05 agosto 2006

Nevinha



Detesto cidade com nome de gente. Disse isto e deu as costas ao pôr do sol. Inda mais com nome de homem, resmungou de braços cruzados, sacudindo dos ombros o braço do namorado. E logo um homem dessa qualidade, que judiou sem dó de um casal de amantes. Deu um muxoxo e fez menção de ir embora. O jardim do Hotel Globo tinha perdido toda a graça.
Não vá embora Maria das Neves, suplicou o namorado, vendo se dissipar todo o seu projeto de romantismo para o fim de tarde. Que nome você quer que eu bote na cidade?
Sei lá. Veja as cidades daqui de perto. Tem tudo nome bonito: Recife, Olinda, Natal. Até Campina Grande é um nome bonito. E nenhuma tem nome de gente, muito menos de homem.
Vamos ver. Se voltar a ser Parahyba, assim com h e y, você gosta? Não, que já é o nome do estado. Fica feio: Paraíba, capital Parahyba.
Olha, os holandeses chamaram de Frederica, fica bem? Claro que não. Também é nome de gente, mesmo sendo de mulher.
E se a gente for mais pra trás e botar Filipéia de Nossa Senhora das Neves, que foi o primeiro nome que ela recebeu? É muito grande, ela retrucou. Além do mais, lembra o nome de Filipe, que também é de homem.
Então a gente tira o Filipéia e fica só Nossa senhora das Neves, concorda? Sei não. Tem muita cidade com nome de santo que eu gosto: São Paulo, Santa Catarina, São Francisco, São Petersburgo... Mas como vai se chamar quem nascer aqui, nossassenhoradasnevenses? Nem pensar.
Ta bom. Então a gente chama ela de Nevinha. Igualzinha a você.
Ela não nunca tinha contado pra ele, mas sua mãe era devota de Nossa Senhora das Neves. Seu nome era uma homenagem à santa padroeira da cidade. Por isso fazia questão de todo ano ir comer maçã- do-amor na Festa das Neves.
Nevinha, ele sussurrou. Acho que fica bem nesta cidade pequena e bonita como você.
Ela então se viu como a cidade. Banhada por um lado pelo mar, por outro pelo rio Sanhauá que naquele momento acolhia o pôr do sol. Procurou localizar os lugares do seu corpo onde poderiam ficar os lugares da cidade. Aqui o Varadouro, ali o Porto do Capim. Mais abaixo o Roger, Tambiá. Jaguaribe um pouco mais de lado. Lá embaixo, Mangabeira perde-se da vista. Cada braço, um braço de mar. Cada coxa, uma praia. Cada seio, uma falésia. No solado dos pés, as favelas difíceis de ver. Nevinha sentiu seu corpo formigar de gente, suas veias servindo de ruas para ônibus e automóveis. No centro de tudo, a umidade insalubre da lagoa.
O sol já está mergulhado no rio quando Nevinha entrega ao namorado sua metáfora da cidade.

3 comentários:

lau siqueira disse...

Genial, Ronaldo. Isso nos inspira uma nova antologia de sábado, tematizando a cidade. Muito bonito o texto (pra variar).
Um abraço!

Fernando Torres Barbosa disse...

Ave Rona
Visitei teu blog... Tá bonito, sugestivo... Os textos, nem preciso dizer, são ótimos... Vou terminar me viciando... Arte é coisa misteriosa... A Poesia faz as palavras mudarem de opinião... A Arte nos mostra aquilo que vemos mas não percebemos... Arte é quase um mistério que quase não podemos desvendar... Na Arte-da-Palavra a Palavra reencarna sem morrer e renasce para dizer outras coisas... Continua teu labor de recriar o mundo em teu mister de tornar o mundo mais amplo ... As reticências são palavras mudas...
... Fernando Torres Barbosa...

Beth Olégario disse...

O que é o nome?
um cartão de visita sem visita ?
ou o inicio meio e fim?
onde estão as respostas postas sobre a mesa.
E onde está a mesa ?
No infinito do horizonte onde meus olhos já não podem vislumbrar?
Ahhhhhhhh!
Salve, salve não o salvador nem o cristo redentor salve a paraiba com ou sem h com frio ou neve mais salve esta bela cidade.
Caro Rona mais um vez parabéns pelos textos é realmente um grande praser dedicar um parte do tempo para apreciar engerir,digerir os seus apetitosos textos que nos inspira e sacia.
Que os bons ventos te conduza.
Luz e paz!!!
:)