08 novembro 2009

Pálido azul





Quando amanheceu, olhou-se no espelho e se assustou. Estava pálido. Pálido, não. Quase azul. Morto, talvez. Mas não, morto não se olha no espelho. E, se olha, não se vê. Estava vivo, sim, mas com cara de morto. Morto-vivo. E um calafrio relampagueou seu corpo.


Não era apenas o rosto que estava azul. Os braços e os dorsos das mãos também azulavam. Seu peito também, com os tufos de pelos melados de azul. Então era isso. Não era a pele que estava azulada. Era alguma coisa azul que cobria seu corpo, como uma camada de tinta seca que se rachava.


Cheirou o braço esquerdo. Não era cheiro de tinta. Era um cheiro leve de cosmético fino. Precisava de um banho. Depois, de uma boa explicação para o azul.


Enquanto a água escorria levando o azul pelo ralo, no escuro dos olhos pintou um clarão. No meio do clarão, uma silhueta esguia de mulher. Braços estendidos, ela esperava que ele flutuasse ao seu encontro, sem deixar qualquer dúvida que podia flutuar. Ele flutuou até ser cingido pelos braços da mulher que o carregou em direção à lua.


Então ela o pousou no chão da lua. Estavam nus. E ela apanhou um punhado da areia fina da lua, derramou lágrimas azuis sobre a areia e passou suavemente no corpo do homem entorpecido. Ele queria mover-se e não podia. Era como se a pasta fina de lágrimas e lua guardasse seu corpo como uma armadura.


E foi assim que ele dormiu e acordou em casa. Olhou-se no espelho e se assustou. Estava pálido. Pálido, não. Estava azul.



Ronaldo Monte – Clube do Conto

2 comentários:

Angela disse...

muito belo este sonho de verdade.

Clarissa Marinho disse...

Muito bonito!Dizer que tá bem escrito seria 'chover no molhado' hehe pq tudo aqui é bem escrito!
=)