24 outubro 2012

Aprendendo a perder



A vida é uma travessia de perdas. O barco pesado da nossa existência precisa se livrar de seus excessos para cruzar sem sustos o caminho de uma margem a outra deste rio imprevisível. Ganha-se muito quando se aprende esta verdade: viver é aprender a perder.
Sou um campeão de perdas. Já perdi a infância, toda a juventude, boa parte da saúde que herdei da idade madura. Já perdi pai, mãe, filhos, irmãos, tios, primos e sobrinhos. Alguns dos meus amigos já se foram, alguns mesmo antes de morrer. Muitos sonhos inúteis também foram jogados à água. Muita presunção, muitos desejos descabidos.
Já perdi bondes, trens, ônibus e aviões. Até a barca de Cabedelo já perdi um dia. Cheguei atrasado em muitos encontros. Já esperei por muita gente em vão. Já esperei o sol e choveu muito. Já esperei a chuva e o céu limpou. Perdi livros, perdi cartas, perdi talões de cheques, perdi brigas. Perdi a cabeça muitas vezes. Perdi a paciência com os políticos.  Já perdi a conta dessas perdas.
De nada adiantou tanto esforço em construir, juntar, acumular. Discos, livros, bugigangas, pedras apanhadas nos caminhos, tudo lastro inútil, destinado ao fundo do rio. Inúteis as centenas de resmas de papel desperdiçadas em dissertação, tese, artigos, poemas, contos, crônicas, romances. Tudo isto será jogado às águas antes do barco aportar na outra margem.
A esta altura da vida, meu barco está quase vazio. Até mesmo a lembrança de certas coisas já está se perdendo. Luto em manter um mínimo de fios de memória para poder saber quem em sou ao chegar ao fim desta viagem. Pois terei ao menos de dizer meu nome ao barqueiro do outro barco que me espera para outra travessia. E é bom que eu chegue leve, pois os braços de Caronte estão fatigados com o eterno trabalho de conduzir seus passageiros pelo rio onde se perde de vez toda a memória.

Imagem obtida em: clubedotaro.com.br

4 comentários:

Angela disse...

Gostei muito. E como é difícil, na idade maior, ter força e tempo para jogar fora o que se acumulou? Bem faz o budista que costuma ter apenas aquilo que pode carregar consigo.

estou esperando sua autorização para publicar em meu espaço o seu texto 'Duas cenas'.

Bonifacio Segundo disse...

Lindo.

Anônimo disse...

Postagem bastante profunda. Parabéns professor.

Janice Adja disse...

Já tem um tempo que venho dando, camas, guarda-roupas, mesas, som, roupas, sapatos e não consigo deixar a casa mais vazia. Gostaria de fixar com apenas 200 itens.
Não digo que perdi algo, pois tudo me servi de experiência.
Adorei seu texto.
Beijos!!!