26 setembro 2012

Para Marília, depois de João



Foi muito mal para mim não ter escrito logo sobre tudo  que senti ao ler o romance de Marília Arnaud, Suíte de silêncios. Deixei o tempo passar para ir decantando meus sentimentos, pois todo mundo sabe o quanto é difícil escrever sobre qualquer coisa quando estamos dominados pela emoção.
Acontece que demorei demais. Tempo suficiente para vir o João Batista Brito e fazer o comentário definitivo sobre o livro de Marília. Resta muito pouco para mim, mas vou tentar assim mesmo.
Li a Suíte de silêncios no original, a pedido de Marília, quando o livro já estava sendo editado pela Rocco. Qualquer comentário que fizesse seria inútil, pois àquela altura os revisores já estariam triturando o texto em busca do menor deslize da autora. Trabalho inútil, por certo.
Inútil também teria sido qualquer intenção minha em encontrar o menor defeito no livro de Marília. Pois não eram olhos profissionais que o estavam lendo. Eram os olhos de um leitor comum, seduzido, apaixonado por aquela escrita de mulher. Olhos comovidos, compassivos, cuidando para que Duína chegasse inteira ao fim do livro para que eu o pudesse fechar em paz.
Quando o livro saiu, Marília me deu um exemplar que ficou exposto na mesa como a obra de arte que verdadeiramente é. Uma amiga que passava o fim de semana com a gente vinha comentar, chorando, algumas passagens, como se ainda não o tivéssemos lido. Ali estava a prova do valor poético do livro de Marília.
Pouca gente sabe, mas faço parte do grupo das Escritoras Suicidas, sob um pseudônimo que, obviamente, não vou revelar. Acho muito bom este exercício de me colocar no lugar desse ser tão próximo e tão estranho a mim. Mas quando encontro um texto como a Suíte de silêncios, em que uma mulher se revela enquanto se busca em seus ermos, vejo o quanto me falta para entender o espírito feminino.
O livro de Marília me deixou (por um breve tempo) com vontade de ser mulher. 

19 setembro 2012

Pessoas e bichos



 Entremos com cuidado no terreno desta crônica, porque é tênue a linha que nos separa da maldade e da galhofa. Quero tratar, hoje, da morte de um animal de estimação, assunto que invadiu os meios de comunicação há poucos dias. Pisemos levemente para não machucar os sentimentos de pessoas simples e amorosas que viram sua dor ser transformada em um espetáculo grotesco pelas redes sociais e pela grande mídia.

Todo mundo sabe o que aconteceu: Na cidade de Patos, na Paraíba, Genecira criava uma galinha há cinco anos. Rafinha, a galinha, era bem tratada, como todo animal de estimação: ia ao veterinário, tomava banho com sabonete de coco, dormia em berço com ventilador. Um dia, Rafinha desapareceu, para desespero de Gecenira e sua família. Uma semana depois, a polícia prendeu um suspeito que confessou ter trocado a galinha por duas pedras de crack.
A partir daí, segue-se uma série de acontecimentos que amplificaram a dor de Genecira, transformando-a em um espetáculo grotesco servido em grandes porções pelos meios de comunicação.
Foi o oportunismo de um humorista local, o Tatu, que o levou a divulgar no Youtube uma música ridicularizando a perda de Genecira. Não satisfeito, Tatu pediu a permissão dela para fazer o enterro simbólico de Rafinha. Mais de mil pessoas compareceram ao velório. Muitas delas foram prestar uma solidariedade sincera à família. Outras, foram apenas em busca de diversão. Até o prefeito da cidade passou por lá em busca de votos. Sucesso nas redes sociais, o enterro atraiu a grande mídia, com direito a cobertura pela equipe do Pânico, programa da Rede Bandeirantes. Quem viu as fotos ou assistiu aos videos pode constatar: em meio a toda a balbúrdia, a expressão da família de Genecira é de dor e sofrimento. Mas isto não interessava a ninguém.
Fechemos com cuidado esta crônica. Vamos deixar em paz a família de Genecira para fazer o luto de sua perda. Pois esta é a única coisa que ela quis fazer. Chorar sua dor pelo desaparecimento de um ente querido que foi trocado por duas pedras de crack. É aqui que reside toda a miséria e brutalidade que escapou do estardalhaço da grande mídia.  
    
Ilustração obtida em http://www.desenhosdecolorir.com.br

16 setembro 2012

Menina de Noite - lançamento EPSI

'aora

Video de apresentação do meu livro "A menina de noite", elaborado por Raija e Ivan, pais de Gabriela, minha neta, que inspirou o poema. Curtam.

11 setembro 2012

O destino dos livros



Era a experiência afetiva que me faltava. Uma sala com umas quarenta crianças, entre sete e dez anos, me fazendo perguntas sobre o meu livro “A menina de noite”, com variantes sobre minha vida pessoal. As perguntas me surpreenderam. A mais vexatória foi sobre quando eu iria escrever os livros para minhas outras netas. Nada mais natural, pois o poema “A menina de noite” foi escrito no mesmo dia em que nasceu minha primeira neta, Gabriela. Teve uma pergunta quase acadêmica: “o Sr. Acha importante usar os livros como atividade lúdica?” Concordei imediatamente e mudei de interlocutor antes que a futura doutora me perguntasse por que. E frente à dificuldade em fazer as contas sobre a minha idade, um mais atrevido sugeriu: “você devia se aposentar”.
Terminada a sabatina que durou pouco mais de uma hora, tive que enfrentar uma fila de autógrafos assinados em folhas arrancadas dos cadernos. Até minha mulher teve seu momento de celebridade, pois também oi solicitada a autografar algumas folhas. No fim, recebi um abraço coletivo e saí de lá chorando.
A experiência em um colégio de classe média no bairro de Boa Viagem, no Recife, me remeteu a outro momento, há cinco anos antes, quando o poema tinha acabado de ser escrito. Foi no Centro Comunitário de Mandacaru, onde eu ajudava Nara Limeira a monitorar um grupo de leitura de crianças e adolescentes. A garotada se apaixonou pelo poema e fez questão que minha filha, a mãe de Gabriela, ficasse junto com elas quando leram o poema num sábado de festa no Projeto Palavra Plantada, que a mesma Nara desenvolvia na Bica.
Minha própria experiência prova que as crianças, pobres, ricas ou remediadas, amam os livros. Decoram poemas, se apaixonam por personagens, escolhem seus escritores de preferência, ensaiam seus primeiros escritos. Que destino, portanto, têm os livros que eles aprenderam a amar?
A resposta é que existe todo um sistema de embrutecimento da sensibilidade destes meninos. Um arranjo entre os interesses das mídias e a omissão do poder público, resultando em uma manada que repete os mesmos refrões dos arremedos de música, os mesmos passos estereotipados das danças, as mesmas palavras de ordem das gangues e das seitas. Mas é bom saber que dentro de alguns deles existe um ou dois livros dormindo, esperando pelo toque de sensibilidade que os traga de novo para a vida. 

03 setembro 2012

Pobre barata


Sei que alguns leitores vão pensar que estou com falta de assunto, mas garanto que o tema e da maior relevância. Por conta da safra de netas, vez por outra escuto a cantiga em que acusam a barata de mentirosa porque ela diz possuir coisas que de fato não são delas. A barata diz que tem um sapato de fivela, cinco saias de balão, um anel de formatura. É mentira da barata, respondem: o sapato é da mãe dela, ela tem uma saia só, e tem a casca dura.
Conheço muito bem a distância que há entre mim e uma barata, mas consigo entender muito bem as razões de suas mentiras. Ainda era menino quando me pai arranjou para mim uma bolsa de estudos na Associação Brasil Estados Unidos. Finalmente, ia ter uma oportunidade imperdível de estudar inglês no melhor curso da época. Logo no primeiro dia, enquanto esperava o início da aula, fiquei pelos cantos escutando a conversa dos outros meninos. O assunto era a marca do carro do pai de cada um. Disfarcei até onde pude, até que perguntaram a marca do carro do meu pai. Meu pai não tem carro, respondi. E fui embora.
Se eu fosse um pouquinho mais parecido com a barata, inventava uma marca de carro para o meu pai e ia levando o curso até que alguém descobrisse que meu pai era um funcionário público à beira da miséria e que muitas vezes eu não tinha dinheiro nem para o ônibus.
Imagino que a mãe da nossa pobre barata deve ter conseguido uma bolsa pra ela em um desses colégios chiques em que os alunos são despejados de verdadeiros aviões e recebidos por uma equipe de seguranças. E quando perguntam para a barata onde ela mora, ela fala o nome do primeiro bairro nobre que lhe vem à cabeça. E quando perguntam pela marca do carro do seu pai, ela fala o nome do carrão que viu no comercial da televisão.
Melhor seria que a barata tivesse no seu bairro um colégio decente para estudar junto com as meninas pobres como ela. Melhor seria se ela convivesse com pessoas que não medissem o seu valor pelo número de saias que possui, pelas fivelas dos seus sapatos ou pela qualidade do tecido que veste.

Ilustração obtida em: g6leitura.blogspot.com         

29 agosto 2012

O país aleijado



Pouca gente deve conhecer João Schwindt. Ele é o atual campeão da Copa mundial de Paraciclismo realizada neste ano, no Canadá. Sem patrocínio, concorreu com uma bicicleta de segunda mão à prova de contrarrelógio, a sua especialidade.
João Schwindt vai representar o Brasil em quatro provas na Paraolimpíada deste ano, em Londres. Mas para isso precisa de uma bicicleta com câmbio eletrônico, igual a de todos os seus concorrentes. A bicicleta custa R$ 21 mil. Ele recebe R$1.800 da Bolsa-atleta do Ministério do Esporte.
Dois amigos de João lançaram uma campanha no Facebook para ajudá-lo a comprar sua super-bicicleta. Mas até a semana passada só tinham conseguido arrecadar R$3.271. As Paraolimpíadas começam em 31 de agosto.
Como era de se esperar, o Comitê Paraolímpico Brasileiro informou que em nenhum momento João pediu uma bicicleta para disputar as provas. Nem ao menos informou que a sua bicicleta de segunda mão era obsoleta. Os dirigentes do Comitê devem ser cegos-surdos (ou, para manter o espírito paraolímpico, deficientes óptico-auditivos), pois não conseguiram ver as condições do equipamento do atleta em todas as competições de que participou. Tampouco ouviram qualquer comentário a respeito da precariedade com que, não apenas João, mas todos os atletas paraolímpicos enfrentam seus concorrentes internacionais.
         Antes de se tornar um campeão do paraciclismo, João perdeu uma competição em que muitos brasileiros são vencidos. Ele foi atropelado, em Brasília, por um motorista que vinha na contramão.
No território símbolo da violação das leis e da certeza da impunidade, João sobreviveu para nos passar na cara que, muito longe de sermos um país digno de heróis paraolímpicos, constituímos um país aleijado, manco das pernas, claudicando ao peso das nossas desigualdades, esmolando recursos, expondo nossas deformações sociais nos palcos mundiais do requinte tecnológico.  

21 agosto 2012

Mártires da cultura





Antigamente (e bota antigamente nisto), os mais velhos costumavam usar alguns ditados para incutir certos princípios na cabeça das crianças. Lá em casa, minha mãe vivia repetindo: “boa romaria faz quem na sua casa está em paz”. O que significava: é melhor ficar em casa do que arranjar confusão na rua. Outro ditado que ouvi muito foi: “quando a cabeça não pensa, o corpo é que padece”.
Se eu tivesse sido um menino obediente, não estaria agora com o corpo padecendo a falta de juízo que me levou, junto com minha mulher, a fazer uma romaria quase mortal à cidade de São Paulo.
Claro que eu não ia perder o lançamento do meu novo livro na Bienal. Muito menos deixar de ver a exposição dos impressionistas no Centro Cultural Banco do Brasil, nem a exposição de Caravaggio no MASP. Tudo isto em míseros três dias.
Minha mulher costuma dizer que, desdenhando dos nossos 65 anos, saímos de casa pensando que temos 45, para voltar arrastando o peso dos 80. Não foi diferente nesta última viagem. No primeiro dia, passamos a manhã fazendo o reconhecimento do terreno da Bienal, marcando o território das editoras que valiam a pena ser visitadas. Daí, fomos para a Sé, onde fica a o CCBB. Depois de uma hora e meia de fila, passamos mais duas horas impressionados com os impressionistas. Nada mais natural que voltássemos para o hotel, já mortos de cansaço. Mas isto é coisa para os fracos. Tínhamos o lançamento do livro de poemas de André Ricardo, numa mercearia descolada em Vila Madalena. Resultado: chegamos ao hotel já passando das dez da noite.
No segundo dia, passamos a manhã comprando na Bienal. Um mínimo de juízo nos levou de volta para o hotel, de onde saímos às quatro da tarde para o MASP. Para facilitar, pegamos uma saída de metrô que não tinha escada rolante. Chegamos no topo da Avenida Paulista com o coração na boca. Mas Caravaggio e seus seguidores nos esperavam para reconfortar nossos espíritos. Não tinham nada a ver com as dores dos nossos corpos. Mas ainda faltava comprar alguns livros que nos encomendaram. Era só atravessar a avenida e dar um pulinho ali na Livraria Cultura, no Conjunto Nacional. Não sei muito bem o que aconteceu, mas tive a clara sensação de que aumentaram a distância entre o museu e a livraria.
O terceiro dia foi mais maneiro. Cheguei na Bienal às duas da tarde, esperando o meu lançamento que seria às seis. Consegui administrar a canseira até chegar à casa de um casal amigo que nos reconfortou com pão e vinho.
Como ainda dizia outro ditado dos mais velhos: “quem não ouve conselhos, raras vezes acerta”. Por muito pouco não nos transformamos nos mais novos mártires da cultura.  

Imagem obtida em: www.willarte.com.br     

14 agosto 2012

Corrente


Já é a segunda vez que me enviam uma corrente para que eu peça a Deus a cura do câncer. E Ele deve fazer isto nesta sexta-feira, “o dia mundial do câncer”. Eu não devo apenas orar com toda fé, mas mandar a tal corrente para a minha lista de endereços. Se eu fizer isto, garantem, estarei ajudando a realizar o maior sonho da humanidade.
Será que não passa pela cabeça dessas pessoas que se Deus quisesse que o câncer fosse curado ele já teria feito isto há muito tempo? Ou melhor, ele não teria inventado esta doença, pois tudo que existe, segundo dizem, foi criado por Ele.
         Devolvendo a gentileza dos que me enviaram a tal corrente, gostaria de convidar seus autores e divulgadores a uma pequena reflexão: será que o Deus de vocês é tão cruel a ponto de ter uma solução para um mal e se negar a oferecê-la aos homens que Ele mesmo criou á Sua imagem e semelhança?
         Será que este Deus é tão vaidoso que só abrirá mão do segredo da cura do câncer se dobrarmos a espinha suplicando que nos alivie deste e de outros sofrimentos que Ele mesmo nos impôs?
         Ou será que estamos transferindo para a esfera Divina um problema que apenas a nós cabe encontrar a solução? Deus já fez a Sua parte quando nos dotou de inteligência e amor, tornando-nos, com isto, à sua imagem e semelhança.
         Deus tem mais o que fazer do que ficar escutando nossas lamúrias de crianças malcriadas. No momento, suspeito que deve estar criando um outro mundo onde experimentará uma outra humanidade. Pois está provado que esta aqui não deu certo. Não soubemos aproveitar a inteligência que Ele os deu. Usamos este dom divino para criar os artefatos bélicos mais destruidores, os sistemas políticos mais hediondos, os modelos econômicos mais cruéis contra os nossos semelhantes.
         Passem, por favor esta mensagem adiante: a cura do câncer, a erradicação da fome, a paz entre os povos só serão alcançadas pelo uso da nossa razão, da nossa inteligência. E isto Deus já nos deu desde os primeiros dias do Gênesis.      


08 agosto 2012

Servicinho



Desde que me mudei de vez pra Cabedelo, tinha vontade de pendurar a televisão na parede do quarto. Coisa simples, pensava. Claro que não seria eu a fazer o serviço, mas na mão de um bom faz-tudo o trabalho não duraria mais de meia hora.
Suporte comprado, furadeira nova, serviço contratado, dali a pouco eu estaria jogado na cama vendo “Vale a pena ver de novo”. Estaria?
A primeira dificuldade se apresentou com a teimosia dos parafusos em não querer abandonar a base da televisão à qual estavam ligados desde a maternidade. Foi preciso sair para comprar uma chave estrela.
O segundo obstáculo foi a ausência de um manual de instalação. As instruções estavam sucintamente impressas na embalagem, com ilustrações minúsculas que mais confundiam do que orientavam a equipe de montadores. Equipe, sim, pois, além dos dois trabalhadores, eu fui incorporado ao grupo para tentar decifrar as instruções.
Traduzidos os hieróglifos, concluímos que não tínhamos uma chave sextavada para parafusar as bases na parede. Saí novamente para comprar parafusos de fenda.
Já noitinha, televisão fixa na parede, trabalhadores apressados para não perder o último trem, descubro que o cabo da antena não estava conectado. Lá vamos eu e minha mulher desenganchar a televisão da parede para consertar o esquecimento. Jeitosos como Deus nos criou, correu-se sério risco de ver desabar parede abaixo o nosso patrimônio comprado a prestação para assistir o fiasco da seleção na última copa.
Acredito que este foi o último servicinho que precisamos fazer desde que inicamos a “última” reforma, no começo do ano. Ainda tem uma pequena infiltração na entrada do meu quarto que prometeram resolver amanhã. E me garantiram que amanhã mesmo terminam a pintura. Estamos exaustos, os olhos irritados de poeira e as contas bancárias exauridas. Juro por Deus que vai demorar muito até que eu me atreva a fazer o mais mínimo servicinho aqui em casa.   

01 agosto 2012

Vistam saias, meninas: é agosto







Publico de novo porque gosto do texto.  Também gosto de agosto.

Há um certo prazer em falar mal de agosto. Dizem que é o mês das bruxas, onde cai o dia das sogras, foi quando morreu Getúlio e costumam ocorrer desgraças políticas. Pouca gente fala bem de agosto.

Quase ninguém se lembra que é o mês do mais belo luar do ano, promovendo encontros e reconciliações entre os já românticos e convertendo ao romantismo alguns indecisos pós-modernos. Em mim, particularmente, o luar de agosto produz um estado intermediário entre uma lânguida melancolia e uma vontade enorme de uivar.

É certo que em alguns anos agosto lembra um velho sombrio, com suas nuvens cinzentas, suas chuvas fora de hora, invadindo maleducadamente com seus miasmas setembro a dentro. Mas num ano como este, agosto merece ser tratado com toda a consideração. Já na primeira semana faz um sol quase de verão, esquentando um pouco a água do mar, levando à praia uma boa safra de mulheres e, vá lá, alguns homens dignos de nota. Só temos que aturar o vento forte, o bom vento de agosto que, se algumas vezes aborrece ao derrubar varais, espalhar jornais ou varrer areais, nos compensa com um dos mais belos espetáculos ao ar livre: a dança das saias.

E não me venham dizer que isto é coisa que só interessa aos homens. Alguma coisa me diz que as mulheres esperam ansiosas por agosto, preparam-se em academias e clínicas de beleza para o encontro com este mês abertamente masculino. E tenho certeza que uma pesquisa de mercado revelaria um forte incremento no comércio de saias ou cortes de tecidos para elas, cremes e óleos para pernas, além de peças íntimas de langerri a serem desvendadas num momento de estudada distração.

Os homens esperam por agosto como a um velho camarada. Um amigo maroto que faz por nós o que mais gostaríamos de fazer em plena rua: levantar as saias das mulheres.E reparem bem no rosto de uma mulher a quem o vento de agosto vai levantar a saia. Há, de início, uma certa expectativa, quase uma ansiedade, um temor de que não sopre vento nenhum e tenha sido em vão todo o preparo, todo o cálculo de chegar naquela esquina no momento em que um homem, ou um grupo de homens, passa atento pela calçada contrária. Logo, sopra o vento. Primeiro, de leve, deslocando os cabelos e fazendo a vítima fechar os olhos numa mescla de vago aborrecimento e satisfação. Quase um agradecimento.Ato contínuo, vem o farfalhar da saia. Aí é necessário que a dona da saia tenha alguma coisa em uma das mãos. Pode ser um sortimento de livros e cadernos, algum pacote não muito volumoso, até sacola de supermercado serve em certos casos. O importante é que apenas uma das mãos fique livre para segurar a saia em um dos lados, deixando o outro ao sabor do vento de agosto e dos olhos dos seus gratos amigos do outro lado da rua. O movimento, brusco mas não tanto, de segurar um dos lados da saia leva a um certo desequilíbrio que faz com que o volume sustentado pela outra mão ameace cair. Nisso, a mão que segurava a saia vai em ajuda à sua irmã, deixando agora todo o campo livre para o trabalho do vento e dos olhos.

Há variações do rito, é certo. A melhor delas é quando agosto apanha com seu vento um bando de mulheres no meio de uma ponte ou numa rua larga, de preferência ladeirosa, em que estejamos todos subindo. Mulheres na frente, como manda a boa educação, homens regulando o passo até alcançar a melhor distância para um visão de conjunto e, finalmente, ele, o ruidoso, o assobiador, o vigoroso e salutar vento de agosto, causando desordem e euforia, quebrando a monotonia das tardes friorentas. Estamos no começo de agosto. Já é tempo, meninas, vistam saias. E deixem brincar com elas o vento de agosto, para o alimento de vossas vaidades e o bem dos nossos olhos. Antes que todos, olhos e vaidades, sejam desviados pelo despudoramento de setembro, escancarando corpos e tornando vulgar o jogo sedutor que agosto sabe tão bem jogar.

(Publicado em Memória curta, 1996)

Imagem obtida em: soufeitadepalavras-claudinha.blogspot.com

26 julho 2012

A menina de noite



Há alguns anos, Raíja, minha filha mais velha, me deu um bonito caderno de notas, feito à mão, pedindo que eu escrevesse um poema nele. Ao longo de alguns anos, fui escrevendo pequenos versos que foram fazendo sentido por eles mesmos. Em 2007, nasceu Gabriela, minha primeira neta, filha de Raíja com Ivan. Quando saí da maternidade, encharcado de emoção, tive a idéia de compor um poema para minha neta a partir dos versos escritos no caderno que sua mão me presenteou. Depois de trabalhar com um alucinado, telefonei para a maternidade e dei ordem para não sair ninguém. Queria que todos os que apinhavam o quarto ouvissem o poema que acabara de compor: “A menina de noite”.
No fim de semana passado, recebo uma caixa com o timbre da Editora Paulus com vinte exemplares do livro mais bonito que já tive em mãos: “A menina de noite”. Uma artista plástica inspirada, Veruschka Guerra, conseguiu traduzir todo o ambiente de sonho e emoção que tentei imprimir ao poema. O resultado é um conjunto alucinante de imagens que transcende as intenções do texto, ganhando vida própria e levando o espectador para lugares desconhecidos de sua própria alma.
Passaram-se cinco anos desde a concepção até a publicação do livro. Um longo tempo de peregrinação por muitas editoras, até que Veruschka se apaixonou pelo texto e o apresentou ao Alexandre Carvalho, editor infanto-juvenil da Paulus.
Desde que chegou, o livro vem sendo motivo de muita emoção. Uma emoção bem próxima da que sentimos quando Gabriela nasceu. As pessoas em volta do livro repetem as expressões de carinho e espanto de quando se debruçaram sobre a neta recém nascida.
“A menina de noite” é o meu oitavo livro publicado. Seria apenas mais um livro na minha estante se não fossem as circunstâncias em que foi concebido. Seria apenas mais um livro infantil no mercado, se não fosse o carinho e a delicadeza com que foi ilustrado e editado. É este clima de encanto e delicadeza que pretendo estender para quem o embalar nas mãos.

Ilustração: Veruschka Guerra

18 julho 2012

O Luxo da memória



                                                                                Para Carlos Aranha


Estava ouvindo Handel no som do carro e de repente tive uma experiência rara. Me veio a lembrança das manhãs de domingo em Água Fria, o primeiro bairro em que morei no Recife. Bem cedinho, os fiéis eram chamados para a missa ao som da música mais bonita feita para o louvor de Deus. Eu não ia à missa, mas acordava feliz com a harmonia barroca que me prometia um longo dia de folga com direito a ver as moças passando para a igreja, um almoço melhorado e uma matinê com filme de caubói ou uma comédia com Jerry Lewis. Até hoje agradeço ao Cônego Jaime Diniz, pastor da paróquia de Água Fria, por me ter dado de presente esse conjunto de imagens que emerge em minha memória toda vez que ouço a música triunfante de Handel.
A memória é um espaço mágico onde passado e presente se fundem para formar um outro tempo em que descobrimos uma emoção nova, depurada, que abre uma clareira dentro de nós. Uma clareira onde não cabe saudade ou esperança. Um lugar fugidio, uma chispa que, apesar de intensa, depressa desaparece. E mesmo que o episódio relembrado permaneça no pensamento, a emoção se esvai para somente voltar quando outra chispa vier nos visitar.
Não gosto de começar uma história dizendo “no meu tempo...” Dá a impressão que o tempo presente não é meu. O que não é verdade. Todo tempo é meu. O passado, o presente e também o futuro, pois toda vez que faço planos estou vivendo um tempo que ainda virá. Mas não tenho nenhum pudor em começar uma história falando “naquele tempo”. Pois me faz bem falar das coisas que vivi e das que não vivi, mas ouvi falar. Das que não vivi, não ouvi falar, mas que inventei a partir de restos de memória dispersos que juntei para inventar alguma coisa que me falta no passado. 
A memória é um luxo. E a melhor forma de cuidar dela é respeitar os seus movimentos. Deixar que ela nos invada e pegue de surpresa o ser incauto e distraído que dorme em nós. Respeitar, principalmente, os momentos em que ela nos falta, pois é apenas um aviso de que um dia nos abandonará. Mas enquanto estiver aí, uma música no som do carro sempre poderá nos enviar para o som antigo que nos acordava desde um alto-falante no topo da torre de uma igreja de subúrbio.

Ilustração obtida em: educolorir.com

08 julho 2012

O mundo dentro de mim

Um dia eu estava assistindo a um programa sobre vinhos e me impressionei com um vinicultor grego, com ares de sacerdote pagão, afirmando que as cepas que cultivava nas encostas de um monte iam buscar os nutrientes no fundo da terra. Beber aquele vinho, portanto, era entrar em comunhão com a terra, levando para dentro do corpo o que a terra tem de mais puro, mais profundo e mais sagrado.

Desde então, toda vez que bebo vinho, tenho a consciência de que estou incorporando a terra do país em que foi produzido. O que significa que, com o tempo, meu corpo passou a carregar um pouco da terra de muitos países do mundo. França, Itália, Espanha, Portugal, África do Sul, Argentina, Uruguai, Chile... Isto sem contar os territórios gaúchos e franciscanos. Estou até pensando em perder de vez o preconceito e provar alguma marca da Califórnia.

Sei que algum amigo maldoso deve estar insinuando que a maior parte do meu corpo é ocupada pelas terras da Escócia. Outros, mais maldosos, dirão que sou ocupado por terras mais próximas, a exemplo do brejo paraibano. Lembrarão também dos territórios anônimos do malte e do lúpulo levados ao meu interior pelos copos generosos do chope e da cerveja.

Vamos deixar de lado as más línguas, pois estamos restritos ao âmbito dos vinhos. E não me tomem por um desses eruditos conhecedores das castas e processos, que conseguem identificar numa simples taça de vinho os aromas e sabores mais exóticos. Nem me confundam com esses chatos que não conseguem beber um vinho sem deitar falação sobre a qualidade da uva, o ano da safra, as excelências da marca.

Sou apenas um cara incapaz de acumular garrafas numa adega, que adora chegar em casa na sexta-feira com uma ou duas garrafas de vinho para beber com a mulher e quem mais quiser. E a cada fim de semana anexar novos territórios ao vasto mundo do meu corpo.

04 julho 2012

Chuva e melancolia


Eu me lembro das chuvas da minha infância, principalmente aquelas nos fins de tarde, quando escurecia mais cedo e o meu pai demorava mais a voltar do trabalho. Eu me lembro quando a chuva passava e eu ia olhar a água correr pelo canto do meio-fio, levando as coisas pequenas para longe da frente de minha casa. Eu me lembro das meias nos chinelos e o agasalho para as noites friorentas. E desde esse tempo a chuva me deixa nostálgico. Eu sou melancólico de nascença. E nada melhor para um melancólico do que um fim de tarde chuvoso.

Mas hoje em dia as coisas estão tão ruins, que não se pode mais ser melancólico impunemente. Hoje, quando chove, minha nostalgia é substituída por uma enorme preocupação com os grandes e pequenos desastres que perturbam a vida das pessoas. Ruas alagadas, casas inundadas, carros submersos, pessoas levadas pelas águas revoltas sem vias de escoamento.

Antigamente, depois da chuva, saíamos à rua para apanhar tanajuras e comê-las torradas com farinha. E aceitávamos complacentes a companhia das formigas de asa que rondavam as lâmpadas e eventualmente se afogavam no nosso café. Hoje, saímos para ver as pessoas perambulando desoladas, sem ter a quem cobrar a perda dos seus bens ou dos seus entes queridos.

Não quero perder tempo com os pequenos aborrecimentos das inevitáveis goteiras e infiltrações que perturbam as nossas manhãs depois dos aguaceiros. Isto é nada comparado a quem passou a noite levantando móveis e procurando uma casa de parente para dormir. Só tenho a lamentar quando sei que todo esse sofrimento poderia ser evitado se o dinheiro dos nossos impostos fosse corretamente aplicado em programas de esgotamento, urbanização e limpeza pública.

É uma pena que a suave melancolia da minha infância tenha dado lugar à raiva e à indignação. Gostaria de poder olhar a chuva através de uma janela e poder abrir um livro e tomar um chocolate quente sabendo que na minha cidade, no meu país, em todos os lugares do mundo as pessoas também pudessem olhar a chuva em paz. Apenas melancolicamente.

27 junho 2012

Falta coragem


Eu tinha uns doze anos de idade e minha cabeça de menino já ficava confusa com as coisas que assistia nos comícios do Recife. Cid Sampaio, usineiro candidato ao Governo de Pernambuco, recebia, na carroceria de caminhão que servia de palanque, o apoio de Luís Carlos Prestes, o célebre líder comunista.
Não vou desfiar aqui a lista interminável de conchavos políticos que assisti ao longo de minha já longa vida. Um só deles me serve de exemplo emblemático. Trabalhava numa agência de propaganda encarregada da campanha do MDB em Caruaru, lá pelos anos 70. Estávamos na casa de um dos próceres do partido, esperando que “ele” chegasse para começar a reunião. Passava da meia-noite, quando “ele” chegou. Era justamente o adversário do nosso candidato, disposto a negociar os votos de alguns dos seus currais, já que se considerava antecipadamente derrotado.
Pensava que já tinha visto de tudo neste mundo, quando fui insultado pela mais infame das alianças políticas que jamais esperava testemunhar: Lula buscando o apoio de Maluf numa tentativa desesperada de fazer o PT ganhar a eleição municipal em São Paulo.
E aqui, dentro de casa, me causa nojo a fúria com que antigos aliados demitem seus companheiros de ontem como retaliação à ruptura de acordos
Sempre que escolho um candidato para votar, renovo minhas esperanças de que ele tenha coragem para romper o círculo vicioso dos conchavos para atingir o poder. Espero mesmo que ele esteja disposto a perder a eleição, desde que a campanha sirva para implantar na consciência dos eleitores novos valores éticos. Para tanto, é preciso coragem para romper com os velhos padrões de conchavo e corrupção.
Coragem para ultrapassar este tempo de miséria política, colocando definitivamente em primeiro plano os interesses dos cidadãos que pagam os seus salários. É só isto que espero dos políticos em que voto.  

Imagem obtida em: http://www.jogodopoder.com  

20 junho 2012

Pequenas delicadezas


           
        Quando nos viu procurando a passagem para saber o número do portão de embarque, a mulher da limpeza do aeroporto de Santiago perguntou, solícita, se tínhamos perdido alguma coisa.


Ao me ver em dificuldade para me levantar e entregar o dinheiro das passagens do microônibus, uma senhora do banco da frente apanhou o dinheiro da minha mão e entregou ao motorista.

A moça que nos acompanhava no tour pela vinícola Concha Y Toro ficou todo o tempo de olho na gente e de vez em quando pegava a nossa máquina para uma foto juntos: “Agora uma com vocês brindando...”

O recepcionista do hotel de Santiago me perguntou se eu tinha guardado o dinheiro para o táxi quando fui fechar a conta.

Ao nos ver chegar ao balcão da polícia federal, o policial do aeroporto de Santiago falou: “não precisa dizer nada. São mais dois brasileiros que perderam o formulário de imigração...” E nos atendeu sorrindo.

Quando minha mulher ia em direção ao banheiro do avião, um homem notou que o cordão de um dos seus tênis estava desamarrado. Perguntou se ela queria que ele amarrasse.

O executivo argentino foi solícito em facilitar nosso entendimento com a recepção do hotel em Montevidéu. No outro dia, conversou um pouco sobre sua vida de viajante em vários países de língua portuguesa.

Num restaurante do Mercado Central de Santiago, uma mulher brasileira, numa mesa ao lado, me ofereceu o vinho da sua garrafa quando viu que o meu havia terminado.

Há algum tempo, em Sevilha, ao nos ver olhando para o interior de um pátio tipicamente mourisco, um homem nos incentivou aos gritos: “Entra, entra que és mui belo”.

São cenas simples como estas que me asseguram a existência da delicadeza em qualquer canto do mundo. Por mais que alguns mal intencionados queiram nos fazer temer a proximidade de pessoas de lugares diferentes do nosso, um simples passeio pelas ruas nos mostra o contrário. As pessoas querem nos conhecer, querem nos ajudar e mostrar que, acima de nossas diferenças de lugares, línguas e classes, é possível construir pontes de delicadeza e solidariedade.

Ilustração obtida em: cafeentreamigos.com

09 junho 2012

Trêmula borboleta

 Trêmula e cambaleante, levantou-se com o prato de quibe de forno seguro pelas duas mãos, o que a impedia de evitar que a manta xadrez arrastasse no chão, por mais que tentasse segurá-la com os ombros levantados até o pescoço.


Já livre do quibe, protegeu-se com o cachecol e petrificou-se com a lufada fria que assaltou a cozinha quando abriu a porta para o pequeno quintal lajeado.


Precisou esperar que a vista se acostumasse ao escuro para notar o corpo estendido sobre o limo das lajotas no ângulo esquerdo do quintal. Seria um homem, se não fossem as grandes asas abertas ensopadas da chuva que caiu durante toda a tarde.


Tremeu e cambaleou até a gaveta da petisqueira de onde tirou uma vela e uma caixa de fósforos. Acendeu a vela e voltou para o quintal. Debruçou-se sobre o corpo alado e a mão trêmula deixou cair um pingo de cera sobre o peito do estranho visitante. Dois olhos cinzentos recém abertos pousaram no pulso iluminado pela vela. Ali estava tatuada uma minúscula borboleta.


Você de novo, meu amor?disse o alado, é a segunda vez que você me acorda com um pingo de cera. E fez menção de segurá-la pelo braço. Mas ela fugiu arrastando a manta pelas lajotas molhadas até trancar-se na cozinha. E ali ficou, trêmula, ouvindo os passos cambaleantes que alcançaram a porta. E mais tremeu quando, depois das pancadas na porta, ouviu uma voz estranha, estrangeira, gritar: Psiché... Psiché...

(Escrito em parceria com Marina e Carolina, em Moema, Cidade de São Paulo).

03 junho 2012

Querida Evalúcia



Agradeço de todo o coração a sua amável cartinha em que me inclui na lista dos privilegiados que em breve vão ficar ricos. A sua Proposta de Trabalho Independente em Casa é irrecusável. Você me promete uma ajuda de custo inicial de 500 reais e depois me acena com a possibilidade de ganhar um notebook. Se eu me empenhar no trabalho, posso até ganhar uma ajuda de 1.200 reais além da possibilidade de alcançar uma situação financeira estável e segura.

Só o que eu não entendi, querida amiga, é porque eu tenho que pagar R$ 99,90 (cem reais, na realidade) para receber o material inicial de trabalho e treinamento. Se a tal de Cintra e Rezende Consultoria em Recursos Humanos Ltda. me oferece tantas vantagens assim, por que diabos ela precisa desse meu dinheiro? Nenhuma empresa em que trabalhei me pediu qualquer quantia pelo material de trabalho ou treinamento necessários ao desempenho das minhas funções.

Deixa ver se entendo bem: você me escreve do Piauí em nome de uma empresa que tem sede na cidade de Franca, em São Paulo. Se o trabalho que vocês me propõem é o envio de mala-direta, eu tenho todo o direito de pensar que o trabalho seja exatamente este que você fez: mandar malas-diretas para o maior número possível de pessoas, na esperança de que algum otário acredite nas suas promessas de enriquecimento e pague o boleto de cobrança com a primeira parcela da inscrição.

Minha querida Evalúcia: se é que você realmente existe e não seja apenas mais um engodo dessa tal Cintra e Rezende, use a sua letra redonda e elegante de professora primária para fins mais construtivos. Arranjar um namorado, por exemplo. E se você continuar insistindo em rastrear os incautos para esta arapuca, lembre-se que o inferno é muitíssimo mais quente do que a sua querida Curimatá, no Piauí. E que o diabo reserva castigos especiais para quem tenta ser mais esperto do que ele.

Foto: Ivan de Paula

30 maio 2012

Vida


Minha neta mais velha, de quatro anos, está doida para aprender a ler. Anda com um livro de astrologia debaixo do braço e diz que é o seu livro de poemas. Abriu o livro e me pediu para ler “Menina de noite”, um poema que fiz quando ela nasceu. Não sabia o poema de cor e disse que ele não estava naquele livro. Então ela me pediu para ler outro poema que estivesse ali. Tentei sair da situação lendo uma palavra de cada linha, tecendo um poema meio absurdo que às vezes fazia algum sentido. A coisa ia caminhando bem até ela me interromper, querendo saber o que significava a última palavra que tinha lido. Uma palavra simples, de apenas quatro letras e que usamos a torto e a direito: vida.

Em minhas muitas décadas de prática didática, nunca tive tanta dificuldade em explicar o significado de uma palavra. Se você duvida, tente traduzir para uma criança de quatro anos o que o dicionário diz sobre este pequeno substantivo: “Conjunto de propriedades e qualidades graças às quais animais e plantas, ao contrário dos organismos mortos ou da matéria bruta, se mantêm em contínua atividade, manifestada em funções orgânicas tais como o metabolismo, o crescimento, a reação a estímulos, a adaptação ao meio, a reprodução, e outras.”

Depois de várias tentativas infrutíferas, disse, com um certo temor de amedrontá-la, que quem não está vivo, está morto. Foi apenas quando a expressão de minha neta revelou que ela tinha se dado por satisfeita.
É claro que o termo pode significar muitas coisas. Podemos dizer que aquela moça é cheia de vida, reclamar que a vida é dura, que acabou a vida útil da bateria do celular, que a minha vida era um palco iluminado. Mas nada pode nos dar um sentido mais claro da vida do que quando pensamos nela como o período que vai do nascimento até a morte.  No final de tudo, vale apenas o poema que conseguirmos escrever com as palavras ofertadas a cada dia nas linhas tortas da nossa existência.

23 maio 2012

Posso ajudar?


Não adianta comprar montanhas de livros, assistir centenas de palestras, ler milhares de mensagens na internet. A auto-ajuda não funciona. Por uma questão muito simples: desde o momento em que nasce, o ser humano precisa do outro para sobreviver.

Um potro, ou um bezerro, quando nasce, levanta-se imediatamente e vai em direção ao peito da mãe fazer a sua primeira refeição. Você, cara leitora, caro leitor, se for deixado sozinho no lugar em que nasceu, a única coisa que será capaz de fazer é chorar até morrer. Por muito tempo você vai precisar de alguém, de preferência sua mãe, para pegar você e botar para mamar.

O que eu quero deixar claro é que todos nós, sem exceção, somos desamparados desde o berço até o leito de morte. A auto-suficiência humana é uma ilusão bastante conhecida como narcisismo. Não podemos, portanto, prescindir dos outros em nenhum momento de nossas vidas.

Se você já abriu um livro de auto-ajuda, deve ter reparado como as receitas de felicidade são simples e fáceis de encontrar, como qualquer produto vendido nos supermercados. A simplicidade das frases tem um objetivo definido: nos colocar num nível de infantilidade para então exercer um fascínio que nos enreda em suas teias, como um sedutor de menores. Isto causa uma dependência que faz com que o leitor, mesmo depois de constatar que a fórmula mágica não funciona, parta em busca de outro embusteiro, como um viciado que precisa sempre de uma dose mais forte da droga da qual depende.

Ajudar é um verbo transitivo. Requer uma segunda pessoa que ajude ou receba ajuda. Para isto existem os amigos, os familiares, os colegas de classe e de profissão. Para isto existem os vizinhos, os que visitam nossas casas, nossas cidades. Para isto existe a humanidade inteira, este bando imenso de desamparados à espera de um movimento global de solidariedade que nos resgate a todos da solidão e da miséria.