03 setembro 2007

Estação


Ali, na estação, a vida parecia uma mágica. A plataforma amanhecia vazia de gente e de coisas. O chefe da estação, com sua farda de mescla azul e o boné bem assentado na cabeça, abria o armazém, dava ordens para o encarregado e ia sentar perto da janelinha de onde vendia os bilhetes de papelão, parecidos com pedras de dominó. Ida, só uma cor. Ida e volta, duas cores, metade verde, metade na cor natural do cartão. O toc-toc curioso do telégrafo, com aquela fita de papel cheia de furos. A cabeça meio inclinada do telegrafista, seu olhar distante como se visse a outra pessoa que mandava a mensagem. Aquele toc-toc era a voz das letras que se somavam em palavras. Aquilo sim, era um dos grandes mistérios da vida. As palavras vinham pelo fio, cortadas em pedaços que um homem juntava de novo na penumbra do escritório da estação.
Aos poucos, iam chegando os vendedores. Tabuleiros com laranjas descascadas, cocadas brancas e queimadas, pirulitos enfiados nos buraquinhos da tábua, difíceis de desgrudar do papel. Água fria nas quartinhas, pão doce, pão sovado, bolo de goma. Encostados na parede ou sentados no chão, ficavam por ali, meio calados, na espera. Lá pelas oito e meia iam chegando os viajantes. Famílias inteiras em roupa de passeio, caixeiros em ternos amassados, soldados da polícia, casais de olhares tristes, velhotes engomados, senhoras empoadas. Com o passar dos minutos um certo nervosismo vai aos poucos tomando conta da plataforma. As conversas se apressam e as vozes se alteiam, os casais andam pra lá e pra cá, os velhotes tossem, as senhoras suspiram, os caixeiros passam lenços amassados nos rostos suados, soldados olham para os lados em espreita. Os vendedores se impacientam. Os em pé trocam as pernas que se apóiam na parede. Os sentados arrastam os calcanhares no chão, subindo e descendo os joelhos. É o trem que vem vindo. Ninguém ainda vê, nem se ouve o apito. Mas é a hora que chega. Antes do trem vem o tempo que antecipa os adeuses, os cuidados, os recados, os mandares de lembranças. Antes do trem vem a angústia de quem vai ou fica. Lá vem, alguém grita, e estoura o alvoroço. Os vendedores entram em prontidão e começam a gritar os seus refrões muito antes do trem chegar na estação. Ninguém sabe muito bem o que fazer, mas todo mundo quer fazer alguma coisa. Gestos descabidos, palavras desconexas, olhares fugidios, toda uma série de atos sem sentido, que só vão querer dizer alguma coisa quando o trem partir as correntes que amarram os que vão e os que ficam.
(...) Maletas e pacotes não se despedem, não juram amor, nem mandam recados. As caixas e sacos, arrumados no vagão de cargas, deixam menos saudades ainda. Daqui a pouco, quando o trem virar a primeira curva, o silêncio varrerá os sentimentos da plataforma. O toc-toc do telégrafo será a única presença do mistério das palavras.
Do romance Memória do fogo. Editora Objetiva, 2006
Ilustração recolhida em http://www.sergiosakoll.com.br/

26 agosto 2007

visita


Ela apenas sabia que era hoje. Não perguntem como ela sabia. Nenhum dado objetivo, nenhum aviso direto. Ela sabia. Uma certa languidez, um quase calafrio intermitente, uma leve nostalgia de paisagens vastas e indefinidas. Não queiram saber. Ela apenas sabia. Era hoje.
E como era hoje, ela tomou um longo banho morno, vestiu a longa camisola de seda branca, escovou os cabelos, molhou nuca e braços com água de colônia, fechou a porta do quarto com chave, vasculhou a rua oito andares abaixo, juntou as duas bandas de vidro da janela, deitou na cama de lençóis recém trocados, apagou a luz e dormiu.
Dormiu e sonhou com fogos de artifício, com cavalos correndo fogosos por prados, com círculos de dança ao redor de fogueira, com águas ardentes queimando docemente suas vísceras.
Acordou com a luz da manhã nascendo no seu rosto. O cabelo em desalinho, a camisola deslizada aos pés da cama, uma fadiga tênue nos músculos.
Ela sabia. Tinha sido há pouco. Um rumor de asas afastava-se da janela aberta.

21 agosto 2007

Fracasso


Vamos ter um pouco de coragem e olhar para o mundo em nossa volta. Quem são estes seres estranhos que erram sem nenhum sentido pela face da terra? Com que nome nomeá-los? Humanos? Somos seres humanos?
Somos, sim. Este é o nome do animal que erra para cada vez mais longe da sua animalidade. Um animal tem seus instintos para garantir seus padrões de conduta na preservação dos indivíduos e da espécie. O ser humano perdeu seus instintos, tornou-se um ser de cultura, movido por suas pulsões. Uma pulsão de vida e uma pulsão de morte.
A pulsão de vida, também chamada de eros, é aquela que agrega, que nos assegura a unidade do ser e nos faz procurar o outro. A pulsão de morte é a que separa o que não serve mais para continuar unido. Quando eros exagera em sua compulsão à ligação, é necessário que a sua irmã gêmea entre em ação, desligando os elementos, deixando-os livres para um novo trabalho de ligação erótica.

Voltemos a olhar sem medo o mundo em nossa volta. Estes seres errantes são o que sobrou do projeto de eros em construir uma humanidade. Perdemos a ligação com o outro e o pouco de erotismo que nos sobra serve, mal e porcamente, para manter uma individualidade inútil e destrutiva. Estamos no pleno regime da pulsão de morte. Aceitemos, pois, o momento de destruição.

O projeto humano fracassou. Resta-nos abandoná-lo e, a partir dos seus escombros, tentar construir o projeto de outro animal. Um animal solidário, com outro nome que a solidariedade nos dará.
Ilustração: Os despejados. Portinari

20 agosto 2007

Hai Kais


no dorso da folha
verdura de musgo
restos de banquete







metade da ostra
aberta sobre a terra
acolhe a semente

Joana, Larissa e Ronaldo

Exercícios coletivos na Oficina de Hai Kai
dirigida por Alice Ruiz.
Fotos de Joana Belarmino
João Pessoa, 17 a 19 de agosto de 2007.

16 agosto 2007

Polifonia



Diga o que lhe vem à cabeça. Não censure nada. E se você achar que é tolo ou vergonhoso o que lhe ocorrer, por isso mesmo é que você deve dizê-lo. Era isto o que Freud pedia aos seus pacientes. É a regra fundamental para que uma análise seja bem sucedida.
De minha parte, considero que esta regra deve estar no fundamento de toda convivência humana. Todos temos o direito de dizer tolices, bobagens, besteiras, idiotices, cretinices, blasfêmias, preconceitos, vulgaridades, além, é claro, de coisas sensatas e inteligentes.
Confesso que fico irritado quando ouço na rua o carrinho de som de um camelô de CDs piratas tocando um forró ou um funk pornográficos. Pior ainda quando o mau gosto vem amplificado pelo som de algum carrão. Mas logo me convenço que eles têm todo o direito de ouvir a música que bem entenderem, desde que respeitem os limites de decibéis permitidos por lei.
Claro que também me irrita o discurso intolerante e mal informado que ouço nas filas e feiras. Pior ainda quando vem amplificado pelos portadores de títulos e comendas. Mas logo me convenço que eles têm o direito de falar o que bem entenderem, desde que me permitam também expressar minha opinião.
A morte é uniforme. Só os regimes ditatoriais e as instituições fundamentalistas rejeitam a multiplicidade de pensamentos e a polifonia dos discursos, excluindo do seu convívio, muitas vezes com a morte, quem ousar ser minimamente diferente.
A vida é polimorfa. Cada ser vivo é único em sua maneira de estar no mundo. No caso do ser humano, a diferença é a condição essencial para a sua constituição como sujeito. Para Roland Barthes, num mundo em que só houvesse diferenças não haveria lugar para a exclusão. Aceitar-me como diferente e aceitar a diferença no meu semelhante. Falar e deixar falar dessas diferenças. Esta é a regra fundamental.



Ilustração: Gente, de Pedro Charters

07 agosto 2007

Um copo d'água


O corpo do homem sentado em minha frente estava seco. Seus músculos finos colavam nos ossos e eram cobertos por uma pele fosca, quase acinzentada. A alma daquele homem também estava seca.
Sua fala desfilava automaticamente uma série de registros, blocos de traços de memória, comunicados sem qualquer emoção: a casa em que sempre morou, uma velha mansão que já experimentara seus momentos de fausto, agora repartida apenas entre ele e sua mãe. Essa mãe distante, refugiada em seu quarto, que ele apenas entrevia quando passava pela porta do cômodo em penumbra. Aqui e ali uma breve menção a um pai, já morto, homem de prestígio enquanto vivo.
O resto era um amontoado de cenas curtas, flashes de suas errâncias noturnas: sessões coletivas de picos; baladas em boates gays; transas apressadas em banheiros mal-cuidados, despertar em lugares desconhecidos em companhia de estranhos, ou amargamente só e depenado.
O corpo seco do homem sentado em minha frente me dizia que havia muito pouco a fazer. Um copo d’água, pensei. E se eu lhe der um copo d’água? Mas não fiquei certo de que o copo d’água era mais importante do que a minha presença. Tinha que sair da sala para buscar água e tive medo do que ele pudesse sentir com a minha ausência. Não lhe dei água.
Teria sido a última vez. Não voltou mais à minha sala. Semanas depois, soube que tinha desistido da vida. Até hoje ainda penso que um copo d’água o salvaria.
Ilustração obtida em www.tracaja-e.net

05 agosto 2007

Carta


Ele passava geléia de framboesa na torrada quando o silêncio da sala deu passagem a um leve raspar de papel sob a porta de entrada do apartamento. André levantou-se com preguiça e, antes de apanhar o envelope, abriu a porta com má vontade, somente para desencargo de consciência. Óbvio que, seja lá quem tivesse posto o envelope por baixo da porta, já tinha se escafedido escada abaixo. André abaixou-se resignado e emergiu com a cara intrigada. O envelope não tinha remetente. Pelo menos remetente declarado. Metódico que era, voltou para a cadeira, sorveu um bom gole de café com leite, limpou a faca no miolo de pão e serrilhou com certo gozo o vinco superior do envelope. Tirou sem pressa o papel lá de dentro, abriu fingindo indiferença para si mesmo. Mas logo o fingimento deu lugar ao espanto na cara de André: o papel estava em branco. Virou a página. Também em branco. Branco também ficou André.
Poeta que era, André estava acostumado à angústia da folha em branco. Aquela vastidão assustadora a exigir: rabisca-me ou te devoro. Mas aquela folha recém saída do envelope não fazia exigência nenhuma. Deixava apenas um vácuo impossível de preencher. Nada que André pudesse imaginar poderia ser confirmado por aquele vazio. Um irmão mais novo a quem tivesse humilhado. Qualquer uma das muitas namoradas que tivesse abandonado. Um paranóico ciumento de algum dos raros poemas bem sucedidos. Uma mulher trágica a quem não adivinhou o amor tresloucado. O dono da padaria a quem não pagava há mais ou menos um mês.
André esqueceu o café na mesa e foi para o quarto. Deitou-se na cama com a folha em branco em frente aos olhos. E quando todas as hipóteses de remetentes foram esgotadas, continuou com os olhos fixos no papel até esquecer-se do tempo e de si mesmo.
Quando arrombaram a porta do quarto, viram o corpo pálido de André confundindo-se com a brancura da folha em branco que pendia de sua mão.
Ilustração retirada de diariopoetico.weblog.com.pt

02 agosto 2007

Vistam saias, meninas: é agosto

Publico de novo para quem ainda não leu.

Há um certo prazer em falar mal de agosto. Dizem que é o mês das bruxas, onde cai o dia das sogras, foi quando morreu Getúlio e costumam ocorrer desgraças políticas. Pouca gente fala bem de agosto.

Quase ninguém se lembra que é o mês do mais belo luar do ano, promovendo encontros e reconciliações entre os já românticos e convertendo ao romantismo alguns indecisos pós-modernos. Em mim, particularmente, o luar de agosto produz um estado intermediário entre uma lânguida melancolia e uma vontade enorme de uivar.

É certo que em alguns anos agosto lembra um velho sombrio, com suas nuvens cinzentas, suas chuvas fora de hora, invadindo maleducadamente com seus miasmas setembro a dentro. Mas num ano como este, agosto merece ser tratado com toda a consideração. Já na primeira semana faz um sol quase de verão, esquentando um pouco a água do mar, levando à praia uma boa safra de mulheres e, vá lá, alguns homens dignos de nota. Só temos que aturar o vento forte, o bom vento de agosto que, se algumas vezes aborrece ao derrubar varais, espalhar jornais ou varrer areais, nos compensa com um dos mais belos espetáculos ao ar livre: a dança das saias.

E não me venham dizer que isto é coisa que só interessa aos homens. Alguma coisa me diz que as mulheres esperam ansiosas por agosto, preparam-se em academias e clínicas de beleza para o encontro com este mês abertamente masculino. E tenho certeza que uma pesquisa de mercado revelaria um forte incremento no comércio de saias ou cortes de tecidos para elas, cremes e óleos para pernas, além de peças íntimas de langerri a serem desvendadas num momento de estudada distração.

Os homens esperam por agosto como a um velho camarada. Um amigo maroto que faz por nós o que mais gostaríamos de fazer em plena rua: levantar as saias das mulheres.E reparem bem no rosto de uma mulher a quem o vento de agosto vai levantar a saia. Há, de início, uma certa expectativa, quase uma ansiedade, um temor de que não sopre vento nenhum e tenha sido em vão todo o preparo, todo o cálculo de chegar naquela esquina no momento em que um homem, ou um grupo de homens, passa atento pela calçada contrária. Logo, sopra o vento. Primeiro, de leve, deslocando os cabelos e fazendo a vítima fechar os olhos numa mescla de vago aborrecimento e satisfação. Quase um agradecimento.Ato contínuo, vem o farfalhar da saia. Aí é necessário que a dona da saia tenha alguma coisa em uma das mãos. Pode ser um sortimento de livros e cadernos, algum pacote não muito volumoso, até sacola de supermercado serve em certos casos. O importante é que apenas uma das mãos fique livre para segurar a saia em um dos lados, deixando o outro ao sabor do vento de agosto e dos olhos dos seus gratos amigos do outro lado da rua. O movimento, brusco mas não tanto, de segurar um dos lados da saia leva a um certo desequilíbrio que faz com que o volume sustentado pela outra mão ameace cair. Nisso, a mão que segurava a saia vai em ajuda à sua irmã, deixando agora todo o campo livre para o trabalho do vento e dos olhos.

Há variações do rito, é certo. A melhor delas é quando agosto apanha com seu vento um bando de mulheres no meio de uma ponte ou numa rua larga, de preferência ladeirosa, em que estejamos todos subindo. Mulheres na frente, como manda a boa educação, homens regulando o passo até alcançar a melhor distância para um visão de conjunto e, finalmente, ele, o ruidoso, o assobiador, o vigoroso e salutar vento de agosto, causando desordem e euforia, quebrando a monotonia das tardes friorentas. Estamos no começo de agosto. Já é tempo, meninas, vistam saias. E deixem brincar com elas o vento de agosto, para o alimento de vossas vaidades e o bem dos nossos olhos. Antes que todos, olhos e vaidades, sejam desviados pelo despudoramento de setembro, escancarando corpos e tornando vulgar o jogo sedutor que agosto sabe tão bem jogar.

(Publicado em Memória curta, 1996)

25 julho 2007

Tremendo nas bases


Estava vendo na MTV um especial sobre a cultura hip hop no Brasil e no mundo. Um dos entrevistados era o MV Bill, aquele do documentário sobre os falcões do tráfico. A certa altura do depoimento dele, começou a pipocar uns tiros, não se sabe onde. MV Bill parou a entrevista, ficou teso e falou com um tremor na voz: “assim é foda, cara. A gente tá aqui dando entrevista, fazendo oficina e os caras já entram atirando. Dá vontade de largar de vez essa porra”.

Aí eu fiquei pensando: se um negão desse tamanho, conhecedor profundo da cultura da violência em todas as favelas do Brasil, treme nas bases quando escuta um tiroteio, o que será que sente uma pessoa comum, uma mãe, uma criança, quando a chapa esquenta e a bala canta.

Não ficou claro no vídeo se os tiros eram da polícia ou de uma gang. Tanto faz. A violência é a mesma. Uma bala perdida encontra sempre um endereço de chegada.

Aprendi a gostar do MV Bill depois que li “Cabeça de Porco”, o livro escrito por ele, o seu empresário Celso Athayde e o sociólogo Luiz Eduardo Soares. Tremi nas bases quando li seu desabafo final: “Ver esses jovens alucinados se autodestruindo é como ver uma bomba ser detonada e começar a contar para então juntar os cacos. É essa a sensação que tenho, uma bomba que vai explodir”.

Estamos em plena explosão. Por isso trememos nas bases. Os cacos estão espalhados por aí, esperando ser juntados.

24 julho 2007

Solução

Finalmente o Governo identificou os culpados pela crise aérea brasileira: os pobres. Há um excesso de pobres andando de avião. A solução do problema é a mais lógica possível: aumente-se o preço das passagens de avião. Os pobres que voltem a sacolejar nas estradas esburacadas do País. E quando as estradas se apinharem de pobres, aumente-se o preço das passagens de ônibus. E se os pobres insistirem em sair às ruas a pé, aumente-se o preço das sandálias de tirinha. Este País só suporta um punhado de ricos e um pouco de classe média. O resto é sobra, sobejo, excrescência. Destino de pobre é matar um ao outro nas quebradas da periferia. Qualquer dia o Governo aumenta o preço da cova.

23 julho 2007

Linguagem oficial




Uma Ministra de Estado aconselha que as vítimas do apagão aéreo relaxem e gozem.
O Secretário de Segurança da Paraíba chama indiscriminadamente de cagões seus subordinados da Polícia Militar.
Dois assessores do Presidente da República fazem um gesto obsceno em frente às câmeras depois de ouvirem uma notícia que supostamente desculpava o Governo pela tragédia no aeroporto de Congonhas.
Como a Ministra queixa-se de ser sexóloga, deve conhecer o teor total do ditado popular: “Se o estupro é inevitável, relaxe e goze”. Assim, revela-se o seu verdadeiro desejo.
Como o Secretário de Segurança é um jurista respeitado, deve saber a exata medida do nível de insubordinação causado pelo seu destempero verbal.
Os assessores presidenciais devem estar preparados para a repercussão do seu gesto transmitido em cadeia para todo o País.
Todos eles, por certo, têm consciência do quanto contribuíram para o desgaste do combalido prestígio da classe política brasileira.
Resta apenas recomendar que se tirem as crianças da sala na hora do noticiário político e que jornais e revistas de informação sejam lidos na calada da noite, de preferência no banheiro, com a porta trancada a chave.

Ilustração: Henfil

19 julho 2007

Convite

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18 julho 2007

Fonte


Teus sonhos não são enigmas.
Olha-os com calma:
Eles são a fonte dos enigmas.
Tua fonte.

Não busques, portanto,
o sentido dos teus sonhos.

Dorme, apenas.

E deixa que desfilem
teu mistério
no chão do sono.
Ilustração: Klimt, Serpentes de Água II.

17 julho 2007

Raccolta - Colheita



Raccolta

Nella terra silenziosa degli affetti
fu piantato un seme piccolo di parola.
Voci amorevoli
bagnarono il suolo dove spuntò
il nuovo verbo,
bello
succulento.

Oggi,
quelli che hanno fame di poesia
si siedono vicino all'arbusto
già frondoso
e dividono il frutto generoso
della parola parlata.

Tradução: Rosella - http://bottega27.splinder.com/post/13114210

Colheita

Na terra silenciosa dos afetos
plantou-se um grão pequeno de palavra.

Vozes cuidadosas
regaram o chão de onde brotou
o verbo novo,
belo
suculento.

Hoje,
os que têm fome de poesia
sentam-se em volta do arbusto
já frondoso
e repartem o fruto generoso
da palavra plantada.


Ao Projeto Palavra Plantada que há dois anos alimenta aos que têm fome de poesia.

13 julho 2007

Limpo


A lavadeira caminhava em minha frente. O braço esquerdo apoiava um pequeno volume de roupas coberto com um pano muito alvo. A mão direita segurava quatro cabides, cada um com uma camisa masculina. Todas limpas. Podia imaginar o cheiro bom do tecido lavado e passado com cuidado.
Não sabia de quem eram as roupas. Não podia imaginar o teor do trabalho que as havia sujado. Nem me interessava. Olhava apenas com carinho para aquela mulher que exibia na rua o resultado do seu trabalho. E me senti confortado com a sua existência, mesmo sabendo do quanto seu esforço era mal recompensado.
Essa é uma das injustiças do mundo: os que limpam ganham muito menos do que os que sujam. E é muito mais fácil sujar. Basta ver o pouco esforço que requer jogar uma lata de cerveja pela janela do carro, difamar injustamente um semelhante, fraudar uma assinatura, assaltar um aposentado na porta de um banco.
A operária do limpo ia entregar o fruto do seu trabalho sabendo que na outra semana tudo estará sujo outra vez. E ela novamente limpará. Há uma lição a aprender aí, por quem se ocupa com a limpeza do mundo. É um trabalho sem descanso, pois tem mais gente sujando que limpando.

Ilustração obtida em http://josesobrinho.planetaclix.pt/profissoes/lavadeiras.html

27 junho 2007

Gente de outra laia



Tenho muitos amigos, conheço muita gente. E me alegra muito poder afirmar que pouquíssimos, muito poucos deles se enquadrariam minimamente na rubrica de ladrão ou corrupto. Defeitos, sim, eles têm muitos. Uns bebem demais, outros gostam de puxar briga, alguns não param no emprego, outras gostam de mandar no marido. Mas no fundo é tudo gente boa. Mesmo os poucos que entraram na política ainda não me deram motivos para romper a amizade.
Falo isso para me defender da enxurrada de notícias ruins que encharca meu humor nos últimos dias. Não, insisto, as pessoas que conheço não são dessa laia que rouba, corrompe, extorque, trapaceia. Recuso-me categoricamente a aceitar como normal esse tipo de comportamento delinqüente. Meus amigos não são assim. As pessoas que encontro na rua, na feira, no bar, na farmácia, também não se enquadram nessa categoria. É gente que dá duro, que paga imposto, que devolve o troco a mais, que espera na fila, que recusa o favorzinho ilícito.
Do pouco que conheço da alma humana, sei o quanto é difícil abrir mão dos nossos impulsos para levar a melhor, sem considerar os direitos dos nossos semelhantes. Sei o preço que pagamos para submeter nossos desejos individuais aos interesses da coletividade. Tem gente que só faz isso obrigado pela polícia. Outros precisam de um rígido código moral que os prendam por dentro. Alguns desenvolvem uma ética racional que conduz à solidariedade e ao respeito aos semelhantes.
Existem, pois, níveis de consciência em relação ao respeito devido ao bem comum. Mas o que essa cambada que nos tira o sono quer nos convencer é da normalidade de suas condutas. Não, meus amigos não são assim. A maioria das pessoas que conheço é de outra laia. Uma laia do bem, sem vocação para freqüentar a sessão policial que se mudou para a primeira página dos jornais.
Foto: Clube do Conto da Paraíba

25 junho 2007

Perdas e esquecimentos


O poeta Lúcio Lins perdia astrolábios. O poeta Antônio Mariano esquece guardas-chuva. Tristes, os poetas, fadados a viver entre perdas e esquecimentos. Por isso o poeta necessita dos sonhos para resgatar o que perde e esquece. Para João Cabral, O sonho é uma obra nascida do sono, feita para nosso uso. Uma coisa que pode ser evocada, explorada através da memória. “Um poema que nos comoverá todas as vezes que sobre nós mesmos exercermos um esforço de reconstituição”.
Território estranho, este, o do sono. Mais estranho ainda por se localizar dentro de quem dorme. E, dormindo, contemplamos o chão do sono, a verdadeira pátria do estrangeiro, desse outro estranho a quem assistimos desde o nosso posto de contemplação. Daí, para Cabral, a nostalgia do mar alto, das águas profundas que trazemos de volta ao acordar. Que estranho este que somos nós.
Num dos seus raros momentos de modéstia, Freud disse: “seja qual for o caminho que eu escolher, um poeta já passou por ele antes de mim”. E se aproxima dos poetas quando diz que toda noite, o homem despe-se dos envoltórios que cobrem sua pele, despoja-se dos complementos que substituem as deficiências dos seus órgãos e renuncia à maior parte das aquisições da sua alma para assim, despido do que lhe é supérfluo, se aproximar do ponto de partida de sua existência: o ventre materno.
O homem que dorme, portanto, volta-se para a noite primordial, silenciosa e calma, da qual foi definitivamente exilado. Todas as noites, o homem pode ainda matar as saudades desse território perdido. Mas vendo-o apenas de longe, olhando para o seu chão sem tocá-lo. É desse chão que ele vê brotar as imagens dos seus sonhos, recados enigmáticos da sua pátria originária para a qual sabe que nunca voltará.
Desta forma, todos nós somos poetas. Fadados a viver entre perdas e esquecimentos. Resta-nos apenas ficar atentos aos sonhos e poemas que a noite trama dentro de nós.

22 junho 2007

Os neutros




Fui comprar xerém pra fazer angu. Num mercadinho no meio da feira, bisbilhotei uma conversa entre dois rapazes que me atendiam. Criticavam um terceiro por ser “aquela coisa” e ao mesmo tempo pertencer a uma seita neopentecostal. Não podia. Só se fizesse como um outro que se arrependeu do seu pecado e agora era neutro. Belo eufemismo. Foi preciso comprar xerém para aprender que os enrustidos agora são neutros. Como se alguém pudesse ser indiferente à sua sexualidade.

A conversa entre os rapazes do mercadinho não era casual. Ela apenas refletia um movimento local contra o homossexualismo, com out-doors, passeatas e matéria paga em jornais alertando contra o perigo da aprovação no Congresso de uma lei que criminaliza as expressões de preconceito contra as opções sexuais. Como não poderia deixar de ser, o Arcebispo enviou uma carta de apoio à iniciativa dos concorrentes.

Para engrossar o caldo dos preconceitos, um Secretário de Estado, no meio de um seminário contra a violência, reclama que uma mulher, agora, “por qualquer tapinha, vai querer ser sustentada pelo Estado”. Este é o argumento da autoridade contra a manutenção de casas de acolhimento para mulheres vítimas de violência. Aproveitou ainda a oportunidade para declarar que a “homossexualidade é antinatural, fruto de famílias desestruturadas”.

Na secular parceria entre Igreja e Estado, são sempre os membros mais frágeis da sociedade que acabam nas fogueiras, nas masmorras ou na execração. Quando viu seus livros queimados pela turba nazista, Freud comentou com ironia que a humanidade havia progredido muito. Antes, seria ele a arder na fogueira. Tentando ser neutro, não podia ou não queria antever o destino que mais tarde seria dado a muitos de sua etnia.

O rosnar que se avoluma pode muito bem ser o anúncio de ações mais efetivas de discriminação contra os homossexuais. O que exige de cada um de nós uma clara tomada de posição. Aqui, como em tudo na vida, não há lugar para a neutralidade.

Foto obtida em www.overmundo.com.br - autor não identificado

17 junho 2007

Minhas ruínas




Desde que me mudei para este apartamento, decidi não ter mais saudade. Ele é pequeno. Não suporta o monte de lembranças que acumulei nesta vida já grisalha.
Uma a uma, vou apagando as imagens dos lugares por onde me gastei. Meu HD não tem espaço para tanto arquivo. Grande invenção esta tecla de deletar.

Como vêem, decidi aderir à contemporaneidade. E ser contemporâneo inclui não ter passado. Não existe, portanto, nunca existiu, a casa de onde eu vim de mala e cuia, deixando lá tudo o que acumulei nos últimos anos. Alguns livros, muitos discos e um amor também fora de moda.

Pela ordem, resolvi me livrar também das casas onde nasci, me criei, cresci e me fiz homem. Esta última não deu muito trabalho, pois já não existia de fato, demolida que foi, junto com todo o quarteirão, para dar lugar a um supermercado. As outras, nunca mais as vi. Devem ter tido destinos semelhantes. Neopentecostais, provavelmente, hoje esbravejam aos céus em espaços superpostos aos que foram meus.

Para fazer o serviço bem feito, joguei fora também as praças, os cinemas, os bailes, os campos de pelada, os bares, as salas de aula, todo e qualquer lugar antigo que possa roubar o exíguo tempo que decidi ocupar com novidades.

Grande invenção esta tecla de deletar. Deixou minha memória limpa de todo entulho que me ligava ao passado. Mas o que é, verdadeiramente, o passado? O que não se passou, mas fica, é passado? O que não aconteceu, mas dói, é lembrança?

Uma casa em ruínas insiste na memória, só porque uma moldura pendurada na parede da sala da minha infância a guardava como a um quadro precioso. E mais fica marcada porque naquela mesma sala ouvia-se no rádio uma novela chamada A casa do ódio. Quando a sala estava vazia, eu passava com medo pela gravura, pois, para mim, aquela era A casa do ódio.

Agora, quando nenhuma casa mais me resta na memória, restam estas ruínas de uma casa que não foi minha, mas que está entranhada em mim. Resta este ódio que nunca senti por ninguém, nem ninguém sentiu por mim. E o que eu quero e não vou nunca conseguir é voltar para aquela casa antes das ruínas. Para saber quem lá vivia e porque se odiavam. Saber se lá vivi e se lá me odiavam. Saber porque estas ruínas resistem ao meu projeto de desmemoriamento e insistem em me lembrar deste sentimento ruim, o único que ficou de todos os que feriram minha carne.


Clube do Conto,15.06.07

Imagem obtida em www.brasilvision.com.br

09 junho 2007

Ao Pó


Tu és pó e ao pó voltarás. Disse isto em frente ao espelho da penteadeira, já com a esponja de pó de arroz pronta para passar no rosto. Demorou-se um pouco com a mão suspensa, resignada com o tempo que se recusava a entrar também em suspensão.

Quem disse que não se pode ver o tempo? Ela o via ali, em sua frente, refletido no espelho oval do móvel antigo. O tempo tinha a sua cara. Ali estava escrito o passar das horas, dias, anos, décadas de uma vida às vezes bem vivida. Ali também estavam os traços de outras vidas, herança confirmada pelos álbuns de fotografia.

Olhava o tempo em sua frente sem remorsos. Tentou lutar contra ele e perdeu. Gastou fortunas com cremes milagrosos. Desperdiçou safras de pepino em rodelas. Paralisou-se com litros de botox. Chegou até pegar o número do cirurgião plástico. Mas não passou daí.

Olhava agora de frente para o tempo. Até gostava um pouco do que via. Cada marca daquela era uma letra do poema que o tempo escrevera no seu rosto. Não queria apagá-lo, voltar a ser uma folha em branco.

O que não precisava era que o poema fosse exposto nos mínimos detalhes aos transeuntes. Um pouco de mistério nunca fez mal a ninguém. E para isso tinha o bom e velho pó de arroz.


Clube do conto, 08 de junho de 2007.

30 maio 2007

Raccolta - Colheita



Raccolta

Nella terra silenziosa degli affetti
fu piantato un seme piccolo di parola.
Voci amorevoli
bagnarono il suolo dove spuntò
il nuovo verbo,
bello
succulento.

Oggi,
quelli che hanno fame di poesia
si siedono vicino all'arbusto
già frondoso
e dividono il frutto generoso
della parola parlata.

Tradução: Rosella - http://bottega27.splinder.com/post/13114210

Colheita

Na terra silenciosa dos afetos
plantou-se um grão pequeno de palavra.

Vozes cuidadosas
regaram o chão de onde brotou
o verbo novo,
belo
suculento.

Hoje,
os que têm fome de poesia
sentam-se em volta do arbusto
já frondoso
e repartem o fruto generoso
da palavra plantada.


Ao Projeto Palavra Plantada que há dois anos alimenta aos que têm fome de poesia.

De Noite


Ela era De Noite, como eram De Fátima, Da Guia, Das Dores, Dos Prazeres.
Ela era De Noite, como eram as corujas, os morcegos, os bacuraus, os pirilampos.
Só saía de noite, como a lua, as estrelas, o lobisomem e as almas penadas.
Era De Noite quem passava agora, vinda não se sabe de onde. Era De Noite que já ia longe, não se sabe pra onde, não se sabe pra quem.
Era De Noite que ele queria. Era De Noite que não o queria, que passava por ele sem olhar, deixando um rastro de cheiro de carne negra. Que era negra, De Noite.
Negra ficou-lhe a vista, turvada pela ânsia da noite que morava no canto mais escuro do corpo de De Noite. Do corpo que sumia fundido com a noite.
DE NOITE, DE NOITE, gritava para as casas pesadas de sono.
De Noite, De Noite, soluçava para dentro de si, na mais completa escuridão.

Clube do Conto, 30.05.2007

Foto obtida in ribeiranegra.blogspot.com/2006_09_01_archive.html

20 maio 2007

Paralelas



Ela ia por um lado da calçada.
Ele ia na calçada do outro lado.

Ela de terninho e salto alto.
Ele de tênis, jeans e camiseta.

Ela olhou para ele invejosa.
Ele olhou para ela com cobiça.

Ela olhou o relógio e teve pressa.
Ele viu, pelas sombras, que era cedo.

O sinal de pedestres ficou verde.
O desejo dos dois ficou maduro.

Ela pisou na faixa com cuidado.
Ele fez da calçada um trampolim.

No rio sem nexo dos corpos mergulharam
dois corpos que se buscam e se erram.

O que tentaram fazer foi proibido
Pelo atropelo da humana correnteza.

E o que tentaram dizer foi abafado
pelo carrinho de CD pirata.

E cada um foi arrastado ao lado oposto,
vazio do objeto desejado.

Ele pediu com a mão uma promessa.
Ela acenou adeus e foi-se embora.

Já tinham dado na curta caminhada
Todos os passos do amor que o amor passa.


Ilustração:Av. Paulista, 1891. Aquarela sobre papel de Jules Martin, in http://www.webwriter.jor.br/

15 maio 2007

Nudez








Um dia cairá de teus ombros
o manto da memória.

Despida de ti,
entrará tua alma na mansão dos mortos
ao derradeiro som do remo de Caronte
que volta
para apagar os teus vestígios pelo mundo.


Imagem obtida em www.codexart.net. Autor não identificado.

13 maio 2007

Porteiros do inferno



Em 1960, o artista plástico Jackson Ribeiro ganhou uma bolsa do Governo da Paraíba para aprimorar sua arte na Europa. De volta, para pagar sua dívida com o Estado, criou uma escultura em ferro, sólida e imponente, que foi instalada em 1967 num canteiro entre um templo batista e uma faculdade de filosofia. Logo, o escritor Virginius da Gama e Melo batizou a obra de Porteiro do Inferno, por ter, sabe Deus como, encontrado alguma semelhança entre a peça e o tenebroso Cérbero.
Pela mesma época da inauguração do monumento, ocorria o Concílio Vaticano II, em que a Igreja Católica se abria para o mundo contemporâneo, tendo como uma de suas decisões o uso das línguas vernáculas em seus ofícios. Mas aí aconteceu uma coisa curiosa. Todo mundo se lembra que no “Credo dos apóstolos”, o antigo texto em latim descendit ad infernos, era traduzido por nossas mães, quando rezavam o Terço, pela expressão "desceu aos infernos". Seguindo a orientação do Concílio, o inferno do Credo foi substituído por mansão dos mortos. De uma forma ou de outra, o inferno sempre foi um postulado religioso e nem o Filho de Deus teria escapado de conhecê-lo, ainda que numa curta estada de três dias.
Voltando ao nosso Porteiro, depois de trinta anos postado entre a fé e a filosofia, foi retirado para restauração e nunca mais voltou ao seu antigo posto. Dizem que foi pressão da Igreja Batista, que em seu lugar pretendia construir um monumento à Bíblia. Ficou enferrujando num depósito da Prefeitura de João Pessoa até ser transferido para o Espaço Cultural, depois da morte do autor.
Coube à atual gestão da Prefeitura devolver o Porteiro às ruas da Cidade. Tentou colocá-lo em um cruzamento entre os bairros do Cabo Branco e do Altiplano. Veio o pároco local e conseguiu expulsar o Porteiro da sua encruzilhada.
O inferno astral da escultura parecia ter chegado ao fim com a sua instalação num espaço em frente à Universidade Federal da Paraíba. Ali, pensava-se, a cultura e a ciência o protegeriam das investidas da intolerância. Ledo engano. O presidente da Associação dos Moradores e Amigos do Castelo Branco, bairro onde se localiza a Universidade, fez um abaixo assinado junto à paróquia e igrejas evangélicas da localidade para que a Prefeitura expulse o Porteiro do seu último endereço.
Se esses supostos representantes do povo e de Deus tivessem um pouco de cultura e menos má fé, saberiam dizer aos seus associados e fiéis que Cérbero, o porteiro do inferno da mitologia grega, era encarregado de impedir a fuga dos que já se encontravam lá dentro. Pois ninguém, de posse de seu juízo, desejaria entrar no inferno por livre e espontânea vontade.
É fácil, pois, revelar quem são os verdadeiros porteiros do inferno. São todos os líderes comunitários e religiosos que impedem a qualquer custo que as pessoas fujam das caldeiras da ignorância e da intolerância onde cozinham o caldo negro com que alimentam seus sonhos de poder e vaidade.

08 maio 2007

Fúcsia


Acordei de manhãzinha, ainda madrugada. E como não queria sair da cama, peguei o novo livro de poemas de Vitória Lima para ler. Os olhos sonolentos se ofuscaram com a cor que escapava do título do livro: Fúcsia*.
Mais do que uma cor, fúcsia nomeia um livro sobre uma cor. Mas apenas um poema em todo o livro é dedicado a esta cor:

da paleta dos jambeiros
sai o fúcsia que
pinta & borda
as calçadas dos setembros.

Portanto, não é por conta deste belo e conciso poema que o livro se chama Fúcsia. Mais do que um livro sobre uma cor, Fúcsia é escrito sob a égide desta cor. Porque Vitória Lima é, ela própria, toda fúcsia. Para além do batom, Vitória é toda feita com esta cor que sai de sua paleta de palavras para pintar e bordar as calçadas por onde passeiam nossos sonhos.
Como já disse, li o livro de manhãzinha, fim de madrugada. Ainda em estado de sono, os poemas foram se moldando àquele clima denso dos restos de sonhos e se misturaram com eles. Saí da cama com o livro flutuando entre as paredes que protegem os sonhos e com eles se fechou quando tive que me declarar desperto. Agora, sei que seus versos estão dentro de mim, irmãos dos meus sonhos, prontos para despertarem sonâmbulos, quando mais uma vez for dormir. E meus sonhos terão a cor fúcsia.

*Edições João Pessoa: Linha D’água, 2007.

06 maio 2007

As grandes decisões


Acompanhemos aquele homem que caminha pela praia. Veja que não falei que ele anda ou passeia. Caminhar, hoje em dia, na praia ou em qualquer outro lugar, tem um sentido preciso de prescrição médica. Seu colesterol está alto, você precisa caminhar. A ordem está dada. O problema é tomar a decisão de cumpri-la. Segunda-feira começo, diz o homem, seguro dessa primeira tomada de posição. O próximo ponto a decidir é qual a segunda-feira em que começará.
Mas se já o estamos vendo caminhar é porque, de uma forma ou de outra, tal decisão já foi tomada. Precisamos agora acompanhá-lo mais de perto, pois a qualquer instante terá de tomar uma das mais difíceis decisões de sua vida: girar o corpo e fazer o caminho de volta. Quem caminha só, sabe o quanto é difícil decidir o momento e o lugar dessa meia-volta. Isto porque não há nenhuma convenção, nenhum acordo, nenhum condicionante exterior à decisão. Neste momento o homem está só e inseguro. O seu olhar para os circundantes é de puro desamparo.
Chamo agora a atenção para a desenvoltura com que os homens públicos tomam suas decisões. Vamos exterminar os judeus. Vamos invadir o Iraque. Vamos confiscar a poupança dessa cambada. Vamos elevar a taxa de juros. Vamos fazer caixa dois e mentir para esses otários nos elegerem novamente. Diferentemente do nosso caminhante da praia, o homem público nunca está só. Há sempre um grupo interessado em se locupletar com a sua decisão. Outra diferença é que suas decisões nunca o implicam pessoalmente. Ele não é judeu, não vive no Iraque, não é burro para ter poupança em banco nacional, há sempre um jeito de se ganhar alguma coisa com a inflação e, se não for reeleito, haverá sempre um lugar para ele e seus afilhados em alguma estatal.
Só e entregue à angústia de sua decisão, o homem da praia tem um privilégio que nenhum homem público jamais desfrutará. Pelo menos ali e então, ele prova a liberdade de decidir sobre o seu próprio destino.
Foto obtida no contecomigo.uniblog.com.br

04 maio 2007

A arte do cuidado



Você pode estudar muito e se tornar um bom médico, um ótimo psicólogo, um excelente enfermeiro. Mas não tem livro que ensine você a cuidar dos outros.
O cuidado é uma arte cada vez mais rara entre as pessoas. E quase inexistente entre os profissionais da saúde. Uns alegam falta de tempo. Outros se bastam com sua competência técnica. Outros ainda se deleitam sadicamente com o poder que exercem, aumentando deliberadamente o sofrimento alheio.
Considero-me privilegiado quando encontro quem cuide de mim para além de meus achaques físicos. Quando sinto que a escuta ultrapassa a fronteira da minha anatomia e suas mazelas e se abre para toda a dimensão da minha existência.
Estou tocando neste assunto porque hoje é o aniversário de uma dessas artistas do cuidado. Uma que, antes de bisbilhotar sobre os estragos do tempo e do mal uso nesta frágil carcaça, abre-me um sorriso que me assegura que cuidará de mim, seja lá o que eu tenha feito de ruim com o meu fígado.
Alguns a chamam de Doutora Fátima. Eu me reservo o direito de chamá-la de Madame Duques. De um modo ou de outro, é a melhor pessoa que me ocorre chamar quando estou precisando de cuidado.

Foto retirada do blog "Andreye World".

27 abril 2007

A grande aventura



Primeiro eu quis ser caubói, ir para o velho oeste, matar um bocado de peles-vermelhas, botar toda a quadrilha na cadeia e me casar com a mocinha. Depois eu quis singrar mares, descobrir ilhas, achar tesouros, vencer dragões e me casar com a mocinha. Mais tarde eu quis uma motocicleta, um fuzil, uns camaradas para liberar praças e me casar com a mocinha.
Um belo dia, eu simplesmente me casei com a mocinha. A verdadeira aventura da minha vida começava ali. Uma mão na frente, outra atrás, duas faculdades particulares para pagar, uma barriguinha cada vez mais saliente e dois salários de proporções inversas aos nossos sonhos e necessidades.
Desta forma ou de outra mais ou menos parecida, começam as grandes aventuras deste mundo. São muitas as emoções que esperam aqueles que se lançam ao mundo com a coragem dos inocentes e a determinação dos loucos mansos. Tem gente que se queixa da falta de sabor do seu cotidiano. Acho que essas pessoas ainda estão presas aos índios, dragões e tiranos dos seus sonhos, à espera de grandes movimentos emotivos.
Um casal brasileiro estava mergulhando no fundo do mar da Tailândia e sentiu um suave movimento das águas acima de seus corpos. Quando saíram do mar, ficaram aterrorizados com a devastação da tsunami. Com isto nos lembram que os grandes transtornos, os movimentos mais devastadores são mais sensíveis na superfície. Na profundidade, a percepção dos movimentos é mais delicada, requer sentidos despertos e atentos.
Enquanto estivermos em busca dos grandes movimentos na vida, talvez não consigamos captar os sinais mais profundos da mudança. E não estou falando dos grandes eventos da vida de cada um: casamento, formatura, nascimento de filhos, morte de pais. Refiro-me aos pequenos momentos do cotidiano em que descobrimos algo de novo em nossa volta. Principalmente quando nos deparamos com o novo, o estranho, o numinoso na voz, no rosto, no movimento daqueles que vivem ao nosso lado. Se repararmos bem, estamos o tempo todo mergulhados numa grande aventura.

20 abril 2007

O fim das coisas







Todas as coisas terminam. Uma flor termina quando cede seu lugar ao fruto ou quando deixa de enfeitar a sala. Um brinquedo termina quando se quebra ou deixa de encantar seu dono. As ferramentas terminam por excesso de uso, pelo uso indevido ou por uso nenhum.
Os animais também terminam. Uns, de forma violenta, vão servir de repasto aos homens, dentre outros animais. Outros terminam quando já não servem mais aos seus instintos. Todas as coisas, todos os bichos um dia encontram seu fim.
Só o homem não termina porque não tem fim aquilo que o faz homem: o seu desejo. Mesmo às portas da morte, o desejo ainda está lá, querendo evitar que se morra, ou querendo que se morra bem.
Eis uma diferença entre os homens e as coisas. Todas as coisas terminam. O homem morre, mas morre inacabado. Por isso somos tristes, melancólicos. Porque vemos acabar as coisas que nos constituem. As casas em que um dia moramos, as cidades em que um tempo vivemos, as roupas que muitas vezes vestimos, os objetos que um dia fizeram parte do nosso corpo.
A isto estamos fadados: assistir ao fim das coisas. Invejar o fim das coisas que findam sem a angústia com que caminhamos para a morte.

15 abril 2007

O dia em branco


(Para Ana Lia, a pedido de Luana)

Abrir a porta da rua e dar de cara com o mundo. Apostar no imprevisível. Ganhar o mundo. É assim que se começa um dia em branco.
Os melhores dias são aqueles que se abrem à nossa frente sem nenhuma proposta, nenhum compromisso. O dia em branco nos faz apenas um convite: viva-me. E nos atiramos sem hesitação, porta a fora, mundo a fora, ao sabor do acaso dos encontros.
Flanar, esta é a única lei que o dia em branco nos impõe. Andar à deriva, deixar às próprias pernas a escolha do caminho. Dobrar uma esquina movido por um som, uma cor, um cheiro, uma lufada de ar. Parar por qualquer coisa, ou coisa alguma. Flanar é isto, uma espécie de livre-associação ambulante.
Meus melhores dias em branco aconteceram em minha juventude, no Recife, principalmente quando estava desempregado. Acordava tarde e ganhava o mundo, muitas vezes apenas com o dinheiro da passagem de ida. Já no ônibus, o dia me surpreendia. Havia sempre um detalhe do caminho que se iluminava. Ou uma cena urbana trivial ganhava um novo sentido. Dentro do ônibus mesmo, as pessoas geravam novidades.
Mais do que as paisagens, o que de melhor um dia em branco nos oferece são as pessoas. Elas servem como ponto de ligação entre os lugares. E dentre essas pessoas, os amigos sinalizam portos seguros onde descansar antes de nos jogarmos novamente na corrente do dia.
O dia em branco se nos oferece como uma folha de papel onde podemos escrever um poema ou uma lista de compras. Depende muito do que quisermos fazer dele. Como um navio que se constrói em alto-mar, em plena viagem, sua forma final dependerá da nossa perícia simultânea de navegante e armador. E somente ao seu final, quando nele pusermos nossa assinatura, o dia, já feito, revelará, enfim, o seu sentido. E não esperemos grandes revelações. O que o dia nos diz, ao seu fim, é algo simples: foi bom você ter me vivido.

09 abril 2007

Lições da tarde

Com a tarde nova
aprendo que tenho sombra
Com a tarde alta
aprendo a cair em silêncio
Com ao fim da tarde
aprendo ir embora
Com a tarde morta
aprendo a lição do nada.
{Ronaldo Monte}
Publicado no Blog Teia de Palavras

08 abril 2007

Manhã de Páscoa


Este foi o mar que eu vi na manhã do Domingo de Páscoa, em Cabedelo. As nuvens mal conseguem filtrar os poucos raios do sol. Dali a pouco choverá. Refletindo o cinza azulado do céu, o mar calmo ensaia pequenas ondas perto da praia. O barco repousa calmo ao longe. E isto, em vez de paz, me dá uma fisgada de de tristeza. Pois a manhã mal começava e eu sabia muito bem o que ia acontecer dali a poucas horas. Vão chegar os homens. E com eles tudo o que de mais bárbaro foi inventado para corromper a harmonia desta manhã.
Mais que tristeza, me causa angústia saber que o meu desejo de Páscoa não pode ser realizado. Pois o meu desejo é que a beleza desta manhã avance dia a dentro até chegar às franjas da noite. E que todos os homens e mulheres do mundo possam ter um dia completo de paz.

06 abril 2007

Margini

Recebi um e-mail da itália, postado por Rosella Pristerà, com a tradução do meu poema Margens. Transcrevo toda a mensagem, acrescentando os meus votos de uma Boa Páscoa para todos.

Tra poco è Pasqua. Festa. Cercavo qualcosa di adatto all'occasione per mandare a tutti voi i miei sinceri auguri. E mi è venuta in mente una poesia d'amore, letta un pò di tempo fa in un bel blog di un poeta brasiliano, Ronaldo Monte. Siete quindi pronti a varcare i margini del sogno? Buona Pasqua a tutti. Rosella Pristerà

MARGINI

Passava un fiume tra i loro margini.
Sul margine, passava la sera.
Da margine a margine, il ponte.

Nel mezzo della sera,
nel mezzo del ponte,
improvvisamente
si toccano i margini.

Che succede, chiede lei.
Un bacio, dice lui.
Come potrebbe aver detto
: una sera.
O detto in altro modo
: un ponte.

(Ronaldo Monte, traduzione di rioro)

MARGENS

Passava um rio entre as margens deles.
À margem, passava a tarde.
De margem a margem, a ponte.

Em meio à tarde,
em meio à ponte,
súbito
tocam-se as margens.

O que é isso, ela pergunta.
Um beijo, diz ele.
Como podia ter dito
: uma tarde.
Ou dito de outro modo
: uma ponte.

29 março 2007

Zíaco e sua flor



Zíaco arrasta pelos bosques a sua enorme tristeza. Nunca, em toda a sua eterna vida, havia sentido em seu corpo a manifestação do desejo. Assim o tinha castigado Hera, pelo simples fato de ser irmão de Príapo. Ah, o feliz e adorado Príapo, filho de Afrodite e Dioniso, a quem Hera, por ciúme da capacidade de amar de Afrodite, fez nascer com os genitais enormes. Mas o castigo de Hera surtiu efeito inverso. Príapo passou a ser desejado e cultuado pelas mulheres que buscavam a fertilidade. Para consertar seu erro e vingar-se definitivamente de Afrodite, Hera destituiu totalmente de desejo o seu segundo filho, este Zíaco que erra pelos bosques.
O sofrimento de Zíaco tocou o coração das ninfas. Eco, a mais bela de todas, ela mesma vítima dos ciúmes de Hera, convocou as oréades, suas irmãs, para aquecer o coração de Zíaco. E ao ver o triste deus encolhido ao pé de um carvalho, o queixo cravado no peito, os braços pendentes sobre as pernas estiradas sobre as folhas secas, deram-se as mãos em roda e começaram a cantar e a dançar como nunca antes haviam cantado e dançado.
Primeiro são os olhos de Zíaco que se levantam para melhor ver a roda. Depois, o seu tronco começa a se deixar embalar pela cadência do canto e da dança. Logo é todo o seu corpo que dança e pula e grita no meio da roda das ninfas. E tanto dança e pula e grita, que o seu corpo todo lateja e enrubesce. E de tanto latejar e enrubescer, da parte mais em riste do seu corpo jorra um jato prateado que logo é sugado pela terra.
Para tristeza das ninfas, cumprindo o destino inverso do irmão, todo o corpo de Zíaco murcha, reduzido a quase apenas um bornal de pele vazio.
Coberta de lágrimas, é a própria Eco quem cava com as mãos uma pequena cova para o que restava do corpo de Zíaco. E mal acabara de apertar a terra com as alvas palmas, Eco e todas as oréades viram nascer do pequeno túmulo uma flor rubra como o mais forte dos vinhos. E logo compreenderam que aquela flor, a flor de Zíaco, haveria de reavivar o desejo dos homens.
Não acredites, pobre mortal, que esta flor esteja à venda em qualquer lugar deste mundo. Se precisares dela, pede às ninfas. Durante o teu sono tu as verás dançar e cantar, enquanto a flor de Zíaco brota no fundo do teu coração.

28 março 2007

A praga


O ambiente era soturno. Não só pela amplidão da sala, pelos móveis sóbrios, escuros, as janelas altas, solenes pelo peso das cortinas. Soturno também era o semblante dos homens que rodeavam a gigantesca mesa de reuniões.
O primeiro a falar foi o Presidente do Corpo de Acionistas. Você vai ter que compreender, Herr Ratz. O cargo de Diretor Presidente da nossa Corporação só pode ser ocupado por um homem casado. O produto que fornecemos é extremamente vinculado aos valores humanos mais conservadores. A nossa clientela jamais aceitaria que o nosso chairman of the board não tivesse um lar para onde voltar depois de um dia exaustivo de trabalho, onde uma mulher carinhosa e devotada o espera com o jantar quente, a cama morna.
Mas minha mulher disse que não vai. Ela detesta a Itália. O senhor sabe como são as alemãs. Ela disse que se eu for, vou só. Não me leva nem no aeroporto.
Isso é verdade, ajuntou o Secretário do Conselho. Já mandamos um emissário para sondar o assunto. Já tem até um advogado pronto para dar entrada no pedido de divórcio.
Sendo assim, retomou o Presidente, só temos uma alternativa. Arranjamos um casamento de conveniência com alguma moça decente que aceite uma soma razoável pela colaboração.
A cólera do Herr Ratz só foi contida pelo seu medo de uma expulsão sumária da Corporação. Limitou-se apenas a resmungar: um primeiro casamento pode ser uma infecção. Mas um segundo, não. Um segundo é uma praga.

25 março 2007

Inédito, diferente


Além de poeta esforçado, André era um leitor inveterado. Lia tudo que lhe caísse nas mãos. E o que lhe caiu nas mãos, pelas mãos de um moleque, foi o folheto de propaganda da Professora Triana. Seu olhar treinado de revisor num suplemento literário foi logo em cima do erro de composição já na terceira linha, em caixa alta e negrito. Num gesto autômato, levou a mão ao bolso da camisa para pegar a caneta. Não podia deixar passar um erro tão grosseiro. Agora sim, o tipógrafo poderia corrigir: Poder da fé.
A própria fé de André é que andava meio fraca. Não acreditava, por exemplo, que conseguiria chegar a tempo para a entrevista com Vilela, diretor administrativo de um jornal que lhe acenara com um bico de editor de cultura. Em decorrência disto, também não acreditava que teria o dinheiro necessário para fugir para bem longe com Rita, mulher do Vilela. Quem sabe a Professora Triana pudesse revelar o mistério que os envolvia, a ele, a Vilela e a Rita, pois o que acontecera entre eles era, de fato, um mistério.
Vilela, André e Rita. Três nomes, uma aventura e nenhuma explicação das origens. Vamos a ela. Os dois primeiros eram amigos de infância. Vilela seguiu a carreira de magistrado num desses cafundós, onde casou e juntou dinheiro. André entrou no funcionalismo, contra a vontade do pai, que o queria médico. Mas o pai morreu e André preferiu não ser nada, até que a mãe lhe arranjou um emprego público, no jornal do Governo. Ganhava-se pouco, mas em compensação trabalhava-se menos ainda, o que dava tempo de sobra a André para tecer seus versos, adular suas musas.
Depois de muitos anos e escassas notícias, toca o celular de André. É Vilela, que jogara a toga às urtigas e agora vinha para a Capital, sócio de um jornal com planos de expansão. Acabara de dar um giro pelo mundo com a mulher e agora chegava para tocar o projeto editorial. André foi esperá-los no aeroporto.
No táxi de volta, Vilela tomou o lugar da frente, junto com o motorista. Queria ver o que o tempo fizera com a sua cidade. No banco de trás, meio zonza pela estafa da viagem, Rita cochilava e de vez em quando sua cabeça tombava no ombro de André. Uma curva mais fechada jogou seu corpo todo contra os ossos do poeta. A curva se desfez, mas não se desfez a junção dos corpos. O pomo de adão em desvario, André atendia a custo à curiosidade quase infantil do amigo.
“Quereis fazer voltar para vossa companhia alguém que de vós se tenha separado?” Queria, sim. André queria de volta o calor daquele corpo, a maciez daquela mão que deslizava em sua coxa, aquele perfume que feria de morte suas ventas.
“Quereis saber alguma coisa sôbre os vossos estudos?”. Sim, André queria aprender a ser dissimulado, a ser sórdido, conseguir os favores de Rita mantendo a amizade fraterna de Vilela.
“Quereis destruir algum mal que vos perturba?” Claro. Tudo o que André queria era a destruição pura e simples do seu amigo Vilela. Desde que não fosse ele diretamente o destruidor.
“Quereis curar algum vício de embriaguês?” Sem dúvida, André estava embriagado. Viciosamente embriagado por aquela mulher que tivera próxima apenas por alguns minutos.
Quanto às “outras coisas que estiverem no seu desejo de obter”, André bem que queria um bom emprego, com um salário minimamente decente para poder ir para bem longe desta cidade com a mulher que o vitimara.
Vilela e Rita montaram apartamento e chamaram André para a inauguração. Só André que, surpreso, foi o alvo dos mimos de Rita e dos afagos de Vilela. O poeta não tinha muita certeza, mas sentia que havia uma certa disputa entre o casal. Cada qual tentava chamar mais a sua atenção. A cada poema que André recitava, Rita explodia em aplausos e Vilela desmanchava-se em elogios.
A certa hora, os dois desapareceram na cozinha, sussurraram alguma coisa e voltaram sorridentes. Vilela marcou uma entrevista com André na próxima segunda. Estava tudo arranjado. Faltava apenas acertar salário e o tempo do expediente. Disse isto, deu um grande bocejo, pediu desculpas por ter bebido um pouco demais e foi dormir.
Rita já tinha engatilhado mais uma dose de uísque e levou ela mesma o copo à boca de André. Ergueu-se um pouco e sugou o que tinha sobrado da bebida nos lábios dele, enquanto a mão disponível chamava o corpo magro do poeta para o seu. Pessoa discreta, esse André. Ninguém nunca soube o que se passou daí pra frente na sala recém inaugurada daquele apartamento.
Agora, já segunda-feira, passa da hora da entrevista e André sente-se em desespero. Se faltar, pode perder o emprego. Se for, seguramente deixará transparecer alguma coisa da qual o amigo possa desconfiar. E pior, muito pior. E se Vilela tivesse visto tudo o que se passou na sala? E se o sono fosse apenas um pretexto para confirmar o que já desconfiara desde o táxi do aeroporto? Em meio a essa agonia, toca o celular de André. Vilela. É o Vilela. Teve que se demorar num almoço, não daria tempo de estar no jornal na hora combinada. Estava meio indisposto, preferia ficar em casa. Por que André não ia pra lá, onde poderiam conversar mais à vontade?
Pronto. Vilela sabia de tudo e armara aquela cilada. Com o coração aos pulos, André leu mais uma vez o folheto da Professora Triana. Tinha nome de cigana, mas tinha vindo do Amazonas. Todo o seu material de trabalho também vinha de lá. Haveria ciganos na Amazônia? Mas isto era o que menos interessava a André. “Pois ela é a Professora das Cartomantes”, não podia ser confundida com “essas de passagem”. Tinha endereço certo e era bem ali, na esquina da rua em que André estava.
Toca novamente o celular. Já estou em casa. Como é, vem ou não vem? Ia sim. Mas foi primeiro consultar a cartomante. Não sabia que no Amazonas faziam baralhos de tarô e bolas de cristal. Mas a urgência o fez relevar os detalhes e estirar a palma da mão sob os olhos soturnos da Professora Triana. O senhor está muito assustado. Mas pode ficar sossegado que tudo vai acabar muito bem com uma pessoa que o ama muito.
O coração aliviado de André o conduziu sem pressa até a porta do apartamento do amigo. Ligeiramente afogueado pelo álcool do almoço, Vilela recebeu André com um sorriso largo, passou um dos braços pelos ombros ossudos do poeta e o levou até o quarto do casal. Temendo pelo pior, André viu um dos lados do enorme guarda-roupa totalmente vazio. A voz de Vilela era um ruído distante na cabeça que girava.
No dia da inauguração do apartamento, você deve ter notado que eu e Rita fomos ter uma conversa reservada na cozinha. Disputamos você no par-ou-ímpar. Quem tirasse par, ficava com você somente naquela noite. Quem tirasse ímpar, ficava para sempre com você. Rita tirou par. Mas depois não quis obedecer as regras do jogo. Aí tivemos uma grande briga e eu a botei pra fora de casa com tudo o que era dela. Esse lado do armário agora é seu. Esta casa toda agora é sua.
Livrando-se com dificuldade dos braços de Vilela, André disparou pela escada, achando aquilo tudo muito inédito. Muito diferente.

Lições da tarde


Publicado na revista Vida Simples, Edição 51, março, 2007. Clique na imagem para ampliar.

16 março 2007

Pedra na vidraça


Jogaram uma pedra na vidraça da janela da sala. Ela estava ocupada com não-sei-quê lá no quarto. Largou o que fazia e foi ver o que tinha acontecido. Não tinha acontecido nada. Havia só uma pequena mancha no vidro que na certa sairia com um pano molhado.
Quis se aborrecer, mas desistiu. A rua lá fora estava bonita, com os raios amarelados do fim de tarde lambendo com preguiça as casas da frente. Esqueceu o não-sei-quê lá dentro, arrastou a cadeira de balanço para perto da vidraça e ficou olhando a rua, até que um cochilo disse que era noite.
E assim ficou sendo por muito tempo. Toda vez que um não-sei-quê tomava conta do seu tempo, uma pedra batia na vidraça; Ela já sabia. Era hora de ir pra janela ver a tarde passar até o cochilo trazer a noite.
Não foi diferente naquela tarde em que a pedra bateu, a tarde caiu e o cochilo entrou noite a dentro, noite a dentro, noite a dentro...

14 março 2007

Já vi esse filme


Dessa vez é pra valer. Não volto mais. E se voltar, vou impor minhas condições. Vai ter que andar na rédea curta. Nada de cinema sozinha, barzinho com amigas, reunião não sei de quê até altas noites. Psicanálise, também, nem falar. Odeio essa inveja do meu pênis. O personal training também está fora de cogitação. O cara tem quase a metade da minha idade. E tem de parar de fumar. Pelo menos no banheiro. Pelo menos sem jogar a guimba na bacia sanitária.
Dessa vez é pra valer. Pode ser até que eu volte. Mas só se ela jurar que não vai mais me obrigar a comer ricota no café da manhã e salada de alface no almoço. Se ela prometer não puxar assunto enquanto eu faço palavras cruzadas. Pelo menos deixar de começar as frases dizendo “na minha modesta opinião”. Pelo menos me deixar terminar a minha modesta opinião.
Pode ser até que eu volte. Mas só se ela telefonar pedindo. Pode até nem pedir, mas tem que ligar por um motivo qualquer, desde que deixe a entender que está com saudade. Pode até não ser saudade, mas tem que deixar claro que precisa de mim para alguma coisa. Trocar uma lâmpada, matar uma barata. Ela morre de medo de choque e de barata.
Pode até ser, mas sob certas condições. Não pode levar livro pra cama. Ver televisão no quarto, nem pensar. Não pode ter dor de cabeça por mais de três noites seguidas. Não pode virar de lado e cair pesado no sono. Também não vale acordar no meio da noite e sair de fininho para telefonar não sei pra quem. Também não pode dormir de pijama, que dá trabalho de tirar. E quando, enfim, estiver fazendo amor comigo, não pode, por hipótese nenhuma, tentar dizer meu nome. Pra não me chamar de João, Barreto, Mariano, Cláudio, ou Raoni. Meu nome é tão simples, mas ela nunca acerta. Eu me chamo André.

Dois poemas


Moldura

Do lado interno das janelas
sanefas negras despejam
cortinas negras.

No meio da sala
o caixão negro
estreita o homem no seu bojo.
O terno negro
enobrece
a polidez defunta.

Longas velas bruxuleiam.

Há sol lá fora.
A morte é provisória.


Fosco
As cantoneiras
prendem os mortos
nas páginas cinzentas do álbum.

O papel de seda
antecipa
o manto fosco
da memória turva.
Foto extraida do site outside.cocainomano.com

09 março 2007

Letícia que desbotou

(Para outra Letícia que acabou de colorir)


Letícia era uma borboletinha amarela que vivia brincando com seus amigos no fundo de um quintal. Passava das quatro da tarde, Letícia já tinha tomado banho e trocado de roupa. Mesmo assim, foi brincar com sua amiga Tixa, uma lagartixa.
Acontece que tinha uma poça de lama que Letícia quis passar por cima. Deu um vôo rasante e suas perninhas espalharam a lama que sujou suas asas amarelas.
Puxa, Tixa, e agora? Se eu chegar em casa suja de lama minha mãe vai ficar furiosa. E você não sabe como é feio uma mãe borboleta furiosa. Ela vira uma fera.
Tixa, a lagartixa, nunca tinha visto uma mãe borboleta zangada. Mas não devia ser muito diferente de uma mãe lagartixa. Mãe, quando zanga, é tudo igual. Tixa teve pena de Letícia e resolveu ajuda-la. Deu uma carreira, apanhou uma pétala de flor bem macia e começou a limpar as asas de Letícia.

Acontece que, junto com a lama, a flor também tirou a cor das asas de Letícia. Aqui e ali, no meio do amarelo, apareceram umas manchas brancas, sem graça. A borboleta Letícia desbotou.
Nossa, Tixa, disse Letícia, agora é que minha mãe vai ficar furiosa. Nunca mais vou ter coragem de voltar para casa.
Esquenta não, disse Tixa. Lá no fundo do quintal mora um camaleão que é pintor. A gente vai lá, ele pinta as manchas de amarelo, fica tudo igual novamente. Sua mãe não vai nem notar.
O que elas não sabiam é que o camaleão era um pintor meio pirado, daqueles que gostam de tudo colorido. Deixa comigo, foi o que ele falou quando as duas contaram o que tinha acontecido. Pegou um monte de tubos de tinta, espalhou na paleta e começou a pintar as manchas brancas das asas de Letícia, cada uma com uma cor diferente.
Que obra de arte. Eu sou um gênio, gritou o camaleão quando terminou seu trabalho.
Letícia olhou para Tixa com os olhos arregalados. Tixa caiu na risada. Letícia teve vontade de chorar. Agora é que eu não volto mesmo pra casa.
Mas Tixa era uma amiga de verdade. Convenceu Letícia a ir até perto de casa e foi chamar a borboleta mãe que já estava preocupada com a demora da filha. Boa tarde, Dona Borboleta, falou Tixa, vim trazer um recado de sua filha. Ela quer fazer uma surpresa pra senhora. Mandou dizer que fez umas mudanças no visual e quer saber sua opinião.
Dona Borboleta ficou curiosa e acompanhou Tixa até o lugar onde estava Letícia. Foi um espanto. Letícia tremeu de medo quando viu a mãe. Mas a cara de Dona Borboleta se iluminou quando viu o colorido das asas da filha.
Que cores tão bonitas, Letícia. Quero minhas asas pintadas assim. Sempre quis ter asas coloridas, mas não tinha coragem de experimentar.
Letícia sorriu, levantou vôo e ficou girando em torno da mãe e de sua amiga Tixa. O sol já estava se pondo e seus últimos raios deixaram mais bonitas as asas de Letícia.


(Ilustração de Manuel Penha Graça)

07 março 2007

Herança


Cuido com carinho
das palavras que herdei.
Das antigas e das novas.

As antigas,
gordas de sentido,
deixo-as descansar em minhas mãos
antes de lançá-las
de volta ao carrossel dos signos.
Relíquias
impregnadas de hálitos ancestrais.

As novas,
verdes de memória,
guardo no berço das mãos
até que estejam prontas
para a ciranda dos verbos.
Pontos luminosos
no discurso opaco do cotidiano.

Novas antigas palavras.
Herança e testamento
de minha breve passagem pelo mundo.

04 março 2007

Feitiço




Estava amando loucamente a namorada do amigo. Mas só até aí a coisa parecia com a música do Roberto. Não foi procurar alguém que não tenha ninguém. Queria Anita. E só ela. Mas um mínimo de vestígio moral resistia em algum canto de sua alma, como lixo debaixo do tapete. Foi esse resquício de pudor que o levou a conceber uma estratégia que fizesse Paulo acabar com o namoro. Depois, sim, atacaria.
Treinou uma voz em falsete até atingir um tom verossímel de contralto. Sentiu um pouco de frio na boca do estômago enquanto teclava o telefone. Quando o amigo atendeu, vestiu com o mais puro veludo a voz que não sabia ter dentro de si.
- Oi, Paulo. Eu sei que você não me conhece, mas sou colega de trabalho de Anita, sua namorada. Ela também não me conhece, mas eu sei muito bem o que ela faz quando sai do trabalho. Sei, porque vejo o homem que vai apanhá-la de vez em quando, no fim do expediente. É claro que não é você. Sinceramente, não sei como ela prefere um sujeito feio e baixinho a um cara bonito e forte como você. E, além de tudo, inteligente, pois eu já vi você numa roda de amigos e você era quem tinha as opiniões mais sensatas, sem ser chato. Tudo o que você dizia era temperado com um delicioso senso de humor. Aquela mulher não lhe merece, Paulo. Ela só pensa em dinheiro.

E desligou. Desligou mas sentiu que faltava alguma coisa. Faltava ouvir a voz de Paulo, saber o efeito que suas palavras tinham causado. Saber o quanto ele tinha ficado perturbado, se precisava de algum conforto depois do choque violento que por certo levara. Afinal, nada do que havia dito sobre ele era mentira. Paulo era de fato bonito, forte e inteligente. Além do mais, era sensível. Devia estar sofrendo.
Não hesitou. Temperou novamente o contralto em falsete e voltou a teclar. Além do frio na boca do estômago, sentia agora o coração em disparada.