03 setembro 2012

Pobre barata


Sei que alguns leitores vão pensar que estou com falta de assunto, mas garanto que o tema e da maior relevância. Por conta da safra de netas, vez por outra escuto a cantiga em que acusam a barata de mentirosa porque ela diz possuir coisas que de fato não são delas. A barata diz que tem um sapato de fivela, cinco saias de balão, um anel de formatura. É mentira da barata, respondem: o sapato é da mãe dela, ela tem uma saia só, e tem a casca dura.
Conheço muito bem a distância que há entre mim e uma barata, mas consigo entender muito bem as razões de suas mentiras. Ainda era menino quando me pai arranjou para mim uma bolsa de estudos na Associação Brasil Estados Unidos. Finalmente, ia ter uma oportunidade imperdível de estudar inglês no melhor curso da época. Logo no primeiro dia, enquanto esperava o início da aula, fiquei pelos cantos escutando a conversa dos outros meninos. O assunto era a marca do carro do pai de cada um. Disfarcei até onde pude, até que perguntaram a marca do carro do meu pai. Meu pai não tem carro, respondi. E fui embora.
Se eu fosse um pouquinho mais parecido com a barata, inventava uma marca de carro para o meu pai e ia levando o curso até que alguém descobrisse que meu pai era um funcionário público à beira da miséria e que muitas vezes eu não tinha dinheiro nem para o ônibus.
Imagino que a mãe da nossa pobre barata deve ter conseguido uma bolsa pra ela em um desses colégios chiques em que os alunos são despejados de verdadeiros aviões e recebidos por uma equipe de seguranças. E quando perguntam para a barata onde ela mora, ela fala o nome do primeiro bairro nobre que lhe vem à cabeça. E quando perguntam pela marca do carro do seu pai, ela fala o nome do carrão que viu no comercial da televisão.
Melhor seria que a barata tivesse no seu bairro um colégio decente para estudar junto com as meninas pobres como ela. Melhor seria se ela convivesse com pessoas que não medissem o seu valor pelo número de saias que possui, pelas fivelas dos seus sapatos ou pela qualidade do tecido que veste.

Ilustração obtida em: g6leitura.blogspot.com         

2 comentários:

Angela disse...

Melhor seria existir famílias onde o orgulho e alegria pelo afeto e respeito ao individuo seja ensinado pela prática transcendam a "moda" dos valores materiais.

Meu pai jamais teve carro, era professor e sempre nos orgulhamos de seu saber e de sua mente aberta.
Ronaldo não seria o mesmo Ronaldo se sua família fosse de outra estirpe.

Pedra do Sertão disse...

Olá, Ronaldo,

Sábado de manhã é dia de pesquisa de campo para minhas aulas e, de blog em blog,cheguei ao seu. Por sinal, já me "aboletei" como seguidora.

Acabei por me perder nas leituras e, como paulistana errante por terras nordestinas, adorei seu post sobre sua última viagem a SP.

Imagine agora o mundo sem as baratas? Dei-me conta de como as detestamos, mas a ilusão de acabar com elas também nos fere e mata. Quanta gente boa acredita no nome da escola, no nome do carrão e vai embora para um mundo fictício de marcas, carrões e idolatria?!

Abraço do Pedra do Sertão