12 julho 2009

Parto natural


À uma e meia da madrugada, entramos em trabalho de parto. Entramos eu e Glória, os avós, Flávio, o marido e, last but not the least, Ana Lia, que bateu no nosso quarto e avisou com toda naturalidade: minha bolsa rompeu.
Muito naturalmente, chispamos para a maternidade, pois nossas contrações já atacavam em menos de cinco minutos de intervalo. Parteira e pediatra a postos, decidiu-se que o parto seria ali mesmo, no quarto. Nada mais natural, portanto, que eu me retirasse, pois tinha clara consciência da minha inutilidade naquele momento.
Talvez essa tenha sido a decisão mais errada da minha vida. Fiquei andando feito um bicho enjaulado pelos corredores, ouvindo os gritos de minha filha e imaginando todas as torturas que lhe estavam sendo infligidas por aquele bando de perversos. Por vários momentos estive a ponto de irromper no quarto de arma na mão e gritar: isto é um seqüestro. Todos para a sala de cirurgia.
Mas de repente fez-se um silêncio logo quebrado por um vagido apaziguador. Foram-se os monstros e em seus lugares estavam uma médica perfeita, uma pediatra competente, uma avó em lágrimas, um pai em transe e um mãe em exausta beatitude.
Foi a primeira vez que testemunhei auditivamente um parto natural. Pelo que sofri, passei a achar que não existe nada mais natural do que uma boa cesariana. Mas todas dizem que é bem melhor a recuperação rápida do que a chateação pós-cirúrgica. Não tenho como optar.
Natural mesmo é o nosso resguardo. Há uma tendência generalizada a ficar na cama, voltar depressa pra casa, nadar em lágrimas a qualquer pretexto. Natural mesmo é o clima amoroso que se instala em toda a casa contaminando outros endereços em volta do mundo. Natural, muito natural é que eu esteja aqui tentando disfarçar um sentimento transbordante que me causa a condição de avô de Anita.

6 comentários:

Juliêta Barbosa disse...

Ronaldo,

Meus parabéns! Veja só que milagre é a vida: você comemorando uma chegada e eu 'chorando' uma despedida.
...Não importa! São momentos como esses que dão sentido a nossa existência.bjs

Angela disse...

Parabéns Ronaldo!
Netos são a maior benção da vida! Desejo que a Anita te encha de alegrias!
E parabéns à avó e, mais ainda, à mãe que, em minha opinião, permitiu que Anita fizesse sua primeira e grande escolha - quando nascer!

Anônimo disse...

Ronaldo, parabéns pela netinha. Sei o quanto você está feliz. Tenho 10 netos, e sei o que é isso. Beijos pra você e Glória.
Dôra Limeira

Odilon disse...

Não sei se avosidade recente e tão traumática permitirá a leitura do comentário, imagine então a resposta que tanto
pode ser melosamente amorosa quanto de absoluto desdém de quem não tem a esperança de um dia...merece-la pelo meu mail que continua odilonk@terra.com.br ou pelo mesmo prefixo com o sufixo gmail.com e um @ de permeio.
Anita é linda. Goga deve estar gagá. E nós sempre fiéis: como era mesmo seu skipe?

Alejandro Ramírez disse...

Felicidades, Ronaldo. Qué bella descripción haces de ese momento. La angustia, la ansiedad, la alegría final...

Muchas felicidades.

Gal disse...

Parabéns pela netinha, não canso de ler seus contos, esse foi doloroso, ao mesmo tempo belo, e com um final especial!
Abraço