22 dezembro 2007

A espiral do tempo




Alguns pensam que o tempo é uma linha reta. Começa-se num determinado ponto e segue-se em marcha batida para onde nos indica a flecha. Para outros, o tempo é um grande carrossel, em que os cavalinhos tangem infinitamente os mesmos lugares.
Cada um tem o direito de pensar o tempo como achar melhor, mais conveniente. Para mim, a melhor imagem do tempo é a da espiral. Como aquelas escadas que sobem como um caracol e dão medo de cair a quem olha pra baixo.
Alguns mais cultos chamariam, a escada e a figura geométrica, de helicoidal. Mas não há tempo para sermos cultos: o tempo é uma espiral, e pronto. E o que ganhamos com essa imagem do tempo em espiral? Que vantagem tiramos em subir (ou descer) pelo tempo dando voltas e sentindo vertigens?
As vantagens, sugiro eu, são exatamente as voltas e as vertigens. Se o tempo é uma espiral, a cada volta sua não passamos exatamente pelo mesmo lugar. Se estamos subindo, passamos mais acima. Se descemos, passamos mais abaixo. Para cima ou para baixo, haverá sempre uma novidade a nossa espera. Subindo ou descendo, nosso corpo se afetará tanto com o movimento quanto com a novidade. Daí a vertigem, daí a sensação de redemoinho, de mar agitado que o tempo às vezes nos traz.
Mas nem sempre é tempo de novidade e vertigem. Existem momentos de calma e repetição que merecemos desfrutar. É um tempo assim que eu desejo para você nas festas de Natal e Ano Novo. Em paz, na sua casa ou fora dela, com as pessoas queridas de sempre.
E se alguém ou algo novo se insinuar neste tempo, que esse novo seja acolhido na calma repetição dos momentos de confraternização que aprendemos a viver com nossos antepassados e teimamos em transmitir aos que sobreviverão a nós.

imagem obtida em
www.mat.uc.pt/.../conchas/imagens/helicoidal.png

16 dezembro 2007

Albatroz



Numa oficina de leitura, o menino viu pela primeira vez a palavra albatroz. Ela estava escrita no poema Navio Negreiros, de Castro Alves. O menino perguntou o que era albatroz e ficou sabendo que é um pássaro que vive no mar, junto aos navios. E que é desengonçado quando está no chão e muito desastrado quando pousa ou levanta vôo. Mas quando voa, o albatroz é uma das aves mais belas. É como os poetas, ouviu o menino. Desastrados na vida cotidiana e belos quando planam com as asas das palavras.
Alguns dias depois, o menino diz que viu um albatroz na televisão. Não o vira voando, mas parado no chão. Estava excitado com o aprendizado. A partir daí, toda a sua inibição com a leitura desapareceu e ele se apropriou dos versos em que o poeta pede: “albatroz, albatroz, dá-me tuas asas”.
A experiência do albatroz me fez lembrar das muitas palavras que conheci antes das coisas que nomeavam. E muitas vezes o conhecimento da coisa fez perder o encanto da palavra. Foi muito grande a decepção que tive quando soube do verdadeiro significado da palavra corolário. A coroa colorida que imaginava desapareceu para dar lugar a uma decorrência lógica.
Felizmente, não foi isso que aconteceu com o albatroz. A coisa vista reafirmou a beleza da palavra. Mais felizmente ainda, não foi só essa palavra, nem só este menino que se encontraram na oficina de leitura. São muitos os meninos e meninas, são muitas oficinas espalhadas pelas periferias das cidades. E precisam ser muitas, pois são muitas as palavras que voam por aí, procurando lugar para pousar. Primeiro nos olhos, depois nas almas dos meninos e meninas, ávidos de palavras.
Vejo cada jovem destes como um albatroz. Desengonçado no trato com o mundo, desajeitado nas tentativas de decolagem, mas belo e gracioso quando alça vôo com as asas mágicas da palavra.

10 dezembro 2007

Grandes são os desertos






Para Maria Valéria Rezende.

“Grandes são os desertos, e tudo é deserto.”
Transborda para o deserto argelino a voz do almuadem que soa no alto da torre de Beni-Isguen chamando os fiéis para a primeira oração do dia: Allahu akbar. E todos saem dos seus leitos para reafirmar que não há outro Deus senão Alá. E Maomé é seu único profeta.
“Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes – desertas porque não passa por elas senão elas mesmas. Grandes porque ali se vê tudo, e tudo morreu.”
Resvala para além das serras que cercam o deserto cinzento a voz do vaqueiro. E o seu canto não tem palavras, pois não canta para os homens. É para os bois, as vacas, os garrotes e os bezerros que ele lança o seu encantamento. E como Deus também não precisa de palavras, toma para si como um louvor a melodia que ondula até os céus. E de muito acima das serras, Deus contempla desolado aquela vastidão deserta, incrédulo de que a tenha criado. As almas que ali habitam são desertas de esperança. E são grandes apenas porque guardam este grande deserto dentro delas.
Por mais que o diabo o tente, Deus se nega a fazer qualquer milagre que mude a cor deste deserto. Tentando mais uma vez escrever certo por linhas tortas, manda vir do outro deserto, onde é louvado como Alá, uma gota de esperança antes que venham as chuvas. E a voz do almuadem entrega à voz do vaqueiro a boa nova de que, em breve, ali chegará uma mulher para tornar menos árida aquela terra.

imagens obtidas em:
gooutside.terra.com.br/.../vaivirarmar1_90.jpg

09 dezembro 2007

Cintilações de um palheiro




O que melhor diferencia o ser humano das outras espécies é a sua aptidão para a fala. E uma das coisas que dá mais prazer a certos membros da espécie humana é a oportunidade de falar mal dos seus semelhantes.
Eu me considero, neste aspecto, um homem de sorte. Desde o ano de 2001, de dois em dois anos, Waldir me entrega os originais de um novo livro, com carta branca para cortar, emendar e sugerir alterações no texto. Isto significa que, a intervalos regulares, eu posso falar mal de Waldir a pedido dele próprio. É o paraíso dos maledicentes.
Para meu desgosto, porém, a cada novo livro de Waldir vai ficando mais difícil o exercício desta arte que me é tão cara. Ele vem escrevendo cada vez melhor, com mais apuro, com mais economia. Esta evolução pode ser constatada pelos próprios títulos dos seus livros de poesia: Cantos da Vida de amar – Poemas e Solilóquios (2001), Amor que sai do casulo (2003), O Avesso da Pele (2005).
Quando Waldir me entregou os originais de Palheiro Cotidiano, dizendo que se tratava de contos e crônicas, meu coração, maldoso, exultou: teríamos novamente muito sobre o que falar. Mas ficamos a mingua, os dois. Como já disse na orelha do livro, “neste Palheiro Cotidiano cintilam agulhas preciosas que não fazem nenhuma questão de permanecer escondidas. Encontram-se muitas em cada página. São imagens, conceitos ou simples palavras que se entregam aos nossos olhos, como crianças pequenas brincando de se esconder.”

Convido, pois, todos vocês, a aceitar este livro como um presente que Waldir Pedrosa Amorim nos dá neste fim de 2007. E que as suas histórias, lembradas ou inventadas, venham se mesclar ao nosso repertório de boas memórias. E com isso nos tornemos, todos, pessoas melhores, tão boas como Waldir e seus escritos. Assim, creio, daremos bons motivos para que o mundo fale bem de nós.

Waldir Amorim

02 dezembro 2007

O dia da criação




E no sétimo dia, descansei... Antes de prosseguir, temos que estabelecer com exatidão qual é o sétimo dia da semana, para sabermos quando, de fato, descansei. Tem religião que acha que é o sábado, o que cria sérios problemas comerciais e trabalhistas. Certos viciados acham que se deve trabalhar todo dia. Outros, não menos viciados, acham que não se deve trabalhar dia nenhum. O protestantismo incipiente do meu pai e o catolicismo de conveniência de minha mãe me ensinaram que o dia de descanso é o domingo. Mesmo que em alguns calendários os domingos encabecem as semanas, não acho um bom exemplo cívico começar a semana descansando.
Dia bom, o domingo, pelo menos até as últimas horas da sua tarde. A partir daí, começa a apertar uma espécie de melancolia, uma ponta de angústia, um certo pesar, quase um luto pelo dia que acaba. É nessa hora que conhecemos a verdade do domingo. Não descansamos nada. Durante todo o dia fomos objeto de um trabalho silencioso, feito à nossa revelia, em que se compacta todo o afã que se desdobrará em cada dia da semana vindoura.
Domingo. O verdadeiro dia da criação.

24 novembro 2007

Vergonha


Cubra as vergonhas, dizia minha avó com seu forte sotaque português. Tenha vergonha na cara, zangava meu pai ao menor deslize meu. Deixe de ser sem-vergonha, disse a namorada à primeira deriva da mão. Pra que tanta vergonha, disse a mulher feita a quem pela primeira vez me mostrei nu.
E agora me vejo neste sonho em que tento cobrir as vergonhas, mostrar ter vergonha na cara, sentir vergonha das intenções das mãos e perder, por fim, a vergonha de estar nu. E assim, despido de panos e vergonha, passeio pela praça a meia luz, alheio aos olhos dos passantes.
Saio das sombras do sonho e me deparo comigo sozinho na cama. Sem o conselho da avó, sem a zanga do pai, sem a reprimenda da namorada nem o deboche da mulher sabida. E choro, choro muito, choro pela enorme vergonha de estar só.

Imagem obtida em: podcast.lucianopires.com.br/.../vergonha.jpg

15 novembro 2007

Inveja


Não. Eu não quero um parecido. Nem um igual me serve. Eu quero esse. Exatamente esse que você tem na mão.
Não. Eu não quero emprestado. Eu quero pra mim. Nem quero dividir com você. Eu fico com ele e você fica sem nada. Só assim me serve.
Pra que eu quero? Pra nada não. Só para ter, mais nada.
Não. Não é pra mostrar. Pois se eu mostrar, um outro vai querer ter. E eu não vou dar. Quero pra guardar num lugar que ninguém veja. Num lugar bem escondido, onde ninguém possa nem passar por perto.
Num lugar longe da minha vista, para que eu não me lembre dele a todo instante. Até que eu me esqueça do lugar do esconderijo. E com o tempo, eu esqueça do que escondi.
Aí, sim. Distante da cobiça alheia, guardado da minha própria cobiça, ele vai ser apenas meu.
Pois eu já o terei esquecido.

Clube do Conto 15.11.2007

Ilustração obtida em:www.homestead.com/artsoul/Envy.jpg

08 novembro 2007

Texto sentido



Para Lau Siqueira

Um tênue manto envolve a pele do poeta.
Tecido de palavras ditas e a dizer,
esconde o corpo do poeta à cobiça da morte.

Engodo inconsútil,
finge proteger das asperezas do mundo
mostrando-se flagelo de enigmas
claros e escuros.

O poeta não vê,
não ouve,
não cheira,
não tateia
nem sente sabor.

O poeta sofre o peso do seu manto
e dele suga as palavras
que matam a sua fome de sentido.

Ronaldo Monte
08.11.2007

26 outubro 2007

opaco




O estranho objeto se anuncia por uma vaga inquietação que me acompanha horas. Ainda não é uma presença, mas emite leves sinais de um lugar além de mim.
O estranho objeto se insinua nos diversos momentos do meu dia. Volto a cabeça e quase o surpreendo em alguma dobra do tempo que me cerca.
A coisa estranha insiste em não estar. Resiste em ser presença, bastando-se promessa. Ausência que me espreita, tocaia prestes a ser escaramuça.
Submisso ao que não é, cativo de uma espera, espreito a coisa opaca retida na fronteira. E na espera torno-me objeto do objeto. Coisa da coisa. Outro de mim e do outro.
E assim, opacos, eu estranho e a coisa estranha, ensaiamos uma possibilidade de presença no esboço de sombra que lança no chão a luz da lua.
Ilustração obtida em www.cosmobrain.com.br

21 outubro 2007

As fronteiras do sonho


Você sabe que eu sou um pesquisador. Um psiquiatra respeitado que não confunde as coisas da ciência com as da imaginação. E por dever de ofício, dou o nome certo aos fenômenos psíquicos. Mais ainda, como todo cientista correto, tenho absoluta certeza de que um dia todos os fenômenos ditos psíquicos serão explicados através de mecanismo puramente orgânicos. Chamar qualquer coisa de psíquica é apenas revelar ignorância quanto a sua origem. Qualquer asno sabe que psiquê significa alma no velho idioma grego. E alma pode ser tudo, menos um conceito científico.
Faço este preâmbulo para você não duvidar de que mantenho meu espírito científico em vigília, para que não ponha em dúvida minha lucidez enquanto relato o fato a seguir.
Não sei se você sabe o que significa a palavra hipnagógico. Em poucas palavras, para um leigo como você basta dizer que se trata de um estado associado ao entorpecimento que precede o sono. Aquele momento em que as coisas da realidade se confundem com as produções do seu cérebro já cansado e confuso. Uma espécie de fronteira entre a vigília e o sono. Por exemplo: você está lendo um livro e, de repente, uma frase inteira vem se imiscuir no texto impresso, desvirtuando o seu sentido.
Pois bem. Estava eu lendo um artigo científico sobre as novas formas de tratamento cirúrgico para a eliminação dos impulsos homossexuais quando, entre as últimas linhas da página, apareceu uma frase esquisita dizendo “você ainda não percebeu que estou no seu quarto”. Tomei um susto e a frase desapareceu. Logo depois, entre as primeiras linhas da página seguinte, leio com clareza: “se você olhar para o espelho vai me ver.” Sem querer, foi sem querer, juro, olhei para o espelho da penteadeira e vi, juro como vi, o rosto mais bonito que jamais vira em toda minha vida. E naquele momento nada mais me interessava a não ser ter para mim não apenas o rosto, mas todo o corpo que lhe sustentava com graça e beleza. O estranho é que, para meu desespero, era o rosto de um homem. Um efebo, imberbe, quase um menino, mas um homem.
Sou um cientista, não esqueça. Nenhuma experiência, por mais estranha que seja, me intimida. Antes, me incita a elucidar os seus enigmas. Foi por isso que mergulhei no espelho, passando para um território de ar espesso e chão movediço por onde me movia com o peso de um escafandrista. Em nenhum momento avistava o vulto que me atraía, mas sabia a direção do lugar onde por certo me esperava. Tinha a certeza disto por um aceno afirmativo que me faziam as pedras. Nuvens escuras corriam em minha direção, quase à altura da cabeça, dando-me conta do passar do tempo. Um tempo de angústia pela busca infrutífera do objeto do meu desejo. Guiado pelo vôo das aranhas, cheguei às margens de um lago de águas límpidas, mas que não deixavam ver o seu leito. Não tinha mais a fazer do que mergulhar e descer ao fundo das águas que por fim me ejetaram ofegante para fora do espelho da penteadeira do meu quarto.
Não esqueça que eu sou um cientista. Por isso sei muito bem o que significa o termo hipnopômpico. Para seu governo, é aquele estado semiconsciente que antecede o despertar. Foi nesse estado que eu ainda vi, com grande tristeza, o rosto belo e terno me acenar um adeus do outro lado do espelho.
Imagem obtida em www.cexantequera.com

18 outubro 2007

memória das águas








Para um quadro de Veruschka Guerra


Das águas me ergo menina
saudosa de leitos antigos.


Das águas me assusto já moça
saudosa de leitos futuros.


Das águas levanto esta dona
de leitos, de rios, de mares.


Ronaldo Monte
18.10.2007

A idade do poeta






Ao poeta Sérgio Castro Pinto

O poeta faz sessenta anos.
Bons vinte e um mil e novecentos dias
viveu o poeta.

O poeta faz quarenta anos de poesia.
Catorze mil e seiscentos dias
escreveu o poeta.

Somam-se cem anos de vida e poesia.
Trinta e seis mil e quinhentos dias
desabam sobre o poeta.

O poeta sobrevive.

Pois um poeta não se mede em dias.
O sonho é a medida do poeta.


Ronaldo Monte
18.10.2007

Redução de danos


A idéia de redução de danos é relativamente nova e encontra muita resistência na opinião pública em geral e em muitos dos agentes diretamente envolvidos em programas de saúde pública.
Eu mesmo confesso que fiquei espantado quando ouvi falar pela primeira vez que as agências governamentais de muitos países gastam dinheiro para oferecer mais segurança aos usuários em suas relações com as drogas.
Mas quando se sabe que ao fumar uma pedra de crak num cachimbo de pvc achado no lixo o viciado pode ser vítima da leptospirose, vê-se que é uma ação de saúde pública fornecer um cachimbo adequado, acompanhado de um batom para evitar que os lábios desidratados rachem, deixando a vítima a mercê do vírus da aids ou da hepatite.
Muitas doenças transmissíveis podem ser evitadas com a distribuição de seringas de uso pessoal entre os usuários de drogas injetáveis. Muitas intoxicações podem ser evitadas se os viciados em maconha usarem o papel de seda para enrolar seus cigarros, em vez de papel sujo ou pedaços de jornal.
É aí que reside a lógica do programa: a recuperação de um viciado em drogas é lenta, dolorosa e muitas vezes impossível. Enquanto não se alcança tal objetivo, resta-nos evitar que os indivíduos se exponham a situações adicionais de risco.
À medida em que nos acostumarmos à idéia da redução de danos, perceberemos que todos nós, humanos, precisamos de ajuda adicional para sobreviver neste ambiente hostil a que foi reduzido o universo das nossas relações. Precisamos inventar novas ações que nos protejam dos danos que causamos uns aos outros.
Foto recolhida em www.arpnet.it

30 setembro 2007

Acoisa pior



Você não podia ter dito coisa pior comigo. Até aqui eu suportei tudo o que você fez e disse a mim e de mim.
Nunca esqueci o dia em que você copiou a minha prova e disse à professora que eu tinha colado de você. A professora acreditou. Levei zero.
Pediu meu canivete emprestado e não devolveu. Me deu um golpe no treino de luta livre sem avisar para eu ficar em guarda. Aproveitou que eu estava no gol, deu um nó na minha camisa e mijou em cima. Fez não sei quantas camas-de-gato quando eu estava distraído, conversando com a turma.
Depois você disse a seu pai que eu tinha emprestado a revista que você levou para o banheiro. Ele me proibiu de ir na sua casa e ainda contou pro meu pai. Não apanhei, mas fiquei de castigo.
Mais tarde você foi dizer à minha primeira namorada que eu tinha contado tudo que tinha feito com ela no cinema. Ela nem falou comigo. Acabou o namoro com um recado.
Há pouco tempo, pediu para eu fazer um empréstimo e não me pagou, sujando meu nome no Serasa. Depois eu vi você pagando uma rodada de cerveja para um bando de vagabundos.
Cantou minha mulher, vomitou no meu sofá bateu com o meu carro. De tudo isso eu desculpei você. Mas você não podia ter dito ou feito coisa pior comigo. Me chamar de irmão é um insulto que eu não agüento.

Ronaldo Monte. Clube do Conto, 27.09.07


Ilustração obtida em portal.educ.ar

27 setembro 2007

O melhor dos mil dias


O governo da Cidade das Acácias, a capital da Paraíba, está comemorando mil dias de trabalho. Já fui redator de propagada e sei o quanto uma boa campanha publicitária pode fazer pela imagem de um governo. Por isso, não vou fazer referência a nenhuma obra física da atual administração municipal. Porque de tudo o que foi feito, o que mais me encanta é o respeito que os motoristas passaram a ter com os pedestres que atravessam as faixas. Bastou uma campanha de alguns dias. O resultado foi imediato.
Antes que algum apressado venha perguntar como um comportamento social pode ser classificado como uma obra governamental, explico que a conduta das pessoas, individual ou em grupo, refletem a relação dessas pessoas com o poder público. O respeito dos motoristas reflete o respeito com que vêem ser tratado o bem público desta cidade. E a confiança dos pedestres de que os veículos respeitarão a sua presença na faixa, reflete a confiança no estímulo à cidadania dos que governam a cidade.
Aos que não concordam com este raciocínio, peço que analisem os exemplos negativos nas relações dos cidadãos com outras esferas do poder.
E para quem ainda acha que estou falando bobagem, sugiro que experimente a cumplicidade cordial na troca de olhares entre o pedestre e o motorista no breve tempo do atravessar da rua. Eu já experimentei os dois lados da cena. Nos dois lados me senti gratificado como cidadão.

22 setembro 2007

Massapê

O oleiro achou engraçada aquela figura que andava por cima da ribanceira do rio com uma das mãos estendida levando alguma coisa que não sabia ainda o que era. Parou a roda do torno com o pé, e ficou esperando. A figura veio vindo, veio vindo e se mostrou um menino já meio taludo, as calças curtas molhadas, com um montinho de massapê na mão estendida, como quem pede esmola.
O menino ficou assim por um bom tempo, até que os seus olhos chegados da luz se acostumassem às sombras daquele lugar. Um teto de telhas escuras vai se abaixando até ficar quase da altura de um homem. No meio do calor do meio-dia, ali fazia uma friagem gostosa que vinha do monte de barro molhado descansando no chão. Montadas nas prateleiras, arrumadas nos cantos das paredes, muitas, muitas peças ainda cruas, curando, perdendo a água que ainda lhes resta, esperando a vez da sua fornada. Dependendo de onde vinha, o cheiro era diferente. Do monte de barro molhado vinha um cheiro parecido com o que ele sentiu lá na beira do rio. Do lado da parede onde descansavam as peças o cheiro era seco, lembrando alumínio. Juntando tudo, o cheiro do lugar lembrava o da cozinha da sua casa. Faltava o cheiro da comida. Mas o cheiro das cinzas por debaixo das panelas de barro em cima do fogão da sua casa estava ali. O menino só não sabia onde. E ficou meio perdido nesse cheiro, nessa quase catinga que morava no fundo da sua memória e se mudava para ali.

Tu qué o quê, Massapê?
O senhor deixa eu cozinhar esse peito no seu forno? Que história de peito é essa, Massapé? Isso é somente um pedaço de barro. Não é não, o senhor vai ver. Botou a porção de barro na roda de cima do torno, sentou afobado no banco alto de madeira e tentou alcançar com o pé direito a roda de baixo. Mas a perna era curta, ficou remando no ar. O oleiro teve vontade de rir, mas não riu. Trabalhe só com as mãos, pode ser que saia alguma coisa que preste. E se afastou em direção à sua casa ali perto, como se procurasse não se sabe o quê.
O menino olhou para a massa, agoniado. Não sabia o que poderia fazer com o peito de barro da sua mãe. Deixou então que suas mãos trabalhassem sozinhas, que batessem e amassassem o barro para que o ar saísse das bolhas, até que ele ficasse macio; que catassem na massa os grãos de areia, os restos de mato ou qualquer outra sujeira; que fossem apertando o barro entre os dedos e as palmas, beliscando a massa, arredondando com cuidado suas bordas, passando água por dentro e por fora para ficar lisinho, até que tinha entre as mãos uma tigela em forma de peito.
O oleiro voltou quando sentiu que o menino tinha acabado sua obra. O que é isso agora, perguntou. É o mesmo peito de minha mãe, só que agora eu vou poder mamar nele. Tudo que eu beber daqui em diante vai ser nessa tigela que eu mesmo fiz com o peito que eu trouxe de dentro da terra, de um lugar em que minha mãe sofria de agonia e eu saí de lá deixando ela morrer em paz. Aí ela me deu esse peito, para que eu sempre me lembre dela, para que eu carregue pro resto da vida essa parte do corpo que ela nunca me deu.
E nele eu vou beber o leite que minha mãe me negou, que meu pai enterrou, que a terra engoliu, que o barro me devolveu. E foi com essas minhas mãos que eu botei de novo no mundo o peito que o mundo me levou.
Do romance Memória do fogo. Editora Objetiva, 2006.

18 setembro 2007

Virar Moça




Uma vez, uma mulher do riacho perguntou meio debochada: tu já virou moça, menina? Não sabia o que era virar moça. Sabia naquela hora que não podia ser uma coisa boa, pois todas as mulheres pararam de areiar as panelas para rir de minha cara encabulada.
Virar moça, virar moça... Minha mãe devia saber o que era, pois me contava histórias de homem que vira lobisomem, de mulher de padre que vira mula-sem-cabeça, de mulher corcunda que vira serpente quando fica velha. Quando cheguei em casa, fui direto pra cozinha e disse: mãe, uma moça do riacho perguntou se eu já tinha virado moça. Eu já virei? Ainda não, respondeu ela. Quando virar, você mesma vai saber. Agora vai cuidar de tuas coisas que eu tenho mais o que fazer.
Virar moça... O nome da minha vó é Dona Mocinha. Mas não acho que a mulher do riacho perguntou quando é que eu vou ficar velha. Ela perguntou se eu já tinha virado moça. Moça, que eu saiba, é uma mulher nova que ainda não chega a ser mulher. As moças que eu conheço têm mais corpo do que eu, têm as pernas mais grossas, a cintura mais fina e têm os peitos grandes. Os meus ainda não nasceram. A não ser que eu chame de peito esses carocinhos que estão aparecendo. Um dia eu vinha do riacho com o vestido molhado colado no corpo e um homem safado que bebia cachaça no balcão da venda gritou: olha as pitombinhas dela. Daqui a pouco ela vira mulher. Aí é que eu fiquei embaraçada. A mulher do riacho diz que vou virar moça. O homem da venda diz que vou virar mulher. Alguma coisa, na certa, estou virando. Pois este corpo de menina parece que não está dando mais em mim.
Ai esse corpo que não se aquieta. Esse formigamento nas pernas, essa agonia nas juntas, essa vontade de chorar não sei por que. Ai essa vontade de gritar, de cantar, de ficar muda pelos cantos. Ai esse calor que não passa, esse suor leitoso nessa cama que ficou pequena pra meu corpo. Ai essa coisa molhada e peguenta entre minhas pernas. Meu Deus, eu me cortei? Alguma coisa se rasgou dentro de mim? Que sangue é esse que sai do meio de minhas coxas? Mãe, me acuda, me acuda minha mãe, que eu estou sangrando.
A mãe chegou, me entregou uma toalhinha e disse sem olhar na minha cara: bota isso entre as pernas. Não tome banho frio, não faça trabalho pesado, não fique muito no sol, não passe nem perto de um pé de limão. Agora você virou mulher, já pode ter filho.
Então, o homem da venda ganhou. Minha mãe disse que eu virei mulher. Mas eu queria ter virado moça. Queria ter peito grande, duro. Queria ter coxa grossa, cintura fina. Queria ir no cinema, namorar, dançar bolero. Mulher, eu não queria ser não. Mulher é feia, tem peito mole de tanto dar de mamar aos filhos.Não tem cintura de tanto que pariu. Mulher não sai da cozinha, não se penteia, não dá passeio. Mulher é uma coisa triste. Eu não. Eu quero ser moça.
Do romance Memória do Fogo. Editora Objetiva, 2006.

11 setembro 2007

Marcela, a morta viva


Marcela já era bonita.Mas queria ser mais. Daí que vendeu o carro, tirou empréstimo, torrou o cartão de crédito e fez uma reforma geral. Fez lipo, fez peeling, mexeu no nariz, botou um tantinho de silicone, salpicou aqui e ali um pouco de botox e pronto: Marcela ficou belíssima. O resto era com seu personal training e o regime draconalfaciano.
Aí começou a acontecer uma coisa esquisita com Marcela. Passou a ter a impressão de que ninguém mais a via. Sua empregada servia o café da manhã com o olhar perdido para além das paredes da copa. Decidiu almoçar em self-service depois que os garçons do seu restaurante favorito começaram a passar por ela sem atendê-la. Os seguranças do condomínio abriam os portões sem ao menos olhar para dentro do seu carro. As amigas,embora a tratassem bem ao telefone, deixaram de convidá-la para as festas. E os homens, meu Deus. Os olhos dos homens, para quem tinha feito todo este sacrifício, atravessavam seu corpo como se ela fosse um fantasma.
Um fantasma, é isto. Acho que morri. Por isso as pessoas não me vêem, não me notam. É isto, morri e ainda não me dei conta. Já tinha lido alguma coisa assim numa revista esotérica.
Era uma hipótese viável, mas algumas evidências mostravam que ainda estava viva. Mesmo sem olhar para ela, a moça da butique ainda tinha paciência suficiente para tirar e repor nas araras todos os vestidos que ela pedisse. Seu dentista, mesmo com o olhar alheio, não deixava de roçar-se no seu braço direito enquanto a imobilizava na cadeira. A fatura do cartão de crédito era uma testemunha irrecusável de sua presença encarnada neste mundo.
Tinha que procurar ajuda, mas de quem? Estava devendo ao analista, não queria aumentar mais a conta. Claro que não era louca de entregar um prato feito destes a nenhuma amiga. Tinha que ser um homem. Um amigo de confiança que possuísse uma virtude rara entre os homens: a de entender uma mulher. André. Só podia ser André. Pela coleção de namoradas que exibe com modéstia, ele deve entender muito de mulher. Além de tudo é poeta de poesia sutil, de quem cultiva uma certa alma feminina. Só pode ser André. Foi procurar André.
Escuta, Marcelinha, falou André, montado em sua estatura de poeta, o olhar lançado por cima da morta viva. Escuta, meu amor: você já deve ter ouvido falar de que certas pessoas, por conta das funções subalternas que exercem, se tornam invisíveis aos olhos das pessoas das classes sociais superiores às delas. Isto acontece com os faxineiros, os porteiros, os entregadores de pizza...
Mas eu não sou porteira, nem faxineira. E nunca entreguei pizza. Eu nem gosto de pizza. Irritou-se Marcela. E não me consta que divorciada seja uma profissão subalterna. Minha pensão não é de se jogar fora. Eu toda não sou de se jogar fora.
O problema é exatamente este, meu anjo, retomou André, ainda olhando para um certo ponto no horizonte. Você é bonita demais. E arrematou com o que Marcela não gostaria de ter ouvido: você não existe.

03 setembro 2007

Estação


Ali, na estação, a vida parecia uma mágica. A plataforma amanhecia vazia de gente e de coisas. O chefe da estação, com sua farda de mescla azul e o boné bem assentado na cabeça, abria o armazém, dava ordens para o encarregado e ia sentar perto da janelinha de onde vendia os bilhetes de papelão, parecidos com pedras de dominó. Ida, só uma cor. Ida e volta, duas cores, metade verde, metade na cor natural do cartão. O toc-toc curioso do telégrafo, com aquela fita de papel cheia de furos. A cabeça meio inclinada do telegrafista, seu olhar distante como se visse a outra pessoa que mandava a mensagem. Aquele toc-toc era a voz das letras que se somavam em palavras. Aquilo sim, era um dos grandes mistérios da vida. As palavras vinham pelo fio, cortadas em pedaços que um homem juntava de novo na penumbra do escritório da estação.
Aos poucos, iam chegando os vendedores. Tabuleiros com laranjas descascadas, cocadas brancas e queimadas, pirulitos enfiados nos buraquinhos da tábua, difíceis de desgrudar do papel. Água fria nas quartinhas, pão doce, pão sovado, bolo de goma. Encostados na parede ou sentados no chão, ficavam por ali, meio calados, na espera. Lá pelas oito e meia iam chegando os viajantes. Famílias inteiras em roupa de passeio, caixeiros em ternos amassados, soldados da polícia, casais de olhares tristes, velhotes engomados, senhoras empoadas. Com o passar dos minutos um certo nervosismo vai aos poucos tomando conta da plataforma. As conversas se apressam e as vozes se alteiam, os casais andam pra lá e pra cá, os velhotes tossem, as senhoras suspiram, os caixeiros passam lenços amassados nos rostos suados, soldados olham para os lados em espreita. Os vendedores se impacientam. Os em pé trocam as pernas que se apóiam na parede. Os sentados arrastam os calcanhares no chão, subindo e descendo os joelhos. É o trem que vem vindo. Ninguém ainda vê, nem se ouve o apito. Mas é a hora que chega. Antes do trem vem o tempo que antecipa os adeuses, os cuidados, os recados, os mandares de lembranças. Antes do trem vem a angústia de quem vai ou fica. Lá vem, alguém grita, e estoura o alvoroço. Os vendedores entram em prontidão e começam a gritar os seus refrões muito antes do trem chegar na estação. Ninguém sabe muito bem o que fazer, mas todo mundo quer fazer alguma coisa. Gestos descabidos, palavras desconexas, olhares fugidios, toda uma série de atos sem sentido, que só vão querer dizer alguma coisa quando o trem partir as correntes que amarram os que vão e os que ficam.
(...) Maletas e pacotes não se despedem, não juram amor, nem mandam recados. As caixas e sacos, arrumados no vagão de cargas, deixam menos saudades ainda. Daqui a pouco, quando o trem virar a primeira curva, o silêncio varrerá os sentimentos da plataforma. O toc-toc do telégrafo será a única presença do mistério das palavras.
Do romance Memória do fogo. Editora Objetiva, 2006
Ilustração recolhida em http://www.sergiosakoll.com.br/

26 agosto 2007

visita


Ela apenas sabia que era hoje. Não perguntem como ela sabia. Nenhum dado objetivo, nenhum aviso direto. Ela sabia. Uma certa languidez, um quase calafrio intermitente, uma leve nostalgia de paisagens vastas e indefinidas. Não queiram saber. Ela apenas sabia. Era hoje.
E como era hoje, ela tomou um longo banho morno, vestiu a longa camisola de seda branca, escovou os cabelos, molhou nuca e braços com água de colônia, fechou a porta do quarto com chave, vasculhou a rua oito andares abaixo, juntou as duas bandas de vidro da janela, deitou na cama de lençóis recém trocados, apagou a luz e dormiu.
Dormiu e sonhou com fogos de artifício, com cavalos correndo fogosos por prados, com círculos de dança ao redor de fogueira, com águas ardentes queimando docemente suas vísceras.
Acordou com a luz da manhã nascendo no seu rosto. O cabelo em desalinho, a camisola deslizada aos pés da cama, uma fadiga tênue nos músculos.
Ela sabia. Tinha sido há pouco. Um rumor de asas afastava-se da janela aberta.

21 agosto 2007

Fracasso


Vamos ter um pouco de coragem e olhar para o mundo em nossa volta. Quem são estes seres estranhos que erram sem nenhum sentido pela face da terra? Com que nome nomeá-los? Humanos? Somos seres humanos?
Somos, sim. Este é o nome do animal que erra para cada vez mais longe da sua animalidade. Um animal tem seus instintos para garantir seus padrões de conduta na preservação dos indivíduos e da espécie. O ser humano perdeu seus instintos, tornou-se um ser de cultura, movido por suas pulsões. Uma pulsão de vida e uma pulsão de morte.
A pulsão de vida, também chamada de eros, é aquela que agrega, que nos assegura a unidade do ser e nos faz procurar o outro. A pulsão de morte é a que separa o que não serve mais para continuar unido. Quando eros exagera em sua compulsão à ligação, é necessário que a sua irmã gêmea entre em ação, desligando os elementos, deixando-os livres para um novo trabalho de ligação erótica.

Voltemos a olhar sem medo o mundo em nossa volta. Estes seres errantes são o que sobrou do projeto de eros em construir uma humanidade. Perdemos a ligação com o outro e o pouco de erotismo que nos sobra serve, mal e porcamente, para manter uma individualidade inútil e destrutiva. Estamos no pleno regime da pulsão de morte. Aceitemos, pois, o momento de destruição.

O projeto humano fracassou. Resta-nos abandoná-lo e, a partir dos seus escombros, tentar construir o projeto de outro animal. Um animal solidário, com outro nome que a solidariedade nos dará.
Ilustração: Os despejados. Portinari

20 agosto 2007

Hai Kais


no dorso da folha
verdura de musgo
restos de banquete







metade da ostra
aberta sobre a terra
acolhe a semente

Joana, Larissa e Ronaldo

Exercícios coletivos na Oficina de Hai Kai
dirigida por Alice Ruiz.
Fotos de Joana Belarmino
João Pessoa, 17 a 19 de agosto de 2007.

16 agosto 2007

Polifonia



Diga o que lhe vem à cabeça. Não censure nada. E se você achar que é tolo ou vergonhoso o que lhe ocorrer, por isso mesmo é que você deve dizê-lo. Era isto o que Freud pedia aos seus pacientes. É a regra fundamental para que uma análise seja bem sucedida.
De minha parte, considero que esta regra deve estar no fundamento de toda convivência humana. Todos temos o direito de dizer tolices, bobagens, besteiras, idiotices, cretinices, blasfêmias, preconceitos, vulgaridades, além, é claro, de coisas sensatas e inteligentes.
Confesso que fico irritado quando ouço na rua o carrinho de som de um camelô de CDs piratas tocando um forró ou um funk pornográficos. Pior ainda quando o mau gosto vem amplificado pelo som de algum carrão. Mas logo me convenço que eles têm todo o direito de ouvir a música que bem entenderem, desde que respeitem os limites de decibéis permitidos por lei.
Claro que também me irrita o discurso intolerante e mal informado que ouço nas filas e feiras. Pior ainda quando vem amplificado pelos portadores de títulos e comendas. Mas logo me convenço que eles têm o direito de falar o que bem entenderem, desde que me permitam também expressar minha opinião.
A morte é uniforme. Só os regimes ditatoriais e as instituições fundamentalistas rejeitam a multiplicidade de pensamentos e a polifonia dos discursos, excluindo do seu convívio, muitas vezes com a morte, quem ousar ser minimamente diferente.
A vida é polimorfa. Cada ser vivo é único em sua maneira de estar no mundo. No caso do ser humano, a diferença é a condição essencial para a sua constituição como sujeito. Para Roland Barthes, num mundo em que só houvesse diferenças não haveria lugar para a exclusão. Aceitar-me como diferente e aceitar a diferença no meu semelhante. Falar e deixar falar dessas diferenças. Esta é a regra fundamental.



Ilustração: Gente, de Pedro Charters

07 agosto 2007

Um copo d'água


O corpo do homem sentado em minha frente estava seco. Seus músculos finos colavam nos ossos e eram cobertos por uma pele fosca, quase acinzentada. A alma daquele homem também estava seca.
Sua fala desfilava automaticamente uma série de registros, blocos de traços de memória, comunicados sem qualquer emoção: a casa em que sempre morou, uma velha mansão que já experimentara seus momentos de fausto, agora repartida apenas entre ele e sua mãe. Essa mãe distante, refugiada em seu quarto, que ele apenas entrevia quando passava pela porta do cômodo em penumbra. Aqui e ali uma breve menção a um pai, já morto, homem de prestígio enquanto vivo.
O resto era um amontoado de cenas curtas, flashes de suas errâncias noturnas: sessões coletivas de picos; baladas em boates gays; transas apressadas em banheiros mal-cuidados, despertar em lugares desconhecidos em companhia de estranhos, ou amargamente só e depenado.
O corpo seco do homem sentado em minha frente me dizia que havia muito pouco a fazer. Um copo d’água, pensei. E se eu lhe der um copo d’água? Mas não fiquei certo de que o copo d’água era mais importante do que a minha presença. Tinha que sair da sala para buscar água e tive medo do que ele pudesse sentir com a minha ausência. Não lhe dei água.
Teria sido a última vez. Não voltou mais à minha sala. Semanas depois, soube que tinha desistido da vida. Até hoje ainda penso que um copo d’água o salvaria.
Ilustração obtida em www.tracaja-e.net

05 agosto 2007

Carta


Ele passava geléia de framboesa na torrada quando o silêncio da sala deu passagem a um leve raspar de papel sob a porta de entrada do apartamento. André levantou-se com preguiça e, antes de apanhar o envelope, abriu a porta com má vontade, somente para desencargo de consciência. Óbvio que, seja lá quem tivesse posto o envelope por baixo da porta, já tinha se escafedido escada abaixo. André abaixou-se resignado e emergiu com a cara intrigada. O envelope não tinha remetente. Pelo menos remetente declarado. Metódico que era, voltou para a cadeira, sorveu um bom gole de café com leite, limpou a faca no miolo de pão e serrilhou com certo gozo o vinco superior do envelope. Tirou sem pressa o papel lá de dentro, abriu fingindo indiferença para si mesmo. Mas logo o fingimento deu lugar ao espanto na cara de André: o papel estava em branco. Virou a página. Também em branco. Branco também ficou André.
Poeta que era, André estava acostumado à angústia da folha em branco. Aquela vastidão assustadora a exigir: rabisca-me ou te devoro. Mas aquela folha recém saída do envelope não fazia exigência nenhuma. Deixava apenas um vácuo impossível de preencher. Nada que André pudesse imaginar poderia ser confirmado por aquele vazio. Um irmão mais novo a quem tivesse humilhado. Qualquer uma das muitas namoradas que tivesse abandonado. Um paranóico ciumento de algum dos raros poemas bem sucedidos. Uma mulher trágica a quem não adivinhou o amor tresloucado. O dono da padaria a quem não pagava há mais ou menos um mês.
André esqueceu o café na mesa e foi para o quarto. Deitou-se na cama com a folha em branco em frente aos olhos. E quando todas as hipóteses de remetentes foram esgotadas, continuou com os olhos fixos no papel até esquecer-se do tempo e de si mesmo.
Quando arrombaram a porta do quarto, viram o corpo pálido de André confundindo-se com a brancura da folha em branco que pendia de sua mão.
Ilustração retirada de diariopoetico.weblog.com.pt

02 agosto 2007

Vistam saias, meninas: é agosto

Publico de novo para quem ainda não leu.

Há um certo prazer em falar mal de agosto. Dizem que é o mês das bruxas, onde cai o dia das sogras, foi quando morreu Getúlio e costumam ocorrer desgraças políticas. Pouca gente fala bem de agosto.

Quase ninguém se lembra que é o mês do mais belo luar do ano, promovendo encontros e reconciliações entre os já românticos e convertendo ao romantismo alguns indecisos pós-modernos. Em mim, particularmente, o luar de agosto produz um estado intermediário entre uma lânguida melancolia e uma vontade enorme de uivar.

É certo que em alguns anos agosto lembra um velho sombrio, com suas nuvens cinzentas, suas chuvas fora de hora, invadindo maleducadamente com seus miasmas setembro a dentro. Mas num ano como este, agosto merece ser tratado com toda a consideração. Já na primeira semana faz um sol quase de verão, esquentando um pouco a água do mar, levando à praia uma boa safra de mulheres e, vá lá, alguns homens dignos de nota. Só temos que aturar o vento forte, o bom vento de agosto que, se algumas vezes aborrece ao derrubar varais, espalhar jornais ou varrer areais, nos compensa com um dos mais belos espetáculos ao ar livre: a dança das saias.

E não me venham dizer que isto é coisa que só interessa aos homens. Alguma coisa me diz que as mulheres esperam ansiosas por agosto, preparam-se em academias e clínicas de beleza para o encontro com este mês abertamente masculino. E tenho certeza que uma pesquisa de mercado revelaria um forte incremento no comércio de saias ou cortes de tecidos para elas, cremes e óleos para pernas, além de peças íntimas de langerri a serem desvendadas num momento de estudada distração.

Os homens esperam por agosto como a um velho camarada. Um amigo maroto que faz por nós o que mais gostaríamos de fazer em plena rua: levantar as saias das mulheres.E reparem bem no rosto de uma mulher a quem o vento de agosto vai levantar a saia. Há, de início, uma certa expectativa, quase uma ansiedade, um temor de que não sopre vento nenhum e tenha sido em vão todo o preparo, todo o cálculo de chegar naquela esquina no momento em que um homem, ou um grupo de homens, passa atento pela calçada contrária. Logo, sopra o vento. Primeiro, de leve, deslocando os cabelos e fazendo a vítima fechar os olhos numa mescla de vago aborrecimento e satisfação. Quase um agradecimento.Ato contínuo, vem o farfalhar da saia. Aí é necessário que a dona da saia tenha alguma coisa em uma das mãos. Pode ser um sortimento de livros e cadernos, algum pacote não muito volumoso, até sacola de supermercado serve em certos casos. O importante é que apenas uma das mãos fique livre para segurar a saia em um dos lados, deixando o outro ao sabor do vento de agosto e dos olhos dos seus gratos amigos do outro lado da rua. O movimento, brusco mas não tanto, de segurar um dos lados da saia leva a um certo desequilíbrio que faz com que o volume sustentado pela outra mão ameace cair. Nisso, a mão que segurava a saia vai em ajuda à sua irmã, deixando agora todo o campo livre para o trabalho do vento e dos olhos.

Há variações do rito, é certo. A melhor delas é quando agosto apanha com seu vento um bando de mulheres no meio de uma ponte ou numa rua larga, de preferência ladeirosa, em que estejamos todos subindo. Mulheres na frente, como manda a boa educação, homens regulando o passo até alcançar a melhor distância para um visão de conjunto e, finalmente, ele, o ruidoso, o assobiador, o vigoroso e salutar vento de agosto, causando desordem e euforia, quebrando a monotonia das tardes friorentas. Estamos no começo de agosto. Já é tempo, meninas, vistam saias. E deixem brincar com elas o vento de agosto, para o alimento de vossas vaidades e o bem dos nossos olhos. Antes que todos, olhos e vaidades, sejam desviados pelo despudoramento de setembro, escancarando corpos e tornando vulgar o jogo sedutor que agosto sabe tão bem jogar.

(Publicado em Memória curta, 1996)

25 julho 2007

Tremendo nas bases


Estava vendo na MTV um especial sobre a cultura hip hop no Brasil e no mundo. Um dos entrevistados era o MV Bill, aquele do documentário sobre os falcões do tráfico. A certa altura do depoimento dele, começou a pipocar uns tiros, não se sabe onde. MV Bill parou a entrevista, ficou teso e falou com um tremor na voz: “assim é foda, cara. A gente tá aqui dando entrevista, fazendo oficina e os caras já entram atirando. Dá vontade de largar de vez essa porra”.

Aí eu fiquei pensando: se um negão desse tamanho, conhecedor profundo da cultura da violência em todas as favelas do Brasil, treme nas bases quando escuta um tiroteio, o que será que sente uma pessoa comum, uma mãe, uma criança, quando a chapa esquenta e a bala canta.

Não ficou claro no vídeo se os tiros eram da polícia ou de uma gang. Tanto faz. A violência é a mesma. Uma bala perdida encontra sempre um endereço de chegada.

Aprendi a gostar do MV Bill depois que li “Cabeça de Porco”, o livro escrito por ele, o seu empresário Celso Athayde e o sociólogo Luiz Eduardo Soares. Tremi nas bases quando li seu desabafo final: “Ver esses jovens alucinados se autodestruindo é como ver uma bomba ser detonada e começar a contar para então juntar os cacos. É essa a sensação que tenho, uma bomba que vai explodir”.

Estamos em plena explosão. Por isso trememos nas bases. Os cacos estão espalhados por aí, esperando ser juntados.

24 julho 2007

Solução

Finalmente o Governo identificou os culpados pela crise aérea brasileira: os pobres. Há um excesso de pobres andando de avião. A solução do problema é a mais lógica possível: aumente-se o preço das passagens de avião. Os pobres que voltem a sacolejar nas estradas esburacadas do País. E quando as estradas se apinharem de pobres, aumente-se o preço das passagens de ônibus. E se os pobres insistirem em sair às ruas a pé, aumente-se o preço das sandálias de tirinha. Este País só suporta um punhado de ricos e um pouco de classe média. O resto é sobra, sobejo, excrescência. Destino de pobre é matar um ao outro nas quebradas da periferia. Qualquer dia o Governo aumenta o preço da cova.

23 julho 2007

Linguagem oficial




Uma Ministra de Estado aconselha que as vítimas do apagão aéreo relaxem e gozem.
O Secretário de Segurança da Paraíba chama indiscriminadamente de cagões seus subordinados da Polícia Militar.
Dois assessores do Presidente da República fazem um gesto obsceno em frente às câmeras depois de ouvirem uma notícia que supostamente desculpava o Governo pela tragédia no aeroporto de Congonhas.
Como a Ministra queixa-se de ser sexóloga, deve conhecer o teor total do ditado popular: “Se o estupro é inevitável, relaxe e goze”. Assim, revela-se o seu verdadeiro desejo.
Como o Secretário de Segurança é um jurista respeitado, deve saber a exata medida do nível de insubordinação causado pelo seu destempero verbal.
Os assessores presidenciais devem estar preparados para a repercussão do seu gesto transmitido em cadeia para todo o País.
Todos eles, por certo, têm consciência do quanto contribuíram para o desgaste do combalido prestígio da classe política brasileira.
Resta apenas recomendar que se tirem as crianças da sala na hora do noticiário político e que jornais e revistas de informação sejam lidos na calada da noite, de preferência no banheiro, com a porta trancada a chave.

Ilustração: Henfil

19 julho 2007

Convite

Clique na imagem para ampliar




18 julho 2007

Fonte


Teus sonhos não são enigmas.
Olha-os com calma:
Eles são a fonte dos enigmas.
Tua fonte.

Não busques, portanto,
o sentido dos teus sonhos.

Dorme, apenas.

E deixa que desfilem
teu mistério
no chão do sono.
Ilustração: Klimt, Serpentes de Água II.

17 julho 2007

Raccolta - Colheita



Raccolta

Nella terra silenziosa degli affetti
fu piantato un seme piccolo di parola.
Voci amorevoli
bagnarono il suolo dove spuntò
il nuovo verbo,
bello
succulento.

Oggi,
quelli che hanno fame di poesia
si siedono vicino all'arbusto
già frondoso
e dividono il frutto generoso
della parola parlata.

Tradução: Rosella - http://bottega27.splinder.com/post/13114210

Colheita

Na terra silenciosa dos afetos
plantou-se um grão pequeno de palavra.

Vozes cuidadosas
regaram o chão de onde brotou
o verbo novo,
belo
suculento.

Hoje,
os que têm fome de poesia
sentam-se em volta do arbusto
já frondoso
e repartem o fruto generoso
da palavra plantada.


Ao Projeto Palavra Plantada que há dois anos alimenta aos que têm fome de poesia.

13 julho 2007

Limpo


A lavadeira caminhava em minha frente. O braço esquerdo apoiava um pequeno volume de roupas coberto com um pano muito alvo. A mão direita segurava quatro cabides, cada um com uma camisa masculina. Todas limpas. Podia imaginar o cheiro bom do tecido lavado e passado com cuidado.
Não sabia de quem eram as roupas. Não podia imaginar o teor do trabalho que as havia sujado. Nem me interessava. Olhava apenas com carinho para aquela mulher que exibia na rua o resultado do seu trabalho. E me senti confortado com a sua existência, mesmo sabendo do quanto seu esforço era mal recompensado.
Essa é uma das injustiças do mundo: os que limpam ganham muito menos do que os que sujam. E é muito mais fácil sujar. Basta ver o pouco esforço que requer jogar uma lata de cerveja pela janela do carro, difamar injustamente um semelhante, fraudar uma assinatura, assaltar um aposentado na porta de um banco.
A operária do limpo ia entregar o fruto do seu trabalho sabendo que na outra semana tudo estará sujo outra vez. E ela novamente limpará. Há uma lição a aprender aí, por quem se ocupa com a limpeza do mundo. É um trabalho sem descanso, pois tem mais gente sujando que limpando.

Ilustração obtida em http://josesobrinho.planetaclix.pt/profissoes/lavadeiras.html

27 junho 2007

Gente de outra laia



Tenho muitos amigos, conheço muita gente. E me alegra muito poder afirmar que pouquíssimos, muito poucos deles se enquadrariam minimamente na rubrica de ladrão ou corrupto. Defeitos, sim, eles têm muitos. Uns bebem demais, outros gostam de puxar briga, alguns não param no emprego, outras gostam de mandar no marido. Mas no fundo é tudo gente boa. Mesmo os poucos que entraram na política ainda não me deram motivos para romper a amizade.
Falo isso para me defender da enxurrada de notícias ruins que encharca meu humor nos últimos dias. Não, insisto, as pessoas que conheço não são dessa laia que rouba, corrompe, extorque, trapaceia. Recuso-me categoricamente a aceitar como normal esse tipo de comportamento delinqüente. Meus amigos não são assim. As pessoas que encontro na rua, na feira, no bar, na farmácia, também não se enquadram nessa categoria. É gente que dá duro, que paga imposto, que devolve o troco a mais, que espera na fila, que recusa o favorzinho ilícito.
Do pouco que conheço da alma humana, sei o quanto é difícil abrir mão dos nossos impulsos para levar a melhor, sem considerar os direitos dos nossos semelhantes. Sei o preço que pagamos para submeter nossos desejos individuais aos interesses da coletividade. Tem gente que só faz isso obrigado pela polícia. Outros precisam de um rígido código moral que os prendam por dentro. Alguns desenvolvem uma ética racional que conduz à solidariedade e ao respeito aos semelhantes.
Existem, pois, níveis de consciência em relação ao respeito devido ao bem comum. Mas o que essa cambada que nos tira o sono quer nos convencer é da normalidade de suas condutas. Não, meus amigos não são assim. A maioria das pessoas que conheço é de outra laia. Uma laia do bem, sem vocação para freqüentar a sessão policial que se mudou para a primeira página dos jornais.
Foto: Clube do Conto da Paraíba

25 junho 2007

Perdas e esquecimentos


O poeta Lúcio Lins perdia astrolábios. O poeta Antônio Mariano esquece guardas-chuva. Tristes, os poetas, fadados a viver entre perdas e esquecimentos. Por isso o poeta necessita dos sonhos para resgatar o que perde e esquece. Para João Cabral, O sonho é uma obra nascida do sono, feita para nosso uso. Uma coisa que pode ser evocada, explorada através da memória. “Um poema que nos comoverá todas as vezes que sobre nós mesmos exercermos um esforço de reconstituição”.
Território estranho, este, o do sono. Mais estranho ainda por se localizar dentro de quem dorme. E, dormindo, contemplamos o chão do sono, a verdadeira pátria do estrangeiro, desse outro estranho a quem assistimos desde o nosso posto de contemplação. Daí, para Cabral, a nostalgia do mar alto, das águas profundas que trazemos de volta ao acordar. Que estranho este que somos nós.
Num dos seus raros momentos de modéstia, Freud disse: “seja qual for o caminho que eu escolher, um poeta já passou por ele antes de mim”. E se aproxima dos poetas quando diz que toda noite, o homem despe-se dos envoltórios que cobrem sua pele, despoja-se dos complementos que substituem as deficiências dos seus órgãos e renuncia à maior parte das aquisições da sua alma para assim, despido do que lhe é supérfluo, se aproximar do ponto de partida de sua existência: o ventre materno.
O homem que dorme, portanto, volta-se para a noite primordial, silenciosa e calma, da qual foi definitivamente exilado. Todas as noites, o homem pode ainda matar as saudades desse território perdido. Mas vendo-o apenas de longe, olhando para o seu chão sem tocá-lo. É desse chão que ele vê brotar as imagens dos seus sonhos, recados enigmáticos da sua pátria originária para a qual sabe que nunca voltará.
Desta forma, todos nós somos poetas. Fadados a viver entre perdas e esquecimentos. Resta-nos apenas ficar atentos aos sonhos e poemas que a noite trama dentro de nós.

22 junho 2007

Os neutros




Fui comprar xerém pra fazer angu. Num mercadinho no meio da feira, bisbilhotei uma conversa entre dois rapazes que me atendiam. Criticavam um terceiro por ser “aquela coisa” e ao mesmo tempo pertencer a uma seita neopentecostal. Não podia. Só se fizesse como um outro que se arrependeu do seu pecado e agora era neutro. Belo eufemismo. Foi preciso comprar xerém para aprender que os enrustidos agora são neutros. Como se alguém pudesse ser indiferente à sua sexualidade.

A conversa entre os rapazes do mercadinho não era casual. Ela apenas refletia um movimento local contra o homossexualismo, com out-doors, passeatas e matéria paga em jornais alertando contra o perigo da aprovação no Congresso de uma lei que criminaliza as expressões de preconceito contra as opções sexuais. Como não poderia deixar de ser, o Arcebispo enviou uma carta de apoio à iniciativa dos concorrentes.

Para engrossar o caldo dos preconceitos, um Secretário de Estado, no meio de um seminário contra a violência, reclama que uma mulher, agora, “por qualquer tapinha, vai querer ser sustentada pelo Estado”. Este é o argumento da autoridade contra a manutenção de casas de acolhimento para mulheres vítimas de violência. Aproveitou ainda a oportunidade para declarar que a “homossexualidade é antinatural, fruto de famílias desestruturadas”.

Na secular parceria entre Igreja e Estado, são sempre os membros mais frágeis da sociedade que acabam nas fogueiras, nas masmorras ou na execração. Quando viu seus livros queimados pela turba nazista, Freud comentou com ironia que a humanidade havia progredido muito. Antes, seria ele a arder na fogueira. Tentando ser neutro, não podia ou não queria antever o destino que mais tarde seria dado a muitos de sua etnia.

O rosnar que se avoluma pode muito bem ser o anúncio de ações mais efetivas de discriminação contra os homossexuais. O que exige de cada um de nós uma clara tomada de posição. Aqui, como em tudo na vida, não há lugar para a neutralidade.

Foto obtida em www.overmundo.com.br - autor não identificado

17 junho 2007

Minhas ruínas




Desde que me mudei para este apartamento, decidi não ter mais saudade. Ele é pequeno. Não suporta o monte de lembranças que acumulei nesta vida já grisalha.
Uma a uma, vou apagando as imagens dos lugares por onde me gastei. Meu HD não tem espaço para tanto arquivo. Grande invenção esta tecla de deletar.

Como vêem, decidi aderir à contemporaneidade. E ser contemporâneo inclui não ter passado. Não existe, portanto, nunca existiu, a casa de onde eu vim de mala e cuia, deixando lá tudo o que acumulei nos últimos anos. Alguns livros, muitos discos e um amor também fora de moda.

Pela ordem, resolvi me livrar também das casas onde nasci, me criei, cresci e me fiz homem. Esta última não deu muito trabalho, pois já não existia de fato, demolida que foi, junto com todo o quarteirão, para dar lugar a um supermercado. As outras, nunca mais as vi. Devem ter tido destinos semelhantes. Neopentecostais, provavelmente, hoje esbravejam aos céus em espaços superpostos aos que foram meus.

Para fazer o serviço bem feito, joguei fora também as praças, os cinemas, os bailes, os campos de pelada, os bares, as salas de aula, todo e qualquer lugar antigo que possa roubar o exíguo tempo que decidi ocupar com novidades.

Grande invenção esta tecla de deletar. Deixou minha memória limpa de todo entulho que me ligava ao passado. Mas o que é, verdadeiramente, o passado? O que não se passou, mas fica, é passado? O que não aconteceu, mas dói, é lembrança?

Uma casa em ruínas insiste na memória, só porque uma moldura pendurada na parede da sala da minha infância a guardava como a um quadro precioso. E mais fica marcada porque naquela mesma sala ouvia-se no rádio uma novela chamada A casa do ódio. Quando a sala estava vazia, eu passava com medo pela gravura, pois, para mim, aquela era A casa do ódio.

Agora, quando nenhuma casa mais me resta na memória, restam estas ruínas de uma casa que não foi minha, mas que está entranhada em mim. Resta este ódio que nunca senti por ninguém, nem ninguém sentiu por mim. E o que eu quero e não vou nunca conseguir é voltar para aquela casa antes das ruínas. Para saber quem lá vivia e porque se odiavam. Saber se lá vivi e se lá me odiavam. Saber porque estas ruínas resistem ao meu projeto de desmemoriamento e insistem em me lembrar deste sentimento ruim, o único que ficou de todos os que feriram minha carne.


Clube do Conto,15.06.07

Imagem obtida em www.brasilvision.com.br

09 junho 2007

Ao Pó


Tu és pó e ao pó voltarás. Disse isto em frente ao espelho da penteadeira, já com a esponja de pó de arroz pronta para passar no rosto. Demorou-se um pouco com a mão suspensa, resignada com o tempo que se recusava a entrar também em suspensão.

Quem disse que não se pode ver o tempo? Ela o via ali, em sua frente, refletido no espelho oval do móvel antigo. O tempo tinha a sua cara. Ali estava escrito o passar das horas, dias, anos, décadas de uma vida às vezes bem vivida. Ali também estavam os traços de outras vidas, herança confirmada pelos álbuns de fotografia.

Olhava o tempo em sua frente sem remorsos. Tentou lutar contra ele e perdeu. Gastou fortunas com cremes milagrosos. Desperdiçou safras de pepino em rodelas. Paralisou-se com litros de botox. Chegou até pegar o número do cirurgião plástico. Mas não passou daí.

Olhava agora de frente para o tempo. Até gostava um pouco do que via. Cada marca daquela era uma letra do poema que o tempo escrevera no seu rosto. Não queria apagá-lo, voltar a ser uma folha em branco.

O que não precisava era que o poema fosse exposto nos mínimos detalhes aos transeuntes. Um pouco de mistério nunca fez mal a ninguém. E para isso tinha o bom e velho pó de arroz.


Clube do conto, 08 de junho de 2007.

30 maio 2007

Raccolta - Colheita



Raccolta

Nella terra silenziosa degli affetti
fu piantato un seme piccolo di parola.
Voci amorevoli
bagnarono il suolo dove spuntò
il nuovo verbo,
bello
succulento.

Oggi,
quelli che hanno fame di poesia
si siedono vicino all'arbusto
già frondoso
e dividono il frutto generoso
della parola parlata.

Tradução: Rosella - http://bottega27.splinder.com/post/13114210

Colheita

Na terra silenciosa dos afetos
plantou-se um grão pequeno de palavra.

Vozes cuidadosas
regaram o chão de onde brotou
o verbo novo,
belo
suculento.

Hoje,
os que têm fome de poesia
sentam-se em volta do arbusto
já frondoso
e repartem o fruto generoso
da palavra plantada.


Ao Projeto Palavra Plantada que há dois anos alimenta aos que têm fome de poesia.

De Noite


Ela era De Noite, como eram De Fátima, Da Guia, Das Dores, Dos Prazeres.
Ela era De Noite, como eram as corujas, os morcegos, os bacuraus, os pirilampos.
Só saía de noite, como a lua, as estrelas, o lobisomem e as almas penadas.
Era De Noite quem passava agora, vinda não se sabe de onde. Era De Noite que já ia longe, não se sabe pra onde, não se sabe pra quem.
Era De Noite que ele queria. Era De Noite que não o queria, que passava por ele sem olhar, deixando um rastro de cheiro de carne negra. Que era negra, De Noite.
Negra ficou-lhe a vista, turvada pela ânsia da noite que morava no canto mais escuro do corpo de De Noite. Do corpo que sumia fundido com a noite.
DE NOITE, DE NOITE, gritava para as casas pesadas de sono.
De Noite, De Noite, soluçava para dentro de si, na mais completa escuridão.

Clube do Conto, 30.05.2007

Foto obtida in ribeiranegra.blogspot.com/2006_09_01_archive.html

20 maio 2007

Paralelas



Ela ia por um lado da calçada.
Ele ia na calçada do outro lado.

Ela de terninho e salto alto.
Ele de tênis, jeans e camiseta.

Ela olhou para ele invejosa.
Ele olhou para ela com cobiça.

Ela olhou o relógio e teve pressa.
Ele viu, pelas sombras, que era cedo.

O sinal de pedestres ficou verde.
O desejo dos dois ficou maduro.

Ela pisou na faixa com cuidado.
Ele fez da calçada um trampolim.

No rio sem nexo dos corpos mergulharam
dois corpos que se buscam e se erram.

O que tentaram fazer foi proibido
Pelo atropelo da humana correnteza.

E o que tentaram dizer foi abafado
pelo carrinho de CD pirata.

E cada um foi arrastado ao lado oposto,
vazio do objeto desejado.

Ele pediu com a mão uma promessa.
Ela acenou adeus e foi-se embora.

Já tinham dado na curta caminhada
Todos os passos do amor que o amor passa.


Ilustração:Av. Paulista, 1891. Aquarela sobre papel de Jules Martin, in http://www.webwriter.jor.br/

15 maio 2007

Nudez








Um dia cairá de teus ombros
o manto da memória.

Despida de ti,
entrará tua alma na mansão dos mortos
ao derradeiro som do remo de Caronte
que volta
para apagar os teus vestígios pelo mundo.


Imagem obtida em www.codexart.net. Autor não identificado.

13 maio 2007

Porteiros do inferno



Em 1960, o artista plástico Jackson Ribeiro ganhou uma bolsa do Governo da Paraíba para aprimorar sua arte na Europa. De volta, para pagar sua dívida com o Estado, criou uma escultura em ferro, sólida e imponente, que foi instalada em 1967 num canteiro entre um templo batista e uma faculdade de filosofia. Logo, o escritor Virginius da Gama e Melo batizou a obra de Porteiro do Inferno, por ter, sabe Deus como, encontrado alguma semelhança entre a peça e o tenebroso Cérbero.
Pela mesma época da inauguração do monumento, ocorria o Concílio Vaticano II, em que a Igreja Católica se abria para o mundo contemporâneo, tendo como uma de suas decisões o uso das línguas vernáculas em seus ofícios. Mas aí aconteceu uma coisa curiosa. Todo mundo se lembra que no “Credo dos apóstolos”, o antigo texto em latim descendit ad infernos, era traduzido por nossas mães, quando rezavam o Terço, pela expressão "desceu aos infernos". Seguindo a orientação do Concílio, o inferno do Credo foi substituído por mansão dos mortos. De uma forma ou de outra, o inferno sempre foi um postulado religioso e nem o Filho de Deus teria escapado de conhecê-lo, ainda que numa curta estada de três dias.
Voltando ao nosso Porteiro, depois de trinta anos postado entre a fé e a filosofia, foi retirado para restauração e nunca mais voltou ao seu antigo posto. Dizem que foi pressão da Igreja Batista, que em seu lugar pretendia construir um monumento à Bíblia. Ficou enferrujando num depósito da Prefeitura de João Pessoa até ser transferido para o Espaço Cultural, depois da morte do autor.
Coube à atual gestão da Prefeitura devolver o Porteiro às ruas da Cidade. Tentou colocá-lo em um cruzamento entre os bairros do Cabo Branco e do Altiplano. Veio o pároco local e conseguiu expulsar o Porteiro da sua encruzilhada.
O inferno astral da escultura parecia ter chegado ao fim com a sua instalação num espaço em frente à Universidade Federal da Paraíba. Ali, pensava-se, a cultura e a ciência o protegeriam das investidas da intolerância. Ledo engano. O presidente da Associação dos Moradores e Amigos do Castelo Branco, bairro onde se localiza a Universidade, fez um abaixo assinado junto à paróquia e igrejas evangélicas da localidade para que a Prefeitura expulse o Porteiro do seu último endereço.
Se esses supostos representantes do povo e de Deus tivessem um pouco de cultura e menos má fé, saberiam dizer aos seus associados e fiéis que Cérbero, o porteiro do inferno da mitologia grega, era encarregado de impedir a fuga dos que já se encontravam lá dentro. Pois ninguém, de posse de seu juízo, desejaria entrar no inferno por livre e espontânea vontade.
É fácil, pois, revelar quem são os verdadeiros porteiros do inferno. São todos os líderes comunitários e religiosos que impedem a qualquer custo que as pessoas fujam das caldeiras da ignorância e da intolerância onde cozinham o caldo negro com que alimentam seus sonhos de poder e vaidade.

08 maio 2007

Fúcsia


Acordei de manhãzinha, ainda madrugada. E como não queria sair da cama, peguei o novo livro de poemas de Vitória Lima para ler. Os olhos sonolentos se ofuscaram com a cor que escapava do título do livro: Fúcsia*.
Mais do que uma cor, fúcsia nomeia um livro sobre uma cor. Mas apenas um poema em todo o livro é dedicado a esta cor:

da paleta dos jambeiros
sai o fúcsia que
pinta & borda
as calçadas dos setembros.

Portanto, não é por conta deste belo e conciso poema que o livro se chama Fúcsia. Mais do que um livro sobre uma cor, Fúcsia é escrito sob a égide desta cor. Porque Vitória Lima é, ela própria, toda fúcsia. Para além do batom, Vitória é toda feita com esta cor que sai de sua paleta de palavras para pintar e bordar as calçadas por onde passeiam nossos sonhos.
Como já disse, li o livro de manhãzinha, fim de madrugada. Ainda em estado de sono, os poemas foram se moldando àquele clima denso dos restos de sonhos e se misturaram com eles. Saí da cama com o livro flutuando entre as paredes que protegem os sonhos e com eles se fechou quando tive que me declarar desperto. Agora, sei que seus versos estão dentro de mim, irmãos dos meus sonhos, prontos para despertarem sonâmbulos, quando mais uma vez for dormir. E meus sonhos terão a cor fúcsia.

*Edições João Pessoa: Linha D’água, 2007.

06 maio 2007

As grandes decisões


Acompanhemos aquele homem que caminha pela praia. Veja que não falei que ele anda ou passeia. Caminhar, hoje em dia, na praia ou em qualquer outro lugar, tem um sentido preciso de prescrição médica. Seu colesterol está alto, você precisa caminhar. A ordem está dada. O problema é tomar a decisão de cumpri-la. Segunda-feira começo, diz o homem, seguro dessa primeira tomada de posição. O próximo ponto a decidir é qual a segunda-feira em que começará.
Mas se já o estamos vendo caminhar é porque, de uma forma ou de outra, tal decisão já foi tomada. Precisamos agora acompanhá-lo mais de perto, pois a qualquer instante terá de tomar uma das mais difíceis decisões de sua vida: girar o corpo e fazer o caminho de volta. Quem caminha só, sabe o quanto é difícil decidir o momento e o lugar dessa meia-volta. Isto porque não há nenhuma convenção, nenhum acordo, nenhum condicionante exterior à decisão. Neste momento o homem está só e inseguro. O seu olhar para os circundantes é de puro desamparo.
Chamo agora a atenção para a desenvoltura com que os homens públicos tomam suas decisões. Vamos exterminar os judeus. Vamos invadir o Iraque. Vamos confiscar a poupança dessa cambada. Vamos elevar a taxa de juros. Vamos fazer caixa dois e mentir para esses otários nos elegerem novamente. Diferentemente do nosso caminhante da praia, o homem público nunca está só. Há sempre um grupo interessado em se locupletar com a sua decisão. Outra diferença é que suas decisões nunca o implicam pessoalmente. Ele não é judeu, não vive no Iraque, não é burro para ter poupança em banco nacional, há sempre um jeito de se ganhar alguma coisa com a inflação e, se não for reeleito, haverá sempre um lugar para ele e seus afilhados em alguma estatal.
Só e entregue à angústia de sua decisão, o homem da praia tem um privilégio que nenhum homem público jamais desfrutará. Pelo menos ali e então, ele prova a liberdade de decidir sobre o seu próprio destino.
Foto obtida no contecomigo.uniblog.com.br

04 maio 2007

A arte do cuidado



Você pode estudar muito e se tornar um bom médico, um ótimo psicólogo, um excelente enfermeiro. Mas não tem livro que ensine você a cuidar dos outros.
O cuidado é uma arte cada vez mais rara entre as pessoas. E quase inexistente entre os profissionais da saúde. Uns alegam falta de tempo. Outros se bastam com sua competência técnica. Outros ainda se deleitam sadicamente com o poder que exercem, aumentando deliberadamente o sofrimento alheio.
Considero-me privilegiado quando encontro quem cuide de mim para além de meus achaques físicos. Quando sinto que a escuta ultrapassa a fronteira da minha anatomia e suas mazelas e se abre para toda a dimensão da minha existência.
Estou tocando neste assunto porque hoje é o aniversário de uma dessas artistas do cuidado. Uma que, antes de bisbilhotar sobre os estragos do tempo e do mal uso nesta frágil carcaça, abre-me um sorriso que me assegura que cuidará de mim, seja lá o que eu tenha feito de ruim com o meu fígado.
Alguns a chamam de Doutora Fátima. Eu me reservo o direito de chamá-la de Madame Duques. De um modo ou de outro, é a melhor pessoa que me ocorre chamar quando estou precisando de cuidado.

Foto retirada do blog "Andreye World".