17 fevereiro 2007

Ofício





Quando o marido morreu, ela não sabia o que fazer. Pois depois que casou, ele nunca deixou que ela fizesse nada. Não podia sair, nem pra ver a família. Não podia conversar com ninguém. Até com a empregada velha que cuidava da casa ela não podia falar. Se ele pegasse, ela ia pro quarto de porta trancada a chave. Tudo que ela precisava, ele trazia da rua. Roupa, sapato, remédio. Só servia para a cama. Isso ele dizia que ela fazia bem. Mas só dizia perto do fim, enquanto gozava. Depois não tocava no assunto. Por isso, quando ele morreu e ela procurou uma coisa para ganhar a vida, foi só isso que lhe passou pela cabeça.
Daí que pegou uma tampa de caixa de sapato, tirou as bordas, fez dois furos por onde passou um cordão e pendurou na porta da casa. Lia-se em letras redondas escritas com esmalte: fode-se.
O primeiro a passar foi o padeiro. Quando leu o anúncio, empurrou a porta que não estava no trinco. Foi até a cozinha, onde ela esperava. Botou o pacote de pão ma mesa, pegou na mão dela e a conduziu para a cama.
Gozou uma vez, gozou duas e três. Levantou-se arfando, vestiu-se às pressas, saiu e trancou a porta, levando a chave no bolso.

Um comentário:

Only feelings... disse...

Vocação...
Nunca se sabe um dom até precisar dele.