06 novembro 2012

Territórios sagrados



        

Numa entrevista do escritor Mia Couto, fico sabendo que nos idiomas nativos de Moçambique não existe uma tradução para a palavra futuro. Para os povos originários daquele país, o futuro é um território sagrado ao qual não se tem acesso. Comentando isto com Glória, minha mulher, ela lembrou que esta noção não é alheia à nossa cultura, pois é comum ouvirmos dizer que “o futuro a Deus pertence”, o que significa também que está fora do alcance dos desejos humanos.
         Não é à toa que os charlatões de todas as espécies se envolvem numa aura de mistério e misticismo quando querem ludibriar a boa fé daqueles que desejam saber o que lhes espera no futuro. Eles precisam causar a impressão de intimidade com o sagrado para dar credibilidade aos seus vaticínios.
Houve um tempo em que estava em moda a profissão de futurologista. Eram senhores pós-graduados nas melhores escolas de economia dos Estados Unidos que tinham por missão dizer aos sub-desenvolvidos que não existia salvação para nós fora da tutela norte-americana. Em vez de turbantes e bolas de cristal, usavam enormes computadores para nos dar a impressão de infalibilidade. Hoje, devem estar todos desempregados.
         Dando meia-volta em nossa conversa, podemos também dizer que o passado é também um território sagrado e inacessível. Não é à toa que uma deusa, Mnemosine, guarda as chaves da nossa memória. Os deuses sabem o quanto nos perturbaríamos se tivéssemos acesso a cada momento vivido. A perda da memória é uma benção divina. Não apenas selecionamos os momentos de nossas vidas que merecem ser lembrados. Somos capazes de criar lembranças que encubram aquelas que podem nos causar desprazer.
         Deixemos aos deuses esses dois lugares inacessíveis aos mortais e cuidemos da vida presente, sem mistificações, como queria Drummond. Consolemo-nos com os efêmeros momentos dos sonhos em que podemos vislumbrar as fronteiras desses territórios sagrados. 

Um comentário:

Janice Adja disse...

Parabéns pelo texto. Adorei!!
Sempre achei que o futuro não existe.