02 novembro 2006

Microcontos



A sombra

Nada que ele pudesse fazer contra o fato consumado. Sua sombra era de uma mulher. Estava lá, na parede do quarto, a silhueta: saia rodada até os pés, o cabelo preso num coque. Virava-se de lado e via, pelo canto do olho, os óculos redondos na ponta do nariz. Era de uma mulher antiga, sua sombra. Tinha seios fartos e braços roliços. Não queria reconhecer, mas cada vez mais tinha vontade de igualar-se à sua sombra.




Nas nuvens

Um elefante, um cavalo, uma girafa. Um monte, uma casa, uma barca. Uma cara de menino, uma cara de palhaço, uma ponte entre arbustos. Deitada na praia uma moça olha as nuvens. Dois olhos, dois seios, um umbigo. Um púbis, um joelho, um dedão do pé. Ao lado da moça, passeiam olhos no céu do seu corpo.




Plebiscito

- Se der sim, eu a mato. Se der não, eu me mato.
Deu não.

2 comentários:

Luís Burges disse...

qualquer deles muito bom...mas o Plebescito é notável, até porque súbito o "Deu não" se lido com voz dolente e arrastada à boa moda nordestina poderá ser de uma ambiguidade (dialéctica) que nos abre novas perspectivas...Gostei!!!

Graciele disse...

Caro Ronaldo, Adoro microcontos esses são lindos. Obrigada por não calar!
Abraço!