23 setembro 2006

Uma dor só


O verbo doer é enganador. Só se deixa conjugar nas terceiras pessoas. Na gramática, só ele ou eles doem. Segundo as boas regras, eu não dôo, caro leitor. Tu também não dóis.
O verbo doer não me engana. Eu dôo. Há momentos em que nada me faz doer, senão eu mesmo. Apenas por força da gramática, sou obrigado a projetar a fonte da minha dor em algo ou alguém fora de mim. Ou então, divido-me em duas partes e elejo uma delas como fonte do meu sofrimento. Viro corpo e digo: minha alma dói. Viro alma e afirmo: meu corpo está doído.
Dane-se a gramática. Eu dôo por completo. Apenas o meu orgulho de ser humano me faz pensar que essa maravilha suprema das espécies é incapaz da vileza de causar seu próprio sofrimento. Daí se construir uma gramática em que só eles doem. Quando muito, admito que doam em mim.
Amputados de mim pela gramática, meus braços doem, dói meu coração, doem-me as lembranças. Sendo assim, meus braços não são eu, meu coração se afasta de mim e minhas lembranças não me constituem. Separo-me do que vivo ou das partes que me fazem. Transformo o que é eu em eles e os ponho a doer longe de mim.
Mas à medida que envelhecemos, vai se revelando uma verdade. Não são mais as juntas, os músculos, a cabeça ou o peito que doem. É uma dor só que a cada momento visita uma parte do nosso corpo. E de tanto senti-la passear por nossos sítios, concluímos que esta dor não apenas é nossa. Fomos esta dor o tempo todo, mas só agora nos reconhecemos nela.
A dor gramatical não me pertence. Nem a ti, leitor. Há momentos em que é impossível atribuir aos outros a prioridade da minha dor. Há momentos em que estou só e nada me dói além de mim. Aí sim, o verbo intransitivo circula sem saída. Não há gramática que me salve. Eu dôo. E nas tuas horas de solidão, caro leitor, tu também hás de doer.

4 comentários:

Márcia disse...

clap! clap! clap! e quem não dói?
beijo!

Ronaldo Monte disse...

Amei a crônica. Mais uma pro hall das mais queridas.
Beijos
"Aru"

Aninha disse...

Muito legal, Rona...todo mundo se doendo!

Anônimo disse...

Adorei o jogo de palavras com o verbo Doer. Além da da poesia empregada no texto.
carla diaz