Ela olhou com carinho para o homem dormindo de óculos na poltrona, o livro tombado sobre as pernas. O rosto voltado contra o espaldar levantava um pouco os óculos do nariz. O queixo duplicava premido contra o peito. Ele ficava meio engraçado, assim.
Com mãos leves, ela tirou os óculos do homem e ficou por um tempo olhando para aquele rosto há tanto tempo amado. Parecia desamparado sem o escudo que protegia seus olhos do impacto direto das coisas.
A longa falta de incidência da luz do sol desenhava um círculo pálido na pele em torno das órbitas. As pálpebras deixavam à mostra uma teia de rugas invisíveis sob o véu das lentes fotocromáticas.
Ali estava o seu homem despido de suas máscaras. Mudo, ausente, vagando não se sabe por quais sonhos. Ali estava. Longe, inacessível. Mas, mesmo assim, tão seu.
Ronaldo Monte
Clube do Conto – 31.10.2009
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