09 dezembro 2006

A lua, a rua, a porta




“Rua torta./ Lua morta./ Tua porta.” Leu e agradeceu primeiro a Deus, e depois ao poeta Cassiano Ricardo. Não entendeu porque o poema se chamava “Serenata sintética”. Não tinha a menor importância. Não gostava mesmo de poesia. Tudo o que precisava estava ali, naquelas seis palavras, fáceis de decorar.
Saiu correndo no meio da noite, lendo e relendo o poema que levava escrito num guardanapo. Seria fácil. Ela iria gostar. Ela gostava de poesia. Vivia dizendo que só amaria um homem que declamasse um poema pra ela. De preferência numa noite de lua, na porta da sua casa. E se o poema fosse feito para ela, mais do que amor, prometia paixão eterna ao seu autor.
Tentar, ele bem que tentou. Perdeu noites, gastou folhas e folhas de papel almaço. Mas o poema não saiu. Implorou a um amigo poeta que se dava bem com as mulheres, mas ele se negou a fazer o poema em seu nome. Só lhe restava decorar um poema e recitar na porta dela. Perderia a paixão, mas o amor lhe bastaria.
Seu coração dobrou as batidas. Lá estava a rua dela. Rua de conjunto habitacional, riscada a régua como todas as outras. Mas era a rua dela, que se fazia torta ao seus passos desordenados. A lua também não ajudava. Simplesmente não estava onde devia estar, fingindo-se de morta.
Seu coração disparou junto com a campainha. Abriu-se uma fresta e uma voz sonolenta cortou a serenata ao meio: Puta merda, a essa hora... Falou, sintética. E bateu a porta na cara dele.

6 comentários:

Ana Lia disse...

Aaafe... o bichinho!! Seu malvado!

Alexandre (Beiçola) disse...

kkkkkkkk...
maravilhoso!
mas quem manda ir tarde à casa dos outros? dá nisso...

abração, Ronaldo!!!

www.oinformativo.com/beicola

Márcio S. Sobrinho disse...

muuito bom! :) Rona, se puder, não esqueça de me mandar um dos livretos do Clube... abração.

laudelino disse...

Ficou com a boca torta e perdeu a amada.

Temporal disse...

Na verdade o poema certo é

SERENATA SINTÉTICA


Lua
morta

Rua
torta

Tua
porta





Lua morta, a noite acabou e está nascendo o sol.

Rua torta, sinal de sua embriaguês.

Tua porta, é quando ele chega à porta da amada para fazer a serenata. (sintética)

Anônimo disse...

Lua morta - uma prosa:
Eu quis te ver, eu quis te ouvir, eu quis te sentir, meu amor! Senti sua falta, busquei a lua, mas ela já não mais brilhava, porque fiquei sonhando e não percebi que o tempo passava.
Andei pela rua, delineando suas várias curvas, mas não encontrei nenhuma brecha para ver a lua, que já se fora, me deixando em completo abandono, com a alma nua.
Voltei e tentei me recostar à porta, mas esta não me acolheu, não me deu carinho, não me deu aquele calor, meu amor, porque ele é só seu!