01 junho 2008

O poema roubado

São muitos os destinos dos poemas. Coração na chuva, um poema meu, feito quase de brincadeira, foi roubado. O ladrão é um cara de uns dezesseis anos, da Oficina de Leitura de Mandacaru. Desde que foi lido, o poema fez o maior sucesso entre a moçada. E o cara estava apaixonado por uma menina do grupo. Coisa séria e sabida por todos. Um dia, a menina trouxe uma cópia do poema diagramado por ela no computador, ilustrado por dois corações em chamas. Daí, ele passou a dizer que o poema era dele. E, na maior cara de pau, afirma que fui eu que roubei e publiquei no livro o poema que ele fez.
Acho que a forma simples e direta do poema cai no gosto da turma. Ele é assim:

Os olhos do meu amor
são muito grandes
e chovem.
E o meu seco coração
fica secando os olhos dela,
querendo se molhar nos olhos dela.
Eu digo ao meu coração: esquece.
Meu coração não está nem aí.
Meu coração está lá,
debaixo dos olhos dela,
dos enormes olhos dela
que chovem.
Que chovem muito,
deixando meu coração ensopado,
encharcado,
resfriado de amor.


Dos muitos destinos dos poemas, coube ao Coração na chuva servir de brinquedo a um amor adolescente, fornecendo juntos, amor e poema, um pouco de leveza ao mundo tenso em que se encontraram.

Imagem obtida em essenciafeminina1.spaces.live.com

2 comentários:

Carlos Machado disse...

Oi, Ronaldo. Apesar da apropriação indébita em nome do amor e da paixão, o poema recebeu um belo destino. Ganhou uma quase-utilidade. A poesia sempre nos apronta surpresas desse tipo. Certa vez recebi e-mail de um rapaz de São José dos Campos (SP) contando que usava um poema meu, "Homem-bomba", nos shows de sua banda de rock hardcore. Claro, achei legal e inusitado. Disse a ele que seguisse em frente. Abraço,

Only feelings... disse...

O roubo foi por uma boa causa. Certamente que você tem mais credibilidade literária do que um rapaz apaixonado. O poema já voltou para as mãos do dono.
:)