07 dezembro 2006

Ray Charles em Cavaleiro



Para quem não sabe, Cavaleiro é um subúrbio do grande Recife, logo depois de Tejipió, cortado pela linha de trem que vai pra Jaboatão. Era lugar famoso pela sua feira, onde se materializava uma mescla das culturas urbana, matuta e sertaneja. Foi lá que vivi minha adolescência, arriscando minha vida pelos morros e vielas atrás dos maus pagadores da Movelaria Triunfo.
A pindaíba familiar não permitia o luxo excessivo da televisão. Por isso na minha casa se ouvia muito rádio. E era um tempo de boas músicas, principalmente na sofisticada Rádio Tamandaré, com “música, somente música e apenas um anúncio por intervalo”. Foi pela Tamandaré que pela primeira vez senti a emoção primordial que me causa até hoje a voz de Ray Charles. I can´t stop loving you foi a trilha sonora da minha pobreza suburbana. Passou meses em primeiro lugar na “Passarela de sucessos” e eu podia ouvi-la duas vezes todas as tardes na movelaria. Só saía para as cobranças quando o programa acabava.
Um dia, estourou a bomba: Ray Charles viria ao Brasil. Faria um show no Rio de Janeiro, gravado pela TV Tupy. Depois o vídeo-tape seria retransmitido por todas as televisões da rede dos Diários Associados. No Recife era a TV Rádio Clube, o canal seis. Claro que eu não podia deixar de ver. O problema era: onde?
Perto da minha casa moravam uns contra-parentes de minha mãe, sertanejos não-aculturados, mas que tinham uma televisão. Sem alternativa, tive que ser enérgico. Passei lá pela manhã e, do alto dos meus quinze anos, informei que de noite ia passar um programa com um músico muito importante e eu estaria lá para assistir.
As noites de sábado eram regidas pelo Noite de Black-tie, um programa de auditório da TV Jornal do Commercio, rival do canal 6. E eu não sei como arranjei tanta moral para conter a fúria da parentalha que não entendia patavina do que aquele cego negro estava cantando. Indiferente às ameaças de ser expulso da sala, concentrei-me na voz e nos movimentos desarticulados daquele monstro sagrado, ali, em minha frente, com suas Rayletes e uma banda fascinante. Não perderia aquilo por nada.
Claro que passei a ser persona non grata naquela casa. Mas quem liga pra isso, depois de ter enchido a alma com a voz e a imagem de um deus?

Um comentário:

Ana Lia disse...

Texto e foto perfeitos!!