06 fevereiro 2007

Ocaso



Já escurecia, mas Helena não acendeu as luzes da casa. Queria sentir o deslizar da tarde para dentro da noite. Ver a luz se degradar até que fizesse total escuridão. E se pudesse, ela também deslizaria com a tarde em direção a qualquer canto escuro onde se diluísse a alma exausta de luz. Não era bastante que anoitecesse. Não queria apenas deixar de ver. Queria ela mesma escurecer, anoitecer e caminhar com a noite contra a rotação da terra, singrando mares, rasgando terras, para sempre fugindo da luz.

Helena caiu antes da tarde. O telefone tocou às cinco horas. Era a voz de Augusto, apressada. Vou-me embora, ele disse, não queira saber pra onde. Se ficar aqui, posso morrer. E desligou. O corpo de Helena caiu na poltrona. A alma de Helena desceu aos infernos. Mais uma vez estava só. O homem que lhe havia aberto as portas do corpo e do mundo desembarcava de sua vida. Estavam juntos numa luta dura e difícil de vencer. Conhecer, denunciar e combater a malha de horrores que o tráfico tecia em volta deles era trabalho para muitos. E dos poucos que haviam, restaram eles dois. Havia dito a ele, ao seu Augusto, que nunca o deixaria só nessa peleja. E ele jurou que nunca a deixaria só.

Já é quase noite. Helena se levanta e percorre a sala em penumbra. Vai anoitecer. Vai mergulhar na sombra, mas não quer mais se diluir na noite. Sua alma voltará do inferno junto com a luz do dia. Helena amanhecerá.

Foto: Penumbra, Mário Godinho



Um comentário:

Only feelings... disse...

Ela busca uma noite que está bem diante dela. Basta fechar os olhos. Helena, como toda mulher, as vezes silencia a si mesma conformada.