16 dezembro 2008

O olhar como gesto




Está cada vez mais difícil olhar o mundo com nossos próprios olhos. Antes de olharmos o mundo, somos doutrinados a ver apenas o que os meios nos mostram. E os meios nos treinam para ver um mundo ruim, onde a ganância e a maldade dirigem todas as ações humanas. Se quisermos ver o mundo, é preciso, antes, limparmos os olhos de toda a cinza que turva a nossa visão.

Sair para a rua, conversar, andar por aí de olhos e ouvidos abertos. Fugir do lugar comum das opiniões consagradas. Não deixar passar a frase feita que nivela a todos pela medida mais rasa. Não, brasileiro não é preguiçoso. Nem todo político é ladrão. Não, as periferias das cidades não são povoadas por marginais. A grande maioria é gente solidária e batalhadora. Não, as pessoas não gostam de pornografia. Elas se extasiam na presença da poesia.

Superar o lugar comum dos olhares requer uma disposição ao espanto do novo. Requer esforço que nos arranque do ponto de vista caduco e nos ponha noutra posição de visada. Ver como os artistas. Os poetas e os pintores. Abandonar o olhar passivo que recebe o mundo que nos mostram. Exercer o olhar como gesto. O que inventa o mundo enquanto vê.

Ilustração: Flávio Tavares

2 comentários:

Andréia Alves Pires disse...

muito bom! :)

Eusébio Segundo disse...

Caro Ronaldo,

Parabéns pelo belíssimo e reflexivo texto... há pessoas que ainda preferem a passividade que o olhar crítico, desbravador...