09 novembro 2008

Ao animal que vai morrer


Há uma certeza inabalável no olho do animal que vai morrer. Vejam o boi no matadouro, o rato na pata do gato, o homem à margem do Hades.
Há um certo ar de nunca, um quê de último ato, uma antecipação da falta que dali a pouco se fará.
É obsceno se opor a esta certeza. Qualquer piedade é pornográfica. O Animal que vai morrer não nos pede nada. Ele quer apenas que fiquemos aqui, no cais dos sobreviventes, passivos ao desatar dos nós que deixarão fluir a barca de Caronte.
Há uma certa urgência no olho do animal que vai morrer. Ele tem pressa em apagar de vez a visão de nossas faces constritas e piedosas. Pois é esta visão que o impede de nos esquecer e se entregar por inteiro à novidade do nada.


Imagem obtida em : quadradoredondotriangular.blogspot.com

4 comentários:

Anônimo disse...

Belíssimo texto. Quando a gente pensa que um blog é bidimensional, tu apronta e quebra uma parede para mostrar o infinito. A possibilidade de pensar a morte, seja em qualquer aspecto, não é para todos. E o texto incomoda - no bom sentido.

Clarissa Marinho disse...

Muito bom o texto,muito bom mesmo!Conseguiu sintetizar e ao mesmo tempo ampliar uma visão da morte.Mas acho que não conseguiria não ter pena,do bicho a morrer,ou se fosse um homem! rs

Gerson Guelmann zs disse...

Li e reli inúmeras vezes. Penso que se repetir o processo uma centena de vezes ainda assim não chegarei ao final da beleza.

Gerson Guelmann zs disse...

Agora constato o porque: 1947. Ótima safra, modéstia às favas.