13 outubro 2012

Duas cenas




Na semana passada, testemunhei duas cenas, ambas em Cabedelo.
Cena 1: um grupo de mais ou menos cem crianças atravessava a pista, vindas da praia em direção à escola. Displicentemente, uma delas deixou cair sobre a pista uma embalagem de salgadinho. Logo depois, uma das professoras que acompanhavam o grupo apanhou discretamente a embalagem e seguiu seu caminho.
Cena 2: no beco estreito da feira de verduras e frutas, um homem jaz no chão lamacento, acometido de um ataque epiléptico. Sentado no chão, outro homem protegia com as mãos a cabeça do outro, evitando que entrasse em contato com a lama. Não havia curiosos em volta. As pessoas apenas passavam comovidas, certas de que nada mais havia a fazer além do que estava sendo feito: cuidar e esperar que chegasse o socorro competente.
Estamos tão entorpecidos pelas notícias de violência e corrupção que nos surpreendemos com essas mínimas demonstrações de respeito e solidariedade cotidianas. Elas acontecem em toda parte, mas não merecem espaço nos noticiários. É preciso catá-las com os nossos próprios olhos. E estes olhos estão viciados a enxergar somente aquilo que a mídia nos mostra: professoras desmotivadas, alheias à educação integral dos seus alunos; homens embrutecidos pela vida miserável dos restos de feira.
Só os olhos sem vícios podem ver o gesto pedagógico espontâneo que vale por mais de mil palavras de um discurso ecológico vazio. Só com os olhos voltados para o chão podemos ver a cena de amor ao próximo contra o fundo lamacento de um beco.
É por conta de cenas como estas que ainda não me deixei vencer pelo desencanto com a humanidade. Pois eu sei que é exatamente isto que a grande mídia quer: que eu perca de vez a esperança e passe a aceitar como normal toda a maldade que os poderosos nos impingem. A grande mídia pertence aos poderosos. Mas contra isto ainda temos os gesto de cuidado que se repetem nas escolas abandonadas pelos governos e nos becos fétidos das feiras.

2 comentários:

Janice Adja disse...

Devemos deixar de ver a TV para perder o hábito da indiferença e do descaso.
Beijos!!!!
Cabedelo na Paraíba???
Sou de campina Grande.

Angela disse...

Palmas! Comovente o seu post, para meu gosto deveria estar estampado nas bancas de jornais de todo o país.
Como somos pequenos e não temos acesso às redes de TV, te peço licença para reproduzir esta sua postagem em meu blog Ideália e convido todos que o lerem para fazer o mesmo!
Um abraço forte e esperançoso.