15 abril 2009

O gosto da memória




Essa história de Páscoa com ovos e coelhinhos é relativamente nova em minha vida. Quando era menino, o que existia mesmo era a Semana Santa. Começava no Domingo de Ramos, com o Cristo entrando em Jerusalém aclamado pelo povo. Já na Sexta-Feira da Paixão o Filho do Homem estava crucificado. Passava-se o Sábado de Aleluia em luto pela sua morte. Na meia-noite ia-se à missa, onde o padre ficava procurando a Aleluia em um livro enorme. Se não achasse a Aleluia, era certo que o mundo ia se acabar. Por isso os sinos tocavam energicamente e todas as luzes da igreja eram acesas quando, do meio do latinório, ouvia-se a palavra salvadora: Aleluia. O fim do mundo ficava adiado até a próxima Semana Santa. No Domingo, enfim, comemorava-se a Ressurreição. Não sei muito bem como se encaixam aqui os três dias em que, segundo a antiga liturgia, o Cristo desceu aos infernos.
Este ano, mais uma vez, fui passar a Semana Santa em Maceió. É um dos meus poucos luxos com que gosto de fazer inveja aos amigos. Atitude, reconheço, bem pouco condizente com o espírito de humildade cristã que deve reger esta época do ano. Mas vaidade é vaidade. Vamos lá. Comi e bebi como um cônsul romano, entre curtos intervalos imerso numa piscina de água quase morna.
Sempre se comeu bem na casa desses meus primos, desde o tempo em que minha Tia Carminha tomava conta da cozinha. Mas é de um tempo anterior a este que me vem a lembrança da melhor refeição da minha vida. Tia Carminha morava numa casa parede-meia, na beira da linha, no bairro de Jaraguá. Casa pequena, mas com um quintal generoso, onde uma mangueira deitava fruta e sombra. Era Semana Santa e a proibição da carne era compensada com um siri de coco digno de constar da Santa Ceia. Feijão com farinha, comidos à mão em bolões molhados em um molho de pimenta malagueta feito com o caldo do próprio siri. Tudo isto acompanhado com uma manga espada estourando de amarela, chupada pelo bico, como um seio. Esta foi a comida mais gostosa de toda a minha vida. Sem vinho, sem chocolate, sem coelhos em volta. Só os olhos e as mãos milagrosas da minha tia.


Imagem obtida em www.receitastipicas.com

Um comentário:

José Antonio disse...

Olá, poeta!
Crônica bem temperada com teu privilegiado humor e amor das coisas mais simples. A manga, chupada ao natural, como entumescido seio colhido à natureza...! E esse siri ao coco na Santa Ceia...! Quase dá pra sentir o hálito da marvada cana nocauteando os apóstolos. Abraço bom,j.a.assunção.