22 abril 2013

Boa vida



Fui convidado para apresentar “A menina De Noite” numa feira de livros para alunos do primeiro grau. Trabalho duro. Três apresentações, uma pela manhã e duas pela tarde.

Na primeira turma, dos mais novos, aberta a palavra para as perguntas, fui bombardeado com uma questão fulminante: quanto é cem mais cem? Logo eu, que sempre fui uma lástima com os números, não poderia arriscar qualquer palpite. Não sei, respondi. A gargalhada foi geral. 
 
Consegui me sair melhor com as perguntas mais prosaicas das turmas mais velhas sobre o meu processo criativo: “é muito difícil escrever um livro?” “Quanto tempo o senhor levou para escrever ‘A menina De Noite?”  “Por que ‘De Noite’ e não ‘Da noite’?” “De onde vem a sua inspiração?”

Uma menina que estava fantasiada de Emília perguntou se era eu que tinha escrito “O sítio do Pica-pau amarelo.” Deu vontade de mentir, mas achei melhor falar um pouco sobre o valor de Monteiro Lobato na literatura e a sua luta pelo petróleo brasileiro.

Depois de cada apresentação, teve a indefectível sessão de autógrafos. Ao todo, foram mais de cem assinaturas com uma pequena dedicatória em cadernos, agendas e folhas avulsas de papel arrancadas às pressas.

O melhor disso tudo é o clima de cumplicidade que as respostas sinceras e brincalhonas criam entre mim e este público que se entrega numa relação de confiança depois de entender que estou do lado deles. Já na saída, no corredor entre a biblioteca e o pátio, me vi cercado pelo carinho de um bando ruidoso de meninas e meninos que me desejavam uma boa tarde, um bom fim de semana. Até que um dos mais velhos me abraçou e disse: “uma boa vida para você, Ronaldo”. Não pude evitar as lágrimas. Pois com aquela frase simples, o garoto estava me desejando o que eu já vivia naquele momento. Pois não tem coisa melhor na vida do que viver cercado de carinho como recompensa pelo nosso trabalho.     

Foto de Ana Patrícia      

26 março 2013

Poemas maternos





Primeira canção


Sei que estás aqui.
Um resto de gozo
ainda me ondula as carnes,
mas sei que já estás aqui.

Ainda tensa pelo esforço recente,
minha mão já afaga
o lugar onde te guardo.

Mal começo a te fazer
e já meus braços querem
se fechar em ninho.

E minha voz ainda arfante
já ensaia as primeiras notas
de uma canção
para te ninar.




Ofício do tempo

 

Entrega teu corpo ao tempo
que o tempo faz seu milagre

Entrega ao tear do tempo
As fibras da tua carne

Espera
Somente espera
que o tempo sabe o ofício
de tecer com tuas fibras
o pano rubro da vida.



Berço


Ainda não sabes,
mas já tens um nome.

E os nomes de todas as coisas
já esperam para brincar contigo.

Teu verdadeiro berço é minha voz.
E com ela te mostrarei o mundo.

Já estão prontas em mim as palavras
Que transformarão teu corpo
Em carne viva.





Canção do ventre

Dorme
que dentro de mim
é sempre calmo.
Meu clima é bom.
Sou um canto de esperar.

Dorme
que dentro de mim
é sempre berço.
E canta uma eterna cantiga de ninar.

Dorme
que dentro de mim
é sempre casa.
Um cômodo só,
muito espaço pra brincar.

Dorme
que em mim
será sempre madrugada.
Dorme
que dentro de mim
é sempre mar.

Dorme
que dentro de mim
é sempre tempo
da vida se refazer
e depois se acordar.


 De pé

Em poucos meses repetes
O que custou séculos à humanidade.

Levantas do chão
as patas dianteiras
e entre júbilo e quedas
ensaias teus primeiros passos.

Agora
tens as mãos livres
para o amor
        o trabalho
        a guerra.



Embalo do trem noturno


Longe, longe,
muito longe.
Impossível ver o corpo do teu filho
morto
caído
os olhos abertos ao trem
que não o levará.

Tarde, tarde,
muito tarde.
Impossível ter o corpo do teu filho
morto
frio
a carne ressecada
ávida da terra que o amornará.

Longe e tarde jaz
o corpo do teu filho,
prematuro nada.
  
Resta apenas o corpo do teu filho
ontem
pequenino
que embalas hoje
noite adentro
tempo adentro
até não restar mais
dor, canto, noite ou tempo.

Até que durmas tu,
mãe do sofrimento.

20 fevereiro 2013

A gente se vê




Desde janeiro de 2010 que ocupo este espaço no Contraponto com minhas crônicas. Chovesse ou fizesse sol, de casa ou de um hotel, nunca deixei este espaço em branco. Foram mais de cento e quarenta crônicas (boas, ruins ou sofríveis) inspiradas no que meus olhos viram nesses três anos. Acho que está na hora de dar um tempo.
Não tenho um motivo específico para tomar esta decisão. É apenas um sentimento difuso de que já não tenho muito a dizer. Isto coincide com a minha necessidade de voltar ao ponto de partida da minha escrita, os poemas, que há muito reclamam um tempo específico nos meus afazeres de escritor.
Vejam bem o que eu disse: estou apenas dando um tempo neste espaço semanal. O que significa dizer que, sempre que me surgir uma ideia que valha a pena, mando para o Contraponto o que ela me render como escrita. Se vai ou não ser publicado, fica por conta da Mariana e do João Manoel.
Foi grande o prazer de ocupar este espaço. Foi grande também a responsabilidade, pois, à medida em que  ia conhecendo meus leitores, passei a ter cuidado com o estilo de cada crônica. Tive que desenvolver uma linguagem que atingisse o balconista da farmácia, o dono da oficina de eletrônica e as atendentes do Maurílio de Almeida, sem ficar mal na fita com meus amigos escritores e professores de literatura. Claro que algumas vezes tive que desagradar a uns e a outros, mas, no geral, acho que me saí bem.
Uma coisa quero que fique clara: não existe coisa mais gratificante do que ser parado na rua por uma pessoa emocionada pelo conteúdo de uma determinada crônica. Fico feliz sabendo que alguns dos meus textos fizeram algumas pessoas refletir sobre algo que até então lhes passava desapercebido. Gosto também de saber que muita gente compartilhou de alguns aspectos da minha intimidade cotidiana.
Só peço que não tomem esta trégua como um gesto de renúncia. Isto é coisa para os papas. Vou continuar a publicar no meu blog (blog-do-rona.blogspot,com), mas sem o compromisso da periodicidade. Quando der na telha, faço uma postagem por lá. Vocês não vão se ver livre de mim, definitivamente. Estou só dando um tempo. Mais cedo ou mais tarde, a gente se vê.

13 fevereiro 2013

Nossa Senhora dos Prazeres




No meio de tanto incentivo ao sofrimento mundano para a salvação da alma, me chama a atenção a existência de uma Nossa Senhora dos Prazeres dentre as inúmeras denominações da Virgem pela igreja Católica. Me interessei pela história e fiquei sabendo (por São Google, claro), que em Portugal, nos idos de 1590, uma imagem de Maria apareceu  sobre uma fonte na quinta dos condes de Alcântara. Quando a Santa começou a fazer milagres, os proprietários da fonte levaram a imagem para dentro de casa. Quem já viu pobre ter direito a prazeres em fontes e terras de ricos? Mas logo a imagem desapareceu para ser encontrada mais tarde junto a um poço por uma menina sedenta. Foi quando a Madona apareceu para ela e disse que se construísse uma igreja ali em devoção a Nossa Senhora dos Prazeres, que viria também a ser conhecida por Nossa Senhora das Sete Alegrias.

Não tenho o menor interesse pela classificação que os franciscanos deram aos prazeres da mãe de Jesus, todos eles ligados à sua imagem imaculada, como se ela não tivesse outros filhos além do Crucificado e ido a outras festas além das bodas de Caná. A mim me basta que exista uma Santa protetora dos prazeres e das alegrias.

Mudando um pouco o rumo da prosa, sempre me diverti com certos compositores que se apressam em louvar o “princípio do prazer” quando querem dar um certo ar de erudição á pobreza dos seus versos. O conceito freudiano de prazer é decepcionante: quer dizer que o aparelho psíquico é regido pelo evitamento ou evacuação da tensão quando esta se torna desagradável. O melhor exemplo disto é aquela sensação maravilhosa quando encontramos um banheiro depois de algumas horas de viagem. Nada poético, portanto, mas bastante prazeroso.

Deixemos, pois, de lado, a piedade católica e a falta de sal da psicanálise. Cuidemos de nossos prazeres e alegrias cotidianos que podem ser recolhidos nos momentos mais simples da contemplação da natureza, das obras de arte, do convívio com nossos semelhantes e de intimidade com a pessoa amada. E vivamos cada um desses momentos sem culpa ou remorso, com a atenuante de que até a mais persecutória das instituições criou uma protetora benevolente que sabe muito bem o valor dos prazeres e das alegrias.  

31 janeiro 2013

Nem morto


Quando assistíamos ao DVD de abertura do ano cultural dedicado a Sérgio Castro Pinto, denunciei que Hildeberto Barbosa Filho tinha arrumado suas estantes para gravar o seu depoimento. Ele engoliu a corda e afirmou veemente que sua biblioteca estava sempre impecável, como foi mostrada. Isto me veio à mente quando revi o título “A geometria da paixão”, que encabeça o sumário do livro que reúne sua poesia desde os idos de 1986, “Nem morrer é remédio”.
Manter uma biblioteca arrumada requer um esforço tão inútil quanto o de enfeixar paixões em figuras geométricas. O poeta HBF pode muito bem ser considerado um Sísifo com dupla jornada de trabalho.
Nunca estive pessoalmente na biblioteca de Hildeberto, mas sou freqüentador assíduo de sua poesia. O problema é que o poeta produz muito, produz efusivamente, o que me faz de vez em quando perder o fio da sua poesia. Mas agora o problema está resolvido. Tudo o que ele escreveu, pelo menos até uma certa parte do ano passado, está aqui, na minha frente.
O título do livro deixa o leitor em dúvida: “Nem morrer é remédio”. Remédio pra quê?, pergunta o leitor. E na falta de resposta do poeta o leitor tem que seguir sozinho em sua busca. Pra vida não pode ser, pois, para esta, a morte é, sim, um ótimo remédio. Da mesma forma que remedia a solidão, a tosse, a falta de dinheiro.
O que a morte não remedia, sugiro eu, é a busca incessante do poeta, de todos os poetas, de uma forma que dê conta de toda a sua angústia frente ao mistério do que ele apenas vislumbra na penumbra dos seus sonhos. E depois de tanto desarrumar seus livros em busca das palavras que o socorram na construção de tanques geométricos para suas paixões, o poeta morre de olhos secos e mãos vazias. Mas é aí que nem a morte é remédio.  Morto este poeta, logo outro Sísifo tomará o seu lugar.

21 janeiro 2013

O homem que lê




Vamos falar de Solha. Tudo bem, mas de qual Solha? Porque temos o Solha romancista, o poeta, o ensaísta, o cronista. Temos também o Solha ator de teatro e cinema, o letrista, o pintor... Mas tem um determinado Solha que é maior do que todos esses outros: o Solha leitor.
Um outro Solha, o conversador, me contou que, há muito tempo, uma luz acesa, numa constância sem igual, assombrava aquela gente da cidade de Pombal. Debaixo dessa lâmpada estava o bancário W. J. Solha que varava as noites devorando todos os livros que lhe caíam nas mãos. Ele estava encantado com a qualidade cultural das pessoas da pequena cidade paraibana que lhe emprestavam os clássicos nacionais e estrangeiros. Até que um dia, por conta do acúmulo de noites insones, o leitor voraz desmaiou a caminho do expediente no Banco do Brasil.
Até hoje Solha lê. E lê muito. E porque muito lê, muito escreve. E escreve também sobre o que lê. Um dia desses, eu estava no quiosque dos Correios do Bairro dos Estados, postando uns exemplares do Baú do anão, meu último livro de contos. Como acontece de vez em quando, lá estava Solha com um monte de exemplares do seu último livro (não sei se ainda é o último) para enviar a alguns privilegiados. Aproveitamos para trocar figurinhas. Dei a ele o meu Baú e ganhei um exemplar da sua coletânea “Sobre 50 livros (brasileiros/contemporâneos) que eu gostaria de ter assinado”.
Deixei o livro na cabeceira para ir mordendo aos poucos. São comentários, alguns tendendo para o ensaio, sobre obras das mais diversas categorias. Livros de poemas, contos, romances e memórias, recebem o olhar calejado de Solha, mostrando o que o leitor comum não vê.
O mais importante deste livro é que Solha não se deteve a resenhar ou comentar apenas autores consagrados que viessem corroborar o seu refinamento de leitor. Tem gente que somente uns poucos leitores paraibanos conhecem. Claro que não concordo com algumas escolhas, mas isto não tem a menor importância. Mesmo porque sou autor de um dos livros comentados, o romance “Memória do Fogo”. E para mim é um grande privilégio ter roubado algumas horas de sono deste leitor inveterado.

A voz e o tempo



Quando cheguei e vi a quantidade de jovens espremidos na areia da praia pensei que, depois da apresentação da Renata Arruda, todo mundo iria embora. Restaria apenas um mar de cabelos brancos mal conseguindo balançar suas obesidades à voz nostálgica de um setentão decrépito. Estava redondamente enganado. Quando a banda competente atacou os primeiros acordes da música “Bola de meia, bola de gude”, toda aquela gente, dos adolescentes aos velhotes, cantou ansiosa para que chegasse a voz que daria o verdadeiro tom de todo o show. Todos carregávamos um menino moleque no coração e essa entidade coletiva se manifestava ali, atendendo pelo nome de Bituca, no corpo e na voz de Milton Nascimento.

         Não sei quanto tempo durou o espetáculo. Foi o tempo necessário para  sentir passar as lembrança mais significativas da minha vida. Ali desfilava boa parte da minha trilha sonora. Cada música me lembrava o lugar, as pessoas e as circunstâncias que me rodeavam quando aquele som me surpreendeu.

         O show de Milton Nascimento em João Pessoa serviu para mostrar que nem tudo está perdido em termos de recepção estética musical. Pelo esforço infernal das emissoras de rádio e televisão em nos servir o pior do seu lixo, era de se esperar um retumbante fracasso de um artista refinado, avesso a concessões. E ali estava a prova de que vale a pena se manter íntegro, distante das imposições do famoso “mercado”. Todo mundo que estava lá sabia de cor as canções de Milton Nascimento, das mais antigas às mais recentes.

         Meu coração aos pulos, os olhos afogados em lágrimas, as lembranças afagando o corpo todo, eu me sentia um privilegiado em poder viver aquela dose concentrada de emoção. Como se aquela voz possante e límpida trouxesse todo um tempo no seu bojo. E eu vi plasmados em minha frente os versos de Chico Buarque, em que “o velho cantor subindo ao palco, apenas abre a voz, e o tempo canta”. 

         Ali estava o tempo, o cantor e a voz que nos reúne a todos, mais uma vez, no eterno Clube da Esquina.
  

16 janeiro 2013

Nada de novo





É a quarta vez que começo este texto. Apaguei as outras versões porque todas as ideias que me ocorreram foram descartadas por excesso de pessimismo. Reconheço a dificuldade em encontrar um assunto agradável sem recorrer aos pequenos fatos do cotidiano doméstico. Mal chegamos a viver os primeiros quinze dias do Ano Novo e tudo nos indica que vamos continuar no velho mundo de sempre. É isto o que nos querem fazer acreditar os senhores da economia e da política, desde o mais obtuso vereador aos mais altos mandatários das grandes potências. Desde o técnico de contabilidade da esquina, ao mais festejado economista dos grandes conglomerados financeiros.
Para falar a verdade, nada de muito grave pode nos acontecer se as coisas caminharem, de fato, de mal a pior, como dizem e querem os donos do dinheiro do mundo. Nada pode nos acontecer que já não tenhamos vivido. Se não conseguirmos pagar nossas contas, vão nos tirar o cartão de crédito, o cheque especial e mandar nosso nome para o Cerasa. Já vivemos isto nos tempos de Fernando Collor. O governo pode deixar o funcionalismo público sem reajuste por anos a fio. Fernando Henrique já fez isto. A inflação pode voltar aos píncaros dos dois dígitos. Isto já aconteceu no tempo de Zé Sarney. Não vamos nos preocupar com os apagões, pois o País está caminhando para uma recessão e não vamos precisar de energia para tocar a produção industrial, do mesmo jeito que aconteceu também nos tempos do FHC. E a roubalheira que está comendo solta na construção dos estádios para a Copa é só uma reedição do que se roubou no tempo da construção de Brasília.
         Nada, portanto, de novo. Felizmente, digo eu. Pois o bom e velho sol continua nascendo todos os dias. Tem o mar enchendo e vazando como faz desde o começo do mundo. Tem sempre um resto de verde resistindo ao descaso dos poderosos. E tem os amigos, os antigos e os novos. Tem o pessoal mais querido que ama e briga com a gente, dependendo da veneta. Tem os livros para ler e reler. Tem os filmes para assistir, tem música para ouvir e dançar.
         Estamos apenas começando mais um ano. Todo mundo sabia que logo-logo ele deixaria de ser novo. Vejo o calendário e penso na trabalheira que temos pela frente. Às vezes me dá um desânimo, mas me lembro que o cronista Antônio Maria se dizia “brasileiro, profissão: esperança”. Eu que também sou cronista e brasileiro, me sinto também condenado a esta profissão de alto grau de insalubridade.

07 janeiro 2013

Problema com passarinho




Nesse fim de ano minha mulher decidiu armar duas árvores de Natal. Uma, melhorzinha, na sala, e outra, mais mufamba, no terraço lateral, pois seria o lugar mais adequado para distribuir os presentes, por conta do calor que não tem neve de algodão que alivie.
Passou o Natal, o Ano Novo e chegou o dia de Reis, data base para o desmonte dos enfeites natalinos. Pois bem, na manhã do dia sete, descobrimos que tem um casal de passarinhos fazendo um ninho na árvore de Natal do terraço.
É impressionante como as coisas estão mesmo de cabeça pra baixo. Um passarinho não discrimina mais um amontoado de plástico de uma árvore de verdade. Aliás, esse não é o meu primeiro problema com a maternidade alada. Uma rolinha, sabidamente uma ave de arribação, fez um ninho na pitangueira em frente ao meu quarto e nunca mais arribou pra canto nenhum. Faz quase um ano que está lá, sendo disputada pelos machos da sua espécie. Já me acostumei aos seus arrulhos nas primeiras horas da manhã, mas continuo achando que ela deve seguir a rota migratória da sua laia. Mas ela não está nem aí em seu sedentarismo promíscuo. Semana passada, encontramos um ovo novo no seu ninho. Será mais uma criança sem pai neste mundo.        
A vizinhança da rolinha é mais preocupante, pois preciso fazer uma poda na pitangueira, agora que acabou a safra generosa do ano passado. Mas me vem um drama de consciência, pois temo desguarnecer o ninho que está situado no pé do galho que mais precisa ser cortado.
Definitivamente, sou um desadaptado em relação às leis naturais. Qualquer animal menos culpado teria violado o ninho da rolinha e devorado seus ovos, quem sabe até a própria inquilina.  Qualquer ser humano menos conflituado teria mandado o casal de passarinhos às favas e desmontado a árvore de Natal com ninho e tudo. Mas eu não tenho essas qualidades fundamentais à sobrevivência e fico aqui, escrevendo, ganhando tempo, até que alguém da casa tome alguma decisão por mim. É no que dá ter intimidade com passarinho.

02 janeiro 2013

O homem que ensina a ver no escuro




Faz algum tempo que escrevi uma crônica sobre a “Igreja Batista”, me referindo ao número de discípulos que gravitam em torno da sabedoria e paciência de João Batista Brito. Sempre me impressionou a capacidade do João em agregar as pessoas, deixá-las à vontade para expressar suas idéias, respeitar a diversidade de opiniões, falar com propriedade e sem empáfia sobre as coisas que lhe concernem. E dentre essas coisas, a que mais lhe concerne é o cinema.
Por isso foi grande a minha alegria em ver de novo a Igreja Batista reunida, desta vez lotando o auditório Linduarte Noronha, da Funjope, para assistir ao filme que Mirabeau Dias fez sobre o nosso JBB. De saída, o título é de fazer inveja a quem vive de escrever: “O homem que vê no escuro”. Minha filha mais velha sugeriu que eu processasse o autor, pois estava na cara que o título foi roubado de mim. Claro que concordei, lisonjeado, e certo de que não conseguiria fazer coisa melhor.
Mesmo um pouco longo para um documentário, o filme é conduzido com mão segura por Mirabeau que evitou o cansaço das entrevistas com a intercalação de trechos dos filmes citados por JBB. Foi divertido ver o tímido João, de jeans surrado e camisa quadriculada, no melhor estilo cow-boy, fazer a performance de um dos contos tirado do seu livro “Um beijo é só um beijo”. 
Sou um mau aluno de João, pois demorei muito a aprender o que diabos era diegese, conceito que ele usa em vestes caseiras, como quem toma café.  Mas o filme de Mirabeau é didático sem ser chato, exatamente como o seu objeto, conseguindo infiltrar em nós as noções mais complicadas da estética, da literatura e, obviamente, do cinema, sem nos fazer bocejar.
Minha mulher saiu da sessão dizendo que tinha assistido a um curso completo de cinema em menos de duas horas. Concordo com ela. Pelo menos uma coisa eu garanto: nunca mais vou ter dúvidas sobre o significado de diegese. E não se espantem quando me virem usar o conceito em uma de minhas crônicas. Será minha forma particular de pagar o dízimo à Igreja Batista e mostrar que não sou tão mau aluno assim.  

23 dezembro 2012

O velho mundo de sempre





Se você está lendo este texto, é porque o mundo não acabou no dia previsto pelos alarmistas de plantão. Quem torrou tudo o que tinha no cartão de crédito e no cheque especial, quem falou para o chefe tudo que estava engasgado desde a admissão no emprego, quem cantou a mulher do vizinho campeão de MMA, quem tomou um porre e soltou a franga, saiu do armário e rodou a baiana crente como o mundo ia mesmo acabar, deve estar se pondo a grande questão filosófica: como é que vou encarar essa mesmice?
Não adianta espernear. Este é o mundo que temos para hoje e desconfio que o teremos ainda por um bom tempo. Judeus e palestinos continuarão a se matar, todos cobertos de razão. A China continuará a nos entulhar de quinquilharias e reduzir nossos empregos a pó. A guerra e a aids vão continuar despovoando a África até o último africano. As primaveras democráticas continuarão sendo substituídas pelos invernos totalitários. Os ricos vão continuar ricos e os pobres vão continuar pobres. E neste imenso gigante sonolento continuará valendo o princípio da “farinha pouca, meu pirão primeiro”.
Felizmente, o mundo não acabou, pois as férias da moçada mal começaram e nestas margens do Atlântico estão acontecendo umas manhãs cinemascópicas. E se o mundo não se acabou, ainda dá tempo de telefonar para aquele amigo lá longe, mandar um e-mail para a parentalha, botando a casa à disposição. Dá para visitar aquela turma que a gente só encontra nos velórios dos amigos comuns. Dá pra conversar com aquele vizinho mal humorado que acorda você com o som nas alturas.
Em vez do fim do mundo, qualquer um pode curtir um fim de tarde com quem gosta. Pode sair no fim de semana para um lugar diferente com quem ama. Pode chegar no fim do mês liso, mas feliz. Pode viver os dias do fim do ano sem lutar contra o tempo, sem buzinar nos congestionamentos, sem brigar com a moça do caixa.
Melhor pra mim, que o mundo não tenha acabado. Fico pensando como ficaria eu sem o mundo. Sem o mar de Cabedelo, sem a ponta do Cabo Branco, sem a Serra da Borborema. Sem trabalho pra trabalhar, sem rede pra descansar, sem bebida pra beber.
Melhor pra todo mundo que o mundo não tenha acabado. Fica todo mundo vivo, não sai ninguém e vai todo mundo botar a patinha na consciência para ver as besteiras que anda fazendo para acelerar o fim do mundo.


Ilustração: Gustave Courbet "La Rencontre, ou Bonjour Monsieur Courbet"

17 dezembro 2012

Os bichos, a palha





Não importa se é mito, não importa se é fato. Crente ou descrente, nenhum membro da cultura ocidental pode ficar alheio à figura do Cristo. Principalmente às imagens estabelecidas como o princípio e o fim da sua vida terrena. Dispensemos, por hora, a imagem da solidão e do sofrimento do Calvário. Vamos ficar com a imagem da origem, aquela cena simples do menino deitado na palha, velado pelos bichos, sob os olhos dos pais. Não precisamos de nenhum recurso à divindade para compreender o que tal cena nos quer dizer. Ali está representado, ao mesmo tempo, todo o desamparo humano e as possibilidades da sua reparação. 

A marca do humano é o desamparo. Somos lançados prematuramente no mundo, antes que tenhamos alcançado o nível de desenvolvimento suficiente para fazer o que qualquer mamífero consegue: erguer-se sobre as patas e buscar o peito da mãe. Deixado as suas próprias custas, o ser humano não vinga. Para isto estão ali o pai e a mãe do menino. Para fazer por ele o que o seu desvalimento não permite. 

Mas o que representam, então, a manjedoura e sua palha, os animais e seu silêncio? Cada um de nós pode tentar sua própria interpretação. Para mim, a pobreza do cenário serve para dizer que não se precisa de muito para estar no mundo. Para o frio da noite do deserto, está ali o calor da palha. Para as tentações do poder dos homens, ali está a humildade dos bichos. 

O menino vai crescer, vai deixar seus pais, vai correr o mundo pregando uma mensagem até hoje incompreendida. E quanto mais longe estiver deste cenário de origem, quanto mais certeza tiver da sua divindade, mais perto estará da imagem final da solidão e do sofrimento. Por isso, a cada ano, devemos nos lembrar que para sermos solidários em nosso desamparo de humanos, precisamos guardar em nós o calor da palha, a humildade dos bichos. melhor hospedagem de sites

Imagem obtida em: peregrinacultural.wordpress.com

11 dezembro 2012

Amigos de cabeceira





Faz tempo que os dois estão no quarto comigo. Se eu perder o sono, como bons amigos, eles são capazes de passar a noite acordados comigo, me dando prazer, mexendo com minha imaginação. Um se chama “onde a minha rolleiflex?”, o outro, “A idade das chuvas”. Dois maravilhosos livros de poemas.  O primeiro foi escrito por Márcia Maia e o segundo por André Ricardo Aguiar.
 O de Márcia Maia chegou primeiro. Ganhei na mesma noite em que foi lançado como vencedor dos Prêmios Literários Cidade do Recife. Noite boa, rodeada de amigos, no salão de festas do velho teatro do Brum, na parte antiga da cidade.
O de André Aguiar, fui buscar mais longe, num bar superdescolado em Vila Mariana, São Paulo. Noite boa, rodeada de gente que nunca tinha visto, mas que eram meus íntimos. A melhor qualidade de um bar é a de tornar amigos de infância gente que nunca se viu na vida.
Mais do que dois livros, são dois cúmplices que dormitam em minha cabeceira. A qualquer sinal de insônia, eles também se acordam e me perguntam se quero conversar. Quero sim. E o primeiro me diz: “por detrás do temporal/o céu tremula”. E se aquieta meu coração que se acordou aos pulos com o sonho ruim. E o outro arremata: “Nada pesa/mais que o coração”. E o meu coração pesado mais se aquieta.
Sei que alguns leitores zangados vão dizer que poemas não são feitos para aquietar o coração de ninguém. Até concordo com eles. Mas é preciso que o poema primeiro dite o tom que precisa para entrar em sintonia com o leitor. Depois, matreiro, enche você de inquietação.
E o que mais me inquieta em Márcia Maia são os ritmos insólitos que consegue extrair dos seus poemas. É uma técnica só dela, que nos impõe a cadência exata que emoldura o sentido das palavras.
Já em André, inquieta o insólito das imagens, a mudança brusca do sentido em direção oposta ao lugar comum que o leitor viciado ocupa.
Por mais um bom tempo esses amigos velarão á minha cabeceira. Até que se cansem das minhas insônias e queiram se mudar para uma prateleira cômoda, onde possam dormir sossegados.  

10 dezembro 2012

O baú do anão


04 dezembro 2012

Coração perdido




Era mais ou menos por ali, numa dessas árvores do bosque por trás da gaiola das araras. Eu adoro araras, disse ela. E ficou batendo os braços como asas, gritando com a voz esganada: arara, arara. Ele ficou meio encabulado, mas depois achou graça nela sendo arara. Achou graça assim, sem rir. Quando ela parou, ele segurou na mão dela e foram em direção ao bosque por trás da gaiola das araras.
Quanto tempo fazia? Quarenta, quarenta e cinco? Não era bom nesse negócio de tempo. Sabia apenas que fazia muito, muito tempo que estiveram ali, na sombra daquele bosque de temperatura amena, quase fria. Muito tempo, mas ele ainda sentia a pressão dolorida da casca da árvore na palma de sua mão. Da tensão do seu braço estendido apoiando o peso do seu corpo. Do jeito dos olhos dela pedindo que ele se chegasse mais. Do calor do corpo dela quando ele se chegou mais.
Não se lembra quanto tempo ficaram assim. Não era bom nesse negócio de tempo, já disse. Lembra, sim, de cada beijo, de cada parte do corpo dela por onde viajou sua mão. De cada suspiro que ela deu e de quantas vezes disse meu amor. Lembra do canivete no bolso, do canivete na mão, do canivete na casca da árvore desenhando um coração. E dentro do coração a letra agá de Henrique e a letra tê, de Tereza.
Foi mais ou menos ali, no fundo daquele bosque, por trás da gaiola das araras. Nesse lugar, por onde agora ele errava, os olhos trespassando as árvores em busca de uma árvore que não estava ali. Procurava uma árvore com um rapaz, uma moça e um coração com duas letras. Procurava um tempo que dormia naquele bosque, cansado de esperar por eles dois.
Arara, arara, gritava a arara, ainda ali, como se fosse ela.

Este conto faz parte do meu novo livro "O baú do anão".

27 novembro 2012

Lembrança



Traga uma lembrancinha pra mim, ela pediu. Qualquer coisa simples que faça você lembrar de mim, ela falou, oferecendo a boca para a despedida. 

Ele entrou no ônibus sabendo o cansaço que o esperava. Ia para longe, alto sertão, mais de doze horas de viagem. Cidade perdida entre serras. Ia ser difícil encontrar alguma coisa para ela. 

O ônibus rolando pela estrada reta, hipnótica. O sol da tarde batendo de frente, ofuscando através do vidro fumê. Impossível dormir. O olhar compulsório não registrava nuances. Vastas planícies de vestes rasteiras e o horizonte de serras inalcançáveis. 

Saiu no começo do dia, chegou no começo da noite. Um resto de luz teimando no poente, um resto de calor que cedia à frieza. A pousada em penumbra. A noite revirada na cama. A manhã que custou a chegar. 

Com a manhã, os passarinhos. De onde vinham e para onde iriam tão logo o sol esquentasse? E as pessoas, onde estariam com suas vozes arrastadas e suas poucas respostas? E os bichos pequenos que não se mostravam, chispando entre as folhas ralas dos arbustos? 

Era muita luz para o pouco a ser iluminado. A palavra agreste armou-se em todo seu sentido. Luz demais sobre quase nada. E este era o desafio. Forçar os olhos a ver o que a luz escondia. Inventar sombras. Criar movimentos. 

Lembrança. Que lembrança levar para ela. Nada para comprar, nem pedir, nem achar. E estes olhos viciados aos contrastes chapados dos signos urbanos eram cegos para a beleza cantada pelos versos agrestes dos poetas. 

Lembrança. Era isto que tinha para dar a ela. A lembrança dela o tempo todo enfeitando a paisagem impenetrável. Ela mesma impedindo que a paisagem se abrisse aos seus olhos. Era ela, a lembrança dela que o impedia de encontrar alguma coisa que levasse de lembrança. 

Foi isso que ele deu a ela. A lembrança dela o tempo todo ofuscando a visão, saturando a memória. Foi isto o que tentou dizer ao mostrar as mãos vazias e as retinas fatigadas com a imagem dela.

Este conto faz parte do meu livro "O baú do anão" que será lançado na próxima quinta-feira, 
a partir da 19:30 h, no Terraço Brasil, na Praia de Cabo Branco, em João Pessoa. 

21 novembro 2012

Ao pó



Tu és pó e ao pó voltarás. Disse isto em frente ao espelho da penteadeira, já com a esponja de pó de arroz pronta para passar no rosto. Demorou-se um pouco com a mão suspensa, resignada com o tempo que se recusava a entrar também em suspensão. 
Quem disse que não se pode ver o tempo? Ela o via ali, em sua frente, refletido no espelho oval do móvel antigo. O tempo tinha a sua cara. Ali estava escrito o passar das horas, dias, anos, décadas de uma vida às vezes bem vivida. Ali também estavam os traços de outras vidas, herança confirmada pelos álbuns de fotografia. 
Olhava o tempo em sua frente sem remorsos. Tentou lutar contra ele e perdeu. Gastou fortunas com cremes milagrosos. Desperdiçou safras de pepino em rodelas. Paralisou-se com litros de botox. Chegou até pegar o número do cirurgião plástico. Mas não passou daí. 
Olhava agora de frente para o tempo. Até gostava um pouco do que via. Cada marca daquela era uma letra do poema que o tempo escrevera no seu rosto. Não queria apagá-lo, voltar a ser uma folha em branco. 
O que não precisava era que o poema fosse exposto nos mínimos detalhes aos transeuntes. Um pouco de mistério nunca fez mal a ninguém. E para isso tinha o bom e velho pó de arroz.lista de emails

Este conto faz parte do meu novo livro O baú do anão que será lançado na quinta-feira, 6 de dezembro, a partir das 19h30, no Terraço Brasil, praia de
Cabo branco, João `Pessoa - PB

12 novembro 2012

Desastre matinal




A manhã deslizava em paz, com sua luz, seus cheiros e sons de costume. O ronco do liquidificador anunciava o suco generoso que logo teríamos sobre a mesa. Do fogão, o pão assado mandava o seu recado: chegaria em breve, logo depois das frutas.  

         Como todo bom desastre, este não se anunciou. Explodiu de repente no chão da sala, cobrindo um largo espaço com uma mancha avermelhada. De uma forma inexplicável, o fundo da jarra separou-se do bojo num corte quase perfeito, deixando vazar num jato todo o suco que se espalhou sobre o piso.


         A partir daí, a manhã não foi mais a mesma. O inusitado quebrou sua previsibilidade, exigindo ações estranhas aos ritos matinais. Levantar da mesa, conferir o prejuízo, confortar a funcionária zelosa das suas qualidades em combinar as frutas dos sucos.  Depois, ficar matutando sobre os mistérios da vida, pois nunca se poderia imaginar que uma jarra de vidro tão forte pudesse nos faltar de forma tão abrupta num momento em que mais precisávamos dela.

         Nunca se sabe os rumos que pode tomar uma manhã. Tardes e noites também são imprevisíveis. Por mais que tenhamos cuidado para que o bonde ande em cima dos trilhos, pequenos descarrilamentos sempre podem alterar nossa rotina. Claro que não estou falando de grandes desastres, catástrofes climáticas, tsunamis econômicos, julgamentos do STF. Falo de pequenas coisas aterradoras, como a empregada faltar na segunda-feira, o gás acabar na hora de acender o forno para o jantar da sexta-feira, o parente chato avisar que vai chegar com a família para o feriadão.

         Mas é sempre reconfortante lembrar que há males que vêm para o bem. A falta da empregada pode fazer você achar aquele documento escondido nas dobras do sofá da sala. A falta de gás pode sugerir uma receita nova de salada. O parente chato pode ser um bom encanador e livrar você daquele eterno vazamento no banheiro. No caso da jarra quebrada, tive a grande vantagem de me livrar daquele gostinho de terra que sempre fica na boca depois de um copo de suco de beterraba.    

06 novembro 2012

Territórios sagrados



        

Numa entrevista do escritor Mia Couto, fico sabendo que nos idiomas nativos de Moçambique não existe uma tradução para a palavra futuro. Para os povos originários daquele país, o futuro é um território sagrado ao qual não se tem acesso. Comentando isto com Glória, minha mulher, ela lembrou que esta noção não é alheia à nossa cultura, pois é comum ouvirmos dizer que “o futuro a Deus pertence”, o que significa também que está fora do alcance dos desejos humanos.
         Não é à toa que os charlatões de todas as espécies se envolvem numa aura de mistério e misticismo quando querem ludibriar a boa fé daqueles que desejam saber o que lhes espera no futuro. Eles precisam causar a impressão de intimidade com o sagrado para dar credibilidade aos seus vaticínios.
Houve um tempo em que estava em moda a profissão de futurologista. Eram senhores pós-graduados nas melhores escolas de economia dos Estados Unidos que tinham por missão dizer aos sub-desenvolvidos que não existia salvação para nós fora da tutela norte-americana. Em vez de turbantes e bolas de cristal, usavam enormes computadores para nos dar a impressão de infalibilidade. Hoje, devem estar todos desempregados.
         Dando meia-volta em nossa conversa, podemos também dizer que o passado é também um território sagrado e inacessível. Não é à toa que uma deusa, Mnemosine, guarda as chaves da nossa memória. Os deuses sabem o quanto nos perturbaríamos se tivéssemos acesso a cada momento vivido. A perda da memória é uma benção divina. Não apenas selecionamos os momentos de nossas vidas que merecem ser lembrados. Somos capazes de criar lembranças que encubram aquelas que podem nos causar desprazer.
         Deixemos aos deuses esses dois lugares inacessíveis aos mortais e cuidemos da vida presente, sem mistificações, como queria Drummond. Consolemo-nos com os efêmeros momentos dos sonhos em que podemos vislumbrar as fronteiras desses territórios sagrados. 

24 outubro 2012

Aprendizes da palavra

  O poeta é aquele que está sempre aprendendo a falar. É por isso que todos nós somos poetas. O ‘infans’, que em latim significa o sem palavra, vive desde e para sempre dentro de nós. Somos todos morada de um eterno infantil. Carregamos um estranho infante em nossas entranhas. Uma criança estrangeira ávida de palavras com que habite o país da linguagem. Um núcleo infantil que tentamos esvaziar com as palavras, mas que se renova a todo instante, insatisfeito com a matéria que lhe ofertamos. Somos eternos famintos de poesia.

Nascemos imersos na linguagem, mas a linguagem dos primórdios é um grande enigma depositado em nós por esse outro que nos fala e só aos poucos aprendemos a traduzir. Não entendemos, de saída, as palavras. Mas somos desde logo envoltos em sons, imagens, odores e gestos aos quais, aos poucos, serão adicionadas as palavras com as quais as identificaremos. A complexidade da fala dos adultos, entretanto, deixará muitas falhas na compreensão das mensagens pelo aprendiz da palavra. Haverá sempre um resto destes sons, cheiros, gestos e cenas primordiais que fazem permanecer o infante em nós.

Como ensina o poeta Carlos: precisamos sempre aprender novas palavras e tornar outras mais belas para dar vazão aos enigmas que restam e instigam, exigindo tradução. A tarefa do escritor, nos diz Proust, é a tarefa do tradutor. Para escrever o livro essencial que existe em nós, acrescenta, o escritor não precisa inventá-lo. Precisa apenas traduzi-lo.    
         A função do poeta é fornecer novas palavras que facilitem este trabalho tradutivo. É função de todos nós ofertar a palavra poética a um número cada vez maior de falantes, para que todos, ricos de novos sentidos, possamos dar a este infante, que ri e chora em cada um de nós, as palavras que nos faltam para nomear as origens deste riso e deste pranto. 

Imagem obtida em: araucaria.pr.gov.br