01 agosto 2006

Vistam saias meninas: é agosto



Há um certo prazer em falar mal de agosto. Dizem que é o mês das bruxas, onde cai o dia das sogras, foi quando morreu Getúlio e costumam ocorrer desgraças políticas. Pouca gente fala bem de agosto. Quase ninguém se lembra que é o mês do mais belo luar do ano, promovendo encontros e reconciliações entre os já românticos e convertendo ao romantismo alguns indecisos pós-modernos. Em mim, particularmente, o luar de agosto produz um estado intermediário entre uma lânguida melancolia e uma vontade enorme de uivar.
É certo que em alguns anos agosto lembra um velho sombrio, com suas nuvens cinzentas, suas chuvas fora de hora, invadindo maleducadamente com seus miasmas setembro a dentro. Mas num ano como este, agosto merece ser tratado com toda a consideração. Já na primeira semana faz um sol quase de verão, esquentando um pouco a água do mar, levando à praia uma boa safra de mulheres e, vá lá, alguns homens dignos de nota. Só temos que aturar o vento forte, o bom vento de agosto que, se algumas vezes aborrece ao derrubar varais, espalhar jornais ou varrer areais, nos compensa com um dos mais belos espetáculos ao ar livre: a dança das saias.
E não me venham dizer que isto é coisa que só interessa aos homens. Alguma coisa me diz que as mulheres esperam ansiosas por agosto, preparam-se em academias e clínicas de beleza para o encontro com este mês abertamente masculino. E tenho certeza que uma pesquisa de mercado revelaria um forte incremento no comércio de saias ou cortes de tecidos para elas, cremes e óleos para pernas, além de peças íntimas de langerri a serem desvendadas num momento de estudada distração. Os homens esperam por agosto como a um velho camarada. Um amigo maroto que faz por nós o que mais gostaríamos de fazer em plena rua: levantar as saias das mulheres.
E reparem bem no rosto de uma mulher a quem o vento de agosto vai levantar a saia. Há, de início, uma certa expectativa, quase uma ansiedade, um temor de que não sopre vento nenhum e tenha sido em vão todo o preparo, todo o cálculo de chegar naquela esquina no momento em que um homem, ou um grupo de homens, passa atento pela calçada contrária. Logo, sopra o vento. Primeiro, de leve, deslocando os cabelos e fazendo a vítima fechar os olhos numa mescla de vago aborrecimento e satisfação. Quase um agradecimento.
Ato contínuo, vem o farfalhar da saia. Aí é necessário que a dona da saia tenha alguma coisa em uma das mãos. Pode ser um sortimento de livros e cadernos, algum pacote não muito volumoso, até sacola de supermercado serve em certos casos. O importante é que apenas uma das mãos fique livre para segurar a saia em um dos lados, deixando o outro ao sabor do vento de agosto e dos olhos dos seus gratos amigos do outro lado da rua. O movimento, brusco mas não tanto, de segurar um dos lados da saia leva a um certo desequilíbrio que faz com que o volume sustentado pela outra mão ameace cair. Nisso, a mão que segurava a saia vai em ajuda à sua irmã, deixando agora todo o campo livre para o trabalho do vento e dos olhos.
Há variações do rito, é certo. A melhor delas é quando agosto apanha com seu vento um bando de mulheres no meio de uma ponte ou numa rua larga, de preferência ladeirosa, em que estejamos todos subindo. Mulheres na frente, como manda a boa educação, homens regulando o passo até alcançar a melhor distância para um visão de conjunto e, finalmente, ele, o ruidoso, o assobiador, o vigoroso e salutar vento de agosto, causando desordem e euforia, quebrando a monotonia das tardes friorentas.
Estamos no começo de agosto. Já é tempo, meninas, vistam saias. E deixem brincar com elas o vento de agosto, para o alimento de vossas vaidades e o bem dos nossos olhos. Antes que todos, olhos e vaidades, sejam desviados pelo despudoramento de setembro, escancarando corpos e tornando vulgar o jogo sedutor que agosto sabe tão bem jogar.

(Publicado em Memória curta, 1996)

9 comentários:

Ana Thais =) disse...

Adorei Ronaldo! Singelo! ;)
Nem sabia q vc tinha blog! Vou visitar sempre!
Pena q ñ deu pra ir no lançamento do livro... mas parabéns!
Té mais!

elivanribeiro disse...

Sabes que gosto muito da tua escrita, embora nem sempre entre em harmonia com o seu conteúdo.
Adorei o teu blog! Pretendo viasitá-lo mais vezes.

Espero que vísites também o meu.

http://spaces.msn.com/members/elispace32

Bjusssssssssss
Elivan

Maria Valéria disse...

Blog vale a pena assim: textos bem escritos, bem acabados, de quem tem o que dizer. Estava na hora de aparecer um blog de Ronaldo Monte, com seus textos cheios de graça, sabedoria e poesia, escritos com todo o cuidado, isto é, com respeito ao leitor. Obrigada, Rona!
M Valéria

Laudelino disse...

Bravo bravo. Usem saias, garotas, saias.

Dira disse...

Amei, Rona. Vc é um cronista-contista de mão cheia. Bom te ler e ver vc no mundo da blogosfera. Parabéns e seja bem vindo. Beijo.

Rosa Amanda disse...

Salve, Rona! A blogsfera fica mais inteligente e iluminada com a presença dos seus textos. Vou ficar freguesa. Beijos!

André disse...

Finalmente você dá o braço a torcer e a pena a levitar. Isso aqui vai virar uma baderna boa - símile do nosso clube aos sábados -e eu quero estar por perto. Portanto, aceite minha visita, meu caro Rona! Sucesso, os textos estão ótimos - pra variar..Abraço!

Beto Efrem disse...

Rona, agora todas as crônicas que você envia por email virão para cá?

um abraço!

Roberto

Anônimo disse...

Ronaldo
Parabéns! O blog está muito bom e os textos maravilhosos!
Carlos Cartaxo