25 julho 2007

Tremendo nas bases


Estava vendo na MTV um especial sobre a cultura hip hop no Brasil e no mundo. Um dos entrevistados era o MV Bill, aquele do documentário sobre os falcões do tráfico. A certa altura do depoimento dele, começou a pipocar uns tiros, não se sabe onde. MV Bill parou a entrevista, ficou teso e falou com um tremor na voz: “assim é foda, cara. A gente tá aqui dando entrevista, fazendo oficina e os caras já entram atirando. Dá vontade de largar de vez essa porra”.

Aí eu fiquei pensando: se um negão desse tamanho, conhecedor profundo da cultura da violência em todas as favelas do Brasil, treme nas bases quando escuta um tiroteio, o que será que sente uma pessoa comum, uma mãe, uma criança, quando a chapa esquenta e a bala canta.

Não ficou claro no vídeo se os tiros eram da polícia ou de uma gang. Tanto faz. A violência é a mesma. Uma bala perdida encontra sempre um endereço de chegada.

Aprendi a gostar do MV Bill depois que li “Cabeça de Porco”, o livro escrito por ele, o seu empresário Celso Athayde e o sociólogo Luiz Eduardo Soares. Tremi nas bases quando li seu desabafo final: “Ver esses jovens alucinados se autodestruindo é como ver uma bomba ser detonada e começar a contar para então juntar os cacos. É essa a sensação que tenho, uma bomba que vai explodir”.

Estamos em plena explosão. Por isso trememos nas bases. Os cacos estão espalhados por aí, esperando ser juntados.

24 julho 2007

Solução

Finalmente o Governo identificou os culpados pela crise aérea brasileira: os pobres. Há um excesso de pobres andando de avião. A solução do problema é a mais lógica possível: aumente-se o preço das passagens de avião. Os pobres que voltem a sacolejar nas estradas esburacadas do País. E quando as estradas se apinharem de pobres, aumente-se o preço das passagens de ônibus. E se os pobres insistirem em sair às ruas a pé, aumente-se o preço das sandálias de tirinha. Este País só suporta um punhado de ricos e um pouco de classe média. O resto é sobra, sobejo, excrescência. Destino de pobre é matar um ao outro nas quebradas da periferia. Qualquer dia o Governo aumenta o preço da cova.

23 julho 2007

Linguagem oficial




Uma Ministra de Estado aconselha que as vítimas do apagão aéreo relaxem e gozem.
O Secretário de Segurança da Paraíba chama indiscriminadamente de cagões seus subordinados da Polícia Militar.
Dois assessores do Presidente da República fazem um gesto obsceno em frente às câmeras depois de ouvirem uma notícia que supostamente desculpava o Governo pela tragédia no aeroporto de Congonhas.
Como a Ministra queixa-se de ser sexóloga, deve conhecer o teor total do ditado popular: “Se o estupro é inevitável, relaxe e goze”. Assim, revela-se o seu verdadeiro desejo.
Como o Secretário de Segurança é um jurista respeitado, deve saber a exata medida do nível de insubordinação causado pelo seu destempero verbal.
Os assessores presidenciais devem estar preparados para a repercussão do seu gesto transmitido em cadeia para todo o País.
Todos eles, por certo, têm consciência do quanto contribuíram para o desgaste do combalido prestígio da classe política brasileira.
Resta apenas recomendar que se tirem as crianças da sala na hora do noticiário político e que jornais e revistas de informação sejam lidos na calada da noite, de preferência no banheiro, com a porta trancada a chave.

Ilustração: Henfil

19 julho 2007

Convite

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18 julho 2007

Fonte


Teus sonhos não são enigmas.
Olha-os com calma:
Eles são a fonte dos enigmas.
Tua fonte.

Não busques, portanto,
o sentido dos teus sonhos.

Dorme, apenas.

E deixa que desfilem
teu mistério
no chão do sono.
Ilustração: Klimt, Serpentes de Água II.

17 julho 2007

Raccolta - Colheita



Raccolta

Nella terra silenziosa degli affetti
fu piantato un seme piccolo di parola.
Voci amorevoli
bagnarono il suolo dove spuntò
il nuovo verbo,
bello
succulento.

Oggi,
quelli che hanno fame di poesia
si siedono vicino all'arbusto
già frondoso
e dividono il frutto generoso
della parola parlata.

Tradução: Rosella - http://bottega27.splinder.com/post/13114210

Colheita

Na terra silenciosa dos afetos
plantou-se um grão pequeno de palavra.

Vozes cuidadosas
regaram o chão de onde brotou
o verbo novo,
belo
suculento.

Hoje,
os que têm fome de poesia
sentam-se em volta do arbusto
já frondoso
e repartem o fruto generoso
da palavra plantada.


Ao Projeto Palavra Plantada que há dois anos alimenta aos que têm fome de poesia.

13 julho 2007

Limpo


A lavadeira caminhava em minha frente. O braço esquerdo apoiava um pequeno volume de roupas coberto com um pano muito alvo. A mão direita segurava quatro cabides, cada um com uma camisa masculina. Todas limpas. Podia imaginar o cheiro bom do tecido lavado e passado com cuidado.
Não sabia de quem eram as roupas. Não podia imaginar o teor do trabalho que as havia sujado. Nem me interessava. Olhava apenas com carinho para aquela mulher que exibia na rua o resultado do seu trabalho. E me senti confortado com a sua existência, mesmo sabendo do quanto seu esforço era mal recompensado.
Essa é uma das injustiças do mundo: os que limpam ganham muito menos do que os que sujam. E é muito mais fácil sujar. Basta ver o pouco esforço que requer jogar uma lata de cerveja pela janela do carro, difamar injustamente um semelhante, fraudar uma assinatura, assaltar um aposentado na porta de um banco.
A operária do limpo ia entregar o fruto do seu trabalho sabendo que na outra semana tudo estará sujo outra vez. E ela novamente limpará. Há uma lição a aprender aí, por quem se ocupa com a limpeza do mundo. É um trabalho sem descanso, pois tem mais gente sujando que limpando.

Ilustração obtida em http://josesobrinho.planetaclix.pt/profissoes/lavadeiras.html

27 junho 2007

Gente de outra laia



Tenho muitos amigos, conheço muita gente. E me alegra muito poder afirmar que pouquíssimos, muito poucos deles se enquadrariam minimamente na rubrica de ladrão ou corrupto. Defeitos, sim, eles têm muitos. Uns bebem demais, outros gostam de puxar briga, alguns não param no emprego, outras gostam de mandar no marido. Mas no fundo é tudo gente boa. Mesmo os poucos que entraram na política ainda não me deram motivos para romper a amizade.
Falo isso para me defender da enxurrada de notícias ruins que encharca meu humor nos últimos dias. Não, insisto, as pessoas que conheço não são dessa laia que rouba, corrompe, extorque, trapaceia. Recuso-me categoricamente a aceitar como normal esse tipo de comportamento delinqüente. Meus amigos não são assim. As pessoas que encontro na rua, na feira, no bar, na farmácia, também não se enquadram nessa categoria. É gente que dá duro, que paga imposto, que devolve o troco a mais, que espera na fila, que recusa o favorzinho ilícito.
Do pouco que conheço da alma humana, sei o quanto é difícil abrir mão dos nossos impulsos para levar a melhor, sem considerar os direitos dos nossos semelhantes. Sei o preço que pagamos para submeter nossos desejos individuais aos interesses da coletividade. Tem gente que só faz isso obrigado pela polícia. Outros precisam de um rígido código moral que os prendam por dentro. Alguns desenvolvem uma ética racional que conduz à solidariedade e ao respeito aos semelhantes.
Existem, pois, níveis de consciência em relação ao respeito devido ao bem comum. Mas o que essa cambada que nos tira o sono quer nos convencer é da normalidade de suas condutas. Não, meus amigos não são assim. A maioria das pessoas que conheço é de outra laia. Uma laia do bem, sem vocação para freqüentar a sessão policial que se mudou para a primeira página dos jornais.
Foto: Clube do Conto da Paraíba

25 junho 2007

Perdas e esquecimentos


O poeta Lúcio Lins perdia astrolábios. O poeta Antônio Mariano esquece guardas-chuva. Tristes, os poetas, fadados a viver entre perdas e esquecimentos. Por isso o poeta necessita dos sonhos para resgatar o que perde e esquece. Para João Cabral, O sonho é uma obra nascida do sono, feita para nosso uso. Uma coisa que pode ser evocada, explorada através da memória. “Um poema que nos comoverá todas as vezes que sobre nós mesmos exercermos um esforço de reconstituição”.
Território estranho, este, o do sono. Mais estranho ainda por se localizar dentro de quem dorme. E, dormindo, contemplamos o chão do sono, a verdadeira pátria do estrangeiro, desse outro estranho a quem assistimos desde o nosso posto de contemplação. Daí, para Cabral, a nostalgia do mar alto, das águas profundas que trazemos de volta ao acordar. Que estranho este que somos nós.
Num dos seus raros momentos de modéstia, Freud disse: “seja qual for o caminho que eu escolher, um poeta já passou por ele antes de mim”. E se aproxima dos poetas quando diz que toda noite, o homem despe-se dos envoltórios que cobrem sua pele, despoja-se dos complementos que substituem as deficiências dos seus órgãos e renuncia à maior parte das aquisições da sua alma para assim, despido do que lhe é supérfluo, se aproximar do ponto de partida de sua existência: o ventre materno.
O homem que dorme, portanto, volta-se para a noite primordial, silenciosa e calma, da qual foi definitivamente exilado. Todas as noites, o homem pode ainda matar as saudades desse território perdido. Mas vendo-o apenas de longe, olhando para o seu chão sem tocá-lo. É desse chão que ele vê brotar as imagens dos seus sonhos, recados enigmáticos da sua pátria originária para a qual sabe que nunca voltará.
Desta forma, todos nós somos poetas. Fadados a viver entre perdas e esquecimentos. Resta-nos apenas ficar atentos aos sonhos e poemas que a noite trama dentro de nós.

22 junho 2007

Os neutros




Fui comprar xerém pra fazer angu. Num mercadinho no meio da feira, bisbilhotei uma conversa entre dois rapazes que me atendiam. Criticavam um terceiro por ser “aquela coisa” e ao mesmo tempo pertencer a uma seita neopentecostal. Não podia. Só se fizesse como um outro que se arrependeu do seu pecado e agora era neutro. Belo eufemismo. Foi preciso comprar xerém para aprender que os enrustidos agora são neutros. Como se alguém pudesse ser indiferente à sua sexualidade.

A conversa entre os rapazes do mercadinho não era casual. Ela apenas refletia um movimento local contra o homossexualismo, com out-doors, passeatas e matéria paga em jornais alertando contra o perigo da aprovação no Congresso de uma lei que criminaliza as expressões de preconceito contra as opções sexuais. Como não poderia deixar de ser, o Arcebispo enviou uma carta de apoio à iniciativa dos concorrentes.

Para engrossar o caldo dos preconceitos, um Secretário de Estado, no meio de um seminário contra a violência, reclama que uma mulher, agora, “por qualquer tapinha, vai querer ser sustentada pelo Estado”. Este é o argumento da autoridade contra a manutenção de casas de acolhimento para mulheres vítimas de violência. Aproveitou ainda a oportunidade para declarar que a “homossexualidade é antinatural, fruto de famílias desestruturadas”.

Na secular parceria entre Igreja e Estado, são sempre os membros mais frágeis da sociedade que acabam nas fogueiras, nas masmorras ou na execração. Quando viu seus livros queimados pela turba nazista, Freud comentou com ironia que a humanidade havia progredido muito. Antes, seria ele a arder na fogueira. Tentando ser neutro, não podia ou não queria antever o destino que mais tarde seria dado a muitos de sua etnia.

O rosnar que se avoluma pode muito bem ser o anúncio de ações mais efetivas de discriminação contra os homossexuais. O que exige de cada um de nós uma clara tomada de posição. Aqui, como em tudo na vida, não há lugar para a neutralidade.

Foto obtida em www.overmundo.com.br - autor não identificado

17 junho 2007

Minhas ruínas




Desde que me mudei para este apartamento, decidi não ter mais saudade. Ele é pequeno. Não suporta o monte de lembranças que acumulei nesta vida já grisalha.
Uma a uma, vou apagando as imagens dos lugares por onde me gastei. Meu HD não tem espaço para tanto arquivo. Grande invenção esta tecla de deletar.

Como vêem, decidi aderir à contemporaneidade. E ser contemporâneo inclui não ter passado. Não existe, portanto, nunca existiu, a casa de onde eu vim de mala e cuia, deixando lá tudo o que acumulei nos últimos anos. Alguns livros, muitos discos e um amor também fora de moda.

Pela ordem, resolvi me livrar também das casas onde nasci, me criei, cresci e me fiz homem. Esta última não deu muito trabalho, pois já não existia de fato, demolida que foi, junto com todo o quarteirão, para dar lugar a um supermercado. As outras, nunca mais as vi. Devem ter tido destinos semelhantes. Neopentecostais, provavelmente, hoje esbravejam aos céus em espaços superpostos aos que foram meus.

Para fazer o serviço bem feito, joguei fora também as praças, os cinemas, os bailes, os campos de pelada, os bares, as salas de aula, todo e qualquer lugar antigo que possa roubar o exíguo tempo que decidi ocupar com novidades.

Grande invenção esta tecla de deletar. Deixou minha memória limpa de todo entulho que me ligava ao passado. Mas o que é, verdadeiramente, o passado? O que não se passou, mas fica, é passado? O que não aconteceu, mas dói, é lembrança?

Uma casa em ruínas insiste na memória, só porque uma moldura pendurada na parede da sala da minha infância a guardava como a um quadro precioso. E mais fica marcada porque naquela mesma sala ouvia-se no rádio uma novela chamada A casa do ódio. Quando a sala estava vazia, eu passava com medo pela gravura, pois, para mim, aquela era A casa do ódio.

Agora, quando nenhuma casa mais me resta na memória, restam estas ruínas de uma casa que não foi minha, mas que está entranhada em mim. Resta este ódio que nunca senti por ninguém, nem ninguém sentiu por mim. E o que eu quero e não vou nunca conseguir é voltar para aquela casa antes das ruínas. Para saber quem lá vivia e porque se odiavam. Saber se lá vivi e se lá me odiavam. Saber porque estas ruínas resistem ao meu projeto de desmemoriamento e insistem em me lembrar deste sentimento ruim, o único que ficou de todos os que feriram minha carne.


Clube do Conto,15.06.07

Imagem obtida em www.brasilvision.com.br

09 junho 2007

Ao Pó


Tu és pó e ao pó voltarás. Disse isto em frente ao espelho da penteadeira, já com a esponja de pó de arroz pronta para passar no rosto. Demorou-se um pouco com a mão suspensa, resignada com o tempo que se recusava a entrar também em suspensão.

Quem disse que não se pode ver o tempo? Ela o via ali, em sua frente, refletido no espelho oval do móvel antigo. O tempo tinha a sua cara. Ali estava escrito o passar das horas, dias, anos, décadas de uma vida às vezes bem vivida. Ali também estavam os traços de outras vidas, herança confirmada pelos álbuns de fotografia.

Olhava o tempo em sua frente sem remorsos. Tentou lutar contra ele e perdeu. Gastou fortunas com cremes milagrosos. Desperdiçou safras de pepino em rodelas. Paralisou-se com litros de botox. Chegou até pegar o número do cirurgião plástico. Mas não passou daí.

Olhava agora de frente para o tempo. Até gostava um pouco do que via. Cada marca daquela era uma letra do poema que o tempo escrevera no seu rosto. Não queria apagá-lo, voltar a ser uma folha em branco.

O que não precisava era que o poema fosse exposto nos mínimos detalhes aos transeuntes. Um pouco de mistério nunca fez mal a ninguém. E para isso tinha o bom e velho pó de arroz.


Clube do conto, 08 de junho de 2007.

30 maio 2007

Raccolta - Colheita



Raccolta

Nella terra silenziosa degli affetti
fu piantato un seme piccolo di parola.
Voci amorevoli
bagnarono il suolo dove spuntò
il nuovo verbo,
bello
succulento.

Oggi,
quelli che hanno fame di poesia
si siedono vicino all'arbusto
già frondoso
e dividono il frutto generoso
della parola parlata.

Tradução: Rosella - http://bottega27.splinder.com/post/13114210

Colheita

Na terra silenciosa dos afetos
plantou-se um grão pequeno de palavra.

Vozes cuidadosas
regaram o chão de onde brotou
o verbo novo,
belo
suculento.

Hoje,
os que têm fome de poesia
sentam-se em volta do arbusto
já frondoso
e repartem o fruto generoso
da palavra plantada.


Ao Projeto Palavra Plantada que há dois anos alimenta aos que têm fome de poesia.

De Noite


Ela era De Noite, como eram De Fátima, Da Guia, Das Dores, Dos Prazeres.
Ela era De Noite, como eram as corujas, os morcegos, os bacuraus, os pirilampos.
Só saía de noite, como a lua, as estrelas, o lobisomem e as almas penadas.
Era De Noite quem passava agora, vinda não se sabe de onde. Era De Noite que já ia longe, não se sabe pra onde, não se sabe pra quem.
Era De Noite que ele queria. Era De Noite que não o queria, que passava por ele sem olhar, deixando um rastro de cheiro de carne negra. Que era negra, De Noite.
Negra ficou-lhe a vista, turvada pela ânsia da noite que morava no canto mais escuro do corpo de De Noite. Do corpo que sumia fundido com a noite.
DE NOITE, DE NOITE, gritava para as casas pesadas de sono.
De Noite, De Noite, soluçava para dentro de si, na mais completa escuridão.

Clube do Conto, 30.05.2007

Foto obtida in ribeiranegra.blogspot.com/2006_09_01_archive.html

20 maio 2007

Paralelas



Ela ia por um lado da calçada.
Ele ia na calçada do outro lado.

Ela de terninho e salto alto.
Ele de tênis, jeans e camiseta.

Ela olhou para ele invejosa.
Ele olhou para ela com cobiça.

Ela olhou o relógio e teve pressa.
Ele viu, pelas sombras, que era cedo.

O sinal de pedestres ficou verde.
O desejo dos dois ficou maduro.

Ela pisou na faixa com cuidado.
Ele fez da calçada um trampolim.

No rio sem nexo dos corpos mergulharam
dois corpos que se buscam e se erram.

O que tentaram fazer foi proibido
Pelo atropelo da humana correnteza.

E o que tentaram dizer foi abafado
pelo carrinho de CD pirata.

E cada um foi arrastado ao lado oposto,
vazio do objeto desejado.

Ele pediu com a mão uma promessa.
Ela acenou adeus e foi-se embora.

Já tinham dado na curta caminhada
Todos os passos do amor que o amor passa.


Ilustração:Av. Paulista, 1891. Aquarela sobre papel de Jules Martin, in http://www.webwriter.jor.br/

15 maio 2007

Nudez








Um dia cairá de teus ombros
o manto da memória.

Despida de ti,
entrará tua alma na mansão dos mortos
ao derradeiro som do remo de Caronte
que volta
para apagar os teus vestígios pelo mundo.


Imagem obtida em www.codexart.net. Autor não identificado.

13 maio 2007

Porteiros do inferno



Em 1960, o artista plástico Jackson Ribeiro ganhou uma bolsa do Governo da Paraíba para aprimorar sua arte na Europa. De volta, para pagar sua dívida com o Estado, criou uma escultura em ferro, sólida e imponente, que foi instalada em 1967 num canteiro entre um templo batista e uma faculdade de filosofia. Logo, o escritor Virginius da Gama e Melo batizou a obra de Porteiro do Inferno, por ter, sabe Deus como, encontrado alguma semelhança entre a peça e o tenebroso Cérbero.
Pela mesma época da inauguração do monumento, ocorria o Concílio Vaticano II, em que a Igreja Católica se abria para o mundo contemporâneo, tendo como uma de suas decisões o uso das línguas vernáculas em seus ofícios. Mas aí aconteceu uma coisa curiosa. Todo mundo se lembra que no “Credo dos apóstolos”, o antigo texto em latim descendit ad infernos, era traduzido por nossas mães, quando rezavam o Terço, pela expressão "desceu aos infernos". Seguindo a orientação do Concílio, o inferno do Credo foi substituído por mansão dos mortos. De uma forma ou de outra, o inferno sempre foi um postulado religioso e nem o Filho de Deus teria escapado de conhecê-lo, ainda que numa curta estada de três dias.
Voltando ao nosso Porteiro, depois de trinta anos postado entre a fé e a filosofia, foi retirado para restauração e nunca mais voltou ao seu antigo posto. Dizem que foi pressão da Igreja Batista, que em seu lugar pretendia construir um monumento à Bíblia. Ficou enferrujando num depósito da Prefeitura de João Pessoa até ser transferido para o Espaço Cultural, depois da morte do autor.
Coube à atual gestão da Prefeitura devolver o Porteiro às ruas da Cidade. Tentou colocá-lo em um cruzamento entre os bairros do Cabo Branco e do Altiplano. Veio o pároco local e conseguiu expulsar o Porteiro da sua encruzilhada.
O inferno astral da escultura parecia ter chegado ao fim com a sua instalação num espaço em frente à Universidade Federal da Paraíba. Ali, pensava-se, a cultura e a ciência o protegeriam das investidas da intolerância. Ledo engano. O presidente da Associação dos Moradores e Amigos do Castelo Branco, bairro onde se localiza a Universidade, fez um abaixo assinado junto à paróquia e igrejas evangélicas da localidade para que a Prefeitura expulse o Porteiro do seu último endereço.
Se esses supostos representantes do povo e de Deus tivessem um pouco de cultura e menos má fé, saberiam dizer aos seus associados e fiéis que Cérbero, o porteiro do inferno da mitologia grega, era encarregado de impedir a fuga dos que já se encontravam lá dentro. Pois ninguém, de posse de seu juízo, desejaria entrar no inferno por livre e espontânea vontade.
É fácil, pois, revelar quem são os verdadeiros porteiros do inferno. São todos os líderes comunitários e religiosos que impedem a qualquer custo que as pessoas fujam das caldeiras da ignorância e da intolerância onde cozinham o caldo negro com que alimentam seus sonhos de poder e vaidade.

08 maio 2007

Fúcsia


Acordei de manhãzinha, ainda madrugada. E como não queria sair da cama, peguei o novo livro de poemas de Vitória Lima para ler. Os olhos sonolentos se ofuscaram com a cor que escapava do título do livro: Fúcsia*.
Mais do que uma cor, fúcsia nomeia um livro sobre uma cor. Mas apenas um poema em todo o livro é dedicado a esta cor:

da paleta dos jambeiros
sai o fúcsia que
pinta & borda
as calçadas dos setembros.

Portanto, não é por conta deste belo e conciso poema que o livro se chama Fúcsia. Mais do que um livro sobre uma cor, Fúcsia é escrito sob a égide desta cor. Porque Vitória Lima é, ela própria, toda fúcsia. Para além do batom, Vitória é toda feita com esta cor que sai de sua paleta de palavras para pintar e bordar as calçadas por onde passeiam nossos sonhos.
Como já disse, li o livro de manhãzinha, fim de madrugada. Ainda em estado de sono, os poemas foram se moldando àquele clima denso dos restos de sonhos e se misturaram com eles. Saí da cama com o livro flutuando entre as paredes que protegem os sonhos e com eles se fechou quando tive que me declarar desperto. Agora, sei que seus versos estão dentro de mim, irmãos dos meus sonhos, prontos para despertarem sonâmbulos, quando mais uma vez for dormir. E meus sonhos terão a cor fúcsia.

*Edições João Pessoa: Linha D’água, 2007.

06 maio 2007

As grandes decisões


Acompanhemos aquele homem que caminha pela praia. Veja que não falei que ele anda ou passeia. Caminhar, hoje em dia, na praia ou em qualquer outro lugar, tem um sentido preciso de prescrição médica. Seu colesterol está alto, você precisa caminhar. A ordem está dada. O problema é tomar a decisão de cumpri-la. Segunda-feira começo, diz o homem, seguro dessa primeira tomada de posição. O próximo ponto a decidir é qual a segunda-feira em que começará.
Mas se já o estamos vendo caminhar é porque, de uma forma ou de outra, tal decisão já foi tomada. Precisamos agora acompanhá-lo mais de perto, pois a qualquer instante terá de tomar uma das mais difíceis decisões de sua vida: girar o corpo e fazer o caminho de volta. Quem caminha só, sabe o quanto é difícil decidir o momento e o lugar dessa meia-volta. Isto porque não há nenhuma convenção, nenhum acordo, nenhum condicionante exterior à decisão. Neste momento o homem está só e inseguro. O seu olhar para os circundantes é de puro desamparo.
Chamo agora a atenção para a desenvoltura com que os homens públicos tomam suas decisões. Vamos exterminar os judeus. Vamos invadir o Iraque. Vamos confiscar a poupança dessa cambada. Vamos elevar a taxa de juros. Vamos fazer caixa dois e mentir para esses otários nos elegerem novamente. Diferentemente do nosso caminhante da praia, o homem público nunca está só. Há sempre um grupo interessado em se locupletar com a sua decisão. Outra diferença é que suas decisões nunca o implicam pessoalmente. Ele não é judeu, não vive no Iraque, não é burro para ter poupança em banco nacional, há sempre um jeito de se ganhar alguma coisa com a inflação e, se não for reeleito, haverá sempre um lugar para ele e seus afilhados em alguma estatal.
Só e entregue à angústia de sua decisão, o homem da praia tem um privilégio que nenhum homem público jamais desfrutará. Pelo menos ali e então, ele prova a liberdade de decidir sobre o seu próprio destino.
Foto obtida no contecomigo.uniblog.com.br

04 maio 2007

A arte do cuidado



Você pode estudar muito e se tornar um bom médico, um ótimo psicólogo, um excelente enfermeiro. Mas não tem livro que ensine você a cuidar dos outros.
O cuidado é uma arte cada vez mais rara entre as pessoas. E quase inexistente entre os profissionais da saúde. Uns alegam falta de tempo. Outros se bastam com sua competência técnica. Outros ainda se deleitam sadicamente com o poder que exercem, aumentando deliberadamente o sofrimento alheio.
Considero-me privilegiado quando encontro quem cuide de mim para além de meus achaques físicos. Quando sinto que a escuta ultrapassa a fronteira da minha anatomia e suas mazelas e se abre para toda a dimensão da minha existência.
Estou tocando neste assunto porque hoje é o aniversário de uma dessas artistas do cuidado. Uma que, antes de bisbilhotar sobre os estragos do tempo e do mal uso nesta frágil carcaça, abre-me um sorriso que me assegura que cuidará de mim, seja lá o que eu tenha feito de ruim com o meu fígado.
Alguns a chamam de Doutora Fátima. Eu me reservo o direito de chamá-la de Madame Duques. De um modo ou de outro, é a melhor pessoa que me ocorre chamar quando estou precisando de cuidado.

Foto retirada do blog "Andreye World".