04 julho 2012

Chuva e melancolia


Eu me lembro das chuvas da minha infância, principalmente aquelas nos fins de tarde, quando escurecia mais cedo e o meu pai demorava mais a voltar do trabalho. Eu me lembro quando a chuva passava e eu ia olhar a água correr pelo canto do meio-fio, levando as coisas pequenas para longe da frente de minha casa. Eu me lembro das meias nos chinelos e o agasalho para as noites friorentas. E desde esse tempo a chuva me deixa nostálgico. Eu sou melancólico de nascença. E nada melhor para um melancólico do que um fim de tarde chuvoso.

Mas hoje em dia as coisas estão tão ruins, que não se pode mais ser melancólico impunemente. Hoje, quando chove, minha nostalgia é substituída por uma enorme preocupação com os grandes e pequenos desastres que perturbam a vida das pessoas. Ruas alagadas, casas inundadas, carros submersos, pessoas levadas pelas águas revoltas sem vias de escoamento.

Antigamente, depois da chuva, saíamos à rua para apanhar tanajuras e comê-las torradas com farinha. E aceitávamos complacentes a companhia das formigas de asa que rondavam as lâmpadas e eventualmente se afogavam no nosso café. Hoje, saímos para ver as pessoas perambulando desoladas, sem ter a quem cobrar a perda dos seus bens ou dos seus entes queridos.

Não quero perder tempo com os pequenos aborrecimentos das inevitáveis goteiras e infiltrações que perturbam as nossas manhãs depois dos aguaceiros. Isto é nada comparado a quem passou a noite levantando móveis e procurando uma casa de parente para dormir. Só tenho a lamentar quando sei que todo esse sofrimento poderia ser evitado se o dinheiro dos nossos impostos fosse corretamente aplicado em programas de esgotamento, urbanização e limpeza pública.

É uma pena que a suave melancolia da minha infância tenha dado lugar à raiva e à indignação. Gostaria de poder olhar a chuva através de uma janela e poder abrir um livro e tomar um chocolate quente sabendo que na minha cidade, no meu país, em todos os lugares do mundo as pessoas também pudessem olhar a chuva em paz. Apenas melancolicamente.

3 comentários:

Angela disse...

Gosto muito de chuva e ficar à janela tomando uma bebida quente enquanto se olha as gotas e as plantas felizes, regadas, é muito bom.

Mas, levando em conta sua observação sobre os esgotos e a limpeza pública, posso te dizer que, em minha cidade, grande parte da responsabilidade sobre entupimentos e desgraças, se deve à falta de consciência e educação do povo que joga tudo nas ruas como se o lugar onde mora fosse sua lixeira!
Governo e povo são uma dobradinha da peste.

Bonifacio Segundo disse...

Também sou melancólico de nascença.

O texto ficou muito bom.

Um abraço do seu fiel leitor.

Janice Adja disse...

Eu ainda gosto quando chove forte no final da tarde. Dancei muito para apanhar as tanajuras que não comia uma. É nojento!!!
A chuva me deixa mais tranquila e feliz. Morei por dez anos em sítio e adorava escuta a chuva cantando no telhado.
Beijos!!