25 janeiro 2015

11 - Almeidinha - o herói de paletó

Um folhetim burocrático

11 - A vingança de Almeidinha


                   E foi assim, de mão estendida, mendigando um paletó a cada homem que passava, ouvindo de uns que fosse curar a bebedeira e de outros que procurasse um hospício, que voltei para casa, como um sonâmbulo.
      Abri a porta com cuidado, mas logo vi que a casa estava vazia. Tudo escuro, que a noite já tinha caído. Sem acender as luzes, corri para o banheiro e tomei um banho demorado, como se quisesse lavar toda a vergonha que tinha passado nesse dia. Senti um grande conforto quando vesti o pijama que tinha deixado no banheiro desde a manhã, antes de sair para telefonar para a repartição.
                   Foi ainda como um sonâmbulo que fui até o quarto, peguei um lençol de solteiro e joguei sobre o sofá. Mas não seria eu que dormiria ali nessa noite. Voltei para o quarto, fechei a porta com a chave e me deitei na cama calmamente, esperando o sono que não demorou a chegar.
                   Almeida, abra esta porta, Almeida. Abra logo, senão eu boto ela abaixo. Você não está doido de me deixar aqui do lado de fora. Abra e vá dormir no sofá, que sempre foi o seu lugar. Abra esta porta, Almeida. Por favor. Você sabe que eu não sei dormir fora da minha cama. Pelo amor de Deus, Almeida. Você sabe que eu tenho medo de dormir fora do quarto. Na sala não, Almeidinha. Sozinha na sala, não. Eu vou passar a noite sem dormir.
                   Pode até ser pecado, mas me deu prazer ouvir o desespero da minha esposa do outro lado da porta. Teve um momento que me deu pena, tive vontade de abrir a porta, mas não ia conseguir ficar deitado na mesma cama com ela, nem estava disposto a ir dormir no sofá. Pela primeira vez na vida eu estava no controle de uma situação e isto me deu uma sensação muito boa de poder, parecida com a que o Dr. Pacheco tem quando entra na repartição.
                   Não sei se foi o sono que me abateu ou se foi a voz dela que ia ficando cada vez mais baixa, cada vez mais chorosa, cada vez mais longe. Almeidinha, Almeidinha, parece que escutei ela soluçar. Almeidinha, Almeidinha, já era outra voz que me chamava do outro lado do sono, e com a voz vinha um perfume que eu finalmente encontrava depois de tanto perambular pelas ruas do bairro. Mas é só disso que me lembro, pois dormi pesado e acordei sem me lembrar de nada com que houvesse sonhado.
                   Dei um pulo da cama assim que senti o primeiro clarão da manhã entrar no quarto. Tinha que chegar cedo na repartição para botar em dia o trabalho que deixei de fazer por ter faltado ao expediente. Com que cara, meu Deus, com que cara eu ia enfrentar os colegas, que desculpa eu ia dar pra eles, sem mentir, que mentir é pecado. E como eu ia enfrentar o olhar de reprovação do Dr. Pacheco? Era certo que ele ia me chamar na sua sala e me fazer uma repreensão. Capaz de não aceitar minhas razões e mandar descontar o dia no meu ordenado. E o paletó, onde estava meu paletó? Ainda estaria pendurado no varal?
                   Coisa estranha. Minha mulher não estava no sofá. Logo ela, que gosta de dormir até tarde. E o silêncio da casa delatava: ela não estava mais ali.  E aquilo jogado no espaldar do sofá, não era meu paletó? Claro que era. Mais estranho ainda. Como ele tinha ido parar ali?

                   Meu paletó estava bastante amarrotado, mas pelo menos estava enxuto. Como foi bom sentir novamente a sua proteção. Abri a porta e me joguei no mundo sabendo que muita coisa ruim poderia me acontecer nesse dia. Pouco importava. Estava de novo com meu paletó. E ele me dava coragem para enfrentar o que desse e viesse. 

19 janeiro 2015

A última vivandeira

São muitas as vivandeiras antes de mim. São muitas as que se alimentam dos frutos da guerra, que se entregam ao cuidado dos homens que sabem que vão morrer. É preciso que todas façam seu trabalho, até que chegue minha vez. Tenho que esperar que todas elas abandonem o campo de batalha para poder enfim exercer o meu ofício. Eu sou a última.
Primeiro vêm aquelas aceitas pelos comandantes, que acompanham por dentro os batalhões em guerra. Poucas são enfermeiras, algumas cozinheiras, todas amasiadas com as altas patentes. Jovens e bonitas todas elas, às vezes vestem farda, se engalanam. Raramente são vistas de noite fora de suas tendas. Confortam seus homens, mitigando as saudades de casa. À luz do dia, mandam de acordo com o poder daqueles com quem dormem.
Muitas outras servem aguardente e dançam para as tropas acantonadas, deitando-se depois com tantos quanto possam pagar por seus favores. É de longe que assisto a suas festas, vejo as saias rodadas subindo acima dos joelhos, as mãos dos homens enlaçando suas cinturas, as fugas dos casais para os escuros. São generosas com os soldados rasos, pois sabem que para muitos deles aquela pode ser a última noite em que dançam, bebem e se desafogam. A madrugada pode vir com a guerra em seus vermelhos. E as mais valentes delas lutarão como os homens, mais ferozes e impiedosas que os homens.
Uma legião maior segue de longe os batalhões e só se aproxima quando os homens acampados esperam o início da batalha. Carne salgada, pão e aguardente são as poucas iguarias que oferecem. Vendem também algumas coisas de segunda mão: pequenas armas, trancelins, medalhas, amuletos, alforjes, botinas e peças intactas de roupa. Por mais próximas que estejam, os soldados não as tocam. Alguma sombra nos olhos delas faz com que sintam calafrios de mau agouro.
Elas se vão e só retornam depois de terminada a batalha, quando a fumaça rasteira já permite ver os corpos mutilados e sem vida. Antes que os sobreviventes voltem para contar e sepultar seus mortos, elas reviram os bolsos dos cadáveres, despojando-os de tudo o que já não lhes servem: pequenas armas, trancelins, medalhas, amuletos. Aliviam-lhes também do peso inútil, levando seus alforjes, botinas e as peças intactas da roupa. Qualquer coisa pode render algum dinheiro quando oferecida aos soldados inimigos ou até mesmo aos aliados dos mortos. Elas fazem seu trabalho em silêncio, trocando sinais, andando agachadas, os pés descalços atolados em poças de sangue. Depois, deixam de ser aves de rapina e se transformam em animais de carga, puxando suas carroças pesadas com o fruto do botim em direção a outro acampamento.
Quando elas se vão, venho eu fazer o meu trabalho junto aos moribundos, apressando os desenlaces, encurtando as agonias. Mais do que dos olhos, é dos ouvidos que eu preciso para saber de onde partem os gemidos, a voz surda dos que chamam pela mãe quando sabem que vão morrer.
O meu ofício requer discernimento. É preciso reconhecer de que morte cada um deve morrer. Veja este homem aqui, ferido de lança, já quase sem sangue. Respira em dores e é com esforço que ouço seus gemidos. Precisa bem pouco de mim. Basta que eu cubra sua boca com a minha boca e feche com força suas narinas. Ele ainda vai se debater, seu corpo vai entrar em estertor, mas logo lançará dentro de mim o seu último suspiro. É a minha vez então de fechar a boca, trancar a respiração e deixar que o hálito da sua morte se transforme em vida dentro de meus pulmões. Depois, é com carinho que olho para o seu rosto que parece dormir, livre das dores que o mantinham vivo.
Agora é a vez deste outro, sem nenhum ferimento à mostra, mas quebrado em pedaços por dentro. Por certo, me dará mais trabalho. Primeiro, é preciso apertar-lhe a garganta. Já vi muitas execuções por enforcamento e sei que o enforcado ejacula antes de morrer. As mais velhas até diziam que em cada lugar onde se armou uma forca nasce uma flor branca, fruto da terra semeada pelo enforcado. Nunca vi, não posso confirmar. Ele me olha e o seu olhar é de alívio pela minha chegada. Mas tem um pouco de volúpia nesta gratidão, pois ele sabe, já ouviu falar, do meu ofício. É por isso que me entrega seu corpo sem contestação. Deixa que exponha o seu membro e me sente em cima dele. Depois me oferece o pescoço para que o enlace com meu cinto. E é bom pra mim assistir a sua cara de gozo e entrega enquanto aperto o laço. Aos poucos, sinto seu membro crescer sob minha fenda. Mantendo o cinto apertado com uma das mãos, com a outra agarro com vigor o membro que entumece e o coloco dentro de mim. Os olhos esbugalhados do soldado também se entumecem de sangue. A cada movimento meu, todo o seu corpo se entrega à cavalgada que o levará ao gozo final da morte. E quando já me faltam forças para o laço e o movimento, recebo dentro de mim o jorro derradeiro de mais um homem que estremece e morre sob os meus cuidados.
Assim, um a um, vou recolhendo suas últimas emissões, sejam de hálito, sejam de sêmen. É o que ganho em troca pelo trabalho de lhes aliviar a dor. Não pensem que faço isso por prazer. É a compaixão que me leva ao campo de batalha. Não há nada mais triste do que a solidão da morte.
Uma mulher jogou cada um destes homens no mundo, muitas mulheres lhes fizeram a cama, a uma ou duas dedicaram amor. Mas quando vêm a dor, a solidão e o medo de serem enterrados vivos, chamam pelas mães, mas é por mim que eles anseiam. Para que eu faça o contrário de um parto, recolhendo suas vidas para dentro de mim. Eu sou a última.

Publicado no jornal Rascunho em dezembro de 2014.Ilustração: Theo Szczepanski
RONALDO MONTE
Mora em Cabedelo, cidade portuária da Paraíba. Nasceu em Maceió (AL), em 1947, viveu no Recife e em João Pessoa, onde se aposentou como professor do Departamento de Psicologia da UFPB. É psicanalista e autor de 14 livros de poesia, contos, crônicas e romances. Seu romance mais recente, A paixão insone, foi publicado em edição eletrônica pela Mombak.

18 janeiro 2015

10 - Almeidinha - o herói de paletó

Um folhetim burocrático


10 - Almeidinha, o mendigo


                Era mais de oito horas e a porta da igreja estava fechada. Estranhei, pois, depois da missa das sete, Padre Guido costuma ficar por ali, na esperança de que alguém apareça para uma confissão, ou mesmo uma conversa sem muito compromisso. Ele deve ter dado uma saidinha e volta já. Vou me sentar aqui neste degrau, me escorar aqui nesta parede e esperar até que ele volte.

          O sol começou a esquentar e eu comecei a suar. O casaco me apertava e as fibras das mangas me davam uma coceira que só aumentava minha aflição. Olhei para os lados, não vi ninguém e tomei uma decisão drástica: tirei o casaco.

             Com o passar da manhã, o sol deitou uma sombra no lugar em que me sentei. Meio sem saber o que fazia, fiz uma trouxa com o casaco, ajeitei entre a cabeça e a parede e deixei o sono mandar em mim, como todo mundo.

          No mesmo instante me vi sentado em meu birô, batendo na máquina, mas não é nenhum ofício, petição, ou relatório. É uma carta, na verdade uma poesia que eu escrevo num papel cor de rosa, e desse papel sai um cheiro que eu conheço. De repente, entra uma mosca gigante pela porta da repartição voando em minha direção e fica dando voltas em torno da minha cabeça. Quando ela passa pela frente do meu nariz, aumenta mais o perfume que antes eu pensei que saía da folha do papel. Depois de me deixar tonto com suas voltas e seu perfume, a grande mosca pousa no meu ombro esquerdo. Entro em pânico, pois tenho medo que ela saia dali e voe para fora da sala. É quando vejo o Dr. Pacheco correr em minha direção gritando Seu Almeidinha, isso é coisa que se faça na frente dos seus colegas? E bate com toda força no meu ombro, espantando a mosca e me causando uma pontada de dor.

                As pontadas se repetiam, mas agora não vinham mais das mãos do Dr. Pacheco. Sabia disto, porque já estava acordado. Só quando abri os olhos pude ver a ponta de uma vara curta que me cutucava o ombro. Na outra ponta da vara, uma mão engelhada anunciava um braço magro que levava a um rosto velho de barbas brancas e uns olhos irados que antecipavam o grito: vá pedir esmola em outro canto que este ponto aqui é meu. Custei um pouco a entender, mas tudo ficou claro quando vi algumas moedas e umas poucas cédulas espalhadas em torno de mim.

               Meu Deus, até que ponto eu cheguei. Se estivesse de paletó, garanto que isto não tinha acontecido. Juntei todo o dinheiro do chão, e entreguei ao seu verdadeiro dono, repetindo um pedido de desculpas. Ele me olhava assustado, sem entender muito bem o que se passava. Vi que a porta da igreja estava aberta, mas não foi para lá que eu corri. Desci de passo apressado a escadaria e saí sem rumo pelas ruas ensolaradas do bairro.  
    
       Aos poucos minhas passadas voltavam ao normal. Sempre andei apressado, mas agora ia devagar pela calçada na direção oposta à da minha casa. Senti uma agonia, uma espécie de vergonha por estar perambulando por ali.  Já tinham me confundido com um mendigo. Agora poderiam pensar que eu fosse um vagabundo. Aos poucos, porém, tive que me conformar com a situação. Estava vagabundando, sim. Não tinha ido trabalhar. E estava mendigando, sim. Esperava que alguém me desse a esmola de um perfume. Divagava assim, ao Deus dará, quando, súbito, me dei conta que, na pressa, tinha deixado o casaco nos degraus da igreja. Entrei em pânico e estendi a mão para o primeiro homem que passava: um paletó, pelo amor de Deus.   

11 janeiro 2015

09 - Almeidinha - o herói de paletó

 Um folhetim burocrático

09 - Crime? Castigo?

 
                   Tudo o que fiz na repartição deu errado depois da minha conversa com Padre Guido. Eu só pensava em chegar em casa, tomar meu banho, comer apressado o prato feito que  sempre me espera no forno, tomar o resto de café da garrafa térmica, me certificar que a porta do quarto está trancada e me jogar no sofá abraçado ao paletó. Claro que demorei a dormir, pois me atormentava com o pecado que me visitaria em sonho e me faria sair correndo de madrugada em busca de absolvição.
                   Não sei como foi minha noite, nem lembro do que sonhei. O pavor tomou conta de mim quando acordei e não encontrei meu paletó. Olhei em baixo do sofá, esfreguei os olhos para olhar melhor em volta da sala e nada. Corri para o banheiro, podia ter esquecido lá. Também nada. Quase instintivamente, atravessei a cozinha e parei estatelado no vão da área de serviço. Meu paletó estava lá, pendurado no varal, ainda pingando no chão.
Não precisava procurar pela casa. Já sabia que minha esposa tinha saído logo depois de ter lavado me paletó. Não me importava para onde ela tinha ido. Tudo que me afligia no momento era não poder ir trabalhar naquele dia. O outro paletó que eu tinha não combinava com nenhuma das minhas calças. E se tem coisa que não tolero é um funcionário público com paletó e calças desencontrados. Acho falta de respeito com a repartição. Meus colegas trabalham em manga de camisa, mas isto estava fora de cogitação. Já disse que me sinto nu sem paletó.
                   Foi um tormento ter de sair para telefonar avisando que ia faltar ao trabalho. Tinha que ir na farmácia, pois não tenho celular e na minha casa não tem telefone fixo. E nunca ninguém naquele bairro jamais tinha me visto sem paletó. Iam logo pensar que alguma coisa muito séria havia acontecido comigo. Não sei como uma idéia salvadora pode me ocorrer numa agonia daquela. Lembrei que minha senhora tinha um casaco de lã azul marinho que ficava um pouco folgado nela. Ficou meio apertado em mim, mas me deu uma sensação de conforto e proteção de que tanto precisava naquela hora.
                   Quem atendeu foi Dona Marli, a secretária. O que aconteceu, Seu Almeidinha? O senhor nunca faltou um dia de trabalho. Nem atrasado o senhor nunca chegou. A gente já estava pensando que o senhor tinha morrido.
                   Tive um contratempo incomensurável, Dona Marli. Disse isso com a voz embargada, com um nó na garganta. Não podia adiantar mais nada sobre tal contratempo. Nem podia inventar uma mentira. Vocês sabem que sou católico, não minto. Dona Marli deve ter entendido meu embaraço. Disse para que eu ficasse tranqüilo que ela ia avisar ao Dr. Pacheco.
                   Eu já ia desligar o telefone quando ela acrescentou: foi realmente muito ruim o senhor ter faltado, Seu Almeidinha. Teve uma pessoa que passou aqui bem cedinho e perguntou pelo senhor. Quem pode ter sido, Dona Marli. Teria sido minha senhora? Muito pelo contrário, Seu Almeidinha. Foi a sua namorada, Dona Mosca. Quer dizer, Dona Jackeline. Fazia pena ver o desapontamento dela quando encontrou o seu lugar vazio.

                   Deixei cair o telefone no gancho e saí sem agradecer ao pessoal da farmácia. Fui me arrastando em direção à igreja. Só Padre Guido poderia dizer o que estava acontecendo comigo.

06 janeiro 2015

08 - Almeidinha - o herói de paletó

 Um folhetim burocrático                

08 - O pecado de Almeidinha


                   Não sei se falei que hoje acordei mais cedo do que de costume. Tive uma noite mal dormida. Mas não foi por ter dormido no sofá, não, que já estou acostumado. Rara mesmo é a noite em que minha senhora me deixa dormir na cama com ela. Sei que dormi mal porque amanheci de bruços e o paletó com que adormeci agarrado tinha caído no chão. E sei também que alguma coisa aconteceu para que me acordasse com a clara impressão de que tinha cometido algum pecado. Não me lembrava de nada com que tivesse sonhado, mas o gosto do pecado me deixava uma saliva pesada na boca que eu sei que só passa depois que me confessar.
                   Foi por isso que saí de casa sem tomar café, a rua ainda sonolenta, e fui direto para a igreja, esperar que Padre Guido chegasse para a missa das seis. Ele haveria de ter um tempinho para me ouvir em confissão.
                   Acho que cochilei sentado nos degraus da igreja, pois não me dei conta da chegada de Padre Guido. Abri os olhos com ele perguntando, surpreso, o que o meu amigo Almeida está fazendo por aqui a estas horas? Não acredito que dormiu na rua... O senhor está com cara de quem andou fazendo alguma trela, acrescentou meio bonachão.
                   Pronto, o pecado estava estampado na minha cara, embora eu não tivesse a mínima idéia de qual pecado se tratava. A saliva grossa secou na minha boca e comecei a tremer. Você está doente, Seu Almeida? Venha, entre e se sente naquele banco que eu vou buscar um copo d’água para o senhor.
                   Quando Padre Guido voltou com a água me encontrou de joelhos no genuflexório, a cabeça entre as mãos, pronto a desatar em soluços. Tome sua água, seu Almeida e, pelo amor de Deus, me conte o que aconteceu. O senhor matou alguém?
                   - Deus me livre, padre Guido, mas se eu soubesse qual é o meu pecado, mesmo que fosse de morte, talvez minha agonia fosse menor. O problema é justamente esse: eu sei que pequei, mas não sei qual é o meu pecado.
                   - Ora, seu Almeida, uma pessoa só pode pecar pelos seus pensamentos, palavras ou obras. Se o senhor não se lembra de nenhum pensamento mau, se não falou nenhuma blasfêmia ou injúria e se não fez nada de errado aos olhos de Deus, então não há como o senhor ter pecado.
                   - Eu não sei o que aconteceu comigo durante a noite, só sei que dormi abraçado com o meu paletó e que ele ainda guardava lá longe o perfume de uma mulher.
                   - Ah, quer dizer que o senhor andou se agarrando com uma mulher...
                   - Que é isso, Padre Guido? O senhor me conhece muito bem para saber que eu nunca faltaria ao respeito à minha senhora.
                   - Mas então, como esse tal cheiro de mulher foi parar no seu paletó?
                   - Era uma colega novata lá da repartição que esfregava a barriga em minhas costas toda vez que passava para se sentar no birô dela.
                   - E o senhor gostava, seu Almeida?
                   - Acho que não. Eu ficava muito nervoso. Minha agonia era enquanto esperava ela passar. O senhor acha que isso é pecado?
                   - Até aqui não encontrei nenhum pensamento, palavra ou obra que mereça perdão ou penitência. Vá para casa, amigo Almeida. E quando se lembrar de algum sonho que teve esta noite, volte para conversar comigo.

                   Saí da igreja um pouco aliviado, mas não fui pra casa. Decidi ir a pé até a repartição. Não sei bem porque, mas queria que aquele cheiro demorasse a sair do meu paletó. Que ficasse ali até a noite, para eu dormir novamente no sofá e conseguir sonhar com alguma coisa que mereça ser chamada de pecado. 

30 dezembro 2014

07 - Almeidinha - o herói de paletó

 Um folhetim burocrático


07 - O perfume da discórdia

       
             O Dr. Pacheco, como sempre, estava com a razão. Foi melhor mesmo que a Dona Jackeline voltasse para a repartição dela. Eu voltei a ser o datilógrafo impecável que todos invejavam, não gaguejava mais quando o Chefe tocava o interfone, não perdia meu tempo esperando que desse dez horas para a novata chegar com seus óculos de mosca e aquele perfume que até me dava um pouco de dor de cabeça.
       

Um pouco de dor de cabeça, apenas na repartição. Lá em casa, esse perfume me deu uma dor de cabeça enorme. A cada vez que passava por trás de minha cadeira, Dona Jackeline se demorava mais com a barriga colada em minhas costas. Teve até uma vez que ela se curvou um pouco, dizendo que queria ver o que eu estava escrevendo, e roçou um dos seios na minha cabeça. Foi nesse dia que a minha Senhora sentiu um cheiro diferente quando eu entrei em casa.
                   Que cheiro é esse? Perguntou a minha Senhora, já com um cabo de vassoura pronto para me acertar a cabeça. Disse que não sabia de que cheiro ela estava falando, que eu não tinha pegado ou me encostado em nada que cheirasse mal.
                   Não se faça de besta, berrou a minha Senhora, com o cabo de vassoura já amassando meu nariz. Não estou falando de catinga. Franziu a cara puxando o ar com força pelo nariz. O que estou sentindo é cheiro de mulher. E acrescentou meio zombeteira: quero saber que tipo de mulher é capaz de se esfregar em um homem como você.
                   Foi aí que me lembrei da barriga macia de Dona Jackeline amassando minhas costas. E me veio mais aguda a lembrança do seu seio tocando minha cabeça. Para falar a verdade, ainda sentia uma leve pressão sobre a parte de trás do cabelo.
                   Acho que passei tempo demais entretido com essa lembrança. Devo até ter ficado meio ausente, indiferente às ameaças do cabo de vassoura que ia e vinha na frente do meu nariz.   Almeida, eu estou falando com você. Me responda, de quem é esse perfume? Eu nunca menti para minha Senhora. Sou católico e desde menino minha mãe me ensinou que mentir é pecado. Não era nessa hora que ia começar a traçar meu caminho para o inferno. É de Dona Jackeline, respondi. E quem é essa Jackeline, berrou com o cabo de vassoura pronto para me rachar a cabeça. Uma colega novata lá da repartição, respondi já com os olhos fechados e a cara contraída esperando a vassourada.
                   Eu não acredito no que estou ouvindo, falou com desdém. Quando abri os olhos, ela estava com as mãos cruzadas sobre a ponta do cabo da vassoura, olhando para mim com os olhos arregalados. Almeida, falou num tom baixo e incrédulo, você está me traindo com uma colega da repartição? Meu Deus, essa mulher deve ser cega para se enxerir para um traste da sua espécie.
                   Baixei a cabeça, passei por ela sem olhar, deixei o saco de pão em cima da mesa e caminhei feito um sonâmbulo para o banheiro. Não tive ânimo para tomar banho. Já vestido com o pijama, apanhei o paletó para guardar no quarto e senti aquele resto de perfume que me invadiu as narinas como invadia todo o escritório às dez da manhã. Passei a mão na parte de trás da cabeça, sem saber muito bem por que.
           porta do quarto estava trancada, a luz apagada. Olhei automaticamente para o sofá e lá estava o lençol de solteiro. Me deitei abraçado com o paletó e demorei a dormir com aquele cheiro me lembrando o tempo todo o perigo que passei com o cabo de vassoura pronto para me rachar a cabeça.

           Não me lembro de ter sonhado com nada, mas acordei com a impressão de que não tinha dormido só. O paletó, todo amassado, tinha escorrido para o chão. Vou chegar mal apresentado no trabalho. Mas antes vou pedir ao Padre Guido que me ouça em confissão.

23 dezembro 2014

Uma prece pagã



Estou em pleno retiro de fim de ano. A copa, as eleições, o mensalão, a lava-jato e  tudo o mais que tumultuou minha vida durante o ano vai ficar do lado de fora da minha casa.  Me dei de presente a esperança do fim do bloqueio a Cuba e me ausentei do noticiário. Ao menos por um mês, só me interessam, exclusivamente, as coisas boas que possa repartir com as pessoas a quem amo. Por isso, quero repartir com você a prece pagã que encontrei numa loja de presentes na cidade de Tiradentes, em Minas Gerais. É o que eu quero para a minha casa e para as casas de todas as pessoas de boa vontade.    




22 dezembro 2014

"A paixão insone" na Coleção Latitudes




Coleção Latitudes: Literatura em horizonte expandido

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Organizada pela escritora Maria Valéria Rezende, a série literária digital tem o objetivo de dar visibilidade a escritores com talento reconhecido em apenas alguns nichos regionais.

mosaico coleção latitudes
Mostra a História que grandes ideias e parcerias nasceram de conversas informais ao redor de uma mesa. Os compositores Tom Jobim e Vinícius de Moraes, por exemplo, conheceram-se numa mesa do bar Villarino, no Centro do Rio. Foi também numa mesa de restaurante que o arquiteto Oscar Niemeyer fez, nas costas frágeis de um guardanapo, o esboço do Museu de Arte Contemporânea de Niterói, uma das mais celebradas obras de sua carreira. No começo do ano, estavam sentadas à mesa de um café, em São Paulo, a escritora Maria Valéria Rezende e a diretora executiva da Revista Pessoa, Mirna Queiroz, quando veio à baila o problema da difusão da nova literatura no Brasil; a dificuldade para se distribuir e divulgar, com lealdade e alcance devido, a rica produção literária escrita e publicada em todas as regiões do país.
Maria Valeria por Daniel Mordzinski
A organizadora da coleção Latitudes, Maria Valéria Rezende. Crédito: Daniel Mordzinski
“A distribuição de livros físicos tem sido uma via de mão única e monopolizada por empresas sediadas no centro-sul. Há anos que eu, paulista aparaibanada, levanto sempre essa questão, não porque tenha pena dos autores, mas porque me parece que é a comunidade leitora do país que perde a oportunidade de enriquecer-se com diferentes pontos de vista, estilos, linguagens”, observa Maria Valéria Rezende.
Dessa incômoda constatação, ficou a proposta de se criar uma maneira de dar mais visibilidade a escritores com talento reconhecido em apenas alguns nichos. Porém, como superar a barreira geográfica? A resposta acaba de ser dada com a coleção Latitudes, inteiramente lançada no formato digital pelo selo Mombak, em parceria com a e-galáxia. A primeira leva conta com cinco títulos, já disponíveis para compra nas principais lojas virtuais do ramo.
“Um dos grandes motivos por trás da pouca divulgação desses escritores é a dificuldade de distribuição num país de dimensão continental como o nosso. O digital elimina essa barreira. Eu vejo essa plataforma com muito otimismo. Facilita o acesso à produção, realmente é mais barato, e encurta o caminho até o leitor. Mesmo quem não tem e-reader pode baixar um aplicativo no computador e ler os e-books. E isso é o que realmente importa: oferecer boa literatura ao alcance do leitor, onde quer que ele esteja”, aponta Mirna Queiroz, que faz o papel de editora.
A organização coube a Maria Valéria Rezende, cuja garimpagem inicial partiu de sua própria biblioteca, dos livros de pequenas editoras regionais que vai coletando no curso de suas viagens. Nessa seleção, figuram os títulos A paixão insone, de Ronaldo Monte; Aqui as noites são mais longas, de Geraldo Maciel; O beijo de Deus, de Dôra Limeira; Palavras que devoram lágrimas, de Roberto Menezes; e Já não há golfinho no Tejo, de Joana Belarmino. De acordo com a organizadora, a escolha final resultou da vontade de apresentar, de cara, uma variedade que incluísse romances, contos e minicontos, de mulheres e de homens de faixas etárias distintas, sendo três obras inteiramente inéditas e duas que haviam tido apenas edições locais já esgotadas.
“Há excelente literatura que só é bem conhecida na região em que o escritor vive e publica, de modo que o que se considera, divulga e analisa como sendo a literatura brasileira não é mais do que uma pequena parte dela, favorecida, com notáveis exceções, pela localização geográfica dos autores”, salienta.

O escritor Ronaldo Monte, autor de A paixão insone. Crédito: Mano de Carvalho
O escritor alagoano Ronaldo Monte, cujo livro explora a solidão e a busca pela ternura na conturbada relação com a violência urbana, atesta a necessidade de se desmistificar a noção de grandes centros literários. Segundo ele, o que existe, de fato, são complexos mercadológicos focados na publicação e na divulgação de alguns grupos de autores ligados a determinadas editoras sediadas, estas sim, em grandes centros comerciais.
“Um centro literário, a meu ver, é um lugar que concentra uma produção literária significativa. E neste sentido, a noção de centro está sendo substituída por uma nova tópica em rede com seus pontos distribuídos por todo um campo territorial, virtualmente ligados entre si”, considera o autor.
Natural da Paraíba, o professor Roberto Menezes, que traz, emPalavras que devoram lágrimas, vencedor do Prêmio José Lins do Rego, o fluxo de consciência de uma mulher embalado por camadas de lembranças e desgostos acumulados durante sete anos de um casamento acabado, defende o estado como um centro literário, por concentrar, no cenário atual, excelentes autores que vivem um grande momento na prosa e na poesia.
“A definição de grande centro literário é um pouco distorcida, muitos confundem com regiões onde se situam grandes editoras e distribuidores. O formato digital serve para esses autores quebrarem as fronteiras e levar sua literatura a lugares aos quais, muitas vezes, só editoras e distribuidoras dos maiores centros econômicos podem levar o livro físico”, atenta Menezes.
Com entusiasmo, a escritora Joana Belarmino, cujos contos da antologia Já não há golfinho no Tejo primam por um verniz poético, percebe os livros digitais como uma das invenções mais democráticas do nosso tempo.

A escritora Joana Belarmino assina a antologiaJá não há golfinho no Tejo
“Pensava no que seria do meu livro, encapsulado embits e bits, trafegando pela cibervia. Não sei se fui a primeira a comprar. Fui lá e fiz clique, e zaz! Feito pequenas libélulas, transportei para o smartphone os livros de toda a coleção. Abri meu e era como se os contos tivessem ganhado um sabor novo”, conta.
Para 2015, a intenção é lançar mais cinco títulos. Porém, de acordo com Mirna Queiroz, um trabalho sem pressa e cuidadoso, tratando o selo como uma butique literária, que aposta na qualidade e na bibliodiversidade.
“Se a coleção responder aos nossos sonhos, daremos várias voltas pelo país. Já temos muitas obras de outras regiões engatilhadas, e passaremos outra vez, mais adiante, pela Paraíba”, complementa Maria Valéria Rezende.
Serviço
Matéria disponível em
http://homoliteratus.com/colecao-latitudes-literatura-em-horizonte-expandido/

21 dezembro 2014

Almeidinha - O herói de paletó - 06

Um folhetim burocrático

06 - Almeidinha e a novata  

                  
                   O Dr. Pacheco tem muita consideração por mim. Um dia ele me chamou em sua sala, me mandou sentar e disse que precisava muito da minha compreensão. Era coisa simples: uma parenta sua estava com um probleminha na repartição em que trabalhava. Ela era auxiliar de tesouraria e andaram levantando uns falsos sobre a idoneidade dela. Por isso, ela precisava passar um tempinho longe das fofocas dos colegas e, para ajudá-la, Dr. Pacheco sugeriu que pedisse uma transferência provisória para a nossa repartição. Isso, claro, ia ficar só entre a gente. O resto do pessoal não precisava ficar sabendo de nada. Era só eu desconversar se alguém quisesse entrar em detalhes sobre a presença da nova funcionária. Ele mesmo se encarregaria de dar uma informação geral sobre a rápida permanência da moça entre nós. Só mais uma coisinha, falou Dr. Pacheco. Queria que o senhor cedesse o seu birô para ela guardar suas coisas. O senhor sabe, mulher traz muita tralha para o trabalho. Como é por pouco tempo, o senhor pode muito bem ocupar somente a mesinha de apoio da sua máquina de datilografia. Faça isso por mim, Seu Almeidinha. Como já disse, vai ser por pouco tempo. É só a poeira baixar lá na repartição dela.

                   No outro dia, lá pela metade do primeiro expediente, a repartição é invadida por uma mulher de idade meio indefinida, equilibrada em duas longas agulhas parecidas com sapatos, uma faixa estreita de tecido listrado de preto e branco sugerindo uma saia e uma blusa de oncinha tentando cobrir uma fartura de seios ameaçando para já um desabamento. Nos cabelos forçosamente louros se enfiavam as hastes de uns óculos escuros enormes que a deixavam parecida com uma mosca. Não sei não, mas tudo aquilo me pareceu um ato de incontinência pública e escandalosa, digna de punição pelo que eu conheço do direito administrativo. E esta impressão aumentou quando ela fez ecoar, ainda da porta, por toda a repartição: Alôôô. Eu sou Jackeline, a nova coleguinha de vocês. Mas podem me chamar de Jackie. Por favor, onde posso encontrar o Dr. Pacheco?
                   O Ciço, que é o contador, logo, a maior autoridade depois do Dr. Pacheco, levantou-se para dar as boas vindas à nova colega e se ofereceu a acompanhá-la até a sala do chefe. Atrás dela, ia apresentando os colegas enquanto fazia uma primeira avaliação do conjunto da obra. Precisava ver a cara de Dona Marli apertando a mão da recém chegada. Mal abriu a porta para ela entrar na sala do Dr. Pacheco.
                   Os primeiros dias se passavam mais ou menos assim: Dona Jackeline chegava por volta das dez da manhã, passava sem falar por Dona Marli e entrava na sala do Dr. Pacheco. Saía de lá uma meia hora depois, com umas mechas de cabelo fora do lugar e o sutiã meio desequilibrado. Como minha mesinha de datilografia ficava do lado do corredor, junto do meu antigo birô, ela tinha de passar por trás de mim, se apertando entre minha cadeira e a parede dos fundos da sala para descansar um pouco antes do fim do expediente.
                   Mesmo me vendo abarrotado de serviço, Dona Jackeline vivia puxando conversa. Queria saber sobre minha vida, se eu era bem casado, se minha mulher trabalhava, que esse negócio de mulher viver em casa era coisa do século passado. Tive de dizer a ela que minha senhora não era nenhuma desocupada. Era promotora de vendas de uma marca famosa de bijuteria, uma dessas que fazem propaganda na televisão. Por isso ela não tinha muito tempo para cuidar de mim como gostaria. Ela escutava com um sorrisinho de quem não está acreditando muito no que ouvia. Chegou até a dizer: puxa, Almeidinha, você precisa de uma mulher que cuide melhor de você. E pousou uma mão caridosa sobre a minha. Com o tempo, ela passou a se levantar com mais freqüência e amassar minhas costas com aquela barriguinha macia, deixando meu paletó com um cheiro leve de perfume francês.

                   Não sei o que estava acontecendo comigo. Chegava na repartição e ficava impaciente esperando que desse dez horas da manhã. Errava mais na datilografia, gaguejava ao atender as chamadas de interfone do Dr. Pacheco.  Cheguei até a sentir uma ponta de tristeza quando o chefe me chamou e disse que eu já podia retomar o meu birô. As coisas tinham esfriado lá na repartição de Dona Jackeline e ela não precisava mais ficar com a gente. Melhor para o senhor, não é, Almeidinha?  Melhor para o senhor.

14 dezembro 2014

Almeidinha - o herói de paletó


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05 - A sogra do Almeidinha

                   Nos domingos em que não faz sol, minha senhora me convida para visitar a mãe dela. Não é bem um convite, é mais uma ordem. Na verdade, nem é uma ordem. É uma espécie de fatalidade que eu vou adivinhando desde a véspera, quando ela começa com certos preparativos. Faz uma torta de abacaxi - que a mãe dela adora-, e deixa pronta na geladeira. Já deixa estendido no espaldar de uma cadeira da sala um robezinho leve, daqueles sem mangas, feitos no Ceará, para trocar quando chegar lá. Diz que é o único lugar onde se sente realmente em casa. Compra também de véspera uma garrafa de Martini branco doce, única bebida que sua mãe tolera. Faz tempo que deixou de tomar bebidas fortes. É natural também que leve um pote de azeitonas verdes e uma lata de salsichas daquelas pequenas, próprias para tira-gosto.
                   Quando eu volto da missa, já encontro ela impaciente, de pé, com uma sacola enorme na mão. Aponta com o queixo para a torta, ainda na forma, embrulhada com um pano de prato com dois nós na parte de cima. Ajeito a torta em um dos braços e com o outro pego o guarda-chuva. Nunca se sabe quando vai chover nesses domingos cinzentos. Trabalho mesmo é conseguir fechar a porta da casa com as duas mãos ocupadas. Minha senhora já vai quase dobrando a esquina, em direção ao ponto do ônibus.
                   Não gosto muito de contar vantagem, mas acho que ninguém carrega uma torta com mais competência do que eu. Não somente competência, mas também uma certa elegância. Eu mesmo gostaria de me ver de longe, com o guarda-chuva pendurado no meio do antebraço esquerdo, as duas mãos um pouco avançadas do corpo segurando a torta como um vassalo conduz uma almofada com a coroa real.
                   Chegamos, enfim, ao prédio da minha sogra. Só mais dois andares acima e logo seremos recebidos por aquela senhora indefinidamente situada entre os sessenta e os setenta, um short branco mal cobrindo a flacidez das coxas e uma blusa esvoaçante de seda oncinha, com um decote em nada devedor ao da filha. Beijam-se e abraçam-se como se tivessem chegado da guerra e mal abrem espaço para que eu passe e deposite a torta na pequena mesa da ínfima sala.
                   Enquanto eu caminho entre os poucos móveis para descansar os braços, elas duas se instalam na minúscula varanda que dá para a parede dos fundos do prédio vizinho. Eu já sei o que devo fazer: tirar o gelo, abrir o Martini, levar os cálices e servir as azeitonas e as salsichas.
                   E esse aí, continua na mesma? É o jeito dela se interessar por mim. Nunca fala diretamente comigo, nem fala meu nome pra minha senhora. É sempre “esse aí” ou, quando o Martini já está fazendo efeito, “esse que se diz teu marido”.
                   Eu até gosto de ficar de fora da conversa delas. Levo sempre meu livrinho de palavras cruzadas e fico ali, em paz, sabendo de cor e salteado que o rio da Itália com duas letras é Pó e que o símbolo do chumbo é Pb. Só sinto falta do meu Pequeno Dicionário da Língua Portuguesa para conferir as respostas mais difíceis. Detesto ter que rasurar um jogo de palavras cruzadas.
                   Pergunta a ele se já posso botar o almoço. Pode sim, ele pode muito bem deixar esse vício para mais tarde. É assim que as duas decidem sair cambaleando em direção à cozinha, enquanto eu boto a mesa para quatro. Quatro sim, pois quando ouve o barulho dos talheres, um simpático pequinês, com um lacinho de fita pregado na cabeça, sai do quarto e vem se aboletar numa das cadeiras, rosnando pra mim. Terminado o almoço, a infalível galinha à cabidela com farofa e macarrão, regada a duas ou três latinhas de cerveja, elas se recolhem no quarto e eu fico ali pela sala, esperando a hora do Faustão.

                   Já é de noitinha quando volto a ouvir o falatório no quarto. Sei que minha senhora está trocando o robezinho pela roupa de domingo. Logo-logo ela vai sair dizendo que está atrasada, já quase perdendo a hora do Fantástico. Minha sogra, ainda sonolenta, pede pra filha me dizer que, se não fosse a pressa dela, até passava um cafezinho pra mim. Eu não digo nada, mas sorrio agradecido. É nessas horas que sinto que ela é quase uma mãe pra mim.

07 dezembro 2014

Almeidinha - o herói de paletó



Um folhetim burocrático

04 - Almeidinha e a santa missa


                   Acho que já disse aqui: sou católico praticante. Não faço nada aos domingos antes de ir à missa. Nem café eu tomo. Minha senhora também é católica, mas bem menos fervorosa do que eu. Só uma vez perdida é que se lembra de ir na missa. É que eu fui criado dentro de igreja. Minha mãe ia todas as noites rezar o terço com as amigas e sempre me levava junto. Eu era bonzinho, ia sem reclamar, diferente dos meus irmãos que fugiam perto da hora do terço começar. Quando fiquei mais crescidinho, o padre me escolheu para ser coroinha. Eu me achava importante com aquela bata alvíssima, enchendo a igreja com a fumaça branca do incenso no turíbulo.
                   Só tenho pena mesmo de não ter pegado o tempo da missa em latim. Minha mãe dizia que era uma coisa linda, parecia que Deus estava falando diretamente com os devotos. Como lembrança de minha mãe, guardo o seu velho missal escrito em latim e fico pensando como devia ser bom responder a missa na própria língua de Deus.
                   Hoje não tem mais latim, nem turíbulo, nem coroinha. A missa virou uma esculhambação, o povo fazendo zoada com umas músicas parecidas com pagode e sertanejo. E tome de bater palmas e dar vivas a Jesus, como se ele fosse um artista de televisão.
                   Teve um tempo que minha mãe inventou que eu devia ir estudar no seminário. Tudo o que pedia a Deus era ter um filho padre. Chegou até a falar com Padre Guido, mas ele disse que ninguém ia mais pra seminário não. Quem quisesse ser padre tinha que fazer vestibular para o curso de teologia. Minha mãe não gostou, pois ela queria mesmo era me ver vestido de batina, trancado no seminário, longe dos pecados do mundo. Nunca mais tocou no assunto. Eu não gostei nem desgostei. Ia ser meio ruim ter que estudar aquilo tudo que se ensinava nos seminários. Minha cabeça sempre foi meio fraca e eu não queria deixar de usar paletó.
                   Hoje, sempre que Padre Guido me pede, eu ajudo ele a dar a comunhão aos fiéis. Padre Guido já devia ter se aposentado, mas com essa falta de vocações, não tem quem substitua ele na paróquia. Ele às vezes até fica zangado comigo, dizendo que eu bem que devia ter virado padre, em vez de ter me casado com uma mulher que nem era lá muito católica.
                   Desde esse dia eu fico insistindo para minha senhora ir à missa comigo. Tem domingo que ela vai, mas tem domingo que não vai. Diz que prefere ir à praia com a amigas no carro do irmão da LIli. Eu me conformo, pois não gosto de contrariá-la. Tem sempre o risco de passar uma semana dormindo no sofá da sala.
                   Mesmo quando ela vai na missa, sempre arranja um jeito de me tirar do sério. Para não perder muito tempo, ela já vai com o biquíni por baixo da roupa. E teima em usar uma blusa bem decotada, que puxa como um ímã os olhos dos homens. Uma vez eu reclamei e ela respondeu que é que tem? O que é bonito é pra ser mostrado.

                   Nesse dia mesmo o Padre Guido me chamou pra ajudar na hora da comunhão. Ele entregava as hóstias para os fiéis e eu botava a salva de prata para recolher as migalhas. Para cada hóstia entregue, Padre Guido dizia, quase balbuciando: corpo de Cristo. Mas não sei o que deu nele quando minha senhora se ajoelhou para receber a hóstia. Com os olhos arregalados em cima do decote dela, falou com a voz trêmula: Cristo, que corpo... Deve ser a idade.

30 novembro 2014

Almeidinha - O herói de paletó




Um folhetim burocrático

03 - Almeidinha e o elevador


                   Minha repartição fica no sétimo andar de um edifício no Centro. Eu devia pegar dois ônibus para chegar até lá, mas prefiro pegar um atalho por dentro do bairro até chegar na avenida onde passa o ônibus que me leva direto ao trabalho. Minha senhora vive reclamando que eu devia pegar os dois ônibus, que o dinheiro que economizo na passagem eu gasto com a sola dos sapatos. Que se eu pegasse dois ônibus ia sair mais tarde de casa e ela podia dormir mais meia hora.  Mas neste caso eu não dou ouvidos a ela. Saio de casa com o sol frio e faço a caminhada que o médico me recomendou. É claro que no meio do caminho o sol esquenta e eu transpiro um pouco nas axilas. Às vezes me vem a idéia de tirar o paletó, mas eu ia ficar sem jeito, me sentindo meio nu no meio da rua.
                   O ônibus que eu pego geralmente vem lotado e eu tenho que viajar em pé, o que me faz suar um pouco mais e ainda por cima me amarrota o paletó. O bom é que eu desço a duas quadras do prédio da repartição, não chego assim tão cansado. Não deixo nunca de agradecer a Nossa Senhora quando encontro o elevador funcionando. Pois subir os sete andares naquela escada escura e fedendo a fumaça de incinerador é muito cansativo, embora o Dr. Pacheco diga que faz bem ao coração.
                   Bendito elevador. Quase nunca enguiça. Mas teve um tempo em que as coisas eram muito ruins. O elevador era muito antigo, daqueles com porta interna de sanfona que fazia um barulho incômodo quando abria ou fechava. Estalava, como um monte de ferro velho. Um dia o Dr. Pacheco perdeu a paciência e me pediu para redigir um ofício à Diretoria de Material solicitando a troca do elevador por um modelo mais moderno. Um ano e meio e setenta e três ofícios depois, veio a resposta de que o novo elevador estava sendo licitado. Com pouco mais de seis meses a um ano, a compra estaria finalizada e o elevador seria imediatamente instalado, tão logo fosse feita a licitação. É natural esta demora, pois, como todo mundo sabe, uma licitação é um procedimento administrativo pelo qual um ente público abre a todos os interessados que se sujeitem às condições fixadas no instrumento convocatório, a possibilidade de formularem propostas dentre as quais selecionará e aceitará a mais conveniente para a celebração do contrato. Além disso, ainda se devia esperar pelos serviços de transporte e instalação. Isto leva tempo, muito tempo.  
                   Nesse meio tempo, o velho elevador enguiçou de vez e todo mundo teve que passar a se servir da escada escura e fedorenta. Todo mundo, menos Dr. Pacheco e Dona Marli, que se instalaram numa sala comercial na sobreloja. Não precisa dizer que todos usavam os meus valorosos préstimos para levar os documentos para o Dr. Pacheco assinar. Claro que havia uma certa organização para que não abusassem da minha boa vontade. Descia e subia uma vez às dez horas da manhã, depois levava o expediente acumulado na descida para o almoço. Quando voltava, esperava um pouco que Dona Marli abrisse a porta com umas mechas de cabelo fora do lugar e o sutiã meio desequilibrado e me liberasse para subir com a papelada assinada. Só lá para as quatro da tarde é que descia e subia de novo. Sentia um certo orgulho em ser responsável pelo bom andamento do nosso trabalho, fazendo com que ninguém sentisse falta do elevador. Fiquei até me sentindo um inútil quando, finalmente, o novo elevador começou a funcionar.
                   Só me senti um pouco reconfortado porque o Seu Alfredo voltou ao trabalho. Seu Alfredo, se vocês não sabem, é o nosso ascensorista. Durante todo esse tempo eu tive saudade das conversas que a gente tinha enquanto eu subia e descia no elevador. Como eu sempre fui o primeiro a chegar e o último a sair da repartição, viajava sempre a sós com Seu Alfredo. E a gente tinha uma conversa muito íntima, muito produtiva, nos poucos minutos entre o térreo e o sétimo e vice-versa. A gente nunca perdia o fio da conversa e a cada viagem avançava um pouco mais no assunto. Levei mais de um mês para saber que Seu Alfredo tinha sido deixado pela mulher porque ele era sonâmbulo e se levantava várias vezes de noite para abrir e fechar a porta do quarto, falando com voz educada, mas firme: descendo... subindo...
                   Acho que o Dr. Pacheco foi muito generoso mantendo o Seu Alfredo na função de ascensorista, mesmo o novo elevador sendo automático. Seu Alfredo é quem aperta os botões e continua informando aos passageiros que esperam nos andares, sempre com sua voz educada, mas firme, se o elevador está subindo ou descendo, evitando que algum distraído suba quando queria descer ou vice-versa. Se eu não fosse tão atarefado, passava mais tempo subindo e descendo no elevador de Seu Alfredo. É que está demorando muito para explicar a ele o quanto é difícil pra mim me separar do meu paletó.


23 novembro 2014

Almeidinha - O herói de paletó

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02 - O paletó de Almeidinha

            Minha senhora fica implicando comigo porque eu vivo de paletó. Mesmo quando chego do trabalho, fico de paletó até a hora de tomar banho. Mas no banheiro mesmo eu me troco e já saio de lá com o paletó listrado de marrom do meu velho pijama que minha mulher mesmo me deu no dia do nosso primeiro aniversário de casamento. Ela fica com raiva quando eu procuro por ela na cama e não tiro o paletó do pijama. Ela se vira pro lado e me manda dormir no sofá.
            O problema é que eu não lembro de mim sem paletó. Mesmo nas fotos mais antigas que guardo, lá estou eu, de calças curtas e de paletó. Acho que já nasci de paletó. Me sinto nu quando estou em mangas de camisa. 

            Isto tem me causado sérios problemas nos fins de semana, principalmente quando faz sol. É que minha mulher adora praia. Agora imagine como ela se sentiu quando saímos pela primeira vez para a praia, ela de canga, sandália de dedo, chapéu de sol e uma bolsa grande e colorida com seus apetrechos. E eu de paletó, sapato e meia, com uma cesta de vime cheia de sanduíches e uma garrafa térmica com café, que eu sou viciado em café, embora não fume, porque ela não deixa. A primeira coisa que ela fez foi me proibir de andar junto dela. Apressou o passo e me obrigou a segui-la pelo menos a cinco metros de distância. Sentou longe de mim no ônibus e nem olhou pra trás na hora de descer. Foi um tormento para mim ficar tomando café com as pernas penduradas na murada da praia, enquanto ela tomava sol e passava bronzeador. Os homens passavam com olhos pidões, os mais afoitos se oferecendo para passar o bronzeador e eu sem coragem de ir pra junto dela, com medo de entrar areia no sapato. Mais chato foi quando passou um senhor também de paletó e gravata, com uma bíblia cravada no sovaco e me saudou fraternalmente: na paz do senhor, irmão. Eu sou católico praticante, só saio de casa aos domingos depois de assistir a missa das sete. Não me dou bem com crente.

            Com o passar do tempo, as coisas foram se arranjando. Hoje, ela já não me chama para ir à praia. Arranjou umas amigas aqui mesmo da vizinhança para lhe fazer companhia. Uma delas, a LiIi, tem um irmão muito solícito que leva elas de carro. Acho bom, pois não é seguro um bando de mulheres na praia sem uma companhia masculina. Ele me acena antes de dar partida no carro e diz pra eu não me preocupar.

            Acho bom que as coisas tenham se arranjado assim. Minha senhora se diverte e eu fico sossegado em casa, fazendo palavras cruzadas ou adiantando alguma coisa da repartição. Mas não fico de pijama o dia todo. Quando sinto que está perto da minha senhora chegar, tomo um banho e boto o paletó. Mas dispenso a gravata. Afinal, nos fins de semana eu posso me permitir alguma informalidade.