30 novembro 2014

Almeidinha - O herói de paletó




Um folhetim burocrático

03 - Almeidinha e o elevador


                   Minha repartição fica no sétimo andar de um edifício no Centro. Eu devia pegar dois ônibus para chegar até lá, mas prefiro pegar um atalho por dentro do bairro até chegar na avenida onde passa o ônibus que me leva direto ao trabalho. Minha senhora vive reclamando que eu devia pegar os dois ônibus, que o dinheiro que economizo na passagem eu gasto com a sola dos sapatos. Que se eu pegasse dois ônibus ia sair mais tarde de casa e ela podia dormir mais meia hora.  Mas neste caso eu não dou ouvidos a ela. Saio de casa com o sol frio e faço a caminhada que o médico me recomendou. É claro que no meio do caminho o sol esquenta e eu transpiro um pouco nas axilas. Às vezes me vem a idéia de tirar o paletó, mas eu ia ficar sem jeito, me sentindo meio nu no meio da rua.
                   O ônibus que eu pego geralmente vem lotado e eu tenho que viajar em pé, o que me faz suar um pouco mais e ainda por cima me amarrota o paletó. O bom é que eu desço a duas quadras do prédio da repartição, não chego assim tão cansado. Não deixo nunca de agradecer a Nossa Senhora quando encontro o elevador funcionando. Pois subir os sete andares naquela escada escura e fedendo a fumaça de incinerador é muito cansativo, embora o Dr. Pacheco diga que faz bem ao coração.
                   Bendito elevador. Quase nunca enguiça. Mas teve um tempo em que as coisas eram muito ruins. O elevador era muito antigo, daqueles com porta interna de sanfona que fazia um barulho incômodo quando abria ou fechava. Estalava, como um monte de ferro velho. Um dia o Dr. Pacheco perdeu a paciência e me pediu para redigir um ofício à Diretoria de Material solicitando a troca do elevador por um modelo mais moderno. Um ano e meio e setenta e três ofícios depois, veio a resposta de que o novo elevador estava sendo licitado. Com pouco mais de seis meses a um ano, a compra estaria finalizada e o elevador seria imediatamente instalado, tão logo fosse feita a licitação. É natural esta demora, pois, como todo mundo sabe, uma licitação é um procedimento administrativo pelo qual um ente público abre a todos os interessados que se sujeitem às condições fixadas no instrumento convocatório, a possibilidade de formularem propostas dentre as quais selecionará e aceitará a mais conveniente para a celebração do contrato. Além disso, ainda se devia esperar pelos serviços de transporte e instalação. Isto leva tempo, muito tempo.  
                   Nesse meio tempo, o velho elevador enguiçou de vez e todo mundo teve que passar a se servir da escada escura e fedorenta. Todo mundo, menos Dr. Pacheco e Dona Marli, que se instalaram numa sala comercial na sobreloja. Não precisa dizer que todos usavam os meus valorosos préstimos para levar os documentos para o Dr. Pacheco assinar. Claro que havia uma certa organização para que não abusassem da minha boa vontade. Descia e subia uma vez às dez horas da manhã, depois levava o expediente acumulado na descida para o almoço. Quando voltava, esperava um pouco que Dona Marli abrisse a porta com umas mechas de cabelo fora do lugar e o sutiã meio desequilibrado e me liberasse para subir com a papelada assinada. Só lá para as quatro da tarde é que descia e subia de novo. Sentia um certo orgulho em ser responsável pelo bom andamento do nosso trabalho, fazendo com que ninguém sentisse falta do elevador. Fiquei até me sentindo um inútil quando, finalmente, o novo elevador começou a funcionar.
                   Só me senti um pouco reconfortado porque o Seu Alfredo voltou ao trabalho. Seu Alfredo, se vocês não sabem, é o nosso ascensorista. Durante todo esse tempo eu tive saudade das conversas que a gente tinha enquanto eu subia e descia no elevador. Como eu sempre fui o primeiro a chegar e o último a sair da repartição, viajava sempre a sós com Seu Alfredo. E a gente tinha uma conversa muito íntima, muito produtiva, nos poucos minutos entre o térreo e o sétimo e vice-versa. A gente nunca perdia o fio da conversa e a cada viagem avançava um pouco mais no assunto. Levei mais de um mês para saber que Seu Alfredo tinha sido deixado pela mulher porque ele era sonâmbulo e se levantava várias vezes de noite para abrir e fechar a porta do quarto, falando com voz educada, mas firme: descendo... subindo...
                   Acho que o Dr. Pacheco foi muito generoso mantendo o Seu Alfredo na função de ascensorista, mesmo o novo elevador sendo automático. Seu Alfredo é quem aperta os botões e continua informando aos passageiros que esperam nos andares, sempre com sua voz educada, mas firme, se o elevador está subindo ou descendo, evitando que algum distraído suba quando queria descer ou vice-versa. Se eu não fosse tão atarefado, passava mais tempo subindo e descendo no elevador de Seu Alfredo. É que está demorando muito para explicar a ele o quanto é difícil pra mim me separar do meu paletó.


23 novembro 2014

Almeidinha - O herói de paletó

Um folhetim burocrático


02 - O paletó de Almeidinha

            Minha senhora fica implicando comigo porque eu vivo de paletó. Mesmo quando chego do trabalho, fico de paletó até a hora de tomar banho. Mas no banheiro mesmo eu me troco e já saio de lá com o paletó listrado de marrom do meu velho pijama que minha mulher mesmo me deu no dia do nosso primeiro aniversário de casamento. Ela fica com raiva quando eu procuro por ela na cama e não tiro o paletó do pijama. Ela se vira pro lado e me manda dormir no sofá.
            O problema é que eu não lembro de mim sem paletó. Mesmo nas fotos mais antigas que guardo, lá estou eu, de calças curtas e de paletó. Acho que já nasci de paletó. Me sinto nu quando estou em mangas de camisa. 

            Isto tem me causado sérios problemas nos fins de semana, principalmente quando faz sol. É que minha mulher adora praia. Agora imagine como ela se sentiu quando saímos pela primeira vez para a praia, ela de canga, sandália de dedo, chapéu de sol e uma bolsa grande e colorida com seus apetrechos. E eu de paletó, sapato e meia, com uma cesta de vime cheia de sanduíches e uma garrafa térmica com café, que eu sou viciado em café, embora não fume, porque ela não deixa. A primeira coisa que ela fez foi me proibir de andar junto dela. Apressou o passo e me obrigou a segui-la pelo menos a cinco metros de distância. Sentou longe de mim no ônibus e nem olhou pra trás na hora de descer. Foi um tormento para mim ficar tomando café com as pernas penduradas na murada da praia, enquanto ela tomava sol e passava bronzeador. Os homens passavam com olhos pidões, os mais afoitos se oferecendo para passar o bronzeador e eu sem coragem de ir pra junto dela, com medo de entrar areia no sapato. Mais chato foi quando passou um senhor também de paletó e gravata, com uma bíblia cravada no sovaco e me saudou fraternalmente: na paz do senhor, irmão. Eu sou católico praticante, só saio de casa aos domingos depois de assistir a missa das sete. Não me dou bem com crente.

            Com o passar do tempo, as coisas foram se arranjando. Hoje, ela já não me chama para ir à praia. Arranjou umas amigas aqui mesmo da vizinhança para lhe fazer companhia. Uma delas, a LiIi, tem um irmão muito solícito que leva elas de carro. Acho bom, pois não é seguro um bando de mulheres na praia sem uma companhia masculina. Ele me acena antes de dar partida no carro e diz pra eu não me preocupar.

            Acho bom que as coisas tenham se arranjado assim. Minha senhora se diverte e eu fico sossegado em casa, fazendo palavras cruzadas ou adiantando alguma coisa da repartição. Mas não fico de pijama o dia todo. Quando sinto que está perto da minha senhora chegar, tomo um banho e boto o paletó. Mas dispenso a gravata. Afinal, nos fins de semana eu posso me permitir alguma informalidade.

18 novembro 2014

Almeidinha - o herói de paletó

Um folhetim burocrático


01 – Godofredo, Almeida, Almeidinha

                   Minha senhora se dá ao respeito. Na intimidade, ela me chama pelo nome de batismo: Godofredo. Mas na frente dos outros, ela me chama de Almeida. Quando está com raiva, ela grita Almeida. Basta eu chegar em casa sem o pão, basta eu sair sem deixar o dinheiro do açougue, é matemático. Ela grita Almeida. Ela é de lundum. Tem noite em que manda: Almeida, vá dormir no sofá. Eu nem pergunto por que. Pego o travesseiro e um lençol de solteiro e passo a noite suando na sala. O ventilador fica no quarto com ela. Tem sábado que ela inventa um briga por nada e sai batendo a porta. Nessas horas, nem de Almeida ela me chama.
                   Mas o que eu gosto mesmo é de ser Almeidinha. É como me chamam os colegas da repartição. Colegas, não. Quase irmãos. Tem o Ciço que é contador, tem o Joel, que é escriturário como eu e tem a Dona Marli, secretária do  Dr. Pacheco, nosso chefe. O que gosto deles é que me dão muito valor. Vivem elogiando minha capacidade de compreensão e disposição para prestar qualquer favor, sem medir tempo ou esforço.
                   O Ciço vive cansado, coitado. Se acaba de trabalhar e nunca tem tempo de pagar suas contas. Sei que, se ele pudesse, ele mesmo ia ao banco, à lotérica. Por isso eu nunca me nego quando ele pede e tiro meu tempo de almoço para pagar as contas dele.
                   O Joel, pobrezinho, sofre de dor nas costas e não consegue passar muito tempo sentado no computador. De vez em quando dá uma saidinha para estirar a coluna e me pede para dar conta dos ofícios que ele não consegue digitar. Faço com satisfação, pois sei como é difícil ficar sentado muito tempo com as costas doendo.
                   Dona Marli é a que menos me dá trabalho. Também fica muito difícil pra mim fazer o que ela faz. Lixa as unhas, passa esmalte, passa batom e vive ajeitando o sutiã e arrumando o cabelo. Principalmente quando sai da sala do Dr. Pacheco.
                   O Dr. Pacheco, esse, é uma figura imponente. Entra na repartição por uma porta só dele e passa pelos funcionários com a cabeça levantada, nos olhando por baixo dos olhos. É meio gorducho e tem uma papada denunciadora dos anos que os cabelos pintados querem esconder. O rastro de lavanda que deixa entre os birôs demora a desaparecer. Dona Marli o recebe de pé, curvada como uma gueixa, segurando a maçaneta da porta já aberta e entra na sala logo atrás do chefe. Sai meia hora depois com umas mechas de cabelo fora do lugar e o sutiã meio desequilibrado. Pra não dizer que não me pede nada, pede que eu lhe traga um copo d’água. Não é pra menos, coitada, tão afogueada que sai da sala do Dr. Pacheco.
                   Quem chega na repartição estranha ao me ver sentado num birô no fundo da sala, batucando numa velha Olivetti, daquelas grandes, de cilindro longo. Já estou cansado de ter que explicar porque eu não tenho computador. Eu tinha, até o dia em que Dr. Pacheco me chamou na sua sala e apelou para o meu espírito desprendido e altruísta. Sua filha Suellen precisava fazer um trabalho para a escola e tinha que pesquisar na internet. Acontece que o computador dela deu pau, ele disse, e a pobrezinha estava inconsolável, com medo de ser reprovada. O trabalho era para amanhã. Depois de amanhã, sem falta, Dr. Pacheco traria o computador de volta. Tinha certeza de que o bom e velho Almeidinha não faria questão de passar um dia ou dois usando a Olivetti velha de guerra que nunca deu pau nem deixou cair o sistema.
                   Acontece que já faz dois meses que Dr. Pacheco levou o meu computador. A primeira e única vez que lembrei a ele, me olhou com um desdém esmagador e me indicou com o queixo a porta da sala por onde eu saí apressado e morto de vergonha. O pior de tudo é que eu sabia que ele estava infringindo o artigo 100 do Código Civil. Lá está escrito que os bens públicos são inalienáveis enquanto conservarem a sua qualificação. E o meu computador ainda estava muito bem qualificado. O Dr. Pacheco não podia ter esquecido o artigo 100 do Código Civil. 

                   Esse é o único problema que eu tenho na repartição. Pra se vingar do meu desaforo, Dr. Pacheco me dá muito mais trabalho do que ao Joel. E o Joel, coitado, com aquela dor nas costas, sempre me deixa alguma coisa para fazer no lugar dele. Uma vez pedi para usar o computador dele, mas ele ponderou que um PC era um objeto de uso pessoal, como o próprio nome sugeria: personal computer. E se eu danificasse o equipamento, como ele ia se explicar com o Dr. Pacheco? Melhor não, Almeidinha. Para o seu próprio bem, melhor não.

04 outubro 2014

A dama transitória


         Ela é conhecida como Dama da Noite. Uma for bela e perfumada que começa a se abrir no início da noite, atinge seu esplendor com a noite já alta e amanhece murcha no outro dia. Algumas poucas vezes de um só pé florescem muitas delas. Já foram contadas mais de vinte na casa de uma amiga. Na minha casa, o máximo que conseguimos foi dezoito numa só noite. Mas o encantamento maior acontece quando apenas uma flor anuncia que vai desabrochar. Esperamos a noite com certa ansiedade e no mínimo uma garrafa de vinho.
         Pra que tanta reverência, pode estar perguntando você que me lê, com uma flor que não vai durar mais que uma noite, que amanhecerá murcha e sem graça, fazendo-nos lembrar da transitoriedade de tudo o que agora é jovem e bonito.
         Acho que é justamente aí que reside o encanto da Dama da Noite. Vê-la em todo o seu esplendor nos obriga a fruir sua beleza com toda a intensidade possível, pois sabemos que daqui a pouco iremos perdê-la. Este sentimento de fruição estética se intensifica por conta da mescla com esse luto antecipado, essa certeza de que daqui a pouco o objeto do nosso deleite não estará mais aí.
         Pensando bem, não apenas a Dama da Noite é transitória. Todo o mundo à nossa volta sofre da mesma transitoriedade. Nós é que nos iludimos com a crença de que o mundo e nós somos eternos. Precisamos dessa crença, pois nos custa muito nos acostumarmos com a nossa condição de passageiros neste planeta que também está de passagem. É difícil aceitar que um belo dia a nossa querida Via Láctea vai se chocar com Andrômeda, a nossa galáxia vizinha, e tudo sumirá pelo ralo de um buraco negro. Muito difícil também é nos acostumarmos com a ideia bem mais prosaica de que vivemos num mundo completamente diferente daquele que nos legaram nossos pais. Há uma descontinuidade gritante entre o mundo que emergiu da segunda grande guerra e este que emerge disto que chamamos de pós- modernidade.

         O mundo não é o mesmo, o ser humano não é o mesmo. Nossas esperanças de viver num mundo solidário e pacífico perdem paulatinamente seus fundamentos. Somos todos efêmeros, como a Dama da Noite que ontem nos mostrou sua beleza. Tentemos pelo menos ser bons e belos em nossa pobre transitoriedade.          

23 julho 2014

O verso do mundo



Nos idos de 1991-92, o professor Rubem Alves oferecia um seminário sobre “Temas avançados da filosofia da educação” na pós-graduação em Educação da Unicamp. As tardes das sextas-feiras eram sagradas para mim e Glória. Eram duas horas do mais puro encantamento, ouvindo aquele sábio versar sobre os mais vários assuntos, na companhia permanente da poesia. Cecília, Drummond, Clarisse, Pessoa, Adélia, Bandeira,Paulo Paes e muitos outros mestres da poesia e da prosa nos acompanhavam numa aventura sem rumo aparente que nos levava à reflexão e ao compartilhamento da sabedoria.
O texto que se segue foi o que entreguei a Rubem Alves como trabalho final de um dos seus seminários. Com ele, tentei condensar as passagens mais importantes das nossas reflexões. A prosa poética foi a melhor opção que encontrei para demonstrar o que aprendi com aquele professor de professores. Modéstia a parte, ele me deu o conceito “A”.

O verso do mundo


         No princípio era o verso, as entranhas do mundo a céu aberto. O pai e a mãe do homem dormiam na sombra do tempo.
         O mito. A miragem. A sedução das origens douradas. Palavra. O logos brotava da fonte divina, formando regatos na voz do poeta, pelas musas começando a cantar o início do mundo.
         Com o peso do tempo, o verso se fez carne e desceu ao mundo para habitar entre os homens, partilhar a miséria dos homens, se danar com os homens na eterna busca do tempo perdido, do mito perdido, das delícias do verso perdido.
         Espinho na carne, histericamente pedindo sentido, nunca mais o verso brotaria livre da boca dos homens. Entre o verso e a boca, milhões de represas retendo a luz, deixando escapar as sombras do não dito. Nunca mais o verso, lisa superfície da fala sem mácula. Nunca mais.
         Inverso, antiverso, a prosa do mundo impõe seu império. Proibida a busca das origens, o peso da estrutura esmaga o sonho. Soberana, a história cria os homens, inventa o mundo isento de desejos. Fetos programados sem escolhas. Máquina, projeto, mecanismo digital na bomba inteligente com olhos de ver, como os de Deus. O só sentido da morte.
         Mas a história se distrai e deixa viva num canto a outra versão. Deixa viva a fala do poeta, do profeta que anuncia o retorno do verso. O poeta, o perverso, o que segue o caminho contrário da história. O que volta ao mito, o que busca a fonte. O que se dilacera na sombra em busca da antiga luz.
         A poesia é cura. Na voz do poeta a carne se dissolve em sentido. A nova palavra no lugar do sintoma. A vertigem dos sons no lugar da doença. O que eu quero dizer é o que eu digo querer.
         Foda-se a prosa do mundo. O poeta, o perverso, busca o verso do mundo. Busca uma canção que revele o encanto do mundo. Um mundo sem deus, sem homens, sem história. Um mundo possível de todos os sonhos. Um mundo em que a fronha, suporte do sonho, possa escolher um nome mais belo que o seu nome.  
        


19 julho 2014

Ubaldo e o avião

        
Duas vezes a morte manda notícias. O escritor João Ubaldo Ribeiro morreu na manhã da sexta-feira, 18 de julho de 2014. Na véspera, morreram 298 passageiros de um avião derrubado pela insanidade da guerra ucraniana. 


        A morte de João Ubaldo me deixa triste. Como todo brasileiro minimamente informado, tenho uma admiração invejosa pela sua obra e um carinho muito grande pela sua figura humana. Lamento o vazio que ele deixa em nosso mirrado meio cultural e me conforto por ainda ter alguns dos seus livros que ainda não li. Tenho ainda muito com o que me surpreender e deleitar (por falar nisso, quem surrupiou “Viva o povo brasileiro” de minha estante, faça a gentileza de devolver). A morte de João Ubaldo é uma coisa familiar. É natural que seus parentes e amigos chorem. Assim como é natural a consternação de todos nós, seus leitores.   

        A derrubada do Boeing na Ucrânia me causa revolta. Ela é o resultado de um mecanismo perverso de interesses econômicos, políticos e armamentistas que paira muito acima da minha capacidade de entendimento. Atira-se num avião sem saber da sua procedência, matando-se pessoas sem nenhum vínculo com um conflito que em si já é difícil de compreender. Famílias inteiras, executivos apressados, turistas pacatos e mais de cem cientistas que iriam participar de um congresso sobre AIDS em Melbourne, na Austrália. E verdadeiramente me enoja a manipulação política das partes envolvidas no conflito.   
        Posso acolher a morte do escritor, pois ela faz parte daquilo que a vida nos reserva cedo ou tarde. Mas as mortes na Ucrânia batem na trave do meu acolhimento. Uma, se acomoda calmamente à minha familiaridade. As outras, me apavoram com seu excesso de brutalidade. Me custa crer que pertençam ao mesmo espectro da minha humanidade.   


Ilustração de Peu Teles.  Imagem obtida em varelanoticias.com.br

21 junho 2014

Sentadinho

        

         A coisa toda tinha um ar meio decadente. Eu tinha me esquecido de pagar uma taxa de condomínio que, implacavelmente, foi enviada para cobrança em cartório. No próprio documento de cobrança o cartório já avisava que a parte do credor tinha que ser paga através de cheque visado ou cheque administrativo. Pensei que se tratava de alguma informação caduca que o cartório tinha esquecido de atualizar.  Estava redondamente enganado.  Meus cartões de crédito eram inúteis para enfrentar a exigência burocrática. Dinheiro vivo também não adiantava. Era cheque, ou nada.
         Não sei quem ainda se lembra do que seja um cheque visado. Para obtê-lo, você tem que ir na agência bancária onde tem conta e pagar para que eles te entreguem um cheque todo enfeitado de assinaturas e carimbos, em nome do credor, com o valor já debitado em sua conta. Uma chateação que iria me levar pelo menos o que me restava da manhã e um pedaço da tarde. A outra opção, a do cheque administrativo, se tornou mais atraente. Bastava atravessar a rua, ir numa agência do banco que podia não ser a minha, e comprar um cheque no valor devido.
         Dei sorte, pois a agência estava quase vazia e ainda por cima me deram uma senha preferencial. Eis uma das poucas vantagens de ter ultrapassado a linha vermelha dos sessenta. E foi exatamente essa aparência de avô desamparado que levou a moça do caixa a me falar em um tom afetadamente carinhoso: olhe, vai demorar um pouco, fique ali esperando sentadinho...

         Agradeci a gentileza da moça, mas dispensei o sentadinho. Eu poderia esperar em pé quantas horas fossem preciso, poderia até me sentar um pouco de vez em quando, mas sentadinho, não. Ficar sentadinho significa ir para um canto e lá permanecer quietinho, caladinho, sem causar nenhum incômodo adicional à sua presença decrépita. E quem me conhece sabe que esta é a última coisa que se deve esperar de mim. 

Imagem obtida em www.wikirio.com.br 

28 maio 2014

Atestados parciais





A certa altura da vida, os resultados dos exames médicos se transformam em atestados parciais de morte.  Cada folha de papel entregue pelo laboratório se traduz num recado da morte que avança sorrateiramente pelo território do meu corpo.

Mas esta não é a única forma da morte se instalar em nossa vida. Não estou certo se foi o Cony, mas certamente foi um dos mineiros que, falando sobre o envelhecimento, disse que o passar do tempo vai tornando o mundo cada vez mais despovoado. Chega um momento em que você não tem mais pra quem telefonar. É a forma de a morte nos atacar, sorrateiramente, também pelo lado de fora.    


Na introdução aos seus “Doze contos peregrinos”, Gabriel Garcia Marques conta um sonho sobre a sua morte que deu origem ao livro: ele caminhava alegremente entre os seus melhores amigos no cortejo do seu próprio funeral.  Chegando ao cemitério, os amigos se despedem e começam a voltar. Quando ele tenta acompanhá-los, um deles diz que não, ele é o único que não pode voltar. O escritor então conclui que morrer é não poder mais estar com os amigos.

Por mais que tentemos denegar a presença da morte em nosso corpo, não podemos ficar alheios aos seus estragos no mundo dos amigos. E não estou me referindo apenas ao vazio deixado pelo desaparecimento físico de alguns deles. Muito mais numerosos são aqueles que se afastam de nós ou nos afastamos deles, muitas vezes sem saber muito bem o motivo da separação.

Quando me vejo pensando na morte, sinto-me pouco preocupado com o meu próprio destino numa improvável sobrevivência imaterial. O que mais me preocupa é o sofrimento involuntário que irei causar aos amigos sobreviventes. E quando falo amigos, estou me referindo aos mais variados graus de amizade, desde os familiares mais íntimos até aquele leitor, distante mas afetuoso, que sempre comenta meus textos pela internet.


Por favor, não me tomem por mórbido. Apenas estou me habituando aos poucos aos recados da morte. Aprendendo a conviver com ela. E tudo que mais desejo é que seja uma longa, longuíssima, convivência.    

03 maio 2014

A arte do cuidado




 Você pode estudar muito e se tornar um bom médico, um ótimo psicólogo, um excelente enfermeiro. Mas não tem livro que ensine você a cuidar dos outros.
         O cuidado é uma arte cada vez mais rara entre as pessoas. E quase inexistente entre os profissionais de saúde. Uns alegam falta de tempo, outros se bastam com sua competência técnica. Outros ainda se deleitam sadicamente com o poder que exercem sobre seus pacientes, aumentando deliberadamente o sofrimento alheio.
         Considero-me privilegiado quando encontro quem cuide de mim para além de meus achaques físicos. Quando sinto que a escuta ultrapassa a fronteira da minha anatomia com suas mazelas e se abre para toda a dimensão da minha existência.
         Estou tocando neste assunto porque hoje é o aniversário de uma dessas artistas do cuidado. Uma que, antes de bisbilhotar sobre os estragos do tempo e do mal uso nesta frágil carcaça, abre-me um sorriso que me assegura que cuidará de mim, seja lá o que eu tenha feito de ruim com o meu fígado.

         Alguns a chamam de Doutora Fátima. Eu me reservo o direito de chamá-la, carinhosamente, de Madame Duques. De um modo ou de outro, é a melhor pessoa que me ocorre chamar quando estou precisando de cuidado.   

28 março 2014

Teoricamente


Teoricamente, eu estou morto. Pelo menos é o que atestam todos os exames recentes que o médico me pediu. Ácido úrico, colesterol, triglicerideos, está tudo lá em cima. Isto sem falar no mapa de pressão arterial que me colocaria no livro do Guiness, se houvesse interesse em registrar este tipo de recorde.

Pelo que está acontecendo comigo ultimamente, acho que a coisa não é tão teórica assim. Abstraindo, até onde for possível, alguns achaques leves próprios à idade, vivo num estado de bem-estar que beira a beatitude. Tive, recentemente, uma semana inteira de alegria ao ver o meu trabalho sendo curtido por crianças e adultos na Semana Literária da Estação Ciência que me deu a honra de ser o autor convidado. Ao perceber o encantamento das crianças pelos poemas expostos, um professor de uma escola municipal de Cabedelo, sabendo que eu moro na cidade, preparou, junto com os alunos, uma homenagem para mim. Isto sem falar na satisfação que me dá o acolhimento de Cila, meu livro-poema mais recente (eu ia escrevendo “último”, mas corrigi a tempo) que lancei no último dia da tal Semana. Parece homenagem póstuma, com a pequena diferença de contar com a minha presença.


Desde que comecei a estudar, de vez em quando escuto que “nada é tão prático quanto uma boa teoria”. Espero, portanto, que as coisas se atenham ao âmbito teórico, dispensando as provas empíricas. Vou voltar ao médico, me submeter a todas as exigências regimentais para tentar voltar a peso e taxas próximos do normal. Sei o quanto vão me exigir em cortes de alimentação e prazeres. Portanto, se vocês me virem por aí, pálido esquálido e cabisbaixo, não se assustem: sou eu, novamente, esbanjando saúde.   

16 março 2014

Cila - o poema e o mito




William Costa

Sem desprezar a consistência poética, científica e filosófica de Heráclito, entendo que são uma única água as águas que banham este mundo em ciclos imemoriais - incontáveis idas e vindas ao Céu e à Terra. Urano e Gaia unindo, através da transparente substância, o que Cronos separou.

Os ventos e a água salgada escarificam e lavam a caveira encravada na rocha, livrando de algas e conchas a caixa craniana. Na verdade, trazem de longínquos lugares, e as escondem na tétrica figura, histórias da gênese do mundo. Encoste-se ali a orelha esquerda, e surpreender-se-á com o olvido.

Aportam, desse modo, em nossas praias, sopradas pelos zéfiros que varrem o Oceano Único, histórias do Mediterrâneo - braço atlântico estendido a Oriente. Felizmente, Éolo gosta de histórias, e não de segredos. Por isto, domou os ventos, transformando-os em mensageiros, para a salvação dos mitos.

Ninguém caminha impunemente entre o Atlântico e as Falésias do Cabo Branco. A memória do tempo sobrevive nesta assombrosa paisagem. Portanto um simples tronco seco de madeira, preso nas pedras, pode dar corpo e alma ao mito, que não se entrega e permanece em luta contra o esquecimento.

O poeta vê coisas para as quais os mortais comuns estão cegos. Todos passaram por Cila, mas não a viram, embora reverberasse nas encostas o silêncio – o mais eloquente dos gritos. Sem nada pronunciar, a bela ninfa, que a enciumada Circe transformou em monstro, inundou o bardo de palavras, montando o poema.

Cila era tronco por fora e um rio por dentro. Deste fio d’água subterrâneo, pelo qual escorrem o tempo e a memória, depende a sua sobrevivência. É preciso mais que olhos de lince para transfixar o objeto e contemplar-lhe o âmago. Faz-se necessário possuir os raios X da poesia, para enxergar o que a casca oculta.

A trágica cilada, que já fora cantada pelos célebres aedos de Grécia e Itália, retorna, renovada, nos versos surpreendentes do poeta de Alagoas. Somos todos odisseus. Carecemos de ouvir histórias, ou as versões da mesma história, para suportar melhor a dura jornada, que todos sabemos aonde vai terminar.

Ouçam o canto moderno do poeta alagoano. Que pujante lamento pela condição humana do mito. Que gesto amoroso, este de solidarizar-se com um ser que, num ato suicida para além da imaginação, se desgarra da narrativa e tenta chegar viva à praia ocidental, para, inútil, reivindicar o fim de sua agonia.

Profético, o poeta, dando voz ao Atlântico, anuncia, pela via do esquecimento (talvez a maior dentre todas as traições humanas), o ansiado descanso para a ninfa que Glauco tanto ama. Seca a memória dos homens, é verdade, poeta! Mas livros como Cila reterão a gota, reiniciando o ciclo, perpetuando o mito.





13 março 2014

Convite


10 março 2014

O demônio dos copos

      

Na cozinha de toda casa mora um demônio terrível. Invisível, como todo demônio que se preze, sua proeza é das mais assustadoras: ele faz aparecer copos sujos no balcão da pia.
 Ele age sorrateiro, sem fazer barulho. Quando você suspira aliviado por ter, finalmente, acabado de lavar toda a louça, eis que aparece no canto do balcão dois copos que você jura que não estavam ali há dois segundos. Conformado, você esquece a dor nas costas e volta à lide com água e sabão, adiando o prazer do corpo jogado no sofá com os olhos perdidos naquela novela que você nem sabe o nome.
         Mais cedo ou mais tarde, você vai se cansar da pasmaceira televisiva e vai ver se tem algo de interessante na geladeira. Daí você olha para o balcão e está lá, acintoso, um copo sujo de qualquer coisa. Foi o demônio, você tem certeza, foi o demônio dos copos que botou ele lá.
         Confesso que sou muito propenso a ficar assombrado com certas coisas que acontecem na minha casa. Passado o arrepio inicial, entretanto, a racionalidade me obriga a descobrir a causa da assombração e minha respiração volta ao normal. Mas até hoje não encontrei explicação para o fenômeno dos copos misteriosos.
         A pior coisa que pode acontecer a um lavador de louças é se encontrar sozinho em casa. Porque você tem certeza de que não tem mais ninguém para sujar os copos, sabe exatamente a quantidade que usou durante o dia. Aí, quando você se dá por feliz pelas poucas peças que teve que lavar e enxaguar, eis que aparece, no canto mais distante do balcão, um copo sujo, saído do nada. É o momento supremo das artes do diabo sem nada mais importante para fazer.

         E somando-se ao medo que eriça a espinha, você fica com raiva de saber que, escondido em algum canto da cozinha, o diabo dos copos está rindo de você.   

08 março 2014

Semana literária




A Estação Cabo Branco – Ciência, Cultura e Artes estará promovendo no período de 11 a 15 de março a 1ª Semana Literária que terá como tema a obra do poeta e escritor Ronaldo Monte. 
As atividades acontecem no primeiro pavimento da Torre Mirante, com início sempre às 10h. A entrada é gratuita.



PROGRAMAÇÃO

Terça-feira (11) - Poesia Encenada: 
Roda de Leitura (Participação de Ronaldo Monte) – 10h;
Oficina de teatro (Oficineiros: Wellandro Duarte e José Carlos) – 14h
Varal de Abertura (Participação de Ronaldo Monte) – 19h

2Quarta (12) - Poesia Musicada 
Oficina para musicar (Convidado: André Aguiar) – 9h30
Oficina: Poesias para musicar (Convidado: André Aguiar) - 14h
Sarau – Poesia e música (Convidados: Glaucia Lima e Grupo de poesia Aedos - UFPB) – 19h

Quinta (13):  Poesia Regional
Oficina de Cordel (Convidados: Ely Cabral e Arthur Cavalcanti) – 9h30
Oficina de Xilogravura (Convidado: Marcelo Soares) – 14h
Roda de contos e causos (Convidado: Rodrigues Lima) – 19h

Sexta (14): Histórias de Amor
Contação de Histórias (Oficineiros: J. Carlos e Wellandro Duarte)  – 9h30 e 14h
Varal de poesias (Convidado: Ronaldo Monte)  – 19h

Sábado (15)
Lançamento do livro “Cila”, de Ronaldo Monte, com ilustrações de Flávio Tavares - 15:30h.


Local: Torre Mirante da Estação Cabo Branco – Ciência, Cultura e Artes – Altiplano
Informações: www.joaopessoa.pb.gov.br/estacaocb
Face: www.facebook.com/estacaocb - Twitter: @estacaocb
Fones: 3214.8303 – 3214.8270

Contato para imprensa: Maria Hawley ou Denise Paz – Fones: 87199730 / 96515165.

24 fevereiro 2014

Vitrine


Será que a UFPB está à venda? Foi a primeira coisa que me ocorreu quando vi o outdoor colorido numa esquina perto de um shopping. Depois, vi o anúncio a cores de página inteira num jornal. Só então fiquei sabendo o motivo de tanta euforia. A UFPB tinha conquistado um honroso quarto lugar entre as universidades do Nordeste, além de obter um conceito quatro na avaliação do MEC, seja lá o que isto queira dizer (o anúncio não diz).
Convenhamos que um quarto lugar em qualquer coisa nesta Região não é coisa pra se soltar foguete. Quer dizer que ficamos, no máximo, na frente do Maranhão, Piauí, Alagoas e Sergipe. Tudo bem que existem mais universidades que estados, mas gostaria de saber os critérios dessa classificação.
A UFPB deve estar nadando em dinheiro para ficar tecendo loas a seus novos administradores com apenas um ano de gestão. Ora, se algum resultado foi obtido neste ano, claro que ele contou com o esforço de gestões anteriores. Ninguém faz milagres na administração pública.
Quem me conhece de perto sabe que, em priscas eras, fui redator de propaganda. E o tempo de serviço me ensinou que, quando um gestor de órgão público gasta dinheiro de propaganda sem ter de fato o que mostrar, é porque está de olho em algo maior, geralmente um cargo eletivo.
Quem me conhece apenas mais ou menos, sabe que já fiz parte da equipe central de gestão da UFPB. Este outro tempo de serviço me ensinou que sempre há muita coisa a fazer antes que sobre dinheiro para a publicidade institucional. E que existem regras claras para que qualquer divulgação seja justificada.

Uma página inteira de jornal oferece espaço bastante para que fossem informados todos os números, gráficos e fotos do que foi realizado neste ano de administração. Mas o que a gestão atual da UFPB nos deu foi um exemplo de desperdício do dinheiro do contribuinte, sem nenhuma perspectiva de retorno institucional. Espero que o Tribunal de Contas da União esteja de olho.    

30 dezembro 2013

Brincar de eternidade


 

Conheço um homem que se angustia com os relógios em que o ponteiro dos segundos desliza sem marcar os intervalos. Um comichão interpretativo me leva a supor que essa angústia decorre do nosso desamparo frente à transformação contínua do presente em passado, sem nos deixar a ilusão de que, por um breve momento, o tempo repousa nos traços dos segundos.
É para fugir da agonia frente a este fluxo constante que dividimos o tempo em fatias e vamos fingindo que o devoramos, enquanto, na realidade, é ele que nos consome goela abaixo.
E assim inventamos as horas, os dias, anos, séculos e milênios na tentativa de nos defendermos da pequenez da nossa existência. Com isto podemos nos enfronhar no passado e projetar no futuro, fugindo dos limites da mediocridade do presente. É isto que nos leva a procurar ancestrais ilustres em nossas árvores genealógicas e imaginar uma vida gloriosa para nossos descendentes. É uma forma plausível de nos tornarmos eternos.

Aqui estamos, de novo, brincando de eternidade. Diz o calendário que mais uma vez iniciamos um ano novo. Mesmo sabendo que isto é apenas uma convenção, necessitamos deste repouso do tempo em que algo passa definitivamente e algo desconhecido avança ao nosso encontro. É neste intervalo que nos juntamos aos nossos antepassados e caminhamos rumo às gerações descendentes. Como o homem que se angustia com o correr contínuo do ponteiro dos segundos, precisamos fatiar o tempo para criar a ilusão da eternidade. E com isso inventar alguns momentos de felicidade.

16 dezembro 2013

Um pouco mais de Dôra


Ela guarda a dor em seu nome, mas a dor não demora em sua alma. Ela reparte suas dores com quem as merece: todos nós que sofremos e fazemos sofrer. Ela é Dôra Limeira, a que dói e dá frutos. “Cancioneiro dos loucos” é o seu mais novo fruto.  E dói.
O que dói em Dôra são as dores das putas, das bichas, das mal-amadas, das desamadas. As dores das velhas, das loucas, das aleijadas. As dores dos homens que perdem, que batem, que cheiram mal.
“Cancioneiro dos loucos” foi publicado pela Idéia, de João Pessoa, com recursos do FIC da Secretaria de Cultura do Governo da Paraíba. Divide-se em duas partes. “Cantigas lacrimosas” concentra contos inspirados em velhas canções de amor e desespero. “Lamentos de porta em porta” é o que o nome diz: cada porta de casa guarda um lamento por um filho morto, um sonho desfeito, uma mutilação...
Quem conhece os livros anteriores de Dôra já sabe o que esperar deste “Cancioneiro”. Contos curtos, quase sem enredo, instantâneos das vidas comuns que precisam de pouco para viver suas tragédias. O mundo em que vivem tudo provê para que sofram pelo simples motivo de estarem vivos.
Os leitores de Dôra também não se espantarão com o seu estoque de escatologias. Seus personagens sangram, vomitam, se mijam, se cagam e fedem todos os fedores que o muito sol e a pouca água podem fazer feder.
O leitor atravessa o livro com um embrulho no estômago e respira aliviado quando vira a última página. Então, pergunta-se ao leitor: porque não largou o livro no meio? Porque suportou até o fim esta ânsia de vômito?  A resposta é simples: é impossível deixar de lado aquilo que nos pertence. O leitor se deixa seduzir pelo texto de Dôra porque ele lembra que somos feitos dessa matéria. Se somos diferentes em nossa aparência externa, ninguém conseguiria identificar as nossas tripas se as vissem expostas no açougueiro. Somos também iguais nas sombras que engendram nossas almas. Um pouco mais, um pouco menos, todos cheiramos mal. São testemunhas disto nossos sonhos, que nunca acabam bem e sempre nos geram angústias.
Foi para nos lembrar disto mais uma vez que Dôra escreveu seu “Cancioneiro dos loucos”. Nas mãos dos leitores, portanto, um pouco mais de Dôra, um pouco mais de dor.       

                                                        Ronaldo Monte.

                                                              04.12.2013

06 dezembro 2013

Menos um


Acordei com um presságio de que alguma coisa má me aguardava no lado da vigília. À medida em que tomava posse dos sentidos, o presságio deu lugar à certeza: uma coisa má havia acontecido. Meu dia começaria com menos um.
Tem sido assim, de uns tempos pra cá. O tecido antes íntegro dos afetos vai a cada dia se esgarçando, criando furos. Menos um, menos um, menos um. “O homem é a soma dos seus mortos”, eu mesmo disse em um poema antigo. Mas, acrescento agora, esta soma se alimenta da diminuição dos nossos vivos.
Esse um de menos de hoje é Jader Nunes dde Oliveira, amigo de muito tempo, desde meus primeiros anos como professor da UFPB. Nas nossas greves no tempo da ditadura, era sua voz segura que nos apontava os caminhos da luta. Corrigia meus textos para os editoriais do boletim de greve e se deleitava com alguns achados que tornavam menos áspera a leitura nas assembleias.
Mais tarde, nos encontramos na tarefa árdua de reconstruir a Universidade a partir dos escombros deixados pela rapina e incúria dos nossos antecessores. Primeiro, como Pró-reitor de administração, depois, em dois mandatos como Reitor, sua obstinação pelo trabalho bem feito, sua intransigência contra a dilapidação do bem público deixaram seu nome na história da Instituição e na mira dos seus inimigos.
Jader morreu sem avisar. No seu gabinete de trabalho. Como qualquer um de nós, cuidava de suas coisas de aposentado com o sentimento justificado do dever cumprido. Amava sua família, cuidava de longe dos amigos. De vez em quando me mandava um e-mail comentando um texto meu.

Vou ficar sem saber o que fazia no momento em que foi fulminado pelo enfarto. Tenho apenas a certeza de que, de hoje em diante, sua falta será acrescida a esta sensação dolorosa de menos um. Até que um dia eu mesmo seja um de menos.

26 novembro 2013

Olho roxo


 

         Estou com um problema sério. Minha mulher está com um olho roxo, fruto de uma queda no banheiro da casa de uma de nossas filhas. E este é justamente o meu problema. Quem não me conhece direito vai pensar que fui eu que tingi o olho dela de roxo. E a coisa pode piorar quando ela explicar que caiu no banheiro. Toda mulher que aparece de olho roxo por conta do marido, diz que levou uma queda no banheiro. Já sugeri que ela usasse uma camiseta com a frase: “não foi meu marido”. Mas aí, podem pensar que fui eu que a obriguei a usar a camisa.
         Nunca convivi tão de perto com um olho roxo. E confesso que é uma experiência incômoda. Além do mal-estar estético que causa, o olho roxo é o símbolo universal da violência. Nos filmes, nas histórias em quadrinhos, quando se quer mostrar que um personagem levou uma surra, ele aparece com uma mancha roxa ao redor de um olho.
         De uns tempos pra cá, o olho roxo tem servido para denunciar a violência contra a mulher. As marcas da brutalidade podem se espalhar por todo o corpo, mas é o hematoma no rosto que demonstra, na forma mais dramática, a covardia do agressor.
         Nas ruas de junho, a repórter Giuliana Vallone foi atingida no rosto por uma bala de borracha. O seu olho roxo virou símbolo da campanha “Muda Brasil”, o que inspirou o fotógrafo Yuri Sardenberg a fotografar uma galeria de famosos maquilados com um olho roxo como parte de um protesto contra a violência policial.
         A quem interessar, comunico que o olho de minha mulher já começa a voltar ao normal. É um olho roxo prosaico que causou alguma dor e um pouco de preocupação. Mas serviu para lembrar dos muitos outros olhos roxos que ficarão marcados para sempre na memória das vítimas da violência, que ainda protegem seus algozes com a mentira da queda no banheiro.  


Imagem da cantora Alinne Rosa, participante da campanha “Dói em todos nós”, obtida em WWW.bahianamidia.com.br 

24 novembro 2013

A bruxa aprendiz



         Uma aprendiz de bruxa passou o último sábado com a gente. Logo de manhã, meu irmão telefona, aos prantos, comunicando que um dos seus filhotes de cachorro morreu por conta de uma virose. O filhote que sobrou também estava ameaçado.
         Logo depois, telefona minha nora informando que o marido, logo, meu filho, tinha sido picado por um escorpião e estava sendo cuidado no setor de vítimas de animais peçonhentos do Hospital Universitário.
         Minha filha mais nova decidiu dar uma trégua ao vegetarianismo e nos convidou para jantar um peixe que ela mesma tinha comprado e iria preparar. No caminho da casa dela, fomos ameaçados duas vezes de sofrer um acidente por imprudência alheia.
         Tudo estava pronto para o jantar no terraço ao ar livre, com duas pequenas lanternas para abrigar velas que tínhamos levado de presente. Ficamos bebericando, acompanhados de queijo e presunto de Parma, sem desconfiar que a pequena bruxa estava por perto. Quando o prato principal chegou na mesa, cumpri o doloroso dever de comunicar que o peixe estava estragado.
         Não satisfeita, a bruxinha providenciou uma nuvem escura e mandou que chovesse sobre nossas cabeças. Arrastamos a mesa para o terraço coberto e continuamos a tomar vinho com o que restou do queijo e do presunto.
         A feiticeira aprendiz deve ter ficado furiosa com a sua incompetência em estragar a nossa noite.  Deu uma carga extra na varinha mágica e radicalizou: levou minha mulher para o banheiro e fez com que levasse uma bruta queda, batendo com o lado esquerdo da testa no mármore da pia.

         A pobre bruxa deve ter ficado assustada com o enorme galo que brotou no supercílio da sua vítima. Mais assustada deve ter ficado hoje de manhã, quando viu a mancha roxa em volta do olho de Glória. Tenho certeza de que ela fugiu apavorada, pois a manhã do domingo transcorreu em paz. E se não fosse o olho roxo de minha mulher, ninguém ia mais se lembrar de sua visita inoportuna.