03 janeiro 2007

Pena



A internet nos convida ao exercício da necrofilia exibindo cenas da execução de Saddan Hussein. Tive pudor em assistir os detalhes do enforcamento. Limitei-me ao momento em que o verdugo passava o laço no pescoço do condenado e depois à exibição do corpo já morto envolvido em um lençol branco, o que me obrigou à comparação com uma galinha morta.
Já fui ajudante na morte de muitas galinhas e sempre senti uma espécie de empatia com o bicho que se debatia até o fim para que sua vida não se esvaísse com o sangue que eu batia num prato com vinagre, premeditando a cabidela. Sou, portanto, testemunha antiga da luta de todo animal pela preservação da sua vida. Mas nem eu nem ninguém é capaz de se colocar no lugar de um condenado à morte.
Entreguemos, portanto, a palavra a quem entende do assunto. Chamemos Dostoievski que foi condenado à morte em 22 de dezembro de 1849 pelo czar Nicolau I. Ele sofreu passo a passo toda a agonia dos condenados até ser desamarrado do poste onde já esperava os tiros dos fuzis, indultado pelo próprio czar. Foi dessa experiência que ele falou ao narrar todo o horror do seu personagem Míchkin, de O idiota, contando a execução de um personagem à morte:
“E todavia a dor principal, a mais forte, pode não estar nos ferimentos e sim, veja, em você saber, com certeza, que dentro de uma hora, depois dentro de dez minutos, depois dentro de meio minuto, depois agora, neste instante – a alma irá voar do corpo, que você não vai mais ser uma pessoa, e que isso já é certeza; e o principal é essa certeza”. E arremata: “A morte por sentença é desproporcionalmente mais terrível que a morte cometida por bandidos. Aquele que os bandidos matam, que é esfaqueado à noite, em um bosque, ou de um jeito qualquer, ainda espera que se salvará sem falta, até o último instante... essa última esperança, com a qual é dez vezes mais fácil morrer, é abolida com certeza; aqui existe a sentença, e no fato de que com certeza não se vai fugir a ela reside todo o terrível suplício, e mais forte que esse suplício não existe nada no mundo”.
Não me atrevo a dizer nada depois de Dostoievski. Quis apenas contribuir para a reflexão de cada um sobre a pena de morte. Seja a de Saddan Hussein ou de um garoto barbarizado por dever uma micharia ao narcotráfico.

2 comentários:

Only feelings... disse...

Há quem ainda prefira assitir isso como uma espécie de remissão dos pecados do condenado. Esses formam tribunal de juízes sem os direitos humanos.

Anônimo disse...

Muitíssimo interessante o seu blog, meu caro. Eu sou novo neste mundo de blog, e achar blogs inteligentes, e que fujam daquela futilidade comum nos blogs dos aborrecentes filhinhos de papai é mto prazeroso.

Bem, sou contra a pena de morte. E por isso repugno o episódio que envolve o Saddam. Nenhum ser humano tem o direito de tirar a vida de outro, por pior que esse outro seja.

O sofrimento é pior que a morte, morrer é fácil!

Espero sua visita no meu humilde blog.