30 dezembro 2013

Brincar de eternidade


 

Conheço um homem que se angustia com os relógios em que o ponteiro dos segundos desliza sem marcar os intervalos. Um comichão interpretativo me leva a supor que essa angústia decorre do nosso desamparo frente à transformação contínua do presente em passado, sem nos deixar a ilusão de que, por um breve momento, o tempo repousa nos traços dos segundos.
É para fugir da agonia frente a este fluxo constante que dividimos o tempo em fatias e vamos fingindo que o devoramos, enquanto, na realidade, é ele que nos consome goela abaixo.
E assim inventamos as horas, os dias, anos, séculos e milênios na tentativa de nos defendermos da pequenez da nossa existência. Com isto podemos nos enfronhar no passado e projetar no futuro, fugindo dos limites da mediocridade do presente. É isto que nos leva a procurar ancestrais ilustres em nossas árvores genealógicas e imaginar uma vida gloriosa para nossos descendentes. É uma forma plausível de nos tornarmos eternos.

Aqui estamos, de novo, brincando de eternidade. Diz o calendário que mais uma vez iniciamos um ano novo. Mesmo sabendo que isto é apenas uma convenção, necessitamos deste repouso do tempo em que algo passa definitivamente e algo desconhecido avança ao nosso encontro. É neste intervalo que nos juntamos aos nossos antepassados e caminhamos rumo às gerações descendentes. Como o homem que se angustia com o correr contínuo do ponteiro dos segundos, precisamos fatiar o tempo para criar a ilusão da eternidade. E com isso inventar alguns momentos de felicidade.

2 comentários:

Anônimo disse...

Bela imagem, Doc. Curioso, ao contrário do que ouço tanto, acho que vivi uma eternidade.

Grandes horas pra você, mestre, em 2014.

W. J. Solha

fúcsia disse...

uma brincadeira gostosa que nunca cansamos de repetir, né Rona?
feliz ano novo, meu querido.