14 março 2007

Já vi esse filme


Dessa vez é pra valer. Não volto mais. E se voltar, vou impor minhas condições. Vai ter que andar na rédea curta. Nada de cinema sozinha, barzinho com amigas, reunião não sei de quê até altas noites. Psicanálise, também, nem falar. Odeio essa inveja do meu pênis. O personal training também está fora de cogitação. O cara tem quase a metade da minha idade. E tem de parar de fumar. Pelo menos no banheiro. Pelo menos sem jogar a guimba na bacia sanitária.
Dessa vez é pra valer. Pode ser até que eu volte. Mas só se ela jurar que não vai mais me obrigar a comer ricota no café da manhã e salada de alface no almoço. Se ela prometer não puxar assunto enquanto eu faço palavras cruzadas. Pelo menos deixar de começar as frases dizendo “na minha modesta opinião”. Pelo menos me deixar terminar a minha modesta opinião.
Pode ser até que eu volte. Mas só se ela telefonar pedindo. Pode até nem pedir, mas tem que ligar por um motivo qualquer, desde que deixe a entender que está com saudade. Pode até não ser saudade, mas tem que deixar claro que precisa de mim para alguma coisa. Trocar uma lâmpada, matar uma barata. Ela morre de medo de choque e de barata.
Pode até ser, mas sob certas condições. Não pode levar livro pra cama. Ver televisão no quarto, nem pensar. Não pode ter dor de cabeça por mais de três noites seguidas. Não pode virar de lado e cair pesado no sono. Também não vale acordar no meio da noite e sair de fininho para telefonar não sei pra quem. Também não pode dormir de pijama, que dá trabalho de tirar. E quando, enfim, estiver fazendo amor comigo, não pode, por hipótese nenhuma, tentar dizer meu nome. Pra não me chamar de João, Barreto, Mariano, Cláudio, ou Raoni. Meu nome é tão simples, mas ela nunca acerta. Eu me chamo André.

Um comentário:

Only feelings... disse...

hAhahahuHauhAua, adorei esse texto, impressionante! tenho certeza de que essa é a "Amélia" moderna de muitos.