13 dezembro 2006

Gavetas


Se precisar de alguma coisa para daqui a pouco, não a guarde numa gaveta. Você nunca saberá onde a botou. Quando acompanhar um processo do seu interesse, nunca o deixe cair na gaveta de nenhum burocrata. Ele nunca sairá de lá. Gavetas são ante-salas do esquecimento.
As coisas guardadas nas gavetas são dementes, esqueceram seus nomes e perderam todo e qualquer vestígio de suas antigas utilidades. Servem apenas para ser olhadas, com aquele ar de peças de museu. Elas só fazem sentido ali, em estado de sonolência. E não gostam de ser despertadas do seu sono.
Antes de se recolherem às gavetas, as coisas perambulam por outros espaços. Prateleiras de bibelôs, estantes de livros, mesinhas de cabeceira. Passam, portanto, por um estágio probatório, em que correm o risco de cair, vergonhosamente, na lata do lixo. É certo que com essa onda de coleta seletiva, algumas delas podem ser reaproveitada num novo ciclo de utilidade. Mas já não serão nossas. Outras gavetas, mais cedo ou mais tarde, as receberão.
As coisas da gaveta confabulam para confundir nossa memória. Fazem isso trocando de lugar, escondendo-se uma por baixo da outra, criando a cada vez um nexo diferente entre si. E a cada vez que as olhamos, lembramos de uma história diferente. Uns óculos antigos juntos de uma rolha de vinho ao lado de um passaporte vencido podem nos querer insinuar uma falsa lembrança de algo que devia ter acontecido. As coisas na gaveta são testemunhos de vidas que poderíamos ter vivido.
Mais do que meus escritos, meus livros e discos, as coisas das minhas gavetas contam a vida que tive e as que perdi. Quando, daqui a milênios, vindo de um planeta distante, um arqueólogo vasculhar minhas gavetas, abismado com a inutilidade do seus guardados, concluirá: este aqui era doido ou poeta.

3 comentários:

Paula Theotonio disse...
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Paula Theotonio disse...

Certas pessoas que passam por nossas vidas deveriam poder ser dobráveis, para que as colocássemos em uma gavetinha bem longe dos olhos...

Assim esqueceríamos delas e não, simplesmente, fingiríamos que deixaram de existir...

Marco di Aurélio disse...

Rona,
Você me fez lembrar quando, em tempos idos, precisava-se do título de eleitor para se votar. Todas as gavetas das casas eram removidas e revolvidas até altas horas da madrugada, e, depois de brigas e refregas descobria-se que ninguém era o culpado. Lá estava ele... bem guardado no fundo de uma gaveta.