09 maio 2012

Lembrar, esquecer



Certa vez eu estava iniciando um trabalho de grupo numa empresa pública e pedi que todos os membros se apresentassem. No fim das apresentações, um coronel reformado, que não sei o que estava fazendo ali, repetiu o nome de cada um dos participantes. Depois, me olhou com um ar de desafio e foi embora.

Pode ser que o tal coronel precisasse saber de cor o nome dos presentes em caso de uma eventual anormalidade, pois os tempos eram de suspeita e delação. Memorizar para delatar, talvez esta seja uma das poucas utilidades da memória fotográfica. Fora isso, sempre achei de uma enorme inutilidade certos malabarismos com a memória.

Decorar, saber de cor, é guardar memórias no coração. Para mim, só essas lembranças têm valor. Tudo aquilo que ficou gravado a fogo em nossa carne. Aquilo que até hoje nos move, comove, emociona.

O que o coração não guardou, é naturalmente esquecido. Esquecer é tão importante quanto lembrar. Imagine se eu não pudesse esquecer os nomes de todos os alunos que passaram pelos meus cursos em mais de trinta anos de docência. Imagine se eu me lembrasse de todas as palavras de todos os livros que li até agora. Imagine se eu tivesse que ficar remoendo todas as desfeitas, todas as ofensas que me fizeram em toda minha vida.

Tem gente que diz que perdoa, mas não esquece. Se não esqueceu, é porque não perdoou. Aí a pessoa fica refém do ressentimento, que quer dizer exatamente re-sentir, sentir de novo, sempre.

É claro que não é saudável esquecer as injustiças, as dívidas históricas com as minorias, os desmandos, as falcatruas com o dinheiro público, os privilégios e a impunidade. Não proponho que nos tornemos um bando de dementes desmemoriados. Só defendo que aceitemos o jogo de esconder que a memória nos propõe. E deixemos o espaço livre para as novas impressões que a vida nos oferece a todo instante.


Ilustração obtida em: dominiodavida.blog.br

2 comentários:

Angela disse...

Gostei muito, só discordo de que o perdão obriga ao esquecimento. Por vezes sim, outras, não. A memória pós perdão é apenas matéria, sem afeto, sem cor. Como um endereço anotado,pode ficar ali, sem alma, como uma receita de bolo sem que haja mais gosto na boca.

Janice Adja disse...

Se o coração não guardou,. . . era sem valor.
Adorei seu blog. Voltarei mais vezes.
Mesmo que não coloque comentário, estas letrinhas são chatas.
Desculpe.
Beijos!!