16 março 2015

16 - A pane do computador


Almeidinha - o herói de paletó

Um folhetim burocrático


                   Já é tempo de retomarmos os passos do nosso herói indo em direção ao trabalho para um dia que, ele sabe, não será dos mais tranqüilos. Ele sabe que terá de enfrentar o olhar curioso dos colegas que, mais do que uma justificação para a falta, querem é um bom motivo para levá-lo ao mais alto nível da exasperação.  O melhor mesmo é passar ao largo dos dois, dar um bom dia coletivo e se dirigir ao birô no fundo da sala. Ficaria sentado sem conseguir se concentrar no trabalho até que o Dr.  Pacheco entrasse triunfante pela sala, com sua peruca, seu andar de rei e os olhos semicerrados. Almeidinha tinha medo de não resistir ao esporro do chefe. Talvez, chorasse, talvez desmaiasse, talvez saísse correndo apertado em direção ao banheiro. Onde já se viu, um funcionário exemplar como ele faltar um dia inteiro de trabalho?
                   Mas quando Dr. Pacheco entra, passa por Almeidinha com um sorriso que parece de alívio. Cumprimenta festivamente o funcionário e pede para que ele vá imediatamente à sua sala.
                   Almeidinha levanta-se de um salto e se apressa em atender o chamado do chefe. Mas quando passa pelo birô de Dona Marli, esta o adverte misteriosamente: cuidado, seu Almeidinha. Muito cuidado com o que o senhor vai dizer.
                   Dr. Pacheco recebe Almeidinha de pé, dizendo que sentiu muito a falta do seu melhor funcionário. Convida-o para sentar, pigarreia e começa a explicar que no dia em que você faltou, meu bom Almeida,  a repartição recebeu uma visita surpresa da comissão do patrimônio da Secretaria. Descobriram a falta do seu computador e deram um prazo de quarenta e oito horas para a máquina aparecer. Acontece, meu bom Almeida,  que o computador não está mais na minha casa. Minha  filha, a Suellen, você conhece a pobrezinha, tinha levado o computador para a casa de um amiguinho da escola e nunca mais trouxe ele de volta. Parece que depois do trabalho as crianças resolveram beber alguma coisa e essa alguma coisa tinha se derramado sobre a torre do computador, causando um curto-circuito. O que lhe peço, Almeidinha, pelo amor de Deus, é  que você assuma a responsabilidade pela perda do computador. Eu mesmo já tomei a ousadia de adiantar ao pessoal do patrimônio que você tinha levado o computador para casa, para adiantar uns trabalhos da repartição. Basta apenas que o velho amigo confirme essa história. Depois você inventa uma outra história que justifique um curto-circuito no computador. Você pode ter derramado uma xícara de café no teclado. Tenho certeza, Almeidinha, que o pessoal do patrimônio será compreensivo. Eu ajeito as coisas para você. No máximo, no máximo, você recebe uma repreensão simples. Tenho certeza de que o meu amigo Almeidinha não me faltará numa hora tão vexatória.  
                   Almeidinha estava a ponto de ceder ao discurso manhoso do chefe. Sua boca já se preparava para dizer sim, Dr. Pacheco, será uma honra, Dr. Pacheco, quando ouviu a porta da sala se abrir com certa pressa. Era Dona Marli que entrava com dois copos d’água que não haviam sido pedidos. Dr. Pacheco olhou para ela com raiva, mas não deixou transparecer para Almeidinha. Dona Marli não se importou com a expressão do chefe, virou-se de costas para ele para que não visse a careta esquisita que fazia para a pobre vítima, como quem diz cuidado com o que vai dizer.    
                   Almeidinha fica olhando para o chão enquanto espera Dona Marli bater a porta. Levanta os olhos com dificuldade e com a voz trêmula pediu que o Dr. Pacheco lhe desse um dia para pensar. Surpreso com a ousadia do subordinado, o chefe controla a raiva e diz que tudo bem, ele acredita na amizade e no bom senso do Almeida velho de guerra.       

                   Almeidinha sai cambaleando da sala e se surpreende com os dois colegas que esperam por ele. Ciço, o contador, diz que já sabem de tudo. O Dr, Pacheco está com os dias contados. Sua transferência já pode ser dada como certa. Ele está somente querendo livrar a cara no negócio do computador, jogando a culpa no Almeidinha. Seja homem, Almeidinha. É o Joel, o escriturário, que o repreende. Pela primeira vez na sua vida, haja como homem. Os dois colegas não entendem quando Almeidinha sorri. Mas só ele sabe que a primeira vez que agiu como homem tinha sido na noite passada, quando obrigou sua senhora a dormir no sofá. Não ia custar muito ser homem por uma segunda vez. Mas, por via das dúvidas, ia antes falar com Padre Guido.

Imagem obtida em webalternativa.blogspot.com

08 março 2015

15 – A porta fechada

Almeidinha - o herói de paletó

Um folhetim burocrático



                   Você está fazendo tempestade em copo d’água, Sandrinha. Afinal, foi você mesmo quem provocou tudo isto. Nada disso me assusta. Acho até que a companhia das mulheres dá muito mais alegria do que a dos homens. Eu mesma não troco por nada nesta vida o jogo de biriba com minhas amigas e as suas visitas nos domingos de chuva. O que estraga é que você vem acompanhada daquele traste. Veja só: basta a companhia de um meio homem como aquele para estragar a nossa felicidade de mulheres.
                   Eu sabia que podia contar com a compreensão de minha mãe, mas nem desconfiava que ela fosse me entender tanto. Quando cheguei na casa dela, estava chorando, assustada, aos soluços. Mas à medida em que fui contando o que tinha se passado, ela fazia uma cara meio decepcionada: há, então foi isso. Pensei que fosse coisa mais séria.
                   No fim, ficamos as duas na cama, ela cuidando de mim, trazendo uma taça de Martini, umas azeitonas verdes, umas salsichas, até que tudo se reduziu a uns soluços esparsos e uma fungada de vez em quando. E foi nesse conforto materno que me entreguei ao sono. Dormi muito, dormi profundo, desse jeito que se dorme apenas na cama da mãe.
                   Acordei meio desorientada e levei algum tempo para colocar a cabeça em ordem. Primeiro, o corpo informa que eu tinha chorado. O copo vazio avisa que eu tinha bebido. As cores da cortina fechada e o cheiro de lavanda confirmam que aquele era o quarto de minha mãe. Só aos poucos a memória foi recuando e os fatos foram se encaixando. Ainda não tinha completado todo o quadro quando a minha mãe irrompe no quarto com uma bandeja nas mãos, falando quase infantilmente: um lanchinho para a filha mais maravilhosa do mundo que se espalhou na cama e não deixou a mamãe dormir. Senti uma angústia enorme e uma vontade louca de sair correndo dali.
                   Que horas são, meu Deus, quase dez horas e eu fora de casa. Preciso ir, abrir aquela porta e sentir toda a raiva que sempre me dá quando estou perto daquele homem. Preciso dessa raiva para não lembrar do que aconteceu comigo neste dia. Preciso entrar nesta sala e ver que o sofá já está guarnecido com o lençol de solteiro. Como um bicho bem treinado, ele sabe que é ali que vai dormir mais uma vez. 
                   No banheiro, ele deve estar no banheiro vestindo aquele pijama que o deixa mais ainda parecido com um palhaço. Mas a luz do banheiro está apagada, a porta semi-aberta. A cozinha e a área de serviço também estão escuras. No quarto, ele deve estar no quarto se preparando para dormir no sofá.
                   Meti a mão na maçaneta, mas a porta do quarto não abriu. Estava fechada por dentro. A luz do quarto também estava apagada. E eu reconhecia aquele ressonar de asmático por trás da porta. O pânico começou a tomar conta de mim. Fora do meu quarto, da minha toca, da minha fortaleza eu me sentia indefesa, presa fácil de todas as feras que o medo me traria de dentro da noite.
                   Almeida, abra esta porta, Almeida. Abra logo, senão eu boto ela abaixo. Você não está doido de me deixar aqui do lado de fora. Abra e vá dormir no sofá, que sempre foi o seu lugar. Abra esta porta, Almeida. Por favor. Você sabe que eu não sei dormir fora da minha cama. Pelo amor de Deus, Almeida. Você sabe que eu tenho medo de dormir fora do quarto. Na sala não, Almeidinha. Sozinha na sala, não. Eu vou passar a noite sem dormir.

                   Não sei o que pode ter dado neste homem. Onde ele foi arranjar coragem para me desafiar assim. Pela primeira vez ele se comporta com firmeza, a firmeza que eu tanto esperei que ele tivesse com as coisas da casa e da repartição. De um homem assim eu era capaz de gostar. Mas agora não posso mais. Agora meu coração se deslocou, virou de cabeça pra baixo e eu não vou mais desobedecer ao meu coração. Vou dormir no sofá, sim. Mas não vou dormir só. Apanho o paletó ainda úmido no varal e fico fuçando as suas dobras em busca de algum vestígio do cheiro de Jackeline. Mas a única coisa que encontro é o cheiro forte de sabão e, aqui e ali, uma pitada da inhaca do Almeidinha.

07 março 2015

Além do rio, a utopia








Está sempre além do rio
o lugar para onde fluem
todos os nossos desejos,
toda a nossa esperança.


Está sempre além do rio
o lugar onde todos um dia terão
um teto, água quente,
um cachorro, um gato,
ou bicho nenhum.

Está sempre além do rio
o lugar onde cada um
possa encontrar um amigo,
um amor ou a solidão voluntária.

Está sempre além do rio
o lugar em que eu possa
encontrar a mim mesmo
ao dobrar uma esquina.
Por isso ali se deve andar
devagar e a pé.

Estão sempre além do rio
todas as possibilidades de se viver
em paz em torno de uma mesa.

Por isso, o dia primeiro de abril
deve ser o dia além do rio.
O dia da Utopia.
                                                          

Ronaldo Monte (Cônsul de Uzhupis em Cabedelo).



Beyond the river, the utopy


 






Always beyond the river is
the place where
all of our desires,
all of our hope flow.


Always beyond the river is
the place where all will someday have
a roof, warm water,
a dog, a cat,
or no kind of pet.

Always beyond the river is
the place where each one
may find a friend, a love
or voluntary loneliness.

Always beyond the river is
the place where I can find myself
turning a corner.
Hence one must always move
slowly and on foot.

Always beyond the river are
all the possibilities to live
in peace around a table.

Hence the first of April
shall be the day beyond the river.
The day of Utopy.

Ronaldo Monte (Consul of Uzhupis in Cabedelo)
Translated by Iandê Almeida


01 março 2015

14 - DE VOLTA À ILHA


    Almeidinha - o herói de paletó

            Um folhetim burocrático



                   O cheiro estava expulso da casa, mas teimava em recender dentro de mim. Ainda era cedo, não adiantava ir para a cama. Qualquer lugar fora do quarto estava impregnado com a presença daquele Almeida que não se aquietava no sofá. A porta da rua me prometia uma saída. Além dela, havia toda uma cidade tomada pelo cheiro que me teimava na lembrança. E eu sabia exatamente o lugar da cidade onde encontrar a sua fonte. Passei pelo Almeida como uma ladra, abri a porta como uma mágica, me lancei na rua como um animal. Chamei um taxi.
                   Desta vez subi a escada sem hesitação. Varei a cortina de conchas com a determinação de uma freguesa antiga. Olhei para o balcão, mas Jackeline não estava lá. Quando a vista se acostumou à penumbra, vi que ela estava em uma mesa de canto, com uma das mãos pousada na mão de outra mulher mais nova que ela. Antes que ela me notasse, ali mesmo da porta passeei os olhos por toda a sala. Pelo que minha mãe falava e minhas amigas comentavam, mulher que gosta de mulher tem jeito de homem. Mas ali, na Ilha de Lesbos, nenhuma daquelas mulheres merecia ser chamada de sapatão. Umas mais bonitas, outras mais feiinhas, umas mais atrevidas, outras mais recatadas, todas elas guardavam um ar de feminilidade, demonstravam um companheirismo, uma espécie de carinho coletivo que eu nunca tinha visto em nenhum outro lugar.
                   Meu olhar ainda vagava pela sala quando ouvi a voz de Jackeline quase dentro do meu ouvido: eu sabia que você ia voltar. Uma espécie de raio percorreu meu corpo, uma onda de gelo eriçou todos os meus pelos, o perfume ansiado se entranhou por todos os meus poros.
                   Jackeline me levou pela mão para a mesa onde a moça ainda estava sentada. Nos apresentou, disse para a outra que eu era uma amiga de infância que estava de passagem pela cidade. Queria que eu ficasse na mesa delas naquela noite.
                   A moça apertou minha mão com um certo desdém e se negou ao beijo convencional de cumprimento. Pediu licença e se retirou meio apressada. Parece que era isto mesmo que Jackeline esperava que ela fizesse.
                   Lá estava eu, sentada naquela mesinha fracamente iluminada, tendo ao meu lado uma mulher de quem eu não sabia mais do que o nome. Ao meu lado e já com uma mão sobre a minha, perguntou se eu não bebia alguma coisa. Um Martine branco doce, respondi e me lembrei dos domingos na casa da minha mãe. Me dei conta de que nunca tinha bebido com outra pessoa além de minha mãe. O traste do Almeida mal bebia água. E minhas amigas bebiam muito, de um jeito que me desagradava. Agora uma outra mulher me oferece um drinque. E de Martine em Martine fui ficando lânguida, esmorecida, adormecida e não sei como fui acordar numa cama do quarto de um apartamento minúsculo, no mesmo condomínio de minha mãe.
                   Suei frio, gelei e tomei um susto quando a porta do quarto se abriu e por ela entrou uma outra Jackeline, com um robe de seda cinza, os cabelos presos num coque e uma bandeja nas mãos: o café da manhã para uma mulher maravilhosa que não me deixou dormir nem um pouquinho esta madrugada. Disse isto enquanto arriava a badeja em minha frente, aproveitando meu estado de choque para me dar um beijo na boca.  

                   Entrei em pânico, apanhei minhas roupas e saí correndo direto para o banheiro. Me vesti apressada e me arranquei dali afastando a outra que tentava evitar que eu abrisse a porta da sala. Desembalei pela escada e apressei o passo sem dar ouvidos aos gritos que vinham da janela de Jackeline. Já era manhã alta. Minha mãe devia estar em casa.

08 fevereiro 2015

13 – A ILHA DE LESBOS

Almeidinha - o herói de paletó

Um folhetim burocrático 




                   Eu sou uma mulher casada. Não fica bem para mim perambular pelas ruas assim, sem rumo. Todo mundo sabe quem eu sou. Tenho um nome, claro, sou Sandra, mas por aqui todo mundo me conhece como a mulher do Almeidinha. Do pobre do Almeidinha, como é mais comum o povo dizer. Já é fim de tarde, preciso voltar para casa, mas alguma coisa me prende aqui nesta calçada. Mais do que isso, tenho um forte pressentimento de que vai acontecer alguma coisa que pode mudar a minha vida. E essa coisa se aproxima de mim. É o cheiro, o cheiro que vim buscar que se aproxima. Ele passa por mim e quase me derruba. Mesmo tonta, volto a cabeça e vejo pelas costas um mulher loura, de blusa de oncinha e uma saia muito curta. Seu sapato de salto agulha marca seus passos com um som insolente e ritmado.
                   Não me contenho. Persigo a mulher pelas calçadas, apressada para não perdê-la de vista. De repente, ela some, desaparece, mas eu consigo ouvir seus passos no alto de uma escada de madeira. Tem um homem sentado num caixote ao pé da escada, como se fosse uma espécie de vigia ou porteiro. Pergunto para onde pode ter ido aquela mulher. Para a Ilha de Lesbos, responde o homem. É uma boate só para mulheres. Se quiser subir, fique à vontade. 
                   Subo a escada lentamente. Meu coração disparado às vezes me manda recuar. Mas o cheiro que impera na escada me arrasta para cima. Paro mais uma vez no topo da escada. Encontro uma porta aberta, com uma cortina de conchas do mar enfiadas em fios de barbante. Sei que passando por aquela cortina estarei passando para o outro lado deste meu mundinho previsível. Estarei deixando deste lado minha mãe, minhas amigas de praia, minhas clientes de bijuterias e, mais do que tudo, esse Almeidinha que me atormenta a vida, esse traste que me estraga os dias, essa coisa ruim que me causa náuseas.
                   Mergulho na sala escura sabendo que um mundo velho se fechava atrás de mim junto com os fios de conchas. Aos poucos, foi-se revelando nas sombras as mesas mal iluminadas por pequenos abajures vermelhos. Ao fundo, um pequeno balcão onde um barman preparava drinques com trejeitos afetados. Sentada desleixadamente em um banco alto, de costas para a prateleira, os cotovelos apoiados no balcão, um copo longo com um líquido vermelho e uma rodela de limão encaixada na borda, a dona do cheiro deixava a clara impressão de que esperava por mim.
                   Não me perguntem como, mas de repente me vi sentada no banco ao lado da mulher. Ela me olhou no fundo dos olhos e disse que sabia quem eu era. Eu era a mulher do Almeidinha. Queria muito conhecer você. Queria muito saber quem era a mulher capaz de escolher um tipo daquele para marido. Foi por isso que me esfreguei no paletó do Almeidinha deixando lá o meu cheiro. Era um recado que mandava para a mulher daquele arremedo de homem. Sabia que o meu cheiro no paletó iria causar ciúme na mulher dele. Mais cedo ou mais tarde essa mulher viria me procurar.        
                   Estou eu, portanto, na frente daquela mulher, com sua voz entrando em meus ouvidos, sua roupa bizarra entrando por meus olhos e o seu cheiro me invadindo as narinas, se alojando em meus pulmões, se confundindo com o meu sangue, misturando-se com minha carne. Sabia que para sempre carregaria aquela mulher dentro de mim.

                   Antes que ela voltasse a abrir a boca, virei as costas e disparei varando a cortina, tropeçando nos degraus em direção à porta da rua. Apressada, quase correndo, tomo o caminho de casa. Preciso chegar em casa para ver se a raiva que a presença de Almeidinha me causa faz desaparecer aquele sentimento confuso que carrego entranhado em mim com aquele cheiro. Abro a porta e encontro o traste se revirando no sofá, agarrado ao paletó com a sofreguidão de um amante. O amante que ele nunca foi para mim. Arranquei com força o paletó dos seus braços, ele resmungou e se virou para o outro lado. Mergulhei o paletó no tanque da área de serviço, esfreguei com sabão até não sentir mais os braços e o pendurei no varal, onde ficou pingando, como se chorasse. Eu também tive vontade de chorar. Tinha expulsado de vez aquele cheiro devastador de dentro da minha casa.  

01 fevereiro 2015

12 – UM CHEIRO ANTIGO


Almeidinha - o herói de paletó

Um folhetim burocrático


      Deixemos o nosso herói caminhar heroicamente para mais um dia de trabalho que, ele sabe, não será dos mais tranqüilos. Vamos voltar dois dias em nossa história para acompanhar os passos da senhora do Almeidinha. Antes, porém, precisamos saber que ela se chama Sandra e, ao contrário do que possa parecer, se ocupa com outras coisas além de transformar a vida do Almeidinha num inferno.

           Sandra tinha passado o dia trabalhando muito. Mesmo que só tenha se levantado da cama depois de ter certeza de que Almeidinha já havia saído para o trabalho, ela fez o almoço, guardou um prato no forno com o jantar do marido e saiu para visitar suas clientes de bijuterias. Passou na casa da mãe para falar um pouco mal do marido, mas não ficou para almoçar. Comeu em casa e se deitou um pouco para uma soneca. Depois de assistir a sessão da tarde, saiu da cama e arranjou um pouco de coragem para varrer a casa. Estava justamente passando a vassoura na sala quando a porta se abriu, Almeidinha entrou e um cheiro estranho entrou com ele. Vamos deixar que a própria Sandra conte o que aconteceu naquele princípio de noite.
          Que cheiro é esse, perguntei, já com o cabo da vassoura pronto para acertar a cabeça do meu marido. Ele se fez de desentendido e me disse que não sabia de que cheiro eu estava falando, que não tinha pegado nem se encostado em nada que cheirasse mal.
          Não se faça de besta, berrei, já com o cabo da vassoura amassando o nariz dele. Isto é cheiro de mulher. Me interessa muito saber que tipo de mulher é capaz de se esfregar em um traste como você.
           Enquanto ele ficava com aquela cara de bobo procurando uma resposta para me dar, o cheiro que vinha do seu paletó me levou para muito longe, para um tempo antigo, tempo em que estudava no grupo escolar. Agora o cheiro vinha de uma colega que sentava em minha frente. Todo dia, depois do recreio, ela entrava afogueada e inundava a sala com aquela quase-catinga agridoce que tirava toda a minha concentração nas coisas sem graça que a professora falava.
       Afastei com raiva aquela lembrança e, com mais raiva ainda, berrei: Almeida, eu estou falando com você. De quem é esse perfume. Sabia que a sua fé católica não o deixaria mentir. Logo logo eu ia saber o nome da dona daquele cheiro. É de Dona Jackeline, ele respondeu. Uma colega nova da repartição. E a partir daquele instante uma idéia fixa implantou-se em minha cabeça. Encontrar essa tal Jackeline e sentir novamente aquele cheiro que carregava escondido em minha memória.
            Esperei que meu marido entrasse no banheiro e corri para o quarto. De lá mesmo joguei o lençol de solteiro em cima do sofá da sala e tranquei a porta. Mesmo com a luz apagada, passei a noite em claro, ouvindo o Almeidinha se virar no sofá, resmungando umas coisas que não consegui entender.
        Esperei Almeida sair de casa para passar um café forte e tentar me recuperar da noite em claro. Passei um bom tempo mexendo o café, entretida com o barulhinho da colher no fundo da xícara, uma perna dobrada com o pé forçando o assento da cadeira, tentando me livrar da lembrança do cheiro que meu marido tinha trazido para dentro de casa.
             Pensei em voltar para a cama, mas alguma coisa me levou para a rua. Não visitei nenhuma cliente, nem fui para a casa da minha mãe. Saí zanzando pelas ruas do bairro e fui me distanciando em direção ao centro da cidade. Não sabia muito bem para onde ia. Sabia porém que meus passos me impeliam para algum lugar em que um cheiro antigo me esperava. Era ao encontro desse cheiro que caminhava.

25 janeiro 2015

11 - Almeidinha - o herói de paletó

Um folhetim burocrático

11 - A vingança de Almeidinha


                   E foi assim, de mão estendida, mendigando um paletó a cada homem que passava, ouvindo de uns que fosse curar a bebedeira e de outros que procurasse um hospício, que voltei para casa, como um sonâmbulo.
      Abri a porta com cuidado, mas logo vi que a casa estava vazia. Tudo escuro, que a noite já tinha caído. Sem acender as luzes, corri para o banheiro e tomei um banho demorado, como se quisesse lavar toda a vergonha que tinha passado nesse dia. Senti um grande conforto quando vesti o pijama que tinha deixado no banheiro desde a manhã, antes de sair para telefonar para a repartição.
                   Foi ainda como um sonâmbulo que fui até o quarto, peguei um lençol de solteiro e joguei sobre o sofá. Mas não seria eu que dormiria ali nessa noite. Voltei para o quarto, fechei a porta com a chave e me deitei na cama calmamente, esperando o sono que não demorou a chegar.
                   Almeida, abra esta porta, Almeida. Abra logo, senão eu boto ela abaixo. Você não está doido de me deixar aqui do lado de fora. Abra e vá dormir no sofá, que sempre foi o seu lugar. Abra esta porta, Almeida. Por favor. Você sabe que eu não sei dormir fora da minha cama. Pelo amor de Deus, Almeida. Você sabe que eu tenho medo de dormir fora do quarto. Na sala não, Almeidinha. Sozinha na sala, não. Eu vou passar a noite sem dormir.
                   Pode até ser pecado, mas me deu prazer ouvir o desespero da minha esposa do outro lado da porta. Teve um momento que me deu pena, tive vontade de abrir a porta, mas não ia conseguir ficar deitado na mesma cama com ela, nem estava disposto a ir dormir no sofá. Pela primeira vez na vida eu estava no controle de uma situação e isto me deu uma sensação muito boa de poder, parecida com a que o Dr. Pacheco tem quando entra na repartição.
                   Não sei se foi o sono que me abateu ou se foi a voz dela que ia ficando cada vez mais baixa, cada vez mais chorosa, cada vez mais longe. Almeidinha, Almeidinha, parece que escutei ela soluçar. Almeidinha, Almeidinha, já era outra voz que me chamava do outro lado do sono, e com a voz vinha um perfume que eu finalmente encontrava depois de tanto perambular pelas ruas do bairro. Mas é só disso que me lembro, pois dormi pesado e acordei sem me lembrar de nada com que houvesse sonhado.
                   Dei um pulo da cama assim que senti o primeiro clarão da manhã entrar no quarto. Tinha que chegar cedo na repartição para botar em dia o trabalho que deixei de fazer por ter faltado ao expediente. Com que cara, meu Deus, com que cara eu ia enfrentar os colegas, que desculpa eu ia dar pra eles, sem mentir, que mentir é pecado. E como eu ia enfrentar o olhar de reprovação do Dr. Pacheco? Era certo que ele ia me chamar na sua sala e me fazer uma repreensão. Capaz de não aceitar minhas razões e mandar descontar o dia no meu ordenado. E o paletó, onde estava meu paletó? Ainda estaria pendurado no varal?
                   Coisa estranha. Minha mulher não estava no sofá. Logo ela, que gosta de dormir até tarde. E o silêncio da casa delatava: ela não estava mais ali.  E aquilo jogado no espaldar do sofá, não era meu paletó? Claro que era. Mais estranho ainda. Como ele tinha ido parar ali?

                   Meu paletó estava bastante amarrotado, mas pelo menos estava enxuto. Como foi bom sentir novamente a sua proteção. Abri a porta e me joguei no mundo sabendo que muita coisa ruim poderia me acontecer nesse dia. Pouco importava. Estava de novo com meu paletó. E ele me dava coragem para enfrentar o que desse e viesse. 

19 janeiro 2015

A última vivandeira

São muitas as vivandeiras antes de mim. São muitas as que se alimentam dos frutos da guerra, que se entregam ao cuidado dos homens que sabem que vão morrer. É preciso que todas façam seu trabalho, até que chegue minha vez. Tenho que esperar que todas elas abandonem o campo de batalha para poder enfim exercer o meu ofício. Eu sou a última.
Primeiro vêm aquelas aceitas pelos comandantes, que acompanham por dentro os batalhões em guerra. Poucas são enfermeiras, algumas cozinheiras, todas amasiadas com as altas patentes. Jovens e bonitas todas elas, às vezes vestem farda, se engalanam. Raramente são vistas de noite fora de suas tendas. Confortam seus homens, mitigando as saudades de casa. À luz do dia, mandam de acordo com o poder daqueles com quem dormem.
Muitas outras servem aguardente e dançam para as tropas acantonadas, deitando-se depois com tantos quanto possam pagar por seus favores. É de longe que assisto a suas festas, vejo as saias rodadas subindo acima dos joelhos, as mãos dos homens enlaçando suas cinturas, as fugas dos casais para os escuros. São generosas com os soldados rasos, pois sabem que para muitos deles aquela pode ser a última noite em que dançam, bebem e se desafogam. A madrugada pode vir com a guerra em seus vermelhos. E as mais valentes delas lutarão como os homens, mais ferozes e impiedosas que os homens.
Uma legião maior segue de longe os batalhões e só se aproxima quando os homens acampados esperam o início da batalha. Carne salgada, pão e aguardente são as poucas iguarias que oferecem. Vendem também algumas coisas de segunda mão: pequenas armas, trancelins, medalhas, amuletos, alforjes, botinas e peças intactas de roupa. Por mais próximas que estejam, os soldados não as tocam. Alguma sombra nos olhos delas faz com que sintam calafrios de mau agouro.
Elas se vão e só retornam depois de terminada a batalha, quando a fumaça rasteira já permite ver os corpos mutilados e sem vida. Antes que os sobreviventes voltem para contar e sepultar seus mortos, elas reviram os bolsos dos cadáveres, despojando-os de tudo o que já não lhes servem: pequenas armas, trancelins, medalhas, amuletos. Aliviam-lhes também do peso inútil, levando seus alforjes, botinas e as peças intactas da roupa. Qualquer coisa pode render algum dinheiro quando oferecida aos soldados inimigos ou até mesmo aos aliados dos mortos. Elas fazem seu trabalho em silêncio, trocando sinais, andando agachadas, os pés descalços atolados em poças de sangue. Depois, deixam de ser aves de rapina e se transformam em animais de carga, puxando suas carroças pesadas com o fruto do botim em direção a outro acampamento.
Quando elas se vão, venho eu fazer o meu trabalho junto aos moribundos, apressando os desenlaces, encurtando as agonias. Mais do que dos olhos, é dos ouvidos que eu preciso para saber de onde partem os gemidos, a voz surda dos que chamam pela mãe quando sabem que vão morrer.
O meu ofício requer discernimento. É preciso reconhecer de que morte cada um deve morrer. Veja este homem aqui, ferido de lança, já quase sem sangue. Respira em dores e é com esforço que ouço seus gemidos. Precisa bem pouco de mim. Basta que eu cubra sua boca com a minha boca e feche com força suas narinas. Ele ainda vai se debater, seu corpo vai entrar em estertor, mas logo lançará dentro de mim o seu último suspiro. É a minha vez então de fechar a boca, trancar a respiração e deixar que o hálito da sua morte se transforme em vida dentro de meus pulmões. Depois, é com carinho que olho para o seu rosto que parece dormir, livre das dores que o mantinham vivo.
Agora é a vez deste outro, sem nenhum ferimento à mostra, mas quebrado em pedaços por dentro. Por certo, me dará mais trabalho. Primeiro, é preciso apertar-lhe a garganta. Já vi muitas execuções por enforcamento e sei que o enforcado ejacula antes de morrer. As mais velhas até diziam que em cada lugar onde se armou uma forca nasce uma flor branca, fruto da terra semeada pelo enforcado. Nunca vi, não posso confirmar. Ele me olha e o seu olhar é de alívio pela minha chegada. Mas tem um pouco de volúpia nesta gratidão, pois ele sabe, já ouviu falar, do meu ofício. É por isso que me entrega seu corpo sem contestação. Deixa que exponha o seu membro e me sente em cima dele. Depois me oferece o pescoço para que o enlace com meu cinto. E é bom pra mim assistir a sua cara de gozo e entrega enquanto aperto o laço. Aos poucos, sinto seu membro crescer sob minha fenda. Mantendo o cinto apertado com uma das mãos, com a outra agarro com vigor o membro que entumece e o coloco dentro de mim. Os olhos esbugalhados do soldado também se entumecem de sangue. A cada movimento meu, todo o seu corpo se entrega à cavalgada que o levará ao gozo final da morte. E quando já me faltam forças para o laço e o movimento, recebo dentro de mim o jorro derradeiro de mais um homem que estremece e morre sob os meus cuidados.
Assim, um a um, vou recolhendo suas últimas emissões, sejam de hálito, sejam de sêmen. É o que ganho em troca pelo trabalho de lhes aliviar a dor. Não pensem que faço isso por prazer. É a compaixão que me leva ao campo de batalha. Não há nada mais triste do que a solidão da morte.
Uma mulher jogou cada um destes homens no mundo, muitas mulheres lhes fizeram a cama, a uma ou duas dedicaram amor. Mas quando vêm a dor, a solidão e o medo de serem enterrados vivos, chamam pelas mães, mas é por mim que eles anseiam. Para que eu faça o contrário de um parto, recolhendo suas vidas para dentro de mim. Eu sou a última.

Publicado no jornal Rascunho em dezembro de 2014.Ilustração: Theo Szczepanski
RONALDO MONTE
Mora em Cabedelo, cidade portuária da Paraíba. Nasceu em Maceió (AL), em 1947, viveu no Recife e em João Pessoa, onde se aposentou como professor do Departamento de Psicologia da UFPB. É psicanalista e autor de 14 livros de poesia, contos, crônicas e romances. Seu romance mais recente, A paixão insone, foi publicado em edição eletrônica pela Mombak.

18 janeiro 2015

10 - Almeidinha - o herói de paletó

Um folhetim burocrático


10 - Almeidinha, o mendigo


                Era mais de oito horas e a porta da igreja estava fechada. Estranhei, pois, depois da missa das sete, Padre Guido costuma ficar por ali, na esperança de que alguém apareça para uma confissão, ou mesmo uma conversa sem muito compromisso. Ele deve ter dado uma saidinha e volta já. Vou me sentar aqui neste degrau, me escorar aqui nesta parede e esperar até que ele volte.

          O sol começou a esquentar e eu comecei a suar. O casaco me apertava e as fibras das mangas me davam uma coceira que só aumentava minha aflição. Olhei para os lados, não vi ninguém e tomei uma decisão drástica: tirei o casaco.

             Com o passar da manhã, o sol deitou uma sombra no lugar em que me sentei. Meio sem saber o que fazia, fiz uma trouxa com o casaco, ajeitei entre a cabeça e a parede e deixei o sono mandar em mim, como todo mundo.

          No mesmo instante me vi sentado em meu birô, batendo na máquina, mas não é nenhum ofício, petição, ou relatório. É uma carta, na verdade uma poesia que eu escrevo num papel cor de rosa, e desse papel sai um cheiro que eu conheço. De repente, entra uma mosca gigante pela porta da repartição voando em minha direção e fica dando voltas em torno da minha cabeça. Quando ela passa pela frente do meu nariz, aumenta mais o perfume que antes eu pensei que saía da folha do papel. Depois de me deixar tonto com suas voltas e seu perfume, a grande mosca pousa no meu ombro esquerdo. Entro em pânico, pois tenho medo que ela saia dali e voe para fora da sala. É quando vejo o Dr. Pacheco correr em minha direção gritando Seu Almeidinha, isso é coisa que se faça na frente dos seus colegas? E bate com toda força no meu ombro, espantando a mosca e me causando uma pontada de dor.

                As pontadas se repetiam, mas agora não vinham mais das mãos do Dr. Pacheco. Sabia disto, porque já estava acordado. Só quando abri os olhos pude ver a ponta de uma vara curta que me cutucava o ombro. Na outra ponta da vara, uma mão engelhada anunciava um braço magro que levava a um rosto velho de barbas brancas e uns olhos irados que antecipavam o grito: vá pedir esmola em outro canto que este ponto aqui é meu. Custei um pouco a entender, mas tudo ficou claro quando vi algumas moedas e umas poucas cédulas espalhadas em torno de mim.

               Meu Deus, até que ponto eu cheguei. Se estivesse de paletó, garanto que isto não tinha acontecido. Juntei todo o dinheiro do chão, e entreguei ao seu verdadeiro dono, repetindo um pedido de desculpas. Ele me olhava assustado, sem entender muito bem o que se passava. Vi que a porta da igreja estava aberta, mas não foi para lá que eu corri. Desci de passo apressado a escadaria e saí sem rumo pelas ruas ensolaradas do bairro.  
    
       Aos poucos minhas passadas voltavam ao normal. Sempre andei apressado, mas agora ia devagar pela calçada na direção oposta à da minha casa. Senti uma agonia, uma espécie de vergonha por estar perambulando por ali.  Já tinham me confundido com um mendigo. Agora poderiam pensar que eu fosse um vagabundo. Aos poucos, porém, tive que me conformar com a situação. Estava vagabundando, sim. Não tinha ido trabalhar. E estava mendigando, sim. Esperava que alguém me desse a esmola de um perfume. Divagava assim, ao Deus dará, quando, súbito, me dei conta que, na pressa, tinha deixado o casaco nos degraus da igreja. Entrei em pânico e estendi a mão para o primeiro homem que passava: um paletó, pelo amor de Deus.   

11 janeiro 2015

09 - Almeidinha - o herói de paletó

 Um folhetim burocrático

09 - Crime? Castigo?

 
                   Tudo o que fiz na repartição deu errado depois da minha conversa com Padre Guido. Eu só pensava em chegar em casa, tomar meu banho, comer apressado o prato feito que  sempre me espera no forno, tomar o resto de café da garrafa térmica, me certificar que a porta do quarto está trancada e me jogar no sofá abraçado ao paletó. Claro que demorei a dormir, pois me atormentava com o pecado que me visitaria em sonho e me faria sair correndo de madrugada em busca de absolvição.
                   Não sei como foi minha noite, nem lembro do que sonhei. O pavor tomou conta de mim quando acordei e não encontrei meu paletó. Olhei em baixo do sofá, esfreguei os olhos para olhar melhor em volta da sala e nada. Corri para o banheiro, podia ter esquecido lá. Também nada. Quase instintivamente, atravessei a cozinha e parei estatelado no vão da área de serviço. Meu paletó estava lá, pendurado no varal, ainda pingando no chão.
Não precisava procurar pela casa. Já sabia que minha esposa tinha saído logo depois de ter lavado me paletó. Não me importava para onde ela tinha ido. Tudo que me afligia no momento era não poder ir trabalhar naquele dia. O outro paletó que eu tinha não combinava com nenhuma das minhas calças. E se tem coisa que não tolero é um funcionário público com paletó e calças desencontrados. Acho falta de respeito com a repartição. Meus colegas trabalham em manga de camisa, mas isto estava fora de cogitação. Já disse que me sinto nu sem paletó.
                   Foi um tormento ter de sair para telefonar avisando que ia faltar ao trabalho. Tinha que ir na farmácia, pois não tenho celular e na minha casa não tem telefone fixo. E nunca ninguém naquele bairro jamais tinha me visto sem paletó. Iam logo pensar que alguma coisa muito séria havia acontecido comigo. Não sei como uma idéia salvadora pode me ocorrer numa agonia daquela. Lembrei que minha senhora tinha um casaco de lã azul marinho que ficava um pouco folgado nela. Ficou meio apertado em mim, mas me deu uma sensação de conforto e proteção de que tanto precisava naquela hora.
                   Quem atendeu foi Dona Marli, a secretária. O que aconteceu, Seu Almeidinha? O senhor nunca faltou um dia de trabalho. Nem atrasado o senhor nunca chegou. A gente já estava pensando que o senhor tinha morrido.
                   Tive um contratempo incomensurável, Dona Marli. Disse isso com a voz embargada, com um nó na garganta. Não podia adiantar mais nada sobre tal contratempo. Nem podia inventar uma mentira. Vocês sabem que sou católico, não minto. Dona Marli deve ter entendido meu embaraço. Disse para que eu ficasse tranqüilo que ela ia avisar ao Dr. Pacheco.
                   Eu já ia desligar o telefone quando ela acrescentou: foi realmente muito ruim o senhor ter faltado, Seu Almeidinha. Teve uma pessoa que passou aqui bem cedinho e perguntou pelo senhor. Quem pode ter sido, Dona Marli. Teria sido minha senhora? Muito pelo contrário, Seu Almeidinha. Foi a sua namorada, Dona Mosca. Quer dizer, Dona Jackeline. Fazia pena ver o desapontamento dela quando encontrou o seu lugar vazio.

                   Deixei cair o telefone no gancho e saí sem agradecer ao pessoal da farmácia. Fui me arrastando em direção à igreja. Só Padre Guido poderia dizer o que estava acontecendo comigo.

06 janeiro 2015

08 - Almeidinha - o herói de paletó

 Um folhetim burocrático                

08 - O pecado de Almeidinha


                   Não sei se falei que hoje acordei mais cedo do que de costume. Tive uma noite mal dormida. Mas não foi por ter dormido no sofá, não, que já estou acostumado. Rara mesmo é a noite em que minha senhora me deixa dormir na cama com ela. Sei que dormi mal porque amanheci de bruços e o paletó com que adormeci agarrado tinha caído no chão. E sei também que alguma coisa aconteceu para que me acordasse com a clara impressão de que tinha cometido algum pecado. Não me lembrava de nada com que tivesse sonhado, mas o gosto do pecado me deixava uma saliva pesada na boca que eu sei que só passa depois que me confessar.
                   Foi por isso que saí de casa sem tomar café, a rua ainda sonolenta, e fui direto para a igreja, esperar que Padre Guido chegasse para a missa das seis. Ele haveria de ter um tempinho para me ouvir em confissão.
                   Acho que cochilei sentado nos degraus da igreja, pois não me dei conta da chegada de Padre Guido. Abri os olhos com ele perguntando, surpreso, o que o meu amigo Almeida está fazendo por aqui a estas horas? Não acredito que dormiu na rua... O senhor está com cara de quem andou fazendo alguma trela, acrescentou meio bonachão.
                   Pronto, o pecado estava estampado na minha cara, embora eu não tivesse a mínima idéia de qual pecado se tratava. A saliva grossa secou na minha boca e comecei a tremer. Você está doente, Seu Almeida? Venha, entre e se sente naquele banco que eu vou buscar um copo d’água para o senhor.
                   Quando Padre Guido voltou com a água me encontrou de joelhos no genuflexório, a cabeça entre as mãos, pronto a desatar em soluços. Tome sua água, seu Almeida e, pelo amor de Deus, me conte o que aconteceu. O senhor matou alguém?
                   - Deus me livre, padre Guido, mas se eu soubesse qual é o meu pecado, mesmo que fosse de morte, talvez minha agonia fosse menor. O problema é justamente esse: eu sei que pequei, mas não sei qual é o meu pecado.
                   - Ora, seu Almeida, uma pessoa só pode pecar pelos seus pensamentos, palavras ou obras. Se o senhor não se lembra de nenhum pensamento mau, se não falou nenhuma blasfêmia ou injúria e se não fez nada de errado aos olhos de Deus, então não há como o senhor ter pecado.
                   - Eu não sei o que aconteceu comigo durante a noite, só sei que dormi abraçado com o meu paletó e que ele ainda guardava lá longe o perfume de uma mulher.
                   - Ah, quer dizer que o senhor andou se agarrando com uma mulher...
                   - Que é isso, Padre Guido? O senhor me conhece muito bem para saber que eu nunca faltaria ao respeito à minha senhora.
                   - Mas então, como esse tal cheiro de mulher foi parar no seu paletó?
                   - Era uma colega novata lá da repartição que esfregava a barriga em minhas costas toda vez que passava para se sentar no birô dela.
                   - E o senhor gostava, seu Almeida?
                   - Acho que não. Eu ficava muito nervoso. Minha agonia era enquanto esperava ela passar. O senhor acha que isso é pecado?
                   - Até aqui não encontrei nenhum pensamento, palavra ou obra que mereça perdão ou penitência. Vá para casa, amigo Almeida. E quando se lembrar de algum sonho que teve esta noite, volte para conversar comigo.

                   Saí da igreja um pouco aliviado, mas não fui pra casa. Decidi ir a pé até a repartição. Não sei bem porque, mas queria que aquele cheiro demorasse a sair do meu paletó. Que ficasse ali até a noite, para eu dormir novamente no sofá e conseguir sonhar com alguma coisa que mereça ser chamada de pecado. 

30 dezembro 2014

07 - Almeidinha - o herói de paletó

 Um folhetim burocrático


07 - O perfume da discórdia

       
             O Dr. Pacheco, como sempre, estava com a razão. Foi melhor mesmo que a Dona Jackeline voltasse para a repartição dela. Eu voltei a ser o datilógrafo impecável que todos invejavam, não gaguejava mais quando o Chefe tocava o interfone, não perdia meu tempo esperando que desse dez horas para a novata chegar com seus óculos de mosca e aquele perfume que até me dava um pouco de dor de cabeça.
       

Um pouco de dor de cabeça, apenas na repartição. Lá em casa, esse perfume me deu uma dor de cabeça enorme. A cada vez que passava por trás de minha cadeira, Dona Jackeline se demorava mais com a barriga colada em minhas costas. Teve até uma vez que ela se curvou um pouco, dizendo que queria ver o que eu estava escrevendo, e roçou um dos seios na minha cabeça. Foi nesse dia que a minha Senhora sentiu um cheiro diferente quando eu entrei em casa.
                   Que cheiro é esse? Perguntou a minha Senhora, já com um cabo de vassoura pronto para me acertar a cabeça. Disse que não sabia de que cheiro ela estava falando, que eu não tinha pegado ou me encostado em nada que cheirasse mal.
                   Não se faça de besta, berrou a minha Senhora, com o cabo de vassoura já amassando meu nariz. Não estou falando de catinga. Franziu a cara puxando o ar com força pelo nariz. O que estou sentindo é cheiro de mulher. E acrescentou meio zombeteira: quero saber que tipo de mulher é capaz de se esfregar em um homem como você.
                   Foi aí que me lembrei da barriga macia de Dona Jackeline amassando minhas costas. E me veio mais aguda a lembrança do seu seio tocando minha cabeça. Para falar a verdade, ainda sentia uma leve pressão sobre a parte de trás do cabelo.
                   Acho que passei tempo demais entretido com essa lembrança. Devo até ter ficado meio ausente, indiferente às ameaças do cabo de vassoura que ia e vinha na frente do meu nariz.   Almeida, eu estou falando com você. Me responda, de quem é esse perfume? Eu nunca menti para minha Senhora. Sou católico e desde menino minha mãe me ensinou que mentir é pecado. Não era nessa hora que ia começar a traçar meu caminho para o inferno. É de Dona Jackeline, respondi. E quem é essa Jackeline, berrou com o cabo de vassoura pronto para me rachar a cabeça. Uma colega novata lá da repartição, respondi já com os olhos fechados e a cara contraída esperando a vassourada.
                   Eu não acredito no que estou ouvindo, falou com desdém. Quando abri os olhos, ela estava com as mãos cruzadas sobre a ponta do cabo da vassoura, olhando para mim com os olhos arregalados. Almeida, falou num tom baixo e incrédulo, você está me traindo com uma colega da repartição? Meu Deus, essa mulher deve ser cega para se enxerir para um traste da sua espécie.
                   Baixei a cabeça, passei por ela sem olhar, deixei o saco de pão em cima da mesa e caminhei feito um sonâmbulo para o banheiro. Não tive ânimo para tomar banho. Já vestido com o pijama, apanhei o paletó para guardar no quarto e senti aquele resto de perfume que me invadiu as narinas como invadia todo o escritório às dez da manhã. Passei a mão na parte de trás da cabeça, sem saber muito bem por que.
           porta do quarto estava trancada, a luz apagada. Olhei automaticamente para o sofá e lá estava o lençol de solteiro. Me deitei abraçado com o paletó e demorei a dormir com aquele cheiro me lembrando o tempo todo o perigo que passei com o cabo de vassoura pronto para me rachar a cabeça.

           Não me lembro de ter sonhado com nada, mas acordei com a impressão de que não tinha dormido só. O paletó, todo amassado, tinha escorrido para o chão. Vou chegar mal apresentado no trabalho. Mas antes vou pedir ao Padre Guido que me ouça em confissão.

23 dezembro 2014

Uma prece pagã



Estou em pleno retiro de fim de ano. A copa, as eleições, o mensalão, a lava-jato e  tudo o mais que tumultuou minha vida durante o ano vai ficar do lado de fora da minha casa.  Me dei de presente a esperança do fim do bloqueio a Cuba e me ausentei do noticiário. Ao menos por um mês, só me interessam, exclusivamente, as coisas boas que possa repartir com as pessoas a quem amo. Por isso, quero repartir com você a prece pagã que encontrei numa loja de presentes na cidade de Tiradentes, em Minas Gerais. É o que eu quero para a minha casa e para as casas de todas as pessoas de boa vontade.    




22 dezembro 2014

"A paixão insone" na Coleção Latitudes




Coleção Latitudes: Literatura em horizonte expandido

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Organizada pela escritora Maria Valéria Rezende, a série literária digital tem o objetivo de dar visibilidade a escritores com talento reconhecido em apenas alguns nichos regionais.

mosaico coleção latitudes
Mostra a História que grandes ideias e parcerias nasceram de conversas informais ao redor de uma mesa. Os compositores Tom Jobim e Vinícius de Moraes, por exemplo, conheceram-se numa mesa do bar Villarino, no Centro do Rio. Foi também numa mesa de restaurante que o arquiteto Oscar Niemeyer fez, nas costas frágeis de um guardanapo, o esboço do Museu de Arte Contemporânea de Niterói, uma das mais celebradas obras de sua carreira. No começo do ano, estavam sentadas à mesa de um café, em São Paulo, a escritora Maria Valéria Rezende e a diretora executiva da Revista Pessoa, Mirna Queiroz, quando veio à baila o problema da difusão da nova literatura no Brasil; a dificuldade para se distribuir e divulgar, com lealdade e alcance devido, a rica produção literária escrita e publicada em todas as regiões do país.
Maria Valeria por Daniel Mordzinski
A organizadora da coleção Latitudes, Maria Valéria Rezende. Crédito: Daniel Mordzinski
“A distribuição de livros físicos tem sido uma via de mão única e monopolizada por empresas sediadas no centro-sul. Há anos que eu, paulista aparaibanada, levanto sempre essa questão, não porque tenha pena dos autores, mas porque me parece que é a comunidade leitora do país que perde a oportunidade de enriquecer-se com diferentes pontos de vista, estilos, linguagens”, observa Maria Valéria Rezende.
Dessa incômoda constatação, ficou a proposta de se criar uma maneira de dar mais visibilidade a escritores com talento reconhecido em apenas alguns nichos. Porém, como superar a barreira geográfica? A resposta acaba de ser dada com a coleção Latitudes, inteiramente lançada no formato digital pelo selo Mombak, em parceria com a e-galáxia. A primeira leva conta com cinco títulos, já disponíveis para compra nas principais lojas virtuais do ramo.
“Um dos grandes motivos por trás da pouca divulgação desses escritores é a dificuldade de distribuição num país de dimensão continental como o nosso. O digital elimina essa barreira. Eu vejo essa plataforma com muito otimismo. Facilita o acesso à produção, realmente é mais barato, e encurta o caminho até o leitor. Mesmo quem não tem e-reader pode baixar um aplicativo no computador e ler os e-books. E isso é o que realmente importa: oferecer boa literatura ao alcance do leitor, onde quer que ele esteja”, aponta Mirna Queiroz, que faz o papel de editora.
A organização coube a Maria Valéria Rezende, cuja garimpagem inicial partiu de sua própria biblioteca, dos livros de pequenas editoras regionais que vai coletando no curso de suas viagens. Nessa seleção, figuram os títulos A paixão insone, de Ronaldo Monte; Aqui as noites são mais longas, de Geraldo Maciel; O beijo de Deus, de Dôra Limeira; Palavras que devoram lágrimas, de Roberto Menezes; e Já não há golfinho no Tejo, de Joana Belarmino. De acordo com a organizadora, a escolha final resultou da vontade de apresentar, de cara, uma variedade que incluísse romances, contos e minicontos, de mulheres e de homens de faixas etárias distintas, sendo três obras inteiramente inéditas e duas que haviam tido apenas edições locais já esgotadas.
“Há excelente literatura que só é bem conhecida na região em que o escritor vive e publica, de modo que o que se considera, divulga e analisa como sendo a literatura brasileira não é mais do que uma pequena parte dela, favorecida, com notáveis exceções, pela localização geográfica dos autores”, salienta.

O escritor Ronaldo Monte, autor de A paixão insone. Crédito: Mano de Carvalho
O escritor alagoano Ronaldo Monte, cujo livro explora a solidão e a busca pela ternura na conturbada relação com a violência urbana, atesta a necessidade de se desmistificar a noção de grandes centros literários. Segundo ele, o que existe, de fato, são complexos mercadológicos focados na publicação e na divulgação de alguns grupos de autores ligados a determinadas editoras sediadas, estas sim, em grandes centros comerciais.
Um centro literário, a meu ver, é um lugar que concentra uma produção literária significativa. E neste sentido, a noção de centro está sendo substituída por uma nova tópica em rede com seus pontos distribuídos por todo um campo territorial, virtualmente ligados entre si”, considera o autor.
Natural da Paraíba, o professor Roberto Menezes, que traz, emPalavras que devoram lágrimas, vencedor do Prêmio José Lins do Rego, o fluxo de consciência de uma mulher embalado por camadas de lembranças e desgostos acumulados durante sete anos de um casamento acabado, defende o estado como um centro literário, por concentrar, no cenário atual, excelentes autores que vivem um grande momento na prosa e na poesia.
A definição de grande centro literário é um pouco distorcida, muitos confundem com regiões onde se situam grandes editoras e distribuidores. O formato digital serve para esses autores quebrarem as fronteiras e levar sua literatura a lugares aos quais, muitas vezes, só editoras e distribuidoras dos maiores centros econômicos podem levar o livro físico”, atenta Menezes.
Com entusiasmo, a escritora Joana Belarmino, cujos contos da antologia Já não há golfinho no Tejo primam por um verniz poético, percebe os livros digitais como uma das invenções mais democráticas do nosso tempo.

A escritora Joana Belarmino assina a antologiaJá não há golfinho no Tejo
“Pensava no que seria do meu livro, encapsulado embits e bits, trafegando pela cibervia. Não sei se fui a primeira a comprar. Fui lá e fiz clique, e zaz! Feito pequenas libélulas, transportei para o smartphone os livros de toda a coleção. Abri meu e era como se os contos tivessem ganhado um sabor novo”, conta.
Para 2015, a intenção é lançar mais cinco títulos. Porém, de acordo com Mirna Queiroz, um trabalho sem pressa e cuidadoso, tratando o selo como uma butique literária, que aposta na qualidade e na bibliodiversidade.
Se a coleção responder aos nossos sonhos, daremos várias voltas pelo país. Já temos muitas obras de outras regiões engatilhadas, e passaremos outra vez, mais adiante, pela Paraíba”, complementa Maria Valéria Rezende.
Serviço
Matéria disponível em
http://homoliteratus.com/colecao-latitudes-literatura-em-horizonte-expandido/