11 janeiro 2007

Migrante



Leva-me daqui,
deste canto espesso onde espero há horas
que passe este enjôo de mim mesmo.

Tira-me daqui,
destas águas turvas,
deste chão lodoso onde meus pés afundam.
Abre-me uma porta neste quarto escuro,
denso de miasmas, que me encharca de suor.

Toma-me pela mão
e mostra-me a escada por onde subir até a claridade.
Mas protege-me os olhos até que desacostumem das trevas.
Mostra-me um mundo limpo pela chuva da manhã.
Aponta-me um lugar ao longe, manda-me para lá.

Dá-me asas e empurra-me no abismo.
Deixa-me debater na queda
até aprender a planar,
navegar nas correntes de ar,
ver minguar e crescer os desenhos do chão.

Assiste-me ir para longe do lugar que me apontaste.
Tenho asas agora.
Sou migrante.
Deixo-me levar pelo instinto
de minha espécie alada.

Um comentário:

Only feelings... disse...

Quero asas também. Mas há um pequeno problema, não sei se iria pra longe de mim mesma.
:)