17 julho 2011

Púrpura


Velhice também é cultura. Um dia desses fui a uma dermatologista dar uma geral na lataria e aprendi que aquelas manchas avermelhadas que apareceram em minha pele atendem pelo nome poético de púrpura senil. De repente, passei a ter a maior admiração por essas testemunhas inexoráveis do passar do tempo em meu corpo.
Agradeço pelo eufemismo ao poeta (deve ter sido um poeta) que criou uma metáfora tão bela para este atestado do avançar dos meus anos. Uma mancha púrpura pode ser considerada uma espécie de signo de nobreza. Na Roma antiga, só o imperador tinha o direito de usar a cor púrpura em sua roupa. O bom e sábio Nero chegou a punir com a morte quem se atrevesse a vestir ao menos uma cueca púrpura.
Não é a primeira vez que o colorido do organismo me surpreende. Há alguns anos, fiz uma endoscopia e o médico, meu amigo, me deu um DVD com as imagens do exame. Fiquei extasiado ao descobrir que sou cor de rosa por dentro. Mas confesso que não fico confortável quando vejo aquela confusão de cores que o monitor do médico me mostra quando faço uma ultrasonografia. Fico imaginando coisas esquisitas que estariam ocorrendo nos meus órgãos internos, principalmente naquele abrir e fechar das válvulas do coração.
São muitas as cores que nos vestem pela vida. Ficamos vermelhos de raiva, amarelos de vergonha ou verdes de medo. Ficamos também azuis de fome e roxos de tanto amar. Praticamos o humor negro e algumas vezes nos dá um branco na memória. É vasto o espectro que nos habita. Mas só alguns privilegiados podem exibir publicamente a cor púrpura. 
Não me tomem, por favor, por hipocondríaco. Mas passei a conviver melhor com aquelas manchas delatoras depois que descobri o seu nome poético-científico. Claro que dispensaria de bom grado o “senil”. Mas de alguma forma me sinto privilegiado em repartir com os antigos imperadores o privilégio de passear por aí vestido de púrpura. 

6 comentários:

Angela disse...

Adorei este seu post.
se importa de criar um bloco? também estou quase uma d'angola púrpura!

Anônimo disse...

Ô Rona, obrigada! Estou me sentindo muito consolada depois de ler esta beleza ! Beijão. MValéria

jardins de coral disse...

Rona: você sempre fantástico. Amei a crÕnica de hoje. Fzemos parte do mesmo espectro de cores e resolvi participar aqui q informando que, também numa batelada de exames de rotina,descobri que tenho um arco senil azulado em volta dos meus olhos que não são azuis. Tão pouco me sinto senil mas evidências são evidências e às vezes nos vêm em tons de azul.Um abraço alaranjado da su amiga e admiradoríssima, Simone

Juliêta Barbosa disse...

Ronaldo,

Estou dispensando todas essas cores, pois apesar dos anos, penso sempre que a minha idade é a dos meus sonhos... E, esses, não morrem nem envelhecem nunca. Estava com saudade de vir aqui. Bjs

Pedra do Sertão disse...

Vivendo e aprendendo!

Anônimo disse...

Outro dia, procurando alguma coisa na internet, em algum site de busca, me deparei com fragmentos de um dos seus textos, entrei no site e me encantei... e virei sua fã virtual.
Seu blog é viciante!!
Parabéns!!

Ass.:Achada na internet.