18 outubro 2006

Pontos de encontro


Para Rosa Amanda

Nós trazemos no bolso da alma um caderno com alguns endereços e os nomes de certas pessoas. Vagabundamos pelo mundo, no mais das vezes sem ver sentido neste cansaço que é estar vivo, até que passamos por algum dos endereços do caderno. Algumas vezes, o reconhecimento é imediato. Somos tomados por uma alegria, um êxtase de reencontro, uma certeza de estar voltando. Outras vezes o sentimento se dá num lugar do nosso cotidiano. Passamos pela mesma esquina todo dia, vemos as mesmas coisas, cruzamos com as mesmas pessoas. Mas tem um dia em que se dá a mágica e aquele lugar fica diferente, causando uma experiência que dificilmente se repetirá.
Mas não é só alegria e êxtase que nos esperam nesses lugares. Muitas vezes o que sentimos é uma sensação de opressão, de tristeza, de medo. Temos vontade de sair dali, mas alguma coisa nos prende no chão. precisamos viver aquilo. Estamos no mundo para isso. Da mesma forma que os lugares, existem pessoas que nos causam medo, raiva, tristeza, apreensão. Mas elas estavam escritas no caderno. Também precisamos encontrá-las, pois são portadoras de uma parte do sentido de nossas vidas.
Tem outros dias em que não somos nós que passamos. Antes, o mundo passa por nós. Viramos lugar, algumas vezes deserto, pois há dias em que nem nós mesmos estamos ali, em nós. Esses são os dias preferidos pelas pessoas do nosso caderno nos fazer visitas. Elas nos pegam distraídos, em vestes caseiras, entram sem pedir licença e não nos importamos. São velhos amigos que vemos pela primeira vez.
A experiência mais rica, entretanto, é quando, de repente, encontramos o endereço de uma certa pessoa do caderno. Aí a mágica transforma-se em milagre. Uma calçada estreita vira um parque relvado, um calor de meio-dia vira brisa da manhã. O boteco mais sórdido se transforma em catedral.
Preste atenção em alguns lugares que as pessoas escolhem para beber. Numa esquina sem graça, de frente pro sol, é comum encontrar dois amigos equilibrados em simples tamboretes, bebendo uma cerveja quase quente, mas encerrados num círculo amoroso que os faz flutuar acima da banalidade do cenário. E veja que não estou falando de amantes apaixonados, essas vítimas de morte do acaso. Falo de pessoas comuns, que estão ali pela primeira vez, talvez pela única vez. Mas aquele era um dos endereços do caderno onde estava anotado que elas iriam se encontrar. E estão felizes com o reencontro.
Nunca conseguiremos prever em que lugar e com quais pessoas se darão nossos encontros. Eles são poucos em cada vida e é bom que estejamos disponíveis para aceitá-los a qualquer momento. Pois esses lugares e essas pessoas têm por função nos preparar para um encontro mais dramático. Aquele que se dá num lugar escondido dentro de nós mesmos, onde só uma pessoa estará presente. E nesse lugar, cada um estará só. E apenas de si mesmo dependerá a alegria ou a tristeza desse encontro.

2 comentários:

Lúcia Wanderley disse...

Gostei muita dessa crônica "Pontos de encontro" Tem algo romântico e palpável ao mesmo tempo. Dei boas risadas c/ afrase: ...amantes apaixonados, essas vítimas de morte do acaso"
Um abraço, Ronaldo!
Lúcia

Rosa Amanda disse...

Fiquei emocionada, Rona. E sua crônica chegou justo na hora de eu escrever meu texto semanal pro Fábula Portátil. Não resisti e retribuí. beijo da Rosa