06 setembro 2008

Força estranha



Ela me ataca por dentro. Toma meu corpo de assalto. Não importa onde eu esteja. Na cama, na mesa, em frente ao computador. Não se anuncia. Assume o comando dos meus músculos, dos meus ossos, das entranhas. Obriga-me a movimentos desordenados, a estertores, solavancos, caretas e contorções. Deixa-me os olhos arregalados e turvos de lágrimas. O corpo todo dói.
A noite é o seu tempo de rainha. Odeia me ver dormir. Mas a luz do dia não inibe seu exibicionismo. Prefere os momentos em que preciso de calma e concentração. Tira-me do sério.
Não entendo o que ela diz, essa estrangeira. Emite sons de fera enlouquecida. Grunhidos de monstro de outro mundo. Nada nela faz sentido. Não sei a que vem, nem por qual motivo vai embora.
Meu pânico se antecipa ao seu ataque. Já me dou por vencido ao menor sinal de sua presença. Não adianta qualquer reação. Por isso continuo escrevendo, mesmo sabendo que agora mesmo ela vai entrar em erupção.
Não suporto mais esta tosse seca.

Ilustração obtida em: nautilus.fis.uc.pt

Um comentário:

carbureto disse...

Prezado Ronaldo Monte,

Comprei teu livro semana passada na Nobel de Osasco; A memória do fogo. Maravilhoso sente-se o ardor de teu livro nos incandescer sob a pele. Sente-se o álcool e o gosto feroz das frutas. Envio em abaixo alguns poemas meus.

Poemas de Mauro Jorge editados na revista Cult de Outubro de 2004.

Apresentação por Cláudio Willer

(...)Já a leitura de Mauro Jorge Santos nos faz respirar outros ares. Seu movimento é ascendente. Um místico, dirão. Sem dúvida: assim como Jacob Boehme enxergava o Cosmos em um prato de estanho, ele vê o universo, a Presença, em acordes de John Coltrane. É poesia de aproximação ao sagrado, experimentado como algo ofuscante. Multiplica o famoso todo anjo é terrível de Rilke: É em carmim/ urdido/ que teu olhar aterra. Mas seu Anjo das tormentas também poderia ser aquele de Paul Klee, comentado por Walter Benjamin, que, de costas, conduzidopor um vendaval, vai contemplando as ruínas da História.

O ensaísta italiano Roberto Calasso abre seu recente A Literatura e os
Deuses (Companhia das Letras, 2004 – a edição original é de 2001) com
a seguinte observação: Os deuses são hóspedes fugidios da literatura.
Deixam nela o rastro de seus nomes. Mas logo a desertam também. Toda
vez que um escritor esboça um texto, tem de reconquistá-los. Notem que
Calasso se refere a os deuses; aqueles do paganismo, da realidade
impregnada pelo sagrado. Sua reaparição equivale a experiências de espanto, de uma luz que cega, como em Hölderlin, da manifestação de outra linguagem, pura forma, como em Mallarmé. De modos diferentes,
Rafael Edler e Mauro Jorge registram a fugas dos deuses, e a
reparição de seus rastros. Na próxima edição, outros poetas e outras dicções. Não esqueçam que estamos colocando extras de cada poeta selecionado no site de Cult. (Cláudio Willer)



MAURO JORGE

Via Lasciva

do interior da terra inculta
o apunhalado
atravessa a praça principal

exausto e ofuscado
de sonhar
com o Canto da Iniciatriz
que enlouquece
ao ouvido expectante

esculpido pela agonia
a ira toma sua face
as mãos pesam
– busca inútil e ígnea –

cães a sua volta
sem motivo
voltam-se uns contra os outros
o ar é quente
irrespirável
inflama tudo que o cruza

- danação no encalço -

no pináculo da sombra,
cala-se o apelo do vento

lágrimas, talvez,
mão destra não enxuga

adentra a comunicação total das almas

"A alma, desprevenida, canta
e só tu, meu Deus, me concedes a inocência!"
(Ruy Cinatti)



Anjo das tormentas

"eu sei atravessar as fronteiras das coisas" (Cesariny)

os pescadores fecham
a saída e a entrada
da aldeia

encurralam o anjo
mas ele invoca os ventos

os pescadores são muitos
mas não acuam o anjo agora
não por restarem poucos
mas por ninguém ousar
aproximar-se do mistério de sua fúria

o anjo era o terror de cada um
- um terror incógnito -
como uma voz sem corpo
deslocada
que chama
ao lado contrário do ser



Harpa-cinematógrafo


para Sugawa (pelo calor negro de sua noite)
I

na janela

toco a imagem
música en train de se faire

a emulsão lápis lázuli,
o sol obscuro, interior, filtrado pelas romãs

um licorne
gravita
na rosa dos ventres

os pólos extrusivos da alma

correnteza subterrânea
vertigem a partir dos pés

brilha, basta, tacitamente.

púrpura e violeta visual

As tintas, as mandalas e a treva.

É em carmim
urdido
que teu olhar aterra

II

reluz nos olhos
o ouro ensangüentado
do sol

gume em flama

a liberdade primeira
é renascer para a guerra



mistério da mortificação


um ébrio
que quanto mais bebe
menos se comove
disciplinado
volta à casa ao pôr-do-sol
o quadro que Hopper
não pintou:

a reflexão bêbada
das traições, da solidão rasgada

relembra a parte que dói;
a parte que explode



fronteira


Coltrane não tornou, em sua obras finais,
os ângulos ásperos
somente pela imensa dor nos dentes
mas
por uma confluente ascensão
nos dedos
no ataque
- o sangue, a saliva e o ar -

elipse-dínamo e um apelo aberto
entre ser, criação e a Presença




Véspera dos oráculos bélicos


corte ao meio as palavras várias vezes
sinta a fome de silêncio, tranqüila no esôfago
mantenha os sinais ilegíveis
frature-os

sob a lua minguante
conflua
às especiarias do espírito

na polissemia das estradas espinhosas;
o oásis ofuscado
pelas mãos que constroem o escuro

um homem não precisa
de nada além desta fronteira de fogo

divida a seiva dos apóstolos,
fale ao luminoso augure
tua vereda da aurora

a palavra surge para luzir
e libertar dela mesma
fogo solitário fechado em cruz
fronteira celeste

quando a Graça se vai
condoer é apenas entender



espelho de Sophia; pressentimento crepuscular

"punhais
O que brilha ao sol da batalha.
O do assassino, tinto de sangue.
E o olhar da minha bem amada."
(O Jardim das Carícias - tradução de Adalgisa Nery)
segui a trilha de teus vestígios para a noite

viajei por tuas estradas, através da máscara de teu olhar,
conheci teus convivas e teus tiranos
memorizei a vibração e o ritmo de tua conversa

tua não eras tua alma
que não se revelava no cotidiano,
- enigma noturno -

ali teu esboço:
teu corpo deitado
dilatado

um eco; sombra de vôo indecifrável
pois teus motivos
não são tua presença




Antes que o vento mude...

I
"Desconheces que sou grande
Porque eu vim da terra pura que pisas
Porque sou a terra que amas."
(Adalgisa Nery)

Não é na tua respiração
ou na tua mão a fremer

é no contato dos olhos em transe
que mergulho,
no globo curtido em sal
- lágrimas que guardamos -
coriscos de sangue
lápis-lazuli sobre pérola em Graça
pássaro ciano no cerco de fogo

seios que sabem à seiva das oliveiras
abismos maturados em insônia
vertem toda inteligência dos pesadelos
todo artesanato de heresia e traição

confluência das Fortunas
os metais estão abertos
circulam por nossos corpos ininterruptos

olhe aqui
afunde teus dedos na terra
beija a convulsão do solo sangrento em que nasci
sinta em um minuto de luta
o extremo dos corpos
- fruto luminoso entre céu e terra -

II

mosto no rosto,
pétala altiva
que alço como cálice

convida-me
para a prospecção dos fogos,
cortesã
dos olhos raiados de aurora,

eu te peço:
- preserva esta desesperada graça
este nome que enlouquece
este silêncio que nos consome

este sopro em eco entre nós
que é só o que me redime
o corpo aberto, grave e devastado

- poesia como súplica,
pedido de redenção -


Mauro Jorge Santos é de São Paulo. Nascido em 1974.
Publicou Casa de Veraneio & Cobra Coral (2000) e Cão sem rosto no
lado B do horizonte (2003), ganhador do I Concurso Universitário Nacional de Literatura.