29 junho 2008

Assunto


Aconteceu hoje, no começo da tarde. Duas moças e um rapaz caminhavam por uma rua deserta de muros altos, quando ouviram gritos vindos de uma casa. Uma mulher suplicava que alguém telefonasse chamando uma ambulância. Seu filho tinha se sufocado. Nenhum vizinho saiu da sua paz dominical para acudi-la O grupo atendeu ao pedido. Em poucos minutos, a criança era atendida por uma equipe de para-médicos. Mas já estava cianótica. Talvez já estivesse morta.
O que chamou a atenção do grupo de jovens foi que, depois que a ambulância chegou, com sua sirene e seu aparato de filme de televisão, os vizinhos se acotovelaram nos portões de suas casas, especulando, dando opiniões.
Sei que mais uma vez estou me expondo à crítica dos amigos por criticar mais uma pequena perversão dos meus semelhantes. Mas não é de hoje este alheamento ao sofrimento vizinho. Fazemos de tudo para adiar o compromisso com a dor ao lado.
Os gritos da mãe não foram suficientes para tirar os vizinhos da pachorra dominical. Somente quando soou a sirene, quando abriram-se as portas para o espetáculo das urgências é que deram as caras. Para ver, para fruir, para contar depois no escritório ou no salão de beleza.
. Agora sim. Terão um bom assunto para animar o almoço e rechear os intervalos do Domingão do Faustão.

Imagem obtida em: artigosdepsicologia.files.wordpress.com/2007/...

20 junho 2008

Migrantes

Somos todos migrantes. Para ter o direito à vida, somos expulsos de um lugar que nos guardava como um paraíso. E o nosso primeiro trabalho é construir um simulacro desse espaço dentro de nós. Construímos um eu. E jogamos para fora dele tudo o que ousar perturbar a paz reencontrada. E assim criamos um outro diferente do que pensamos ser.
Somos todos migrantes. Fugimos da solidão procurando a união com os mais próximos, os mais parecidos a nós mesmos. Criamos um grupo e jogamos para fora dele tudo aquilo que ameaçar esta frágil comunhão. E assim criamos nossos inimigos. Pode ser os vizinhos, os moradores de outra cidade, outro estado, outro país. O de outra cor, outro credo, outra ou nenhuma posse.
Somos todos migrantes. Migramos da nossa humanidade e prendemos, humilhamos e devolvemos ao horror aqueles que nos procuram em busca de um pouco de paz e trabalho. Se antes fazíamos isto às escondidas, agora criamos leis que nos permitem o mal sem culpa.
Ainda somos migrantes. Nosso desejo nos faz migrar para um lugar onde todos poderemos nos reconhecer como semelhantes. Onde todas as diversidades serão acolhidas, onde a diferença será o nosso traço de união. O outro, o diferente, alegrará com luz e cor o cinza da nossa mesmice. Este lugar ainda está longe. Mas é para lá que migramos.

Imagem recolhida em www.radio.usp.br

17 junho 2008

Se arrependimento matasse...


Bem que Glória me avisou. Eu não tinha nada que falar sobre o assunto da porta aberta. Não desconfiava do tamanho do vespeiro em que estava metendo a mão. Fui chamado de ranzinza, insensível, desviante e portador de “neura de psicólogo”. Teve até uma coisa mais séria, o relato da mãe e da irmã de uma amiga muito querida que foi jogada para fora de um táxi aos quatro anos de idade, por causa de uma porta mal fechada.
Não sabia que estava criticando uma instituição nacional tão consolidada. E olha que já falei mal do PT, dos católicos, dos protestantes, até do Créu e a respectiva bunda da mulher melancia. Nunca recebi tanto e-mail em protesto quanto agora.
De qualquer forma, é bom saber que as pessoas se interessam pelo que escrevo. Melhor ainda é ver uma opinião minha ser criticada com respeito e carinho, mostrando a boa vontade de muitos em acolher um pensamento que foge à unanimidade.
Claro que continuo achando que a má fé e a hipocrisia costumam se esconder por trás de certos comportamentos estereotipados. Mas se alguém notar qualquer porta do meu carro mal fechada e minha neta Gabriela estiver lá dentro, me avise, pelo amor de Deus.

Imagem obtida em gatocomvertigens.blogs.sapo.pt

13 junho 2008

A porta e a senha


Eu voltava para casa num fim de tarde, o carro passeando pelas ruas internas do bairro. De repente, um carro de trás buzina, dá sinal de luz. Encosto para deixá-lo passar, mas ele emparelha com o meu. Lá de dentro, o motorista e o carona gritam quase com raiva: a porta. A porta está aberta.
Este é um comportamento urbano que me intriga. Ninguém pode ver uma porta de carro mal fechada. Já cheguei a pensar que seria uma das poucas demonstrações sobreviventes do famoso estilo cordial brasileiro. Já não penso assim. Esta pretensa solidariedade esconde, a meu ver, pelo menos duas atitudes em nada louváveis. Uma delas seria a necessidade de se mostrar preocupado com o semelhante, sem se comprometer com o seu bem-estar. Dá-se um grito, faz-se uma cara simpática de compreensão e toca-se (literalmente) em frente. A outra atitude, mais autêntica, seria aquela dos ocupantes do carro no meu bairro: eu sou melhor do que você e estou me dando ao trabalho de denunciar o seu erro.
Outro comportamento, de desenvolvimento mais recente, ocorre quando o vendedor da loja ou do posto pede para você registrar sua senha na maquininha. Ostensivamente, ele (e quem mais estiver ao redor) vira a cara para o lado, como quem diz: veja como sou honesto. Não quero saber a sua senha. Um mínimo de psicologia de botequim serve para deduzir o tamanho do seu desejo em nos roubar a senha.
A porta e a senha: dois símbolos do acesso a lugares restritos, são boas metáforas para a aproximação entre as pessoas. Pena que estejam sendo usadas como expressão da má fé e da vaidade.


Ilustração obtida em picasaweb.google.com/.../XcviuxGFKuV6XMOXjahU9w

08 junho 2008

Cara nova


Enquanto físicos, filósofos, psicanalistas e poetas não chegarem a um acordo a respeito do tempo, vamos sempre ter problemas ao falar dele. Ontem mesmo, conversando com Glória a respeito da idade de uma apresentadora de televisão, lembrei que a cara antiga dela era bem diferente da nova cara que víamos agora na televisão. Vejam bem, neste pequeno exemplo, a confusão que dá falar do tempo. A cara de antigamente era de uma pessoa nova. É, portanto, uma cara velha. A cara nova é a cara de uma mulher sábia e rodada, que se apresenta como novidade.
Perde-se no passado a cara nova que um dia já tivemos. Emerge da velha pele a nova cara que o tempo nos fabrica. Se gostamos ou não da nova cara, se aceitamos ou não a novidade, não é problema do tempo. O operário silencioso molda nossas máscaras à nossa revelia. E vinga-se dos que tentam mascarar o seu trabalho. A todos nós, sujeitos passivos do tempo, resta o trabalho de contemplar a cada dia as novidades que o espelho nos revela.


Imagem obtida em blogdajetx.blogs.sapo.pt

01 junho 2008

O poema roubado

São muitos os destinos dos poemas. Coração na chuva, um poema meu, feito quase de brincadeira, foi roubado. O ladrão é um cara de uns dezesseis anos, da Oficina de Leitura de Mandacaru. Desde que foi lido, o poema fez o maior sucesso entre a moçada. E o cara estava apaixonado por uma menina do grupo. Coisa séria e sabida por todos. Um dia, a menina trouxe uma cópia do poema diagramado por ela no computador, ilustrado por dois corações em chamas. Daí, ele passou a dizer que o poema era dele. E, na maior cara de pau, afirma que fui eu que roubei e publiquei no livro o poema que ele fez.
Acho que a forma simples e direta do poema cai no gosto da turma. Ele é assim:

Os olhos do meu amor
são muito grandes
e chovem.
E o meu seco coração
fica secando os olhos dela,
querendo se molhar nos olhos dela.
Eu digo ao meu coração: esquece.
Meu coração não está nem aí.
Meu coração está lá,
debaixo dos olhos dela,
dos enormes olhos dela
que chovem.
Que chovem muito,
deixando meu coração ensopado,
encharcado,
resfriado de amor.


Dos muitos destinos dos poemas, coube ao Coração na chuva servir de brinquedo a um amor adolescente, fornecendo juntos, amor e poema, um pouco de leveza ao mundo tenso em que se encontraram.

Imagem obtida em essenciafeminina1.spaces.live.com

22 maio 2008

Nossas senhoras



Eu fui fazendo vista grossa, deixando para a semana que vem e de repente minha casa virou um inferno de pequenos defeitos.
Comecemos pelo muro da frente e vamos contando pela ordem dos cômodos. O interruptor da campanhinha estava quebrado pela enésima vez, pois um maluco dá um murro nele toda vez que lhe é negada uma esmola. O portão automático estava fora do trilho, com a fechadura emperrada e uma das placas magnéticas danificada. Na certa tentaram arrombá-lo. Na área de serviço, a máquina de lavar, uma torneira e uma telha transparente esperavam conserto. Na cozinha, o gelágua parecia ter queimado o motor. O micro de apoio só ligava quando bem queria. O aparelho de ar condicionado do quarto estava com o compressor furado.
Podem não acreditar, mas esta revolta geral das coisas se concentrou numa única semana. O suficiente para deixar claro quem manda aqui em casa.
Tem pra mais de trinta anos que escrevi um poema sobre o poder que as coisas têm sobre nós. Veja que coisa singela:
O direito das coisas
meus óculos
meu relógio
minha caneta
minha maquina de escrever
meu carro
meu copo gravado com meu nome.

meus livros
meus discos
meu toca-discos
minha calça listrada
meus tamancos
minha carteira profissional.

as coisas a que pertenço
exercem sobre mim o seu direito
dando-me forma e movimento
determinando o que sou
mantendo a ilusão de que são minhas.

Quando escrevi o poema, não tinha a menor idéia do que me esperava pela frente. As coisas ainda disfarçavam a sua ascendência sobre mim. Hoje, elas jogaram suas máscaras fora. Exercem abertamente sua tirania e não perdoam qualquer tentativa de insubordinação.

imagem obtida em: casa.hsw.uol.com.br

18 maio 2008

Meia hora


Todo mundo tem medo de alguma coisa. André tinha medo de meia hora. Seu analista chegou a interpretar que ele temia perder a virilidade. Por isso lhe dava pavor o ponteiro dos minutos totalmente voltado para baixo do mostrador. Erro freudiano. André também tinha medo da meia hora em relógio digital.
A coisa era tão séria que, ao ver o ponteiro se aproximar do tempo fatal, ele tirava o relógio do pulso e ia se esconder em um lugar seguro. Só voltava quando já fosse qualquer hora e trinta e poucos minutos.
Não sabia muito bem o que poderia lhe acontecer de meia em meia hora. Mas a coisa era automática. Uma ponta de angústia lhe tomava o peito e ele já sabia. Nem precisava olhar o relógio. Prendia a respiração, fechava os olhos, controlava o tremor das pernas para depois ver tudo ir embora junto com o ponteiro em direção ao trigésimo sexto minuto.
Poeta famoso no quarteirão onde mora, André costumava ser reconhecido pelas meninas da vizinhança como aquele rapaz delicado que fazia versos de amor muito bonitos. Foi por isso que Marcela sentou junto dele na sorveteria e pediu: faz uma poesia pra mim. Olha, são quatro horas. Daqui a meia hora eu volto pra buscar.
O problema não era o prazo, pois André vivia treinando umas rimas para ocasiões extraordinárias como essa. O problema era a hora. Pegou o guardanapo, traçou as catorze linhas do soneto, mexeu um pouco para disfarçar o plágio, ficou uma beleza. Ainda admirava a obra quando começou a sentir o aperto no peito. Marcela não podia encontrá-lo assim, tremendo, resfolegando, suando as mãos. Correu para o banheiro.
Quando voltou, Marcela já saía pela porta da sorveteria. O relógio marcava quatro e trinta e cinco.
Clube do Conto da Paraíba, 17.08.2008
Imagem obtida em brandusblog.blogspot.com

15 maio 2008

Revisitando Millor





"Até aqui me ajudou o Senhor", disse o crente suicida ao passar pelo décimo andar, depois de se jogar do vigésimo.

Tristes tempos estes, em que os crentes se suicidam.

imagem obtida em investclub.blogspot.com

11 maio 2008

Estação Mandacaru


08 maio 2008

Ainda é maio


Não sei o que Dôra Limeira estava fazendo em maio de 68, ou antes e depois dele. Sei que ela tem o hábito de usar a bolsa com a alça cruzada no peito, sinal de que ela já levou muita carreira da polícia. Agora, eu sei bem o que Dôra estava fazendo no fim da tarde do dia quatro de maio de 2008. Estava participando da Marcha da Democracia, junto com a filha e o namorado desta. Quero só esclarecer que esta marcha foi organizada como protesto à proibição pela justiça de uma marcha anterior a favor da legalização da maconha. Vamos deixar a própria Dôra dizer o que viu, do alto dos seus setenta anos:
“Havia muitos jovens, muitas cores, sorrisos, brincadeiras e palavras de ordem. Era muita a energia que ali estava canalizada. Portavam e exibiam toscos cartazes em cartolinas, com mensagens escritas com pincel atômico. O que queriam aqueles jovens assim irmanados naquele momento, naquele espaço? O que diziam aqueles cartazes e faixas rústicas, algumas, podia-se ver, confeccionadas em casa? (...) Queriam eles que fossem respeitadas as suas opiniões, seu direito de ir e vir, queriam falar, dizer. Queriam sorrir, jogar fora mordaças, bradar por liberdade de manifestação.
“(...) No entanto, em dado momento, percebi um tumulto se formando em torno do carro de som. O que seria? Policiais de trânsito e policiais militares anunciaram que o carro não podia prosseguir, alegavam irregularidades burocráticas.
“Aquilo foi mesmo que jogar água fria na fervura. Mas a turma acatou, mesmo que a contragosto, fazer o quê?. A turma era gente do bem. Fariam a festa ali mesmo, em volta do carro, os microfones ligados, a música tocando, a multidão dançando no meio da rua. Não haveria a caminhada, mas apenas um protesto. Gentes sentavam no asfalto, encenavam mordaças, alguns iniciavam coros dizendo abaixo a repressão, democracia sim. Mas as autoridades só queriam truculências, tumultos. Policiais desligaram o som do carro, repuxaram fios, danificaram a instalação e fizeram um cinturão em torno do carro de som, como quem diz aqui ninguém encosta mais. Exacerbaram-se os jovens, até então muito calmos. Os policiais disseram ‘vamos levar o carro’. Os jovens disseram que não. Um rapaz se deitou na frente do carro para impedir, os policiais arrastaram o corpo do rapaz para que saísse da frente à força. Os policiais extrapolaram em suas posturas e levaram o carro embora. Vi quando os policiais espancaram um moço. (...) Ouvi impropérios, gritos de ‘abaixo a repressão’, insultos de lado a lado.
“De repente, que horror. Tropa de cavalaria invadiu a rua, os cavalo’s se postaram em posição de atacar. A turma se irmanou (...). O hino nacional avançou nas vozes afinadas dos manifestantes. Os cavalos ameaçaram pisotear todos. Vi repentinamente quando os animais avançaram na multidão, bombas de efeito moral explodiram. Meninos, rapazes e moças, senhores e senhoras, anciãs e anciãos correram atabalhoados para escapar das patas dos animais. Entrei em pânico, todos entraram em pânico. Algumas pessoas tentaram se proteger entrando nos bares, os cavalos entraram também nos bares, uma multidão correu para a areia da praia, tentando se proteger, os cavalos invadiram a areia galopando atrás da multidão. Eu não via mais nada, sabia apenas que precisava correr muito na areia. Finalmente, senti braços protetores em meus ombros e ouvi alguém me dizendo palavras de conforto. Era minha filha e o namorado dela falando comigo. Alguns rapazes desconhecidos também me cercaram em gestos de proteção.
Dôra está aí para nos lembrar que ainda existe maio. Que a chama que se alastrou pelas ruas do mundo em 68 ainda não se extinguiu. Ela ainda arde nos corações de pessoas como Dôra, prontas para ir às ruas com a alça da bolsa cruzada no peito, dispostas ao que der e vier.

01 maio 2008

O poema e o créu



O que pode um poema contra uma foto de Andressa Soares, a mulher melancia, na capa da Playboy? Para os pouquíssimos que ainda não sabem, a garota é aquela que fez o maior sucesso no último carnaval, e depois dele, agitando os 121 centímetros de diâmetro de sua bunda na famigerada dança do créu. Ela já deu entrevista no Jô, já apareceu no Casseta & Planeta, tornando-se figura obrigatória em qualquer aglomerado de celebridades.
Numa demonstração cabal da importância cultural que a mulher melancia alcançou, a revista com o seu imenso glúteo na capa foi lançada na livraria Nobel, em um Shopping do Rio, com sessão de autógrafos da própria fotografada. A foto está aí, para não me deixar mentir.
Uma das minhas preocupações com a garotada da oficina de leitura que ajudo a tocar no Bairro de Mandacaru, em João Pessoa, é com o nível das letras de música que eles, principalmente elas, cantam nos intervalos entre as atividades. É pornografia no seu nível mais direto e grosseiro. Sem metáforas ou meias-palavras. Isto sem falar na coreografia que ilustra os temas das peças musicais.
Constatando que de nada adiantava a minha reprovação verbal a cada demonstração áudio-visual, resolvi pedir que as meninas trouxessem as letras das músicas, com a intenção de fazer um paralelo entre o seu conteúdo e alguns poemas eróticos de autores como Drummond ou Bandeira, ou gente mais nova, como Marta Medeiros, Márcia Maia ou Vitória Lima. Ainda não posso relatar o resultado da experiência, pois ela ficou programada para o próximo módulo. Prometo prestar contas assim que tiver algum resultado, seja ele qual for.
Mesmo que não consiga muita coisa, sei que o meu trabalho irá se somar ao de muitos outros viciados em esperança. É muito pouco o que pode fazer um punhado de agentes sociais bem intencionados contra o poder de fogo das grandes redes de comunicação de massa. A luta é desigual. O créu está ganhando. Mas o poema insiste, como um mosquito da dengue.

28 abril 2008

Um problema adiado


Existe vida após a morte, afirmam crentes de vários credos. Acho que a frase está invertida. O certo mesmo é que existe morte após a vida. Não vejo nenhum sentido, por exemplo, em receber, depois de morto, um camisolão branco e uma lira para cantar loas eternas ao Criador. Por maior que seja a paciência divina, um dia Ele enxotaria o bando de puxa-sacos para o andar de baixo.
Muito menos aceito a idéia de que exista um mundo um pouco acima do nosso, em tudo idêntico ao nosso, de onde os mortos dariam palpites em nossa vida. Se é para continuar a fazer o mesmo que fazemos em vida, pra quê, me digam, morrer?
Isto sem falar na hipótese da transmigração, em que eu posso voltar a este mundo na forma de algum animal, vegetal, ou mesmo mineral. Claro que sentiria um certo orgulho em ter sido a pedra inspiradora do célebre poema do Drummond, mas não me sentiria muito bem sendo a barata de Clarisse Lispector.
Talvez o leitor esteja perguntando o motivo dessas digressões sobre a morte. É que andei meio doente esta semana e me botei a pensar no que aconteceria depois da minha morte. Claro que não me preocupei com os sobreviventes. Mais cedo ou mais tarde, eles se acostumariam com minha ausência e continuariam tocando suas vidas. O problema maior era comigo.
É impossível para qualquer pessoa pensar o mundo sem a sua presença. Freud já dizia que não há representação da morte em nosso inconsciente. Pela razão pura e simples de que ainda não tivemos a experiência da morte. Pelo menos da morte deste eu que insistimos em idolatrar. De minha parte, tenho a maior dificuldade em me imaginar vivo depois da morte. Por mais que seja eu que esteja vivo, serei sempre um eu... morto. E se houver reencarnação não serei, ainda bem, o mesmo desta vida.
Felizmente, começo a semana bem melhor de saúde. Posso deixar este problema para mais tarde. Bem mais tarde, espero.
Imagem obtida em: harpad.com.sapo.pt

21 abril 2008

O tempo que não passa


Tem um tempo que passa e um tempo que não passa. O tempo que passa é o tempo dos relógios, das noites e dos dias. O tempo que não passa é o tempo congelado daquilo que não logrou virar palavra.
Cada um de nós tem um tempo que não passa. Um tempo de que não se fala. Tempo de um tempo em que ainda não tínhamos acesso à fala. Um tempo de fragmentos, de restos desarticulados de imagens e ruídos sem sentido. Um tempo cansado de não passar.
Tempo em que as coisas aconteceram sem o amparo das palavras. Por isso, as coisas são dardos cravados na carne, de onde, doendo, fazem sinal em forma de angústia. Por isso, este é um tempo que insiste em se contar, para de uma vez por todas deixar de doer, tornando-se passado.
A humanidade também tem um tempo que não passa. Tempo em que não tínhamos mais do que inferno e horror. Tempo em que ainda não tínhamos as palavras com que falar de inferno e horror aos nossos descendentes. E quando a carne se fez verbo, foi este tempo sem memória que inventamos em volta das fogueiras. E na falta da memória, criamos mitos.
É fácil agora entender porque, desde as cavernas, falamos tanto, grafamos tanto, insistindo loucamente em marcar nossa passagem pelo mundo. Temos certeza da morte. Sabemos que vamos passar. Mas, antes, queremos lançar no mundo dos signos – para que passe - o que trazemos em nós deste tempo que não passa. Para que de inferno e horror não reste mais do que as palavras que os nomeiam.

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14 abril 2008

Às vezes dá certo


É difícil dar certo. Homem e mulher raramente dão certo. Chego a pensar que vivemos com o par de uma outra espécie animal. Como se na hora de fechar a porta da arca, o orangotango macho ficasse vendo a cobrança de pênalti do seu time no último minuto da prorrogação e a fêmea do chipanzé estivesse em dúvida sobre o que usar no primeiro dia da viagem. Sem poder esperar mais, Noé considerou como casal os dois representantes das espécies parecidas e levantou âncora. Algo assim aconteceu com o homem e a mulher. Senão, porque cada um dos gêneros tem um nome diferente?
Daí a estranheza entre os casais dos ditos humanos. Nenhum dos dois se comporta segundo as expectativas do outro. A questão sobre as tampas das bacias sanitárias é uma das melhores provas da nossa incompatibilidade. A diferença entre as capacidades de perceber as nuances das cores é uma demonstração cabal de que não temos uma origem comum.
É este desencontro pré-diluviano que provoca a necessidade de homens e mulheres se reunir em separado. Você já viu um bando de tatus ficar no bar até tarde discutindo futebol? Já teve notícias de três ou quatro jaguatiricas tagarelando no banheiro?
Cada homem e mulher carrega uma certa nostalgia pela ausência do verdadeiro par. Por isso gostamos tanto de animais de outra espécie. Talvez adivinhemos neles alguns traços do objeto perdido.
Sei que esta hipótese sobre o desencontro originário carece ainda de respaldo científico. Mas não é coisa difícil de provar. Homem e mulher estão com o par da espécie errada. Mas às vezes dá certo. E é muito bom quando dá certo.

06 abril 2008

Gênesis


E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas. G. 1:2.


Abriu os olhos sem saber onde estava. E ficou sem saber, pois estava envolvido pela escuridão. As costas doíam. Sentiu que estava deitado sobre tábuas. E as tábuas flutuavam. Os ouvidos vieram em seu auxílio e informaram que estava em alto mar. Não quis se mover. Não sabia a extensão das tábuas. Teve medo de cair no abismo das águas.

Não tinha como ver passar o tempo. Não havia tempo, portanto. Em um momento, porém, o tempo se inaugurou. Uma luz diáfana manchou de repente o que até bem pouco era treva. Não é mais de noite. Já é dia. Agora já pode contar o tempo. Isto é bom.
Com a luz, pôde ver as águas em que sua precária jangada flutuava. Olhando para cima, viu os grandes armazéns de água que deixavam o mundo cinzento. Mas sabia que além do cinza, havia a grande expansão dos céus.
Sob a pouca luz, seus olhos custaram a ver uma ponta de terra para onde as ondas empurravam sua jangada. E seu coração se abalou quando viu as ramagens da salsa caroba cobrindo a parte seca da areia da praia. E depois da salsa, o capim. E depois do capim, as árvores e nas árvores os frutos com que mataria sua fome.
Foi sob as árvores que viu se dissiparem as nuvens, mostrando um sol já em declínio. E ainda com o clarão do sol, ele viu uma lua cheia, garantia de que não voltariam as trevas. E com a lua vieram as estrelas que lhe contaram do lugar onde estava e em que estação do ano se vivia.
Com o novo dia vieram os pássaros. Com as águas claras, vieram os peixes. E depois veio o gado pequeno e grande, vieram os bichos que se arrastam no chão e os mais fugidios e ferozes. A tudo ele via, de tudo se servia, mas o seu coração estava triste. Estava só.
E, de tão só e triste, dormiu. Dormiu soluçando. Dormiu com frio. Mas quando acordou, um lado do seu corpo estava quente. Deste lado estava outro corpo, um pouco diferente do seu. Os dois corpos estavam nus. Mas não havia vergonha em seus rostos. O amor criava ali um novo mundo, criando novamente aqueles dois. Macho e fêmea os criou.

Clube do Conto da Parahyba, 5 de abril de 2008
Imagem obtida em www.cacomigo.blogger.com.br/maos%20dadas.jpg

30 março 2008

Contatos imediatos


Não sei quem são eles. Nunca os vi. Mas deixaram duas mensagens no muro da minha casa. Os muros de toda a vizinhança também estão manchados com esses caracteres indecifráveis, que gritam alguma coisa que não consigo entender. Um enigma que me faz uma exigência de decifração. Nossos muros se transformaram em versões pós-modernas da Pedra do Ingá.

Numa dessas minhas andanças vagabundas, passei pela porta de uma casa em que um menino, dos seus dez anos, mostrava aos amigos um caderno de papel pautado em que treinava este tipo estranho de caligrafia. Dizia, com evidente orgulho, que estava entrando na turma de um certo fulano, e que dali a pouco participaria de uma pichação. Isto nos permite um começo de entendimento. Saber fazer aquela caligrafia significa pertencer a uma turma, ter um grupo com que se identificar no esforço de desligamento necessário do círculo estreito da família.
Pelo tipo de grafismo e por certos sinais particulares, cada grupo deixa sua assinatura, numa espécie de disputa pela parede mais alta, pela marquise mais perigosa, pelo local mais desafiador, arriscando-se mesmo à violência e à morte pelos proprietários dos imóveis atacados.
O que essas inscrições neo-rupestres me sugerem é a existência de um imenso e concreto vazio nos indivíduos e nos grupos. Um vazio que se expressa na falta de um sentido lógico nas suas mensagens. Formalmente, existe um certo requinte gótico nos caracteres, deixando claro que não é uma expressão anárquica. Participar dela exige disciplina, como prova o menino com seu caderno.
Talvez nem mesmo os autores dessas mensagens saibam o que elas queiram dizer. Talvez fiquem tão perplexos quanto eu frente à sua obra. Uma coisa, porém, é certa: eles querem fazer contato conosco através dos nossos muros. Para comunicar o quê? Uma ameaça? Um pedido de socorro? Um grito de desespero?

Ilustração obitda em: dobispo.zip.net/images/ttsss.GIF

23 março 2008

Derivas


Os judeus celebram a Páscoa em memória da libertação da escravidão no Egito. Os cristãos comemoram a passagem para o novo tempo que a ressurreição do cristo anuncia. Liberdade, renovação. Que sentido fazem estas palavras fora do seu contexto estritamente religioso e litúrgico?
Um olhar mais atento sobre o mundo nos mostrará que a única liberdade visível é a que se anuncia como liberalidade do mercado. E todos sabemos o quanto isto tem acentuado a desigualdade entre os países e aprofundado a distância entre as classes. Quanto à renovação, ela se dá do ponto de vista estrito das mercadorias, o que nos empurra para um processo alucinado de consumo.
A humanidade ainda não conheceu a Páscoa. Somos todos errantes. Vivemos à deriva num deserto ético em que só os sistemas religiosos parecem apontar alguma salvação. E nisto reside a nossa miséria e nossa esperança. Miséria, porque todo o nosso percurso histórico ainda não conseguiu prover a humanidade dos instrumentos tecnológicos e ideológicos necessários a uma convivência de bonança e harmonia. Esperança, porque alguns desses sistemas religiosos apontam para certas saídas éticas que contemplam uma convivência na diversidade.
Judeus ou cristãos, muçulmanos ou budistas, pagãos ou ateus, nenhum de nós conheceu ainda a liberdade ou a renovação. Vivemos todos ainda à espera de uma Páscoa que nos resgate a todos deste êxodo em que ainda não vislumbramos nenhuma terra prometida. E enquanto esperamos a Páscoa, reconheçamo-nos humildemente como seres de incertezas e derivas. Que a humildade seja o nosso único ponto em comum. No mais, cada um que derive a seu modo.
O cuidado maior, enquanto derivamos, é não dar ouvidos aos que apregoam suas crenças como caminhos exclusivos para a salvação. Todos temos o direito de escolher se e como queremos ser salvos.
Ilustração :"Le Radeau de la Méduse", de Théodore Géricault (1791-1824).

13 março 2008

O fim do mundo


Há muito tempo assisto o fim do mundo. Uma certa parte do mundo, aquela em que vivo e vivi, padece de uma lenta e permanente agonia. Já se foram quase todas as casas em que morei. E junto com elas se foram as pessoas que ali moraram comigo. Os bairros de minha infância e juventude sofreram uma torção que os tornaram monstros de si mesmos. Não sei mais onde gastei a sola dos meus sapatos. Não reconheço as ruas que doeram em meus olhos e ouvidos.
Quanto mais vivo, mais despovoado fica o meu mundo. Inúteis muitos dos números de telefones em minha agenda. Ninguém mora mais ali, ninguém mais me espera neste bar, ninguém mais adivinha a hora em que os copos estão sendo trazidos para a mesa do terraço.
Não tenho mais circunstâncias. Eu sou eu e um grande vazio em volta. E o anjo do vazio espera pelo único acontecimento que o torne completo, perfeito, sem falha. O anjo do vazio espera por mim neste vazio. Para decretar definitivamente o fim do mundo. Deste mundo que ainda insisto em manter com minha mísera presença.
Mas ainda haverão de esperar anjo e vazio. Porque ainda tenho memória. Ainda sei como são os homens. E a memória me fornecerá o molde com que forjarei novas presenças. Breve terei um mundo mínimo com o qual recomeçar.
Clube do conto da Parahyba.
13.03.2008

Ilustração obtida em: br.geocities.com

07 março 2008

Os santos tombados




Um homem entrou na Catedral de São José dos Pinhais, no Paraná, e quebrou quase todas as imagens do templo. Cumpria ordens de uma voz interior.
Uma equipe da Prefeitura de Salvador demoliu o Terreiro de Candomblé Oyá Unipó Neto, quebrando quase todas as imagens e os objetos rituais. Cumpriam ordens de um prefeito evangélico.
O homem de São José dos Pinhais foi reconhecido como louco e enviado para um hospital psiquiátrico. Os homens de Salvador e o seu mandante estão sob investigação do Ministério Público da Bahia.
Um estado alterado de consciência pode justificar um ato individual de vandalismo. Não há nada, porém, que justifique o vandalismo oficial, claramente motivado pela intolerância fundamentalista usurpadora do poder democrático.
Tombados ao rés do chão, os santos católicos inspiram a piedade dos homens com o vândalo desvairado. Da mesma forma tombados, os santos negros exigem a justiça dos homens para os desvarios do poder.