica permanente aos atos de poder que possam prejudicar os membros da coletividade a que deve servir, seja ela um país, um estado, um município ou um diretório acadêmico.


Disse isto com a convicção de quem viveu o tempo da ditadura militar, em que os parlamentares do MDB, que mais tarde veio a ser o PMDB, faziam uma oposição ferrenha aos donos do poder, correndo o risco da cassação política, do exílio e até mesmo da morte. Os nomes de Ulisses Guimarães, Tancredo Neves e Mário Covas vieram corroborar meus argumentos. São exemplos históricos de como se pode exercer o poder a partir da oposição.


Difícil seria defender meu argumento com exemplos de hoje. Para onde me volte, só encontro uma oposição louca para deixar de ser oposição. Busca-se o poder a qualquer custo, não valendo mais nada as posições ideológicas ou programas partidários. Inimigos ferrenhos de ontem tornam-se repentinamente amigos de infância. Amigos de infância tornam-se inimigos execráveis. Acordos são rasgados, histórias esquecidas.


Ainda bem que não preciso mostrar isto a minha filha. Ela já pode ver com seus próprios olhos. Ela vê e mais uma vez fica irada. É uma pena que eu não possa mais cumprir o meu papel de pai.

13 Janeiro 2010

Uma morte bonita



"Ela morreu de uma maneira muito bonita, morreu na causa que sempre acreditou." Foram estas as palavras do cardeal Evaristo Arns quando soube da morte de sua irmã. Zilda Arns estava no Haiti para começar o trabalho de divulgação que antecederia a implantação da Pastoral Infantil em um dos países mais pobres do mundo.
Zilda Arns tinha o olhar obstinado dos santos e o sorriso bondoso dos anjos. Mas era uma mulher de carne e osso, de inteligência e sentimento. E foi assim, de corpo e alma, que ela se entregou ao trabalho de salvar as crianças da subnutrição e da morte.
Seu trabalho começou em Florestópolis, no interior do Paraná, onde o índice de mortalidade chegava a 127 mortes a cada mil crianças. Um ano depois, o trabalho da Pastoral tinha reduzido este número para 28 por mil.
Hoje, são cerca de 2 milhões de crianças e mais de 80 mil gestantes atendidas pela Pastoral em todo o mundo. São mais de 155 mil voluntários trabalhando em mais de 32 mil comunidades em mais de 3.500 cidades brasileiras. Seu trabalho serve de inspiração a ações similares em muitos países da África, Ásia e América Latina. Em 2008, Zilda participou da criação da Pastoral da Criança Internacional, no Uruguai. Incansável, foi também fundadora e coordenadora da Pastoral da Pessoa Idosa, a partir de 2004.
Zilda Arns morreu soterrada no terremoto que arrasou o Haiti. Morreu de pé, a caminho de um auditório onde lhe esperavam pessoas inflamadas pela sua capacidade de trabalho e de amor ao próximo.

Seu irmão tinha razão. Esta é uma maneira muito bonita de morrer.

08 Janeiro 2010

O velho e o antigo





Tenho sessenta e dois anos e guardo uma fotografia de quando tinha uns quatro anos de idade. Agora, pergunto: quem é velho, eu ou o menino da foto? Uma das respostas que me ocorrem é que a foto seria antiga, enquanto eu sou contemporâneo. Pelo menos contemporâneo de mim mesmo. Deste ângulo, velho seria o menino da foto, enquanto o cara que escreve estas linhas é um fenômeno atual.
De um certo ponto de vista, o menino da foto e o escriba são exatamente a mesma pessoa. Ou não? Vejamos. Será que as células do sessentão são exatamente as mesmas do garoto? As feições do velhote lembram minimamente a cara rechonchuda da velha fotografia? A memória do pré-ancião recorda as coisas vividas pelo menino? Pode ainda o atual candidato a proveta olhar o mundo com os mesmos olhos ingênuos da antiga criança? Pode o gasto coração sentir com o mesmo frescor as emoções que abalavam o coração nascente?
Enquanto escrevo, vai se firmando uma certeza: sou um ser de memória. E no âmbito da memória, tudo gira entre o velho e o antigo. Velho sou eu. Antigo é o menino. E de mãos dadas, o velho e o antigo vasculham os escombros da memória para com isto construir algo de verdadeiramente novo. Algo que estará além de mim e do menino.

02 Janeiro 2010

Recriar o tempo




Único animal que sabe que vai morrer, o homem inventou o tempo para domar o seu medo da morte. Precisamos do tempo. Precisamos do ontem para trancar nossas lembranças, precisamos do amanhã para adiar nossas frustrações. Passado e futuro são âncoras que nos protegem do fluxo vertiginoso do agora.
A natureza nos ensina os ciclos das estações. Com ela aprendemos a nos deixar passar, mantendo a ilusão que sempre voltaremos. Mesmo sabendo que um dia não voltaremos.
Precisamos recriar o tempo. Precisamos dos dias, dos meses e dos anos para contar. Para nos contar. Foi um dia... Era uma vez... Faz muito tempo...
Fruto do nosso medo e de nossas esperanças, inventamos a cada ano o ano-novo. Precisamos desta fronteira entre passado e futuro para corrigir rumos, descartar excessos, refazer as malas.
Façamos isto mais uma vez. Sem remorsos, sem promessas. Sem querer descobrir a pólvora, inventar a roda. Basta redescobrir o outro ao nosso lado. Basta reinventar a nossa humanidade. Redescobrir e reinventar uma forma de estar no mundo que nos permita lembrar com prazer nosso passado e esperar com prazer pelo futuro.

Imagem obtida em: marcellolima.wordpress.com

30 Dezembro 2009

Seconda chance




Se trovate a Gaza
un bambino in una mangiatoia,
circondato dai genitori,
tre magi
e alcuni animali,
per favore, proteggetelo.


Perché la mattanza degli innocenti
è già cominciata
e la strada per la fuga in Egitto
è chiusa.


Ronaldo Monte.
Traduzido por Rosella Pristera
http://bottega27.splinder.com/post/21906325



SEGUNDA CHANCE


Se for achado em Gaza
um menino em uma manjedoura,
rodeado pelos pais,
três magos
e alguns bichos,
por favor, protejam-no.


Pois a matança dos inocentes
já começou
e a rota de fuga para o Egito
está interditada.



(Ronaldo Monte. 16.01.2009)

21 Dezembro 2009

O milagre possível


Pobre humanidade esta, que deposita suas esperanças no nascimento de uma criança que aconteceu, supostamente, há dois mil e nove anos. Pobre e contraditória humanidade, que deposita esperanças num evento que já aconteceu. Não há mais nada o que esperar. A não ser por um milagre. Mas se algum milagre tivesse de acontecer, não se deixaria esperar por mais de dois mil anos.
Se algum milagre tiver que acontecer, ele terá de ser feito pelas nossas próprias mãos. E não há mais tempo para esperar. A tarefa é urgente, para ontem. O planeta está exaurido. Os homens estão exaustos. O que era semelhante transforma-se no estranho que deve ser abatido.
Aos que ainda mantêm um mínimo de lucidez, resta insistir na construção de um mínimo fio de solidariedade. Coisa difícil, pois esta qualidade não é natural no ser humano. Ela tem de ser construída racionalmente. Mas é a única qualidade que pode nos salvar da barbárie. Solidariedade. Este é o nome do milagre.

15 Dezembro 2009

A gênese de um buraco





Faz uns quinze dias que ele apareceu no cruzamento da esquina em que moro. Começou como quem não quer nada, uma pequena depressão no calçamento, próximo a um bueiro. Aos poucos, foi prosperando, ganhando direito a um arbusto anunciando sua presença. Agora já assume ares de adulto, servindo para depósito de entulho e quase inviabilizando o trânsito.

Não sei qual coligação é responsável pela obturação do buraco. Sei que, se alguma providência urgente não for tomada, ele tem um grande futuro pela frente. Uma madrugada dessas, em que fiquei escrevendo no terraço, tive minha concentração dispersa por um alvoroço na esquina, com direito a viatura da polícia. Soube depois, pelo vigilante da rua, que um rapaz tinha jogado um celular e uma trouxa de maconha no buraco.
O risco é ele aumentar muito de tamanho e alguma gangue instalar seu quartel general em suas profundezas. Aliás, pode nem ser tão ruim assim. Dependendo de uma política de boa vizinhança, talvez eu consiga dos novos vizinhos a segurança que nenhum coligação foi capaz de me dar até aqui.

13 Dezembro 2009

As armas do jardineiro


Veio um jardineiro aqui em casa dar um jeito nas plantas para o fim de ano. Foi preciso podar alguns arbustos e o facão que ele usava revelou-se insuficiente. Ele lamentou não ter trazido outras ferramentas mais adequadas, mas teve medo de andar nas ruas carregando serras e grandes facões. A polícia poderia confundi-lo com um ladrão.
Cheguei a comentar com ele que os ladrões de hoje não usam mais esse tipo de armas. Qualquer dimenor carrega no mínimo um 38 na cintura. Mas parei a conversa por aí. Não ia adiantar muito qualquer reflexão que fizesse a respeito do nível de desamparo a que todos nós estamos sujeitos. Uns mais, outros menos, a depender das posições nas classes sociais.
Classes sociais, sim, pois a luta de classes só foi abolida no vocabulário dos neoliberais. Se eu sair nas ruas com minhas ferramentas de trabalho, a saber, um note-book, um celular e dois ou três livros, dificilmente um policial virá me abordar. No máximo, serei confundido com um malfeitor de colarinho branco, o que só fará aumentar o respeito do policial pela minha figura.
Bem faz o jardineiro em temer expor suas armas no meio da rua. Pois ele trabalha na contracorrente do esforço dos governos e grandes corporações em transformar o planeta num deserto infértil. Ele trabalha com zelo para a beleza do mundo. É isto que o torna perigoso.

06 Dezembro 2009

Os sinos da depressão



Todo ano é a mesma coisa. Começa dezembro, os sinos bimbalham e eu me deprimo. É automático, inevitável. Vocês sabem muito bem de que sinos estou falando. Não é o sino da torre da velha igreja que todos trazemos da infância. Nem os carrilhões das grandes catedrais que conhecemos de passagem ou pelos filmes. Os sinos que me deprimem bimbalham nas musiquinhas cabulosas que tocam nas lojas, nos carros de propaganda e nos anúncios de televisão. Eles querem reproduzir em nossa memória uma lembrança que não temos. Querem nos lembrar os guizos de um trenó que desliza sobre a neve puxado por renas carregando um bom velhinho com um saco enorme cheio de presentes. E talvez seja isto o que me deprime.


Vejam que não estou falando de nostalgia, pois esta sempre nos lembra alguma coisa que perdemos e não podemos mais recuperar. Os sinos que bimbalham em dezembro não me lembram nada que alguma vez tenha perdido. Eu nunca vi um trenó, não conheço uma rena e não me lembro de nenhum velhinho gordo e simpático que me tenha dado um presente.
O que perdi, e disto sinto falta, foram os dias de correria que antecediam a noite de festa, no natal e no ano novo. O que perdi foi as mãos fortes do meu pai abrindo a massa do pastel com uma garrafa cheia d’água. Perdi também o cheiro dos pastéis assando no forno e depois se derretendo na boca, misturando o doce do açúcar com o gosto salgado da azeitona. Perdi também o presente achado debaixo da cama na manhã seguinte. Perdi o pai, a mãe as tias e uma parte dos irmãos que construíam comigo essas festas. Isto me faz nostálgico. Mas não me deprime.


É por isso que faço tudo para me recolher em casa assim que começa dezembro. Não quero ouvir o bimbalhar dos sinos. Não quero fazer parte da correria insana que leva as pessoas de um canto para outro em busca de uma coisa que não vão encontrar. Nem dentro delas mesmas. Pois esta coisa chata que as simones e os robertos cantam, que até o pobre do John Lennon é obrigado a cantar, não existe em canto nenhum de nossa memória. Elas existem fora de nós, fabricadas por uma indústria de ilusões e bugigangas. Não me perguntem, pois, por quem os sinos bimbalham. Uma coisa eu garanto: não é por mim.

26 Novembro 2009

O ofício de Márcia


Que ofício dar a Márcia? É médica de profissão, mas pouco se sabe disso. O que se sabe de Márcia é o que ela faz noutro ofício. Márcia Maia é poeta. E por fazer bem o que lhe cabe, Márcia ganhou o primeiro lugar na categoria poesia dos Prêmios Literários Cidade de Manaus, em 2007, com o livro Cotidiana e virtual geometria.
Nada mais adequado do que este título em um livro feito com o rigor dos geômetras. Márcia Maia dá um demonstração da sua força poética, construindo poemas com uma exigência formal própria dos obsessivos. Cada peça é um desafio ao engenho da artista. E ela os vence um a um com a obstinação próprio aos compulsivos. Mas o rigor formal não esconde a sensibilidade da poeta. Sua delicadeza nos acolhe em cada letra. Seu bordado fino se revela em cada linha. Sua geometria é feita de traços sinuosos e harmônicos.

Se quizerem saber mais do ofício de Márcia, visitem seus blogs*, procurem seus livros. O que posso adiantar aqui é um poema em que ela mesma revela os subterrâneos de sua oficina geométrica. Apredamos com ela, senão a ser tão bons poetas, ao menos saber como um bom poeta constrói o edifício do poema a partir dos mais ínfimos grãos de areia:

Ofício
um zumbido de sentenças pequeninas
arremedo de palavras quase sílabas
que entre letras esvoaçam suas asas
no alvoroço de buscar o que dizer

entre tédio e rebuliço um sentimento
entrehabita onde o silêncio faz-se círculo
e o percorre – em cada passo o mesmo passo
volta a volta em vã vigília busca a voz

que o exprima que o decifre que alardeie
que desteça a sua teia em mel e ácido
que corrompa da placidez pura do ar

e alça vôo por entre as asas mariposas
que em palavras letras versos voam ávidas
a queimar voz e sentir na mesma luz

19 Novembro 2009

Tórrido, ensurdecedor



Lá pelo começo dos anos sessenta, Núbia Lafayete cantava num bolero que briga de homem e mulher é de dois, não cabe três. Se ele está batendo nela, é porque alguma coisa ela lhe fez. Ainda hoje se diz que em briga de homem e mulher não se mete a colher. Mas as coisas estão mudando aos poucos e a Lei Maria da Penha está aí para diminuir a pancadaria. Não se tolera mais ouvir os gritos de uma mulher apanhando do marido. Mas o que fazer quando perdemos o sono com a barulheira fornicatória do casal do lado? Segundo a BBC, os moradores de Newcastle, na Inglaterra, chamaram a polícia e o casal for parar nas barras do tribunal.


Caroline e Steve se amavam com fervor, quase todas as noites. A rigor, o fervor começava po volta da meia-noite e se arrastava até às três horas da manhã. Eram gemidos ensurdecedores. Um detector de ruídos registrou níveis médios entre 30 e 40 decíbeis. Nas noites mais tórridas, o pico chegou a 47. A vizinhança não conseguia dormir. Rachel O’Connor, que morava ao lado, chegava tarde ao trabalho por conta da barulheira dos vizinhos. “Eu nunca escutei nada igual”, disse ao Juiz, “é como se eles sentissem muita dor”.


Proibida de gemer na cama, Caroline recorreu da sentença, alegando que os gemidos durante o sexo faziam parte dos seus direitos humanos. Mas perdeu. O juiz Jeremy Freedman apoiou sua decisão no nível de ruído que podia ser ouvido nas propriedades vizinhas, na rua onde o casal morava e na rua detrás de sua casa.


Pobre Carolina, pobre Steve. Se gemessem de dor por conta de pancadaria, talvez seus vizinhos fossem mais complacentes. Mas gemiam de amor, esse vício atávico que não respeita sonos ou pudores alheios. Pobres vizinhos de Carolina e Steve. Devem continuar perdendo o sono, agora por sentirem a falta daqueles gemidos ensurdecedores que lhes faziam morrer de inveja por não ter quem os amassem tão extremamente.

08 Novembro 2009

Pálido azul





Quando amanheceu, olhou-se no espelho e se assustou. Estava pálido. Pálido, não. Quase azul. Morto, talvez. Mas não, morto não se olha no espelho. E, se olha, não se vê. Estava vivo, sim, mas com cara de morto. Morto-vivo. E um calafrio relampagueou seu corpo.


Não era apenas o rosto que estava azul. Os braços e os dorsos das mãos também azulavam. Seu peito também, com os tufos de pelos melados de azul. Então era isso. Não era a pele que estava azulada. Era alguma coisa azul que cobria seu corpo, como uma camada de tinta seca que se rachava.


Cheirou o braço esquerdo. Não era cheiro de tinta. Era um cheiro leve de cosmético fino. Precisava de um banho. Depois, de uma boa explicação para o azul.


Enquanto a água escorria levando o azul pelo ralo, no escuro dos olhos pintou um clarão. No meio do clarão, uma silhueta esguia de mulher. Braços estendidos, ela esperava que ele flutuasse ao seu encontro, sem deixar qualquer dúvida que podia flutuar. Ele flutuou até ser cingido pelos braços da mulher que o carregou em direção à lua.


Então ela o pousou no chão da lua. Estavam nus. E ela apanhou um punhado da areia fina da lua, derramou lágrimas azuis sobre a areia e passou suavemente no corpo do homem entorpecido. Ele queria mover-se e não podia. Era como se a pasta fina de lágrimas e lua guardasse seu corpo como uma armadura.


E foi assim que ele dormiu e acordou em casa. Olhou-se no espelho e se assustou. Estava pálido. Pálido, não. Estava azul.



Ronaldo Monte – Clube do Conto

02 Novembro 2009

Sem os óculos




Ela olhou com carinho para o homem dormindo de óculos na poltrona, o livro tombado sobre as pernas. O rosto voltado contra o espaldar levantava um pouco os óculos do nariz. O queixo duplicava premido contra o peito. Ele ficava meio engraçado, assim.


Com mãos leves, ela tirou os óculos do homem e ficou por um tempo olhando para aquele rosto há tanto tempo amado. Parecia desamparado sem o escudo que protegia seus olhos do impacto direto das coisas.


A longa falta de incidência da luz do sol desenhava um círculo pálido na pele em torno das órbitas. As pálpebras deixavam à mostra uma teia de rugas invisíveis sob o véu das lentes fotocromáticas.


Ali estava o seu homem despido de suas máscaras. Mudo, ausente, vagando não se sabe por quais sonhos. Ali estava. Longe, inacessível. Mas, mesmo assim, tão seu.

Ronaldo Monte
Clube do Conto – 31.10.2009

01 Novembro 2009

A "puta" da faculdade

video


Parece uma rebelião de presídio ou uma cena de filme em que a multidão pede a morte do gladiador abatido no circo romano... Nem presídio, nem circo. A cena se passa no pátio de uma universidade. A turba dirige sua fúria a uma aluna de vestido vermelho curto. Esse era o seu crime. E a sua condenação vinha de um coro enfurecido: “puta – puta”. Foi preciso vir a polícia retirar a moça do prédio, coberta com um jaleco. Ela corre, de fato, o risco de ser linchada pela multidão enlouquecida. Em uma das cenas filmadas por amadores, ouve-se uma voz feminina em off: “O pessoal está indo atrás da puta da faculdade”.
Tentando me afastar do misto de fascínio e horror que o episódio desperta, tento compreender a patologia social que se esconde por trás desse sintoma. O que estaria na base dessa manifestação de intolerância e violência?
Nas primeiras páginas de sua novela “Mário e o mágico”, Thomas Mann relata o episódio em que uma menina de oito anos, de corpo franzino, tira o maiô para lavar e corre nua para o mar. Logo, toda a burguesia italiana que frequentava o balneário se sente ferida em sua moral e denuncia os pais da menina à polícia. Deste pequeno incidente de intolerância, o autor deduz todo o clima belicoso que se apoderava do povo italiano prestes a se entregar à aventura fascista.
A alma italiana estava já envenenada pela versão mussoliniana do discurso nacional-socialista. Toda e qualquer manifestação de costumes estrangeiros era uma ameaça à supremacia da raça e deveria ser combatida e extirpada no nascedouro. A relação entre a intolerância dos veranistas e o ideal facista foi brilhantemente estabelecida pelo gênio de Thomas Mann.
Quanto a nós, o que temos a deduzir do episódio da universidade paulista? De saída, podemos estar diante do efeito do divórcio entre o ensino tecnológico e a ética humanista. Podemos,ainda, estar testemunhando uma exibição ruidosa da demonização do outro, qualquer outro, que desperte o que de mais vil ou execrável dormita dentro de nós. Pode ser um negro, um judeu, um muçulmano, um nordestino, um homossexual ou, no caso, uma mulher.
Vivemos num mundo em que os recursos ficam cada vez mais raros, sendo cada vez mais difícil partilhar os bens equitativamente. É preciso, portanto, criar estranhos, estrangeiros, culpá-los pelo escassez e destruí-los como indignos da partilha. Visto desse ângulo, cada um de nós, pode, a qualquer momento, ser transformado numa “puta” da faculdade.

31 Outubro 2009

Os gemidos de Dôra



Tem gente que sai para se distrair, outros vão às compras ou ao trabalho. Dôra sai para ouvir a rua gemer. E sabe o que Dôra faz com esses gemidos? Escreve livros com eles. E não é somente o novo livro de Dôra que guarda os gemidos do mundo. Desde “Arquitetura de um abandono”, de 2003, passando por “Preces e orgarmos dos desvalidos”, de 2005, até “O beijo de Deus”, de 2007, Dôra não faz outra coisa além de nos contar do sofrimento que vê e escuta pelas ruas.


Mas repare que Dôra não fala de gritos, uivos ou impropérios. Ela se faz portadora do sofrimento sofrido em surdina, nos becos, nos cômodos apertados das casas de vila, nos banheiros imundos, na solidão das noites suarentas.


“Os gemidos da rua”, o mais recente livro de contos de Dôra Limeira, tem uma catinga azeda das valetas por onde escorre a podridão dos detritos humanos. Cada personagem de Dôra geme como a quem se espreme um carnegão. Sem escândalos, pois não se espera que a mão pesada alivie a força do aperto. Geme-se apenas, com a resignação de quem sabe que a dor vai piorar.
Dôra dividiu os 59 contos do seu livro em três partes: Transgressão, Desvio e Imtimidade. Não consegui adivinhar o critério que ela usou para tal divisão. Peguntem a ela. Pois, para mim, em qualquer parte em que se abra o livro, encontrar-se-á em cada personagem as qualidades da transgressão, do desvio e da intimidade. Isto porque, no meu fraco entender, estas são qualidades facilmente visíveis na própria Dôra.


Dôra cultiva a idossincrasia de usar recorrentemente em seus contos o verbo “adentrar” nos mais diversos modos, tempos e pessoas. Em quase todos os seus contos o verbo cabuloso está lá, às vezes mais de uma vez no mesmo conto. Um psicanalista apressado diria que o verbo adentrar teria uma significação fálica, revelando um desejo de agressão que teria como suporte a pulsão de morte em atividade nos porões do psiquismo dôriano. Limitado ao meu humilde papel de apresentador do livro, revelo apenas minha suspeita de que Dôra usa “adentrar” para se vingar de alguém que um dia disse que o tal verbo soava inadequado na boca de uma personagem que vivia num lugar sujo e pobre. Acontece que o tal lugar era calcado no espaço em que a própria Dôra tinha vivido sua infância. E ela, Dôra, adentrava, sim, quando vivia ali.


Convido-vos, pois, a adentrar ao livro de Dôra Limeira. Antes, porém, avisem aos familiares e amigos mais próximos que não estranhem qualquer mudança no seu modo de falar ou de andar pelas ruas. Seguramente, vocês não serão os mesmos quando saírem, gemendo, da leitura de “Os gemidos da rua”.

João Pessoa, 30 de outubro de 2009
Ronaldo Monte.

26 Outubro 2009

Bolha


Definitivamente, ele não podia vir. No entanto, mais ao menos na hora dele chegar, uma menina soltou uma bolha de sabão que flutuou sobre nossas cabeças e definiu o tema do próximo encontro.

Ronaldo Monte – Clube do Conto
Imagem obtida em: tutoriaisphotoshop.net

18 Outubro 2009

Muito prazer, Malu




Veja, ilustre passageiro, o belo tipo faceiro que cochila aí ao lado. É minha mais nova neta, a Malu. Talvez eu devesse dizer futura neta, pois ela ainda está no quinto mês de gestação e o flagrante se deu na barriga de sua mãe, mulher do meu filho. Mas aí é que está um dos grandes problemas da humanidade: quando é que uma pessoa começa a existir?

Não quero perder tempo aqui com o problema sobre o início da vida, pois isso tem sido motivo para um desfile de discursos preconceituosos e pseudocientíficos, principalmente quando está em questão o direito ao aborto. Minha preocupação é bastante mesquinha e pessoal: posso considerar Malu como minha neta e começar a comprar coisas e fazer planos para ela, antecipando em alguns meses sua existência fora do ventre da mãe?

Vejam bem a situação atual em que estão as coisas: enquanto um projeto de menina se nutre, dorme e dá cambalhotas no exíguo espaço que lhe protege, um batalhão de adultos escolhe seu nome, borda esse nome em lençóis e toalhas cor-de-rosa, faz planos para os seus quinze anos e já pensa no que ela vestirá no baile de formatura. Em suma, já existe todo um presente e um futuro prontos para ela viver. Certos papéis já lhe estão destinados pelas condições de classe social e nível de informação de seus pais e adjacentes.

Enquanto isso, a futura Malu dorme, cresce e dá cambalhotas. Mas será que é de uma futura neta que estou falando? Ela já está aqui, determinando o que penso e escrevo. Essas meninas começam cada vez mais cedo a perturbar a vida a gente.

12 Outubro 2009

O outro lado

Não tenho qualquer vocação para Polyanna e sei muito bem no que deu a fé inabalável de Anne Frank na bondade humana. Não é, portanto, de bondade que quero falar. É de um impulso muito mais primitivo na constituição do ser humano que o leva a arriscar a própria vida em defesa da vida de um semelhante. É algo ligado à preservação da espécie, valor mais alto do que a preservação do indivíduo.
O exemplo mais recente deste aspecto radical do comportamento humano foi dado pelos protagonistas do salvamento de uma mulher prestes a ser carregada com a sua moto numa enxurrada, na cidade de São José do Rio Preto, em São Paulo.
Quem viu as cenas pela televisão pode constatar o caráter impulsivo do comportamento dos voluntários. O próprio termo “voluntário” aqui se torna inadequado, pois não se trata de um tomada de decisão consciente, a partir da vontade individual. É um imperativo irrevogável que não considera os riscos da ação. Existe um semelhante em perigo e não cabe mais nada a fazer senão salvá-lo.
Estamos tão habituados às notícias sobre a violência entre os homens que somos levados a ver a nossa espécie como essencialmente destinada à destruição dos vínculos entre os semelhantes. É preciso que algo se eleve à condição trágica para que possamos ver a manifestação do instinto gregário que nos faz ainda resistir como espécie.
Não tenho, já disse, qualquer vocação para Polyanna, nem acredito incondicionalmente na bondade humana. Mas é muito bom ser lembrado, de vez em quando, que existe um instinto básico na minha espécie que permite um mínimo de esperança na construção de uma convivência solidária.

11 Outubro 2009

Minh’alma é triste



Chamava-se André, mas gostaria de se chamar Casimiro José Marques de Abreu. Daria tudo para morrer tuberculoso. Daria a vida para ter escrito o poema Minh’alma é triste. Ah,como queria pegar da pena e escrever:
“Minh'alma é triste como a rola aflita
Que o bosque acorda desde o alvor da aurora...”
Ó, meu Deus, se Yolanda pudesse um dia ler no seu caderno de folhas pálidas a constatação metafísica de que
"Minh'alma é triste como a voz do sino
Carpindo o morto sobre a laje fria...”
Não, talvez Yolanda não gostasse muito dessa coisa pesada de mortos, talvez nem curta o carpir melancólico dos sinos. Seria melhor dizer que
“Minh'alma é triste como a flor que morre
Pendida à beira do riacho ingrato...”
André sabia muito pouco de Yolanda. E quanto mais queria ser Casimiro de Abreu, mais via sua musa sumir com a galera em busca dos embalos. André definhava, dormia mal, comia quase nada. Varava as noites com a janela aberta para ver a hora em que sua amada voltava, alegre, não sabia bem de onde.

“Dizem que há gozos no viver d'amores,
Só eu não sei em que o prazer consiste...”,
pensava André, sob a luz pálida da sala.
Em algum lugar do mundo nascem flores, pensava André, menos aqui, neste pedaço de terra esquecido de Deus, onde faz sol ou chove, chove a cântaros. Como queria viver (morrer) em outras plagas para poder dizer a Yolanda:
“— Eu vejo o mundo na estação das flores
Tudo sorri — mas a minh'alma é triste!”
A luz pálida do sol mandou Yolanda pra cama e o pálido André para seu velho exemplar de Primavera.


Ronaldo Monte - Clube do Conto - tema: Pálido

05 Outubro 2009

Momento cultural






Se você quiser ganhar um jantar exclusivo com dois expoentes da cultura nacional, basta responder a esta singela questão: “o que você faria para conhecer a Joelma e o Chimbinha de pertinho?” É isto que está proposto num imenso cartaz nas lojas de uma das maiores cadeias de supermercados do País, com o título de “Momento cultural”. Não venha me dizer que sua formação cultural é insuficiente para reconhecer os seus prováveis futuros comensais. Chimbinha e Joelma são as estrelas da Banda Calypso. Dentre seus mais de 190 sucessos estão Doce mel, A lua me traiu, Deixa eu sonhar e Pra te esquecer.

Particularmente, não tenho nada contra a banda Calypso ou qualquer outro conjunto que ganhe seu dinheiro honestamente junto a um público imenso que curte, dança e canta suas músicas. A minha bronca é com os patrocinadores e divulgadores do tal “momento cultural”, pois iludem a clientela, vendendo como um momento de fruição estética um jantar entre um fã e seus ídolos.

Esta é apenas mais uma amostra de como a cultura vem sendo tratada pela midia. Os grandes jornais do País há muito vêm confundindo show business com movimento cultural. Colunas ditas culturais estão cheias de fofocas sobre Ivete Sangalo, Suzana Vieira e Dado Dolabela. Quando muito, anunciam uma peça caça-níqueis com um dos ídolos da última novela das oito. Com isto, livram-se da chatice do papo intelectual e das fotografias sem charme desses mal-encarados rodeados de livros e quadros que ninguém sabe o que querem dizer.

Um jantar de um fã com seus ídolos deve ser realmente um momento de muito prazer e emoção. Só não gosto que chamem a isso de momento cultural. Culturais mesmo são os momentos dos fins de tarde dos sábados quando me encontro com o Clube do Conto. São os momentos cada vez mais frequentes neste País em que muitos grupos se reúnem para produzir e divulgar cultura.

27 Setembro 2009

Lembrança




Traga uma lembrancinha pra mim, ela pediu. Qualquer coisa simples que faça você lembrar de mim, ela falou, oferecendo a boca para a despedida.
Ele entrou no ônibus sabendo o cansaço que o esperava. Ia para longe, alto sertão, mais de doze horas de viagem. Cidade perdida entre serras. Ia ser difícil encontrar alguma coisa para ela.
O ônibus rolando pela estrada reta, hipnótica. O sol da tarde batendo de frente, ofuscando através do vidro fumê. Impossível dormir. O olhar compulsório não registrava nuances. Vastas planícies de vestes rasteiras e o horizonte de serras inalcançáveis.
Saiu no começo do dia, chegou no começo da noite. Um resto de luz teimando no poente, um resto de calor que cedia à frieza. A pousada em penumbra. A noite revirada na cama. A manhã que custou a chegar.
Com a manhã, os passarinhos. De onde vinham e para onde iriam tão logo o sol esquentasse? E as pessoas, onde estariam com suas vozes arrastadas e suas poucas respostas? E os bichos pequenos que não se mostravam, chispando entre as folhas ralas dos arbustos?
Era muita luz para o pouco a ser iluminado. A palavra agreste armou-se em todo seu sentido. Luz demais sobre quase nada. E este era o desafio. Forçar os olhos a ver o que a luz escondia. Inventar sombras. Criar movimentos.
Lembrança. Que lembrança levar para ela. Nada para comprar, nem pedir, nem achar. E estes olhos viciados aos contrastes chapados dos signos urbanos eram cegos para a beleza cantada pelos versos agrestes dos poetas.
Lembrança. Era isto que tinha para dar a ela. A lembrança dela o tempo todo enfeitando a paisagem impenetrável. Ela mesma impedindo que a paisagem se abrisse aos seus olhos. Era ela, a lembrança dela que o impedia de encontrar alguma coisa que levasse de lenbrança.
Foi isso que ele deu a ela. A lembrança dela o tempo todo ofuscando a visão, saturando a memória. Foi isto o que tentou dizer ao mostrar as mãos vazias e as retinas fatigadas com a imagem dela.

Ronaldo Monte – Clube do Conto da Paraíba.

Imagem obtida em:uni-adversidade.blogspot.com

17 Setembro 2009

Sala de visita



Antigamente, as casas tinham sala de visita. Nem todas, é claro. Mas uma família de classe média tinha por obrigação ostentar uma sala de visitas. Geralmente, era o primeiro cômodo da casa e ali não se podia entrar a qualquer hora. Muitas delas eram trancadas a chave.
E não era qualquer visita que era recebida na sala de visitas. Os parentes próximos e os amigos mais chegados ficavam espalhados no terraço ou iam direto para a cozinha. Na sala de visitas, apenas certas visitas. Daí um certo alvoroço quando arrumavam a dita sala. Quem vai chegar?
Gralmente eram chatas as pessoas recebidas na sala de visitas. Gente de alguma importância, parentes distantes e cerimoniosos, mulheres eretas sorvendo sem barulho as pequenas xícaras de café.
As casas de hoje não permitem mais o luxo das salas de visita. Nos exíguos apartamentos, tipo já-vi-tudo, se entrar mais de quatro pessoas, alguém vai ficar em pé. Tanto melhor, pois nos livramos dos chatos e cerimoniosos. Em nossas casas, hoje, só entra quem nos quer bem. E os pequenos espaços nos dão a medida dos laços das nossas amizades.


Imagem obtida em: sedeieqblumenau.files.wordpress.com

10 Setembro 2009

fotopoema




Foto de Ana Patrícia
http://www.flickr.com/photos/anap

02 Setembro 2009

Index das cantigas




A presença das netas reestabeleceu aqui em casa o hábito de ouvir cantigas de roda. Por isso, de vez em quando fico pensando na mania recente de algumas “tias” em alterar certas cantigas, temendo que o teor de suas letras estimule tendências agressivas e politicamente incorretas nas nossas inocentes criancinhas. O exemplo clássico é a campeã de audiência “Atirei o pau no gato”.
Numa tentativa de contribuir para o novo “index librorum prohibitorum”, quero dedurar algumas modinhas que, no meu fraco entender, vêm há séculos pervertendo os hábitos e pensamentos dos nossos rebentos. Em primeiro lugar, denuncio a baixaria entre o Cravo e a Rosa. É coisa digna do programa do Datena. Sabe-se lá por quais motivos, o casal de engalfinhou em público debaixo de uma sacada, tendo como desfecho um ferimento de graves consequências no Sr. Cravo e a total destruição das vestes da Dona Rosa. Não bastasse o nível da agressão, ressalte-se ainda o total descaramento do casal, pois, no outro dia, a moça foi visitar o amante no hospital, reatando o caso amoroso entre suspiros e desmaios.
Caso menos complicado, mas nem por isso desculpável, é a má sina de um certo indivíduo que responde pelo nome de Sambalelê. Boa coisa o elemento andou fazendo, pois já levou uma surra, que o deixou doente e com a cabeça quebrada. E a turma ainda acha que ele precisa de umas boas palmadas. Outro cara que deve ser seu cúmplice, um tal de Bitu, quando chamado às falas, recusa-se a comparecer com medo de apanhar.
Se formos devidamente rigorosos e excluirmos dos cancioneiros de roda, além das cantigas claramente agressivas, aquelas que fazem alusão ao sexo nos mais diversos níveis (vide Terezinha de Jesus, a Pobre viuvinha, Desanda a roda, etc.) muito pouca coisa restará para ser cantada pelas nossas crianças. Então, para o alívio das “tias” politicamente corretas, elas estarão totalmente liberadas para se entregar ao universo poético do funk e do forró eletrônico.


Imagem obtida em: brincadeirasdecrianca.com.br

29 Agosto 2009

A quem interessar possa




São dez e pouco da manhã do sábado. A feira está feita, as pequenas providências tomadas, adiou-se o que podia ser adiado. Daqui a pouco abriremos os trabalhos, qualquer que seja o quorum. Se der tempo, apareça.

23 Agosto 2009

Manhãnzinha de nada




É uma manhã simples de domingo. Não me promete nada de grandioso, surpreendente. Daqui a pouco vai sair um café, logo mais chegarão os filhos que faltam, virão as netas, talvez algum amigo. Tem cerveja na geladeira e uma promessa de macarrão para o almoço. Aí já será de tarde e a manhã terá cumprido seu ofício: ser uma manhã simples de domingo, projetando uma calma luz no chão imprevisível da semana.

22 Agosto 2009

Não posso ir



Gente: por maior que fosse minha boa vontade, não há dedão do pé que resista a uma pancada de prateleira. Foi a maior sangreira. Aí está a foto para provar. Não vou ao Clube do Conto por total impossibilidade de locomoção. Beijos gerais. Rona.