30 agosto 2006

Coração perdido



Era mais ou menos por ali, numa dessas árvores do bosque por trás da gaiola das araras. Eu adoro araras, disse ela. E ficou batendo os braços como asas, gritando com a voz esganada: arara, arara. Ele ficou meio encabulado, mas depois achou graça nela sendo arara. Achou graça assim, sem rir. Quando ela parou, ele segurou na mão dela e foram em direção ao bosque por trás da gaiola das araras.
Quanto tempo fazia? Quarenta, quarenta e cinco? Não era bom nesse negócio de tempo. Sabia apenas que fazia muito, muito tempo que estiveram ali, na sombra daquele bosque de temperatura amena, quase fria. Muito tempo, mas ele ainda sentia a pressão dolorida da casca da árvore na palma de sua mão. Da tensão do seu braço estendido apoiando o peso do seu corpo. Do jeito dos olhos dela pedindo que ele se chegasse mais. Do calor do corpo dela quando ele se chegou mais.
Não se lembra quanto tempo ficaram assim. Não era bom nesse negócio de tempo, já disse. Lembra, sim, de cada beijo, de cada parte do corpo dela por onde viajou sua mão. De cada suspiro que ela deu e de quantas vezes disse meu amor. Lembra do canivete no bolso, do canivete na mão, do canivete na casca da árvore desenhando um coração. E dentro do coração a letra agá de Henrique e a letra tê, de Tereza.
Foi mais ou menos ali, no fundo daquele bosque, por trás da gaiola das araras. Nesse lugar, por onde agora ele errava, os olhos trespassando as árvores em busca de uma árvore que não estava ali. Procurava uma árvore com um rapaz, uma moça e um coração com duas letras. Procurava um tempo que dormia naquele bosque, cansado de esperar por eles dois.
Arara, arara, gritava a arara, ainda ali, como se fosse ela.

*

3 comentários:

Anônimo disse...

Tio,
eu queria comentar essa também! Mas não estou com um bom espírito agora, para esse tema!Mas eu quero falar com o senhor. Então: Eu gostei mas...
...Nós temos que aprender a aceitar o outro como ele é,ou ainda aceitar a sua ausência como ela é. Espera aí,eu vou buscar inspiração lá ná gaiola das araras, depois eu volto!
Beijos
Malke Maurício

Aninha disse...

Meu pai, que pena que cortaram essa árvore tb...

André disse...

Rona, você é um perigo. Deve-se tomar você como esses remédios de tarja preta, com muito cuidado. Assim, como quem sabe que pode fazer mal, se se meter a besta. No entando, como são possíveis neste mundo a existência (comprovada, justificada) de que certos males nos fazem bem, admito. Rona, você é imprescindível (e ponho os pingos nos ii, ponho das drágeas de volta no frasco). Não vou me matar porque você escreve bem. Vou admitir que faço parte desse mundo: de inveja boa, rascante e necessária.

E tudo isso porque o seu Coração perdido não está perdido. Belo, belo conto. Já está entre os meus preferidos, desses contos que posso dizer: eu bem que escreveria um desses. Mas o leitor também é dono do que lê. Fico feliz então porque devolveu este conto pra mim.
Abraços!!