05 novembro 2006

Ponto final



Desde a primeira vez que conversamos eu lhe disse: sou ciumento. Muito ciumento. Mulher que quiser casar comigo vai ter que pensar muitas vezes. Vou transformar a vida dela num inferno. Você não casou comigo enganada. Sabia que ao entrar nesta casa só sairia dela para o cemitério. Em vez de fugir de mim, você ficou fascinada pela idéia de viver numa prisão até a morte.
Durante todo o tempo em que vivemos juntos, nunca ouvi você reclamar dos meus zelos. Nunca mais você viu nenhum parente. Nem seu pai, nem sua mãe. Nunca deixei nenhum homem entrar em nossa casa. Mas você não pode reclamar que lhe tenha faltado alguma coisa. Nunca reclamei de sair para comprar suas roupas, mesmo as de baixo. Nem me recusei em consultar os médicos nas suas raras doenças. Nunca lhe faltou nenhum remédio.
Contratei uma empregada velha para cuidar de você, mas logo mandei embora, pois você começou a se afeiçoar a ela. E era isto que eu queria evitar. Que você se apegasse a qualquer pessoa. E não só isso. Quebrei ou joguei fora todos os objetos que você usasse com mais freqüência. Não suporto, nunca suportei que você tivesse a mais mínima atenção a qualquer pessoa ou coisa que não fosse eu. Mais do que isso, minha vontade mesmo era que você não tivesse nenhum desejo, nenhum apego por ninguém e por nada. Nem mesmo por mim. Só assim estaria seguro de que nada no mundo mereceria sua atenção. Só assim eu ficaria em paz sabendo que nada de você transitaria para outro lugar além de você.
Por algum tempo pensei que teria conseguido enfim mantê-la como prisioneira. Na forma mais pura e completa de aprisionamento. Mas agora, que chego em casa e vejo você olhando para o meu retrato, vejo que falhei no meu mais caro projeto. Adeus.

3 comentários:

Rodrigo disse...

Muito bom Rona!
Venho acompanhando teu blog há tempos, textos execelentes!
Mais é isso, sem mais um abraço.

Ana Lia disse...

Gostei, gostei!

Anônimo disse...

Muito legal!!! Este poema só poderia acabar em adeus...rs

Beijos Sandra