21 dezembro 2006

Sinal fechado



Ainda bem que tinha o fusca. O aperto estava tão grande que pensou em vender o velho amigo. Quinze anos de rua e estrada. Felizmente apareceu aquele bico de Papai Noel no fim do ano. Não era muito, mas dava pra fechar o mês e adiar a venda do carro.
Ainda bem que tinha o fusca. Era noite de Natal, a loja só fechou às dez da noite. Nem perdeu tempo trocando de roupa. Ninguém ia achar estranho um Papai Noel dentro de um fusca nessa noite.
Ainda bem que o fusca pegou na primeira virada de chave. Grande fusca. Não era agora que ia deixar ele na mão. Estava doido para chegar em casa. Além da mulher, do filho e da filha, tinha o pessoal da rua esperando com o rum e umas cervejas no ponto.
Tirar essa roupa quente e fedorenta. Tomar um banho demorado. Sair do banheiro assobiando, enrolado na toalha. Botar roupa limpa, comer panetone com guaraná junto com as crianças. Sair com a mulher para a calçada. Encontrar os vizinhos, beber, comer e conversar até chegar o sono. Entrar com a mulher em casa, deitar com a mulher na cama.
O fusca vencia galhardamente o asfalto da avenida. Sem muita pressa, mas resoluto. O ronco do motor mantendo o ritmo. O quebra vento mandando uma brisa pra dentro do carro. O rádio, original de fábrica, tocava uma música de louvor ao bom velhinho. Engoliu seco, emocionado. Tinha sido o bom velhinho por doze horas nesse dia. Agora o Papai Noel voltava para casa. Mais uns vinte minutos e pronto. Grande fusca.
O freio respondeu com presteza ao sinal vermelho. Tinha se distraído e quase passava direto. Mas o breque perfeito deixou a faixa livre para que o menino se aproximasse com uma garrafa pet numa mão e o rodo limpa-vidro na outra. Quando viu o motorista, o menino gritou: olha aí, eu não disse que ele vinha. Papai Noel está aqui, dentro do fusca. Ele veio entregar o meu presente.
Fusca de merda. Morrer exatamente nesta hora. Se empurrar, pega. Mas como pedir ajuda a esse bando de moleques de mãos estendidas, cada um pedindo uma coisa diferente e ele sem conseguir nem fechar a janela do carro.
Seu desespero era grande. Mas conseguiu ficar maior quando um cara, segurando alguma coisa por baixo da camisa, abriu caminho entre os meninos, enfiou a cabeça dentro do fusca e cobrou: e aí, Papai Noel, cadê o presente da molecada?

Um comentário:

André disse...

Este texto está ligado definitivamente a uma idéia de natal que funcionou: amigos, boa mesa, boas histórias e seu inconfundível dolce far niente.
Abraços, Ronaldito!