31 outubro 2009

Os gemidos de Dôra



Tem gente que sai para se distrair, outros vão às compras ou ao trabalho. Dôra sai para ouvir a rua gemer. E sabe o que Dôra faz com esses gemidos? Escreve livros com eles. E não é somente o novo livro de Dôra que guarda os gemidos do mundo. Desde “Arquitetura de um abandono”, de 2003, passando por “Preces e orgarmos dos desvalidos”, de 2005, até “O beijo de Deus”, de 2007, Dôra não faz outra coisa além de nos contar do sofrimento que vê e escuta pelas ruas.


Mas repare que Dôra não fala de gritos, uivos ou impropérios. Ela se faz portadora do sofrimento sofrido em surdina, nos becos, nos cômodos apertados das casas de vila, nos banheiros imundos, na solidão das noites suarentas.


“Os gemidos da rua”, o mais recente livro de contos de Dôra Limeira, tem uma catinga azeda das valetas por onde escorre a podridão dos detritos humanos. Cada personagem de Dôra geme como a quem se espreme um carnegão. Sem escândalos, pois não se espera que a mão pesada alivie a força do aperto. Geme-se apenas, com a resignação de quem sabe que a dor vai piorar.
Dôra dividiu os 59 contos do seu livro em três partes: Transgressão, Desvio e Imtimidade. Não consegui adivinhar o critério que ela usou para tal divisão. Peguntem a ela. Pois, para mim, em qualquer parte em que se abra o livro, encontrar-se-á em cada personagem as qualidades da transgressão, do desvio e da intimidade. Isto porque, no meu fraco entender, estas são qualidades facilmente visíveis na própria Dôra.


Dôra cultiva a idossincrasia de usar recorrentemente em seus contos o verbo “adentrar” nos mais diversos modos, tempos e pessoas. Em quase todos os seus contos o verbo cabuloso está lá, às vezes mais de uma vez no mesmo conto. Um psicanalista apressado diria que o verbo adentrar teria uma significação fálica, revelando um desejo de agressão que teria como suporte a pulsão de morte em atividade nos porões do psiquismo dôriano. Limitado ao meu humilde papel de apresentador do livro, revelo apenas minha suspeita de que Dôra usa “adentrar” para se vingar de alguém que um dia disse que o tal verbo soava inadequado na boca de uma personagem que vivia num lugar sujo e pobre. Acontece que o tal lugar era calcado no espaço em que a própria Dôra tinha vivido sua infância. E ela, Dôra, adentrava, sim, quando vivia ali.


Convido-vos, pois, a adentrar ao livro de Dôra Limeira. Antes, porém, avisem aos familiares e amigos mais próximos que não estranhem qualquer mudança no seu modo de falar ou de andar pelas ruas. Seguramente, vocês não serão os mesmos quando saírem, gemendo, da leitura de “Os gemidos da rua”.

João Pessoa, 30 de outubro de 2009
Ronaldo Monte.

26 outubro 2009

Bolha


Definitivamente, ele não podia vir. No entanto, mais ao menos na hora dele chegar, uma menina soltou uma bolha de sabão que flutuou sobre nossas cabeças e definiu o tema do próximo encontro.

Ronaldo Monte – Clube do Conto
Imagem obtida em: tutoriaisphotoshop.net

18 outubro 2009

Muito prazer, Malu




Veja, ilustre passageiro, o belo tipo faceiro que cochila aí ao lado. É minha mais nova neta, a Malu. Talvez eu devesse dizer futura neta, pois ela ainda está no quinto mês de gestação e o flagrante se deu na barriga de sua mãe, mulher do meu filho. Mas aí é que está um dos grandes problemas da humanidade: quando é que uma pessoa começa a existir?

Não quero perder tempo aqui com o problema sobre o início da vida, pois isso tem sido motivo para um desfile de discursos preconceituosos e pseudocientíficos, principalmente quando está em questão o direito ao aborto. Minha preocupação é bastante mesquinha e pessoal: posso considerar Malu como minha neta e começar a comprar coisas e fazer planos para ela, antecipando em alguns meses sua existência fora do ventre da mãe?

Vejam bem a situação atual em que estão as coisas: enquanto um projeto de menina se nutre, dorme e dá cambalhotas no exíguo espaço que lhe protege, um batalhão de adultos escolhe seu nome, borda esse nome em lençóis e toalhas cor-de-rosa, faz planos para os seus quinze anos e já pensa no que ela vestirá no baile de formatura. Em suma, já existe todo um presente e um futuro prontos para ela viver. Certos papéis já lhe estão destinados pelas condições de classe social e nível de informação de seus pais e adjacentes.

Enquanto isso, a futura Malu dorme, cresce e dá cambalhotas. Mas será que é de uma futura neta que estou falando? Ela já está aqui, determinando o que penso e escrevo. Essas meninas começam cada vez mais cedo a perturbar a vida a gente.

12 outubro 2009

O outro lado

Não tenho qualquer vocação para Polyanna e sei muito bem no que deu a fé inabalável de Anne Frank na bondade humana. Não é, portanto, de bondade que quero falar. É de um impulso muito mais primitivo na constituição do ser humano que o leva a arriscar a própria vida em defesa da vida de um semelhante. É algo ligado à preservação da espécie, valor mais alto do que a preservação do indivíduo.
O exemplo mais recente deste aspecto radical do comportamento humano foi dado pelos protagonistas do salvamento de uma mulher prestes a ser carregada com a sua moto numa enxurrada, na cidade de São José do Rio Preto, em São Paulo.
Quem viu as cenas pela televisão pode constatar o caráter impulsivo do comportamento dos voluntários. O próprio termo “voluntário” aqui se torna inadequado, pois não se trata de um tomada de decisão consciente, a partir da vontade individual. É um imperativo irrevogável que não considera os riscos da ação. Existe um semelhante em perigo e não cabe mais nada a fazer senão salvá-lo.
Estamos tão habituados às notícias sobre a violência entre os homens que somos levados a ver a nossa espécie como essencialmente destinada à destruição dos vínculos entre os semelhantes. É preciso que algo se eleve à condição trágica para que possamos ver a manifestação do instinto gregário que nos faz ainda resistir como espécie.
Não tenho, já disse, qualquer vocação para Polyanna, nem acredito incondicionalmente na bondade humana. Mas é muito bom ser lembrado, de vez em quando, que existe um instinto básico na minha espécie que permite um mínimo de esperança na construção de uma convivência solidária.

11 outubro 2009

Minh’alma é triste



Chamava-se André, mas gostaria de se chamar Casimiro José Marques de Abreu. Daria tudo para morrer tuberculoso. Daria a vida para ter escrito o poema Minh’alma é triste. Ah,como queria pegar da pena e escrever:
“Minh'alma é triste como a rola aflita
Que o bosque acorda desde o alvor da aurora...”
Ó, meu Deus, se Yolanda pudesse um dia ler no seu caderno de folhas pálidas a constatação metafísica de que
"Minh'alma é triste como a voz do sino
Carpindo o morto sobre a laje fria...”
Não, talvez Yolanda não gostasse muito dessa coisa pesada de mortos, talvez nem curta o carpir melancólico dos sinos. Seria melhor dizer que
“Minh'alma é triste como a flor que morre
Pendida à beira do riacho ingrato...”
André sabia muito pouco de Yolanda. E quanto mais queria ser Casimiro de Abreu, mais via sua musa sumir com a galera em busca dos embalos. André definhava, dormia mal, comia quase nada. Varava as noites com a janela aberta para ver a hora em que sua amada voltava, alegre, não sabia bem de onde.

“Dizem que há gozos no viver d'amores,
Só eu não sei em que o prazer consiste...”,
pensava André, sob a luz pálida da sala.
Em algum lugar do mundo nascem flores, pensava André, menos aqui, neste pedaço de terra esquecido de Deus, onde faz sol ou chove, chove a cântaros. Como queria viver (morrer) em outras plagas para poder dizer a Yolanda:
“— Eu vejo o mundo na estação das flores
Tudo sorri — mas a minh'alma é triste!”
A luz pálida do sol mandou Yolanda pra cama e o pálido André para seu velho exemplar de Primavera.


Ronaldo Monte - Clube do Conto - tema: Pálido

05 outubro 2009

Momento cultural






Se você quiser ganhar um jantar exclusivo com dois expoentes da cultura nacional, basta responder a esta singela questão: “o que você faria para conhecer a Joelma e o Chimbinha de pertinho?” É isto que está proposto num imenso cartaz nas lojas de uma das maiores cadeias de supermercados do País, com o título de “Momento cultural”. Não venha me dizer que sua formação cultural é insuficiente para reconhecer os seus prováveis futuros comensais. Chimbinha e Joelma são as estrelas da Banda Calypso. Dentre seus mais de 190 sucessos estão Doce mel, A lua me traiu, Deixa eu sonhar e Pra te esquecer.

Particularmente, não tenho nada contra a banda Calypso ou qualquer outro conjunto que ganhe seu dinheiro honestamente junto a um público imenso que curte, dança e canta suas músicas. A minha bronca é com os patrocinadores e divulgadores do tal “momento cultural”, pois iludem a clientela, vendendo como um momento de fruição estética um jantar entre um fã e seus ídolos.

Esta é apenas mais uma amostra de como a cultura vem sendo tratada pela midia. Os grandes jornais do País há muito vêm confundindo show business com movimento cultural. Colunas ditas culturais estão cheias de fofocas sobre Ivete Sangalo, Suzana Vieira e Dado Dolabela. Quando muito, anunciam uma peça caça-níqueis com um dos ídolos da última novela das oito. Com isto, livram-se da chatice do papo intelectual e das fotografias sem charme desses mal-encarados rodeados de livros e quadros que ninguém sabe o que querem dizer.

Um jantar de um fã com seus ídolos deve ser realmente um momento de muito prazer e emoção. Só não gosto que chamem a isso de momento cultural. Culturais mesmo são os momentos dos fins de tarde dos sábados quando me encontro com o Clube do Conto. São os momentos cada vez mais frequentes neste País em que muitos grupos se reúnem para produzir e divulgar cultura.

27 setembro 2009

Lembrança




Traga uma lembrancinha pra mim, ela pediu. Qualquer coisa simples que faça você lembrar de mim, ela falou, oferecendo a boca para a despedida.
Ele entrou no ônibus sabendo o cansaço que o esperava. Ia para longe, alto sertão, mais de doze horas de viagem. Cidade perdida entre serras. Ia ser difícil encontrar alguma coisa para ela.
O ônibus rolando pela estrada reta, hipnótica. O sol da tarde batendo de frente, ofuscando através do vidro fumê. Impossível dormir. O olhar compulsório não registrava nuances. Vastas planícies de vestes rasteiras e o horizonte de serras inalcançáveis.
Saiu no começo do dia, chegou no começo da noite. Um resto de luz teimando no poente, um resto de calor que cedia à frieza. A pousada em penumbra. A noite revirada na cama. A manhã que custou a chegar.
Com a manhã, os passarinhos. De onde vinham e para onde iriam tão logo o sol esquentasse? E as pessoas, onde estariam com suas vozes arrastadas e suas poucas respostas? E os bichos pequenos que não se mostravam, chispando entre as folhas ralas dos arbustos?
Era muita luz para o pouco a ser iluminado. A palavra agreste armou-se em todo seu sentido. Luz demais sobre quase nada. E este era o desafio. Forçar os olhos a ver o que a luz escondia. Inventar sombras. Criar movimentos.
Lembrança. Que lembrança levar para ela. Nada para comprar, nem pedir, nem achar. E estes olhos viciados aos contrastes chapados dos signos urbanos eram cegos para a beleza cantada pelos versos agrestes dos poetas.
Lembrança. Era isto que tinha para dar a ela. A lembrança dela o tempo todo enfeitando a paisagem impenetrável. Ela mesma impedindo que a paisagem se abrisse aos seus olhos. Era ela, a lembrança dela que o impedia de encontrar alguma coisa que levasse de lenbrança.
Foi isso que ele deu a ela. A lembrança dela o tempo todo ofuscando a visão, saturando a memória. Foi isto o que tentou dizer ao mostrar as mãos vazias e as retinas fatigadas com a imagem dela.

Ronaldo Monte – Clube do Conto da Paraíba.

Imagem obtida em:uni-adversidade.blogspot.com

17 setembro 2009

Sala de visita



Antigamente, as casas tinham sala de visita. Nem todas, é claro. Mas uma família de classe média tinha por obrigação ostentar uma sala de visitas. Geralmente, era o primeiro cômodo da casa e ali não se podia entrar a qualquer hora. Muitas delas eram trancadas a chave.
E não era qualquer visita que era recebida na sala de visitas. Os parentes próximos e os amigos mais chegados ficavam espalhados no terraço ou iam direto para a cozinha. Na sala de visitas, apenas certas visitas. Daí um certo alvoroço quando arrumavam a dita sala. Quem vai chegar?
Gralmente eram chatas as pessoas recebidas na sala de visitas. Gente de alguma importância, parentes distantes e cerimoniosos, mulheres eretas sorvendo sem barulho as pequenas xícaras de café.
As casas de hoje não permitem mais o luxo das salas de visita. Nos exíguos apartamentos, tipo já-vi-tudo, se entrar mais de quatro pessoas, alguém vai ficar em pé. Tanto melhor, pois nos livramos dos chatos e cerimoniosos. Em nossas casas, hoje, só entra quem nos quer bem. E os pequenos espaços nos dão a medida dos laços das nossas amizades.


Imagem obtida em: sedeieqblumenau.files.wordpress.com

10 setembro 2009

fotopoema




Foto de Ana Patrícia
http://www.flickr.com/photos/anap

02 setembro 2009

Index das cantigas




A presença das netas reestabeleceu aqui em casa o hábito de ouvir cantigas de roda. Por isso, de vez em quando fico pensando na mania recente de algumas “tias” em alterar certas cantigas, temendo que o teor de suas letras estimule tendências agressivas e politicamente incorretas nas nossas inocentes criancinhas. O exemplo clássico é a campeã de audiência “Atirei o pau no gato”.
Numa tentativa de contribuir para o novo “index librorum prohibitorum”, quero dedurar algumas modinhas que, no meu fraco entender, vêm há séculos pervertendo os hábitos e pensamentos dos nossos rebentos. Em primeiro lugar, denuncio a baixaria entre o Cravo e a Rosa. É coisa digna do programa do Datena. Sabe-se lá por quais motivos, o casal de engalfinhou em público debaixo de uma sacada, tendo como desfecho um ferimento de graves consequências no Sr. Cravo e a total destruição das vestes da Dona Rosa. Não bastasse o nível da agressão, ressalte-se ainda o total descaramento do casal, pois, no outro dia, a moça foi visitar o amante no hospital, reatando o caso amoroso entre suspiros e desmaios.
Caso menos complicado, mas nem por isso desculpável, é a má sina de um certo indivíduo que responde pelo nome de Sambalelê. Boa coisa o elemento andou fazendo, pois já levou uma surra, que o deixou doente e com a cabeça quebrada. E a turma ainda acha que ele precisa de umas boas palmadas. Outro cara que deve ser seu cúmplice, um tal de Bitu, quando chamado às falas, recusa-se a comparecer com medo de apanhar.
Se formos devidamente rigorosos e excluirmos dos cancioneiros de roda, além das cantigas claramente agressivas, aquelas que fazem alusão ao sexo nos mais diversos níveis (vide Terezinha de Jesus, a Pobre viuvinha, Desanda a roda, etc.) muito pouca coisa restará para ser cantada pelas nossas crianças. Então, para o alívio das “tias” politicamente corretas, elas estarão totalmente liberadas para se entregar ao universo poético do funk e do forró eletrônico.


Imagem obtida em: brincadeirasdecrianca.com.br

29 agosto 2009

A quem interessar possa




São dez e pouco da manhã do sábado. A feira está feita, as pequenas providências tomadas, adiou-se o que podia ser adiado. Daqui a pouco abriremos os trabalhos, qualquer que seja o quorum. Se der tempo, apareça.

23 agosto 2009

Manhãnzinha de nada




É uma manhã simples de domingo. Não me promete nada de grandioso, surpreendente. Daqui a pouco vai sair um café, logo mais chegarão os filhos que faltam, virão as netas, talvez algum amigo. Tem cerveja na geladeira e uma promessa de macarrão para o almoço. Aí já será de tarde e a manhã terá cumprido seu ofício: ser uma manhã simples de domingo, projetando uma calma luz no chão imprevisível da semana.

22 agosto 2009

Não posso ir



Gente: por maior que fosse minha boa vontade, não há dedão do pé que resista a uma pancada de prateleira. Foi a maior sangreira. Aí está a foto para provar. Não vou ao Clube do Conto por total impossibilidade de locomoção. Beijos gerais. Rona.

16 agosto 2009

Quando mentem as orelhas




Se o leitor soubesse como são feitas as leis, as lingüiças e as orelhas dos livros, não confiaria em nenhuma delas. Das últimas, pelo menos, tenho um bom exemplo de inconfiabilidade. Trata-se da orelha do livro “Relato de Prócula”, de W. J. Solha. Vou citar para poder ilustrar meus argumentos:
“Sempre houve um mistério na razão da defesa de Jesus feita por Pilatos ante o Sinédrio. E aí, o Padre Martinho Lutero Libório – vigário da paróquia de Pombal, na caatinga paraibana – pergunta-se, depois de fazer o papel do romano na Semana Santa, na capital da Paraíba, se o motivo teria sido, mesmo, um sonho de Cláudia Prócula – mulher do praefectus de Jerusalém – ou algo bem mais poderoso, como o vínculo dele com o Nazareno, agente infiltrado, judeu, mas cidadão de Roma, tal como eram Paulo de Tarso, Flávio Josefo e Filon de Alexandria.

“Este romance inova com essa sua teoria – tão polêmica quanto a do Código da Vinci” – e com a reprodução vívida da até então ignorada vida cultural do interior nordestino, realidade muito distante do universo retratado por obras como Vidas Secas, Fogo Morto ou Grande Sertão:Veredas.”

Saiba o leitor que, depois de ler duas vezes o “Relato de Prócula”, não liguei minimanente para as querelas do autor com as supostas verdades acerca do Cristo histórico. Muito menos considero a teoria do padre Martinho tão polêmica quanto a do best seller davinciano. Para mim, nada disso tem importância e cai para segundo plano quando nos deparamos com a força do personagem principal do romance. Os verdadeiros conflitos do padre Martinho não dizem respeito a questões da história das religiões. O que o padre não consegue superar é o conflito entre sua enorme virilidade sexual e intelectual e os arcaísmos dos dogmas católicos.

O bom mesmo do livro é a viva reconstrução das relações afetivas dos viventes da cidade de Pombal e da fazenda Mundo Novo. Dispensam-se as citações eruditas de livros e filmes, as pretensões filosóficas dos intelectuais do interior. O que nos prende são as paixões represadas, os desejos não ditos, a fome de amor do padre e suas meninas.

Angustiado e culpabilizado por conta da força de seu desejo, o pobre Martinho cai na tentação do suicídio. Mas a poderosa corrente dos amigos, principalmente das grandes mulheres que o cercam, faz com que sua inteligência vença de vez sua culpa e decida viver a plenitude de suas paixões.



Rubens Bentancur, o narrador do romance é, sem nenhum disfarce, o próprio Solha nos prestando contas da refundação de suas raízes na Paraíba. O padre Martinho é o seu alter-ego, aquele que sofre as dores do embate entre o desejo e os dogmas religiosos.

Que o leitor mergulhe sem medo nas páginas caudalosas do “Relato de Prócula”. Se souber navegar com cuidado, vai poder fruir um texto maduro, conduzido com mão segura, produzindo sonoridades que a orelha do livro não ouviu. Como nesta passagem em que o padre Martinho, depois de passar a noite no terraço da casa-sede de sua fazenda agarrado a um livro de memórias de Pôncio Pilatos, levanta-se “ao ouvir os primeiros cocoricós, balidos e mugidos em lugar dos cricrilos, coaxares, além de voos de corujas, morcegos e tetéus...” Isto é pura sonoplastia, esperando o momento em que o livro vire filme. Coisa fácil de fazer pelas mãos plurais do artista W. J Solha.

09 agosto 2009

Ofício paterno





Ouvir
o grito do teu corpo
no escuro.

Salvar
teu corpo dessa morte
prematura.

Colher
teu corpo desmembrado
do naufrágio.

Lançar
teu corpo derrelito
em praia firme.

Reter
o todo do teu corpo
nas retinas.

Rever-me no teu corpo.
Deixar-te com teu corpo
longe de mim.


Imagem obtida em mensagensvirtuais.com.br

06 agosto 2009

Vistam saias, meninas: é agosto





Publico de novo porque gosto do texto e também de agosto.

Há um certo prazer em falar mal de agosto. Dizem que é o mês das bruxas, onde cai o dia das sogras, foi quando morreu Getúlio e costumam ocorrer desgraças políticas. Pouca gente fala bem de agosto.

Quase ninguém se lembra que é o mês do mais belo luar do ano, promovendo encontros e reconciliações entre os já românticos e convertendo ao romantismo alguns indecisos pós-modernos. Em mim, particularmente, o luar de agosto produz um estado intermediário entre uma lânguida melancolia e uma vontade enorme de uivar.

É certo que em alguns anos agosto lembra um velho sombrio, com suas nuvens cinzentas, suas chuvas fora de hora, invadindo maleducadamente com seus miasmas setembro a dentro. Mas num ano como este, agosto merece ser tratado com toda a consideração. Já na primeira semana faz um sol quase de verão, esquentando um pouco a água do mar, levando à praia uma boa safra de mulheres e, vá lá, alguns homens dignos de nota. Só temos que aturar o vento forte, o bom vento de agosto que, se algumas vezes aborrece ao derrubar varais, espalhar jornais ou varrer areais, nos compensa com um dos mais belos espetáculos ao ar livre: a dança das saias.

E não me venham dizer que isto é coisa que só interessa aos homens. Alguma coisa me diz que as mulheres esperam ansiosas por agosto, preparam-se em academias e clínicas de beleza para o encontro com este mês abertamente masculino. E tenho certeza que uma pesquisa de mercado revelaria um forte incremento no comércio de saias ou cortes de tecidos para elas, cremes e óleos para pernas, além de peças íntimas de langerri a serem desvendadas num momento de estudada distração.

Os homens esperam por agosto como a um velho camarada. Um amigo maroto que faz por nós o que mais gostaríamos de fazer em plena rua: levantar as saias das mulheres.E reparem bem no rosto de uma mulher a quem o vento de agosto vai levantar a saia. Há, de início, uma certa expectativa, quase uma ansiedade, um temor de que não sopre vento nenhum e tenha sido em vão todo o preparo, todo o cálculo de chegar naquela esquina no momento em que um homem, ou um grupo de homens, passa atento pela calçada contrária. Logo, sopra o vento. Primeiro, de leve, deslocando os cabelos e fazendo a vítima fechar os olhos numa mescla de vago aborrecimento e satisfação. Quase um agradecimento.Ato contínuo, vem o farfalhar da saia. Aí é necessário que a dona da saia tenha alguma coisa em uma das mãos. Pode ser um sortimento de livros e cadernos, algum pacote não muito volumoso, até sacola de supermercado serve em certos casos. O importante é que apenas uma das mãos fique livre para segurar a saia em um dos lados, deixando o outro ao sabor do vento de agosto e dos olhos dos seus gratos amigos do outro lado da rua. O movimento, brusco mas não tanto, de segurar um dos lados da saia leva a um certo desequilíbrio que faz com que o volume sustentado pela outra mão ameace cair. Nisso, a mão que segurava a saia vai em ajuda à sua irmã, deixando agora todo o campo livre para o trabalho do vento e dos olhos.

Há variações do rito, é certo. A melhor delas é quando agosto apanha com seu vento um bando de mulheres no meio de uma ponte ou numa rua larga, de preferência ladeirosa, em que estejamos todos subindo. Mulheres na frente, como manda a boa educação, homens regulando o passo até alcançar a melhor distância para um visão de conjunto e, finalmente, ele, o ruidoso, o assobiador, o vigoroso e salutar vento de agosto, causando desordem e euforia, quebrando a monotonia das tardes friorentas. Estamos no começo de agosto. Já é tempo, meninas, vistam saias. E deixem brincar com elas o vento de agosto, para o alimento de vossas vaidades e o bem dos nossos olhos. Antes que todos, olhos e vaidades, sejam desviados pelo despudoramento de setembro, escancarando corpos e tornando vulgar o jogo sedutor que agosto sabe tão bem jogar.

(Publicado em Memória curta, 1996)

30 julho 2009

Poeta Antônio Mariano indica romance Memória do fogo

27 julho 2009

Sob os olhos do fantasma



Passei o fim de semana com o fantasma de Barreto em minha cola. Fui para minha casa em Cabedelo com a intenção de fazer a revisão do seu último livro de contos, Os colecionadores. Fátima, a mulher dele, tinha pedido a mim e a Valéria Rezende para editar o livro que ele tinha deixado já com índice e ficha catalográfica prontos. Junto com Valéria, tive o privilégio de fazer a leitura crítica de seus últimos livros. Era um privilégio que me divertia muito, pois lia antegozando as brigas homéricas que teríamos na hora de devolver os originais. Cada frase, cada palavra, cada vírgula era disputada a tapa, com argumentos nem sempre racionais e um jargão pouco imaginável entre cidadãos dados às lides das letras.

Desta vez, não foi diferente. E muito pior. O fantasma não esperou que eu terminasse a revisão. Chegava a qualquer momento e ficava espiando pelas minhas costas. Sentia sua apreensão toda vez que eu pegava o lápis para fazer uma anotação. Quando era um erro simples de digitação, o fantasma relaxava. Mas quando eu punha em dúvida uma construção mais redundante ou discordava de uma concordância, era sensível a sua muda irritação.

Por outro lado, sentia a vaidade do fantasma quando eu sublinhava uma construção de mestre: “Era uma sexta-feira e ele trazia na cara todos os expedientes da semana”. Fui eu que fiz, quase o ouvia dizer. Na passagem de “o vento varrendo a poeira do abandono”, senti um leve farfalhar nas folhas de um vaso próximo à rede onde eu lia. Acho que ele fez de propósito, para dizer que ainda sabia reconhecer a minha inveja. E fez cair uma folha quando viu que eu estava na parte em que a seca vinha “matando plantas, secando o capim, bebendo todo o molhado que havia”.
Quando terminei a leitura e sorri satisfeito pelo presente que havia recebido, senti que ele foi embora. Mas antes de sair, balançou com força o sino japonês pendurado no canto do terraço. Como quem diz, eu vou, mas volto em dezembro, quando o Clube do Conto se reunir para festejar o Natal.

19 julho 2009

O deus de Kaká

Existe um deus desocupado que, por não ter coisa melhor a fazer, decidiu ser torcedor do Real Madri. Um deus irresponsável que, no meio de uma crise financeira internacional devastadora, fez aparecer, por milagre, uma fortuna no cofre do seu clube para contratar um jogador de futebol de sua preferência. Não satisfeito, e vaidoso de sua divindade, mandou a mulher do jogador abrir uma igreja na Espanha para louvar os seus feitos em favor dos ricos e descolados deste e do outro mundo.
Pelo menos é isto o que nos deixa imaginando o depoimento de Caroline Celico, mulher do jogador Kaká, recentemente contratado pelo time espanhol. Para Caroline, o milagre é evidente: “Como pode alguém no meio da crise ter dinheiro? Deus colocou esse dinheiro ma mão do Real Madri para contratar o Kaká. Nós vamos abrir uma igreja lá. Existem vidas que têm que ouvir essa palavra”.
A igreja em pauta é a Renascer em Cristo, propriedade da bispa Sônia e de seu marido Estevam, aqueles mesmos que foram em cana e estão proibidos de sair dos Estados Unidos por tentarem entrar lá com um punhado de dólares não declarados. Devem ter achado sacrilégio declarar um presente tão singelo do deus lá deles.
Eu já devia não me espantar mais com essas picaretagens que, aliás, não são privilégio de nenhuma dessas seitas em particular. Quem se der ao trabalho de assistir ao vídeo vai constatar facilmente que a mocinha não acredita em uma vírgula do que está falando. O que me espanta mesmo é que exista gente crédula o suficiente para se deixar encantar por um discurso ôco de qualquer sustância, seja divina ou profana.
Não é que eu queira tirar o direito de Kaká e sua doce Carolina acreditarem em um deus particular que os protege e enriquece. O que me incomoda é qualquer desses descolados usar o seu brilho pessoal para nos convencer que são os escolhidos dos deuses. E que nós, que ralamos ao rés dos chão, só ascenderemos aos ouros celestes se abrirmos mão de uma parte significativa do fruto do nosso suor para abastecer a conta bancária dos arautos dessa divindade boçal e alienada do sofrimento dos povos.

12 julho 2009

Parto natural


À uma e meia da madrugada, entramos em trabalho de parto. Entramos eu e Glória, os avós, Flávio, o marido e, last but not the least, Ana Lia, que bateu no nosso quarto e avisou com toda naturalidade: minha bolsa rompeu.
Muito naturalmente, chispamos para a maternidade, pois nossas contrações já atacavam em menos de cinco minutos de intervalo. Parteira e pediatra a postos, decidiu-se que o parto seria ali mesmo, no quarto. Nada mais natural, portanto, que eu me retirasse, pois tinha clara consciência da minha inutilidade naquele momento.
Talvez essa tenha sido a decisão mais errada da minha vida. Fiquei andando feito um bicho enjaulado pelos corredores, ouvindo os gritos de minha filha e imaginando todas as torturas que lhe estavam sendo infligidas por aquele bando de perversos. Por vários momentos estive a ponto de irromper no quarto de arma na mão e gritar: isto é um seqüestro. Todos para a sala de cirurgia.
Mas de repente fez-se um silêncio logo quebrado por um vagido apaziguador. Foram-se os monstros e em seus lugares estavam uma médica perfeita, uma pediatra competente, uma avó em lágrimas, um pai em transe e um mãe em exausta beatitude.
Foi a primeira vez que testemunhei auditivamente um parto natural. Pelo que sofri, passei a achar que não existe nada mais natural do que uma boa cesariana. Mas todas dizem que é bem melhor a recuperação rápida do que a chateação pós-cirúrgica. Não tenho como optar.
Natural mesmo é o nosso resguardo. Há uma tendência generalizada a ficar na cama, voltar depressa pra casa, nadar em lágrimas a qualquer pretexto. Natural mesmo é o clima amoroso que se instala em toda a casa contaminando outros endereços em volta do mundo. Natural, muito natural é que eu esteja aqui tentando disfarçar um sentimento transbordante que me causa a condição de avô de Anita.

06 julho 2009

Mãos dadas


Deram-se as mãos.
E achando pouco, os dois deram-se as bocas.

Queriam mais.
Então, deram-se os corpos.

E muito mais tiveram para dar
assim presenteados um ao outro.


Imagem obtida em: cgi.ebay.com.sg

30 junho 2009

A hora e a vez



Uma eternidade se concentra nesses poucos segundos. Ele fixa o olhar na bola como se quisesse hipnotizá-la, antes de colocá-la no gramado. Os gestos são precisos. Todos os músculos de prontidão. Depois, os olhos miram o lugar por onde a bola fatalmente deveria entrar. Nenhuma dúvida em seu rosto. Nenhuma hesitação. Estava de frente do gol como um toureiro de cara com o touro.

Nenhum jornal publicou a foto do momento mais dramático da Copa das Confederações. Já se passavam 36 minutos do segundo tempo de Brasil e África do Sul quando Daniel Alves entrou em campo. Cinco minutos depois, o lateral direito deixava sua marca no placar que definiu a partida.

Depois chorou, correu como criança e levou cartão amarelo por ter levantado a camisa para mostrar o nome do filho recém nascido tatuado no peito. Tudo isso foi registrado e publicado nos jornais e nas revistas. Repetido pela televisão. Mas foi aquele ritual fechado e compacto que antecedeu o gol que ficou marcado na minha memória. A cena definitiva de um homem que soube fazer sua vez e sua hora.

21 junho 2009

Os mistérios do mundo


Vinha dirigindo meio distraído quando bati de frente com a faixa exibida sobre o muro da casa de esquina: “Colocamos mega-hair no nó italiano e na queratina com hora marcada”. Minha pobre capacidade hermenêutica sentiu-se desafiada por aquele enigma suburbano.
Pondo em prática o método desconstrutivo, comecei por separar o texto em pedaços conhecidos e desconhecidos. Meus parcos conhecimentos de inglês permitiram deduzir que o termo mega-hair devia se referir a uma cabeleira farta, daquelas dos rastafaris ou das louras adventícias.

Hora marcada, por sua vez, não deveria designar nada de novo além daquele velho procedimento há muito erradicado dos consultórios médicos. Restaram apenas, portanto, o nó italiano e a queratina.

Houve um tempo em que os italianos eram desbravadores de mares, tal como Colombo e Vespuci. Quem sabe o tal nó italiano era alguma espécie de nó de marinheiro? Quanto à queratina, o dicionário não ajuda muito. Remete a ceratina, que vem a ser “uma proteína fibrosa e pouco hidrossolúvel, comum na epiderme, constituinte principal do cabelo, unhas, pêlos, tecidos córneos... etc.”

De quase nada adiantou recorrer às mulheres da casa, pois são pouco dadas a salões de beleza, contentando-se com um ritual semanal de manicure ali mesmo no terraço. Aproveitei um desses momentos para me livrar definitivamente do meu analfabetismo capilar. Mira, a moça das tesouras e alicates, não soube dizer muito bem do que se tratava. Nem mesmo um telefonema para o próprio salão de beleza esclareceu muita coisa. Soubemos apenas que a coisa era cara. Cento e cinqüenta reais apenas o nó italiano e duzentos com a aplicação da queratina. O preço dos cabelos a ser implantados não estava incluído.

Saí do terraço chateado. O enigma continuava praticamente intacto. Entrei no escritório, liguei o computador e acessei o google. Foi só escrever “megahair nó italiano queratina”, e pronto. Todo o mistério do mundo estava resolvido em poucos segundos. Não vale nem a pena contar o que é. Quem quiser que vá lá ver.

14 junho 2009

Janelas de apartamento


Podem me acusar de voyeurismo, mas tem uma coisa que gosto muito de fazer: olhar janela de apartamento. Gosto de imaginar a vida daquelas pessoas, pensar como foi ou será o seu dia, o que estão comendo à mesa, o que conversam no terraço.
Em frente a um hotel em que me hospedava com frequência, tinha um prédio de pequenos apartamentos, desses de quarto e sala. Bem em frente ao meu quarto, morava uma mulher que não parava quieta. Ia da sala para o quarto, voltava, perdia-se lá por dentro para aparecer de novo, como um bicho na jaula. E minha curiosidade turbinava, pois eu só conseguia vê-la da cintura pra baixo. Tinha pena dela, mesmo sem nunca saber quem era.

Para mim, a melhor hora de espiar apartamentos é no finzinho da tarde. Me dá uma melancolia, uma vontade de ir esperar as pessoas que vão chegar do trabalho ou da escola, perguntar como foi o dia, ver quem chega com o pão para o jantar. Também gostaria de chegar de repente na porta dos que moram sozinhos, tocar a campainha e entrar para uma visita rápida. Talvez ficando para um café.

Se quiserem ainda me acusar de voyeur, saibam que estou muito bem acompanhado neste vício. Vejam, por exemplo, a letra da música abaixo, de autoria de Renato Rocha, cantada pelo MPB-4. É uma coisa linda. Assim que conseguir baixar a melodia, vou querer repartir aqui com vocês.


Janela de Apartamento

Homem entrando calorento afrouxando o colarinho
A mulher vem lá de dentro: um abraço um beijinho.
Janela de apartamento parece estória em quadrinhos

Lá naquela um cachorrinho, acho que fica sozinho,
a maior parte do tempo
Do lado mora um velhinho que nunca recebe gente
Acho que vive somente pra cuidar dos passarinhos.

O jantar está saindo ali, naquele do centro.
Todos comendo assistindo a novela do momento.
Em cima do cachorinho vagou um a pouco tempo.
Ali morava um brotinho que pra todos os vizinhos
era um acontecimento.
Saudades daquele tempo, aluga-se apartamento.

O homem do colarinho foi na janela um momento.
A mulher foi lá pra dentro, o casal tem um filhinho.
E o velhote sonolento, que dorme com os passarinhos,
fecha a cortina um pouquinho, tira a gaiola do vento,
apaga a luz do aposento.
Janela de apartamento parece estória em quadrinhos.


Ilustração: Óleo de Jean François Millet

Luvas



Não se pode chamar de perversão. Nem chega mesmo a ser um vício. O que André tem pode ser chamado de costume. André tem o costume de usar luvas.
Não é sempre, nem é em todo lugar. Tampouco é sempre a mesma luva. André tem uma luva para cada ocasião.
Quando Ana Beatriz viu André pela primeira vez, ele tomava sorvete de coco com luvas brancas. Ficou fascinada com a maneira elegante e precisa com que ele segurava a taça, manuseava a colher. Mas logo lhe bateu uma espécie de remorso. E se ele tivesse alguma doença de pele, coitado. Afastou-se olhando sorrateira para André e aquelas luvas não saíram de sua cabeça por uma semana.
Uma semana foi o tempo que Ana Beatriz levou para reencontrar André sozinho numa mesa de bar. Dessa vez ele usava luvas amarelas e tomava cerveja. Os olhares dos dois se cruzaram e ela não teve forças para recusar o convite de André para sentar.
Era atração, mas era muito mais curiosidade sobre as luvas que arrastaram Ana Beatriz à mesa. Sentou já com os olhos fixos nas mãos do rapaz. Ele notou e logo cuidou de explicar. Tinha essa mania. Usava luvas da cor mais próxima do que iria comer ou beber. Nada demais. Um amigo psicanalista garantira não ser doença.
A conversa mudou de rumo, pulou de André para a moça, seus gostos, suas manias, sua vida mais íntima, seu estado civil. Viúva. Ana Beatriz era viúva há quase um ano. Desde esse tempo, nenhum homem tocara seu corpo. Mas de um jeito meio confuso, insinuou que já era tempo de aliviar o luto fechado.
Não tinha lugar mais seguro do que o apartamento de André. Prédio pequeno, sem porteiro, vizinhança calma que se recolhe cedo. Ana Beatriz subia as escadas lentamente, a mão esquerda enlaçada com força à luva de André.
Ela esperou um tempo no sofá da sala enquanto ele dava um jeito rápido no quarto. Depois ele veio apanhá-la com as mãos descalças, deslizando com ela pelo corredor. Sentados na beira da cama, hesitantes sobre o que fazer, a moça sussurra meio rouca: vai com calma, André. Lembre-se que sou viúva. O rapaz então se levantou, levou um pouco tempo mexendo na porta do meio do guarda-roupa e virou-se mostrando as mãos. Beatriz saiu correndo do quarto quando viu as mãos de André vestidas com luvas de renda negra, um curto babado à altura dos punhos abotoados com pequenas pérolas.

Clube do Conto da Parahyba

07 junho 2009

O trabalho da alma



A alma mora no fundo do corpo. Neste sentido, ela é muito mais misteriosa do que a alma das religiões ou dos medos noturnos das crianças.
Parte da memória de tudo o que nos entra pelos olhos, pela boca, pele, ventas e ouvidos, permanece num canto obscuro do ser, reduzida a enigmas que se movem desordenadamente, apelando para voltar ao sentido que perderam ao penetrar no nosso corpo.
Situada numa região de fronteira entre o corpo e a linguagem, a alma é a operária que dá sentido aos nossos afetos. É o local onde se dá a superação que nos tira da confusão e nos lança no terreno da solidariedade. Pelo trabalho da alma, tudo o que nos invade pelos sentidos é devolvido ao mundo como linguagem.
Vista assim, a alma é o que nos torna humanos, fabricando a linguagem e nos dando a possibilidade de comunicação. Daí, a sua imortalidade. Pois a linguagem antecede a nossa entrada no mundo. E quando desaparecemos, algo do que transformamos em linguagem irá habitar como enigma o terreno obscuro dos afetos dos nossos descendentes, exigindo de suas almas a continuidade do eterno trabalho de nossa transformação em nós mesmos.

Ilustração: Óleo sobre tela de Carlos Godinho
Obtida em: www.galeriaaberta.com

28 maio 2009

Pesar














Pesamos todos mais 21 gramas.
É o peso da alma do amigo
que arrastamos
toneladamente.

Falta paquidérmica
densa
insustentável.


Ronaldo Monte

Imagem obtida em


25 maio 2009

Delicado

Se me pedissem uma palavra para definir Barreto, responderia sem hesitar: delicadeza. Esta era uma qualidade que vinha antes de todas as outras. Ele podia ser crítico, irônico, até mesmo gozador. Mas tudo isto revestido com a embalagem da delicadeza.
Se o leitor quiser saber exatamente do que estou falando, leia um livro de Barreto. Esses que ele assina como Geraldo Maciel. Pegue um conto, que seja. Logo se dará conta de que aquilo é fruto de um delicado trabalho de ouriversaria, ouro e prata engastados de palavras preciosas, mas tudo muito bem disfarçado em simplicidade e clareza. Tente imitar, como eu tentei, um mínimo parágrafo e saberá como é difícil e exaustivo o resultado.
Até para morrer, Barreto foi delicado. Nada de períodos longos de internamento, promessas ilusórias de melhora. Foi ao encontro do Clube do Conto, no sábado, sem dar a menor bandeira. Acordou no outro dia bem disposto e saiu para cuidar da vida. Foi ali, morreu e pronto. Não obrigou ninguém a cancelar compromissos, adiar ocupações, pois escolheu para partir numa manhã chuvosa de domingo, em que não dava praia. Com isso, não estragou o programa de ninguém.
Foi uma pena Barreto ter faltado ao seu velório. Ia ficar feliz com a turma que se reuniu, incrédula, para ter certeza de que a notícia não era brincadeira de mau gosto. Tinha muita gente boa, gente querida. Mas faltava alguém imprescindível. Aquele que saberia dizer as palavras exatas para a ocasião. Nos falaria de perda, de dor e de ausência. Mas falaria muito delicadamente.







Inveja

Tenho inveja de quem escreve melhor do que eu. Vejam, por exemplo, isto que Geraldo Maciel escreveu: “Uma cova comum tinha seus nove palmos de comprimento, quatro de largura e os sagrados sete palmos de fundura. O que passasse disto, ou seja, sendo o finado muito gordo ou muito alto, requeria uma taxa extra, pois, mesmo sendo a morte uma coisa meio sagrada, cavar covas cansa muito e deixa o corpo tão quebrado quanto trabalhar na agricultura ou carregar fardos às costas”. É um trecho do conto “O coveiro”, que está no seu último livro, O concertista e a concertina. Não é de dar inveja em qualquer um?Para quem não sabe, Geraldo Maciel é o mesmo camarada que muita gente conhece como Barreto. No começo se faz uma certa confusão, mas a gente termina se acostumando. Ele tem outra doença, além de ser contista e ter dois nomes: teima em ser dono de uma editora, a Manufatura, por onde editou o seu livro. Não é de hoje que tenho inveja do texto de Geraldo Maciel. É desde o seu primeiro livro de contos, Aquelas criaturas tão estranhas, em que ele gasta quase uma página com um tiro de clavinote, descrevendo o trajeto do material expelido desde a boca da arma até se alojar nas vísceras da vítima. Fui tentar imitar a técnica descrevendo um soco se aproximando em câmara lenta da cara de um sujeito. Não consegui passar das cinco linhas. Quem quiser roer de inveja como eu, leia qualquer coisa de Geraldo Maciel. Mas leia de preferência este novo livro. São textos maduros, de boa carpintaria. A história que dá título ao livro dá vontade de chorar. Mas emoção mesmo eu senti com a sina do Boca, cantor de corpo disforme mas com uma voz capaz de criar amores e reacender velhas paixões. É livro de se ler de um fôlego só e ficar com gosto de quero mais. Tenho muita inveja de quem escreve melhor do que eu. De Geraldo Maciel, ou de Barreto, não importa, eu tenho é raiva.



16 maio 2009

Brisa e rajada




Ninguém nota que falta luz quando se está enroscado no corpo do outro, mãos e bocas atarefadas em prender, sugar e morder a maior superfície disponível no menor tempo possível. Faltou luz, sim. O ventilador parou, mas sua brisa, ali, seria inútil.

Daí que eles permaneceram grudados um no outro enquanto o calor arrefecia. Literalmente grudados, pois o suor colava a pele dos ventres, amantes siameses ofegando a um só ritmo.

A luz voltou, mas os olhos não se deram conta, pois a lâmpada ficou apagada desde antes. Mas o resto dos corpos acusou um calafrio quando uma brisa tênue varreu a cama.

Um bisturi invisível descolou as peles dos ventres. Cada corpo entregue a seu frio respirava agora lentamente. O que foi brisa, agora é rajada. Os corpos enroscam-se novamente em busca de calor.

Ronaldo Monte
Clube do Conto, 16.05.2009

Imagem obtida em theurbanearth.wordpress.com

09 maio 2009

Para minhas mães

Para sempre

Carlos Drummond de Andrade

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.

Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.


Carlos Drummond de Andrade © Graña Drummond

07 maio 2009

O fim da noite - versão em inglês de Elaine Erig





The End of the Night

by Ronaldo Monte


Failed to light yesterday evening. For absolute lack of what to do, I expect to sleep in bed. With the delay of sleep and the absence of internal images, focused my attention on the total darkness that was immersed. I spent the hand in front of the eyes and did not notice any movement.
I thought I was close to having an experience of blindness and one end of trouble appeared. But then I remembered what I told me my friend Jane Belarmino, blind and visionary: the fear of the dark is a problem for you.
I do not know the darkness. In fact, taking isolated experiences as last night, I do not know the darkness.And very few people living in cities can be said of the intimate dark. The night, as a synonym of darkness, is an increasingly rare phenomenon. The concern for security and control of people did with the darkness that was banned from the streets and buildings of cities. The evening today is only a period of time very different from the day. When you enter a supermarket or a mall, jumping in a time continuum, where the artificial light eliminates any difference between day and night. The - small dark of the film -is more an expression of caring that real. Besides not being an absolute darkness, the clear light projected on the screen, it can be enjoyed by day or night.
For lack of a clear distinction (or dark) in the day, the night lost its purpose for the period to rest and sleep. Pushed increasingly into the night did the things of day. Pharmacies, supermarkets, gas stations and many other services are open continuously. We crossing the night studying or working. Just going to bed when the exhaust no longer allows us to any activity. Here, then, is the insomnia. And then we realize that we lost contact with our first night. The side that leads us to dream and the pastures repairers that reveals the other side of sleep. The dry eyes, the soul dry, the dryness of the imagination. This is the price we pay at the end of the night. Besides the bad mood the other day.



30 abril 2009

O fim da noite



Ontem faltou luz de noite. Por falta absoluta do que fazer, fui esperar o sono na cama. Com a demora do sono e pela ausência de imagens internas, concentrei minha atenção na escuridão total em que estava imerso. Passei a mão na frente dos olhos e não percebi nenhum movimento. Pensei que estava tendo uma experiência próxima à da cegueira e surgiu uma ponta de angústia. Mas logo me lembrei do que me disse minha amiga Joana Belarmino, cega e vidente: o medo do escuro é um problema de vocês. Eu não conheço a escuridão.

Para dizer a verdade, tirando experiências isoladas como a da noite passada, eu também não conheço a escuridão. E muito pouca gente que mora nas cidades pode dizer-se íntima do escuro. A noite, como sinônimo da treva, é um fenômeno cada vez mais raro. A preocupação com a segurança e o controle das pessoas fez com que a escuridão fosse banida das ruas e dos edifícios das cidades.

A noite, hoje, é apenas um período de tempo muito pouco diferente do dia. Quando entramos num supermercado ou num shopping, mergulhamos num tempo contínuo, onde a iluminação artificial elimina toda diferença entre o dia e a noite. O próprio escurinho do cinema é mais uma expressão carinhosa do que real. Além de não ser um escuro absoluto, pela óbvia luz projetada na tela, ele pode ser usufruído de dia ou de noite.

Por falta de uma diferenciação clara (ou escura) com o dia, a noite perdeu sua finalidade de período próprio ao descanso e ao sono. Empurramos cada vez mais para dentro da noite as coisas que fazíamos de dia. Farmácias, supermercados, postos de gasolina e tantos outros serviços permanecem abertos ininterruptamente. Varamos a noite estudando ou trabalhando. Só vamos para a cama quando a exaustão não mais nos permite qualquer atividade. Aí, então, vem a insônia. E só então nos damos conta de que perdemos o contato com o nosso lado noturno. O lado que sonha e nos leva para os pastos reparadores que se descortinam do outro lado do sono. Os olhos secos, a alma seca, a secura da imaginação. Este é o preço que pagamos pelo fim da noite. Além do mau humor do outro dia.


Imagem obtia em: viajeaqui.abril.com

26 abril 2009

Luto



Tenho uma foto antiga de meu pai cercado com seus colegas de trabalho, todos com seus indefectíveis ternos de linho branco. O que chama a atenção é que um deles está de gravata preta e tem um pedaço de tecido preto na lapela do paletó. O pessoal mais velho sabe que o tecido preto se chama fumo e quer dizer que aquela pessoa perdeu alguém muito próximo recentemente. É uma demonstração externa de sofrimento e nos lembra que devemos ser tolerantes com aquela pessoa, respeitando o seu recolhimento, permitindo que viva até a exaustão o seu luto.
Das viúvas de antigamente, esperava-se que usassem luto fechado por um ano, o que exigia que todos os seus vestidos fossem tingidos de preto e mantivessem um comportamento sóbrio, sem nenhuma manifestação exacerbada de alegria durante doze meses. Só depois da missa de um ano é que lhes era permitido usar o luto aliviado, o que queria dizer que suas roupas podiam agora ser mescladas de preto e branco ou feitas com tecidos de cores sóbrias, como o azul marinho ou o marrom.
Era triste, sim. Mas era justamente de tristeza que se tratava. A tristeza aceita como um sentimento digno de ser exteriorizado, com regras e normas aceitas pela comunidade que partilhava e respeitava os enlutados.
Hoje, sua tristeza não interessa a ninguém. Se estiver triste, esconda-se. Você não será bem aceito nos templos maníacos da sociedade sem dor e sem memória. Sua tristeza não cabe nem mais nas igrejas ou nos cemitérios. Tudo virou festa. Aos que insistem com suas melancolias e estados depressivos, restam os livros de auto-ajuda ou os comprimidos de tarja preta. A mesma tarja que antes se via na lapela dos paletós dos viúvos.


Imagem obtida em: www.flickr.com

24 abril 2009

Bispo do Paraguai



Mais uma vez a igreja católica exibe sua potência ao mundo. Desta vez, sua potência sexual. No último dia 14, o presidente do Uruguai, Fernando Lugo, assumiu publicamente a paternidade de um menino de dois anos, fruto de uma relação mantida enquanto era bispo do Departamento de San Pedro. Menos de uma semana depois, outra paraguaia pede que o presidente assuma um filho de seis anos, também concebido enquanto era bispo e a moça tinha 16 anos. Mais recentemente, uma terceira mulher diz que também tem um filho do presidente, concebido depois da renúncia deste ao posto religioso para se candidatar à presidência do Paraguai. A relação dos dois, entretanto, vinha de antes da renúncia.
Sou incondicionalmente a favor do amor entre as pessoas, independente de qualquer circunstância. Mas não é de amor que estamos tratando. Estamos diante de um homem sem escrúpulos que escondeu do povo sua condição de pai irresponsável, posando de paladino da moralidade e dos princípios democráticos para os eleitores do seu País. E foi com esta falta de escrúpulos que ele se elegeu presidente. Pois a sua renúncia ao cargo eclesiástico não se deveu ao compromisso com nenhuma dessas mulheres ou com seus filhos. Renunciou apenas porque a constituição do Paraguai proíbe que ministros religiosos exerçam cargos púbicos.
Até que já estava caindo de moda dizer que era “do Paraguai” qualquer coisa ou pessoa falsa que tentassem nos passar como verdadeiras. Infelizmente, mais uma vez a falsidade vem se associar a esse País tão maltratado pela história, desta vez disfarçada sob os rótulos da religião e da política. O povo paraguaio merecia coisa melhor.
Todos nós, da América Latina, merecemos coisa melhor.



Imagem obtida em ocastendo.blogs.sapo.pt

15 abril 2009

O gosto da memória




Essa história de Páscoa com ovos e coelhinhos é relativamente nova em minha vida. Quando era menino, o que existia mesmo era a Semana Santa. Começava no Domingo de Ramos, com o Cristo entrando em Jerusalém aclamado pelo povo. Já na Sexta-Feira da Paixão o Filho do Homem estava crucificado. Passava-se o Sábado de Aleluia em luto pela sua morte. Na meia-noite ia-se à missa, onde o padre ficava procurando a Aleluia em um livro enorme. Se não achasse a Aleluia, era certo que o mundo ia se acabar. Por isso os sinos tocavam energicamente e todas as luzes da igreja eram acesas quando, do meio do latinório, ouvia-se a palavra salvadora: Aleluia. O fim do mundo ficava adiado até a próxima Semana Santa. No Domingo, enfim, comemorava-se a Ressurreição. Não sei muito bem como se encaixam aqui os três dias em que, segundo a antiga liturgia, o Cristo desceu aos infernos.
Este ano, mais uma vez, fui passar a Semana Santa em Maceió. É um dos meus poucos luxos com que gosto de fazer inveja aos amigos. Atitude, reconheço, bem pouco condizente com o espírito de humildade cristã que deve reger esta época do ano. Mas vaidade é vaidade. Vamos lá. Comi e bebi como um cônsul romano, entre curtos intervalos imerso numa piscina de água quase morna.
Sempre se comeu bem na casa desses meus primos, desde o tempo em que minha Tia Carminha tomava conta da cozinha. Mas é de um tempo anterior a este que me vem a lembrança da melhor refeição da minha vida. Tia Carminha morava numa casa parede-meia, na beira da linha, no bairro de Jaraguá. Casa pequena, mas com um quintal generoso, onde uma mangueira deitava fruta e sombra. Era Semana Santa e a proibição da carne era compensada com um siri de coco digno de constar da Santa Ceia. Feijão com farinha, comidos à mão em bolões molhados em um molho de pimenta malagueta feito com o caldo do próprio siri. Tudo isto acompanhado com uma manga espada estourando de amarela, chupada pelo bico, como um seio. Esta foi a comida mais gostosa de toda a minha vida. Sem vinho, sem chocolate, sem coelhos em volta. Só os olhos e as mãos milagrosas da minha tia.


Imagem obtida em www.receitastipicas.com

07 abril 2009

Derivas

Os judeus celebram a Páscoa em memória da libertação da escravidão no Egito. Os cristãos comemoram a passagem para o novo tempo que a ressurreição do cristo anuncia. Liberdade, renovação. Que sentido fazem estas palavras fora do seu contexto estritamente religioso e litúrgico?
Um olhar mais atento sobre o mundo nos mostrará que a única liberdade visível é a que se anuncia como liberalidade do mercado. E todos sabemos o quanto isto tem acentuado a desigualdade entre os países e aprofundado a distância entre as classes. Quanto à renovação, ela se dá do ponto de vista estrito das mercadorias, o que nos empurra para um processo alucinado de consumo.
A humanidade ainda não conheceu a Páscoa. Somos todos errantes. Vivemos à deriva num deserto ético em que só os sistemas religiosos parecem apontar alguma salvação. E nisto reside a nossa miséria e nossa esperança. Miséria, porque todo o nosso percurso histórico ainda não conseguiu prover a humanidade dos instrumentos tecnológicos e ideológicos necessários a uma convivência de bonança e harmonia. Esperança, porque alguns desses sistemas religiosos apontam para certas saídas éticas que contemplam uma convivência na diversidade.
Judeus ou cristãos, muçulmanos ou budistas, pagãos ou ateus, nenhum de nós conheceu ainda a liberdade ou a renovação. Vivemos todos ainda à espera de uma Páscoa que nos resgate a todos deste êxodo em que ainda não vislumbramos nenhuma terra prometida.
E enquanto esperamos a Páscoa, reconheçamo-nos humildemente como seres de incertezas e derivas. Que a humildade seja o nosso único ponto em comum. No mais, cada um que derive a seu modo. O cuidado maior, enquanto derivamos, é não dar ouvidos aos que apregoam suas crenças como caminhos exclusivos para a salvação. Todos temos o direito de escolher se e como queremos ser salvos.
Ilustração :"Le Radeau de la Méduse", de Théodore Géricault (1791-1824).

26 março 2009

Roupa íntima




Não se deve deixar roupas íntimas penduradas na maçaneta interna da porta do banheiro. É possível que elas sejam esquecidas lá por muito tempo e não se pode medir as consequências desse esquecimento.
André havia se mudado para aquele apartamento há menos de uma semana. Era a primeira noite de sexta-feira que passava na nova casa. Por isso, a primeira coisa que quis fazer quando chegou do trabalho foi tomar um longo banho. Depois ia bebericar um uísque e pensar com quem fazer a inauguração. Uma namorada ou um punhado de amigos mais chegados que não reparassem na desarrumação.
Entrou no banheiro e sorriu com o hábito de fechar a porta. Lembrou-se que Antônio Maria dizia que a única vantagem de morar só é poder ir ao banheiro e deixar a porta aberta. Mas a água já escorria morna. A porta aberta ficava para a próxima vez.
André ainda esfregava a cara com a toalha quando viu um sutiã pendurado na maçaneta da porta. Bem que podia ser de uma de suas namoradas, quis pensar, mas logo se lembrou que nenhuma delas ainda estivera ali. Só podia ser da antiga inquilina.
Por um súbito e inexplicável pudor, André não tocou no sutiã. Não era direito pegar numa coisa tão íntima de uma pessoa que não conhecia. A toalha já enrolada na cintura, sentou-se na bacia sanitária e ficou estudando a peça pacientemente. De aparência um pouco desgastada, parecia reservado ao uso doméstico ou em saídas rápidas sob uma camisa de meia. Os bojos eram de tamanho mediano, mas o elástico desgastado sugeria um excesso de volume a ser sustentado. Seios ligeiramente fartos, concluiu André. E imaginou a totalidade do busto que ali se ajustaria.
Concluída a construção da parte superior, passou a deduzir o restante do corpo que habitara o seu banheiro. Simetria entre busto e quadris era coisa de miss dos anos sessenta. André preferia ver as ancas um pouquinho mais estreitas que o perímetro superior, mas fartas o suficiente para delinear uma curva descendente em direção ao ventre, estando a dona lendo um livro deitada de lado, uma das mãos apoiando a cabeça.
A cabeça. Eis um enigma enorme para André. Um corpo assim exigia cabelos longos. Longos e negros. Mas a mulher não podia ficar assim, só cabelos. Precisava de um rosto com olhos para ler o livro. Teria óculos, como toda mulher que lê na cama. E uma boca com lábios carnudos para balbuciar uma frase aqui e ali. E precisava de mãos delicadas para segurar o livro e passar as páginas. Faltavam ainda coxas, pernas e pés para que a dona se mexesse a cada passagem mais excitante da leitura.
André se vestiu apressado e deixou o quarto sem fazer barulho para não atrapalhar a leitura da mulher. Foi para a sala, preparou seu uísque, mas não telefonou para ninguém. Bebericou a dose e ali mesmo, no sofá, caiu no sono.
Quando André acordou na manhã do sábado, a luz do quarto ainda estava acesa. Escutou virar uma página de livro. Viu que não tinha nada para o café a manhã. Calçou as sandálias, levantou-se sonolento e falou alto em direção ao quarto: vou ali na padaria comprar alguma coisa. Volto já.


23 março 2009

Aeromoça

A moça queria um bem.
Queria um bem querer
para esperar, suspirar,
Um bem para maldizer.

Um bem para querer bem.
Bem bom de telefonar,
torpedear, orkutar,
de emessieneamar.

A moça queria um bem
que a fizesse tremer,
que a fizesse gelar,
que a fizesse morrer.
Que fizesse ela voar.



Foto: Ana Patrícia
Imagem obtida em http://www.flickr.com/photos/anap

17 março 2009

Crime contra a humanidade


Ainda no avião que o levaria, hoje, à sua primeira viagem à África, o papa Bento XVI declarou aos jornalistas que a distribuição de camisinhas apenas agravaria o problema da Aids no continente. O papa bate de novo na velha tecla da abstinência como prevenção à contaminação. Ora, se abstinência fosse remédio para alguma coisa, os problemas da igreja com o crimes de pedofilia de seus padres estaria resolvido. A atitude do papa e de seus seguidores é de um cinismo palmar. A Africa Subsariana, embora represente apenas 10% da população mundial, comporta 64% de soroppositivos. Noventa por cento desse total é composto de crianças com menos de 15 anos de idade. Querer impedir que medidas profiláticas sejam aplicadas a essas pessoas, por razões irracionais como as alegadas pela igreja católica, qualifica-se claramente como um crime contra a humanidade.

Imagem obtida em: modos-de-olhar.blogspot.com

15 março 2009

Pele e osso


Vinha da praia com Glória, perto da hora do almoço. Cruzamos com três meninas que voltavam da escola. Saltitavam em seus dez, onze anos e tagarelavam. O ouvido apurado recolheu de uma delas: claro que faço regime. Não quero ficar gorda como você. Deixamos o trio se afastar um pouco e nos viramos para conferir. Estavam todas no limite da magreza pré-adolescente.
Já de tarde, Glória volta da rua com um caderno promocional de uma loja de roupas. Fiquei escandalizado com a escassez de carne das modelos. E não é somente a ossada à flor da pele que me impressiona. A maquiagem, o olhar e a postura das moças, ajudadas pela ambientação das fotos, sugerem uma lânguida lassidez que deve exercer uma atração mórbida nas meninas que voltavam da escola.
Terapeutas e psicanalistas andam preocupados com a incidência de casos de anorexia e bulimia em seus consultórios. Tem muita gente boa tentando compreender a epidemia de pele e osso que assola as mulheres em todos os cantos do mundo ocidental.
É certo que o problema não é novo. Quando eu era menino, uma vizinha rechonchuda morreu de tanto tomar vinagre para emagrecer. O que está acontecendo é uma valorização social da esqualidez por parte da mídia, o que leva as adolescentes a aderir ao modelo como a um modismo qualquer, sem medir as conseqüências irremediáveis para a sua saúde.
Ana e Mia (como são carinhosamente chamadas a anorexia e a bulimia pelas suas adictas) põem a descoberto uma grave síndrome da contemporaneidade. Por não ter o que revelar do seu mundo interior, as pacientes exibem o que sustenta o interior do seu corpo. O esqueleto à mostra revela, enfim, o ideal estético da desumanidade. Sem a sujeira das tripas, sem a volúpia das carnes. Só a pele, os ossos e o nada.


11 março 2009

Vai acabar em inglês

A nova reforma ortográfica fez a besteira de tirar o circunflexo das terceiras pessoas do indicativo ou do subjuntivo dos verbos "crer", "dar", "ler", "ver", assim como de palavras terminadas com o hiato “oo”.
Não sou muito dado a premonições, mas acho a norma vai acabar contribuindo com o já avançado processo de americanização da língua brasileira. Não vai demorar muito para a moçada começar a ler palavras como “deem”, “leem” e “veem” como “dim”, lim” e “vim”. Da mesma forma, “enjoo” e “vôo” vão acabar sendo lidas como “enju” e “vu”.

Eu e o meu corretor ortográfico somos contra.

07 março 2009

Enigmas da noite

Vem, amigo.
vem andar comigo pela noite.
Pelas ruas escuras desta noite.
Tua presença m dá coragem
e juntos vamos atravessar todos os becos,
todos os cantos escuros desta hora.
A hora cheia.
A hora gorda da noite
em que as encruzilhadas espreitam
e as avenidas se estreitam
para quebrar nossos ossos.

Vem, amigo.
Anda a meu lado o mais próximo de mim.
Escuta o baque surdo sobre folhas.
Será o amor ou a morte entre dois corpos?
Apura o ouvido e fala:
esse líquido rumor
é vinho deitado em taça
ou sangue de veia cortada a navalha?

Chega-te mais e diz:
são cães ou homens que uivam
na crista deste muro?
A noite deita seus enigmas, amigo.
A noite é mãe e puta dos enigmas.

Mas nossos passos pelas ruas
derramam uma luz tênue sobre a noite.
E o leito da noite já não é ameaça de morte.
É mais um convite para se passar e ir embora.
Que a noite não quer ninguém com ela.

A noite quer ir-se embora.
Esvair-se na palidez que não fere.
Morrer para que nasça
- não o dia -
uma luz opaca, irmã,
a caminhar entre nós dois.



Imagem obtida em :
www.naomesquecerderespirar.blogspot.com


28 fevereiro 2009

Morte e inferno



O deputado Luiz Couto está condenado à morte. Seu erro foi ter denunciado todos os nomes dos envolvidos com o crime organizado na Paraíba, quando presidiu uma Comissão Parlamentar de Inquérito, encerrada em 2005. Foram mais de trezentos nomes apontados, entre políticos, juízes, promotores e policiais. Gente graúda que exigiu a cabeça de Luiz Couto. Sem nenhuma metáfora. Luiz Couto já teve proteção da Polícia Federal, mas a instituição achou que não cabe a ela zelar pela segurança os parlamentares. Luiz Couto que se vire. Ou morra. Depois do recente assassinato do advogado Manoel Mattos, um dos depoentes na CPI, o deputado Luiz Couto foi anunciado como o próximo da lista de extermínio. Daí, pediu novamente a proteção da Polícia Federal, mas o seu pedido caiu numa cadeia burocrática que até agora só produziu protelações. Mais uma vez, Luiz Couto que se vire. Ou morra.
O padre Luiz Couto está condenado ao inferno. Seu pecado foi ter defendido o fim do celibato e o uso da camisinha, numa entrevista ao programa “Congresso em Foco”. Por isso, está proibido de celebrar missas pelo arcebispo da capital da Paraíba. O padre Luiz Couto sempre esteve ao lado dos oprimidos e injustiçados. Suas idéias sempre contrariaram o bando mais conservador da igreja católica, que tem no atual arcebispo um de seus mais ferrenhos representantes. Nada mais natural, portanto que seja condenado à excomunhão e o conseqüente fogo do inferno.
O deputado Luiz Couto e o padre Luiz Couto não são duas pessoas distintas. Quem conhece o discurso e a prática do padre, sabe o que pode esperar do parlamentar. E vice-versa. Mas não são apenas os oprimidos e injustiçados que conhecem a coragem deste homem íntegro que se chama Luiz Couto. As forças retrógradas do coronelismo, laico ou clerical, também a conhecem. Por isso o querem morto e condenado ao inferno. Mas nós, que nos sentimos representados pelo parlamentar e incitados pelo religioso, queremos Luiz Couto vivo. E nada precisamos desejar aos seus inimigos. Estes já estão condenados pela história à morte política e ao inferno moral.

Ilustração:
William Blake - Dante's Inferno, Whirlwind of Lovers.
Obtida em www.nimbi.com

25 fevereiro 2009

Trema


Ser pai coruja é pouco. Sou tio coruja também. Esta idéia aqui é de minha sobrinha Ana Patrícia.
Ela está se revelando uma fotógrafa muito criativa. Veja mais coisas dela em