23 novembro 2014

Almeidinha - O herói de paletó

Um folhetim burocrático


02 - O paletó de Almeidinha

            Minha senhora fica implicando comigo porque eu vivo de paletó. Mesmo quando chego do trabalho, fico de paletó até a hora de tomar banho. Mas no banheiro mesmo eu me troco e já saio de lá com o paletó listrado de marrom do meu velho pijama que minha mulher mesmo me deu no dia do nosso primeiro aniversário de casamento. Ela fica com raiva quando eu procuro por ela na cama e não tiro o paletó do pijama. Ela se vira pro lado e me manda dormir no sofá.
            O problema é que eu não lembro de mim sem paletó. Mesmo nas fotos mais antigas que guardo, lá estou eu, de calças curtas e de paletó. Acho que já nasci de paletó. Me sinto nu quando estou em mangas de camisa. 

            Isto tem me causado sérios problemas nos fins de semana, principalmente quando faz sol. É que minha mulher adora praia. Agora imagine como ela se sentiu quando saímos pela primeira vez para a praia, ela de canga, sandália de dedo, chapéu de sol e uma bolsa grande e colorida com seus apetrechos. E eu de paletó, sapato e meia, com uma cesta de vime cheia de sanduíches e uma garrafa térmica com café, que eu sou viciado em café, embora não fume, porque ela não deixa. A primeira coisa que ela fez foi me proibir de andar junto dela. Apressou o passo e me obrigou a segui-la pelo menos a cinco metros de distância. Sentou longe de mim no ônibus e nem olhou pra trás na hora de descer. Foi um tormento para mim ficar tomando café com as pernas penduradas na murada da praia, enquanto ela tomava sol e passava bronzeador. Os homens passavam com olhos pidões, os mais afoitos se oferecendo para passar o bronzeador e eu sem coragem de ir pra junto dela, com medo de entrar areia no sapato. Mais chato foi quando passou um senhor também de paletó e gravata, com uma bíblia cravada no sovaco e me saudou fraternalmente: na paz do senhor, irmão. Eu sou católico praticante, só saio de casa aos domingos depois de assistir a missa das sete. Não me dou bem com crente.

            Com o passar do tempo, as coisas foram se arranjando. Hoje, ela já não me chama para ir à praia. Arranjou umas amigas aqui mesmo da vizinhança para lhe fazer companhia. Uma delas, a LiIi, tem um irmão muito solícito que leva elas de carro. Acho bom, pois não é seguro um bando de mulheres na praia sem uma companhia masculina. Ele me acena antes de dar partida no carro e diz pra eu não me preocupar.

            Acho bom que as coisas tenham se arranjado assim. Minha senhora se diverte e eu fico sossegado em casa, fazendo palavras cruzadas ou adiantando alguma coisa da repartição. Mas não fico de pijama o dia todo. Quando sinto que está perto da minha senhora chegar, tomo um banho e boto o paletó. Mas dispenso a gravata. Afinal, nos fins de semana eu posso me permitir alguma informalidade.

4 comentários:

Anônimo disse...

Esse seu paletó vai dar o que falar. E acabar sendo o nosso Capote de Gogol.

W. J. Solha

Guy Joseph disse...

Maravilha, Rona! Consigo visualizar o personagem, com todas as suas limitações e dogmas. Continuo pensando em um curta metragem.
Abraços
Guy Joseph

fúcsia disse...

clássico!

Angela disse...

pra mim, basta o "Minha senhora"
alguém assim deve mesmo precisar de alguém que o tutele!
O conto é ótimo, o "acompanhante" também!