22 outubro 2006

De lua


Ela era assim, de lua. Estava de um jeito e, de repente, ficava de outro. Já namoravam há quase um ano e Mauro ainda não se acostumara às mudanças de fase de Clarice. Nunca a encontrava de cara amarrada ou alheia. Seus estados sempre se situavam num ponto de uma gama bastante variada entre o vivaz e o melancólico. Às vezes, achava bom não saber de que modo ia encontrá-la. Gostava da surpresa, pois mesmo quando estava triste, Clarice era bonita e boa de estar junto. Mas não gostava quando ela mudava de repente.
Por exemplo, num bar, ela sorrindo, alisando a cara dele. De repente, se levanta para ir ao banheiro e volta de lá toda pionga, como se o mundo fosse acabar. E não adianta perguntar por que meu bem tá triste que ela não responde. Vai afundando o queixo, arriando os ombros, fechando as cortinas dos cabelos e fica assim não se sabe quanto tempo. É preciso paciência, meu Deus. Muita paciência.
Já ia alta aquela noite, parecendo que ia acabar sem surpresas. Clarice falava, escutava, ria um pouco, bebericava a caipirinha, falava, escutava, ria. Feliz, Mauro fechou os olhos e elevou o rosto aos céus, prevendo as maravilhas que a noite prometia.
O silêncio de Clarice fez Mauro voltar da estratosfera. Ele abriu os olhos e viu o rosto de Clarice como nunca tinha visto. Era uma expressão neutra que fazia toda a face parecer plana, sem os acidentes naturais dos olhos, maçãs, nariz e boca. Uma neutralidade que começou a sofrer uma tênue mudança no lado esquerdo que foi se entristecendo, tomando um ar sombrio que foi gradativamente ocupando toda a face esquerda e lentamente se alastrando pela face direita, até ocupar o rosto todo.

Por um instante Mauro contemplou o rosto amado totalmente tomado por uma sombra que não era bem uma ausência de luz, era um tom que se fazia impor como um fantasma. Mauro gelou e só voltou a sentir o corpo quando a ponta esquerda do rosto de Clarice deu mostras de retomar o ar claro que foi novamente ocupando, devagar, a extensão da face, e lentamente se alastrando pela face oposta. Mais alguns segundos e o rosto de Clarice estava ali, completo, sorrindo em sua frente.
Que foi, nunca me viu?, perguntou ela ante o espanto do namorado. Não, nunca vi não, respondeu Mauro. Eu sabia que você era de lua. O que nunca tinha visto era você em eclipse total.

2 comentários:

Laudelino disse...

Gostei do conto, principalmente da descrição de mudança de fases.

André disse...

Já tive ex-namoradas assim... que eram "de lua". Mas fujo dessas astronomias sentimentais. Prefiro nem prestar muita atenção nessas mudanças de fase.
Belo conto, seu escritor!