26 julho 2011

Um abraço

Eles deviam estar muito felizes. A noite na feira agropecuária de São João da Boa Vista devia estar muito boa para o pai, o filho e suas namoradas. Lá para as três da manhã, as moças, como é costume das moças, foram juntas ao toalete. Pai e filho, de tão felizes, esperaram abraçados a volta das namoradas.

Acontece que eles estavam numa feira agropecuária no interior de São Paulo. Lugar de macho. E logo um bando de machos se aproximou perguntando se eles eram gays. Quando souberam que eram pai e filho, os machos se afastaram para voltar logo depois com um grupo maior de machos. O bando então passou a agredir os dois com socos e pontapés. O filho sofreu ferimentos leves. O pai teve uma orelha decepada a dentadas.

Eis um sinal destes tempos. Por um lado, vários segmentos da sociedade avançam com a adoção de medidas acolhedoras das mais diversas formas de comportamento. Por outro lado, alguns segmentos fecham o círculo da intolerância à diversidade, chegando ao absurdo de condenar uma expressão pública de carinho entre pai e filho.

É com alegria que vejo a cada ano aumentar o número de participantes das paradas gays nos mais diversos cantos do mundo. Recebo como um ato civilizatório a legalização dos casamentos homoeróticos, assim como a adoção de filhos por casais homossexuais. A flexibilização dos dispositivos legais está fazendo com que um número crescente de casais do mesmo gênero se exponha nos lugares públicos, usufruindo livremente de sua cidadania.

Recusar a diferença, já sabemos, é não aceitar no outro aquilo que rejeitamos em nós. Daí o ódio aos homossexuais, às mulheres, aos negros e aos adeptos de crenças diferentes das nossas. Mas o que me impressiona no caso da feira do interior paulista é a não aceitação de qualquer manifestação pública de carinho. Um abraço entre dois homens é uma ameaça à moral fundamentalista do machismo. Mesmo que seja um abraço entre dois amigos. Ou entre um filho e um pai.

17 julho 2011

Púrpura


Velhice também é cultura. Um dia desses fui a uma dermatologista dar uma geral na lataria e aprendi que aquelas manchas avermelhadas que apareceram em minha pele atendem pelo nome poético de púrpura senil. De repente, passei a ter a maior admiração por essas testemunhas inexoráveis do passar do tempo em meu corpo.
Agradeço pelo eufemismo ao poeta (deve ter sido um poeta) que criou uma metáfora tão bela para este atestado do avançar dos meus anos. Uma mancha púrpura pode ser considerada uma espécie de signo de nobreza. Na Roma antiga, só o imperador tinha o direito de usar a cor púrpura em sua roupa. O bom e sábio Nero chegou a punir com a morte quem se atrevesse a vestir ao menos uma cueca púrpura.
Não é a primeira vez que o colorido do organismo me surpreende. Há alguns anos, fiz uma endoscopia e o médico, meu amigo, me deu um DVD com as imagens do exame. Fiquei extasiado ao descobrir que sou cor de rosa por dentro. Mas confesso que não fico confortável quando vejo aquela confusão de cores que o monitor do médico me mostra quando faço uma ultrasonografia. Fico imaginando coisas esquisitas que estariam ocorrendo nos meus órgãos internos, principalmente naquele abrir e fechar das válvulas do coração.
São muitas as cores que nos vestem pela vida. Ficamos vermelhos de raiva, amarelos de vergonha ou verdes de medo. Ficamos também azuis de fome e roxos de tanto amar. Praticamos o humor negro e algumas vezes nos dá um branco na memória. É vasto o espectro que nos habita. Mas só alguns privilegiados podem exibir publicamente a cor púrpura. 
Não me tomem, por favor, por hipocondríaco. Mas passei a conviver melhor com aquelas manchas delatoras depois que descobri o seu nome poético-científico. Claro que dispensaria de bom grado o “senil”. Mas de alguma forma me sinto privilegiado em repartir com os antigos imperadores o privilégio de passear por aí vestido de púrpura. 

12 julho 2011

Benefícios de uma pequena tragédia

Desde que mandei fazer novas estantes, há mais ou menos um ano, venho adiando a arrumação dos meus livros. Tinha uma vaga idéia onde eles estavam. Separei mais ou menos por assunto nas prateleiras, deixei ao alcance da mão os mais requisitados e fui tocando, movido pela preguiça e pela possibilidade de uma reforma que acabou adiada sine die.

Daí, aconteceu uma tragédia. O excesso de chuva encharcou uma parede e, quando dei por mim, o mofo estava definitivamente instalado em quatro prateleiras. Dada a sua fragilidade proveta, a minha coleção do Thesouro da Juventude foi a mais prejudicada. Mas teve outras preciosidades atingidas. Um livro bilíngüe de poesia universal e uma coletânea de poetas franceses contemporâneos, dentre outros, também foram atingidos. Definitivamente, uma tragédia.

Mas essas pequenas hecatombes domésticas sempre têm o seu lado bom. Depois de cavucar na internet, descobri que colocar pequenos recipientes com algodão embebido em terebentina serve para matar os fungos do mofo. Pequenos potes com cal virgem também ajudam a absorver a umidade. Não custa nada tentar.

O melhor de toda essa história é que me vi obrigado a por uma ordem nos meus livros. A partir disso, a trabalheira se transformou em prazer. Ter nas mãos cada um desses velhos e novos companheiros de viagem me leva a reviver os momentos em que cada um deles entrou na minha vida. Comecei hoje, e não sei quando vou terminar. Pois isso não é trabalho que se faça de enfiada, com o piloto automático ligado. É coisa a ser feita com cuidado, pegando cada livro com carinho, abrindo alguns deles numa página marcada com um pedaço de papel e ficar lendo algum trecho sublinhado, tentando adivinhar o que se estava pensando ou escrevendo quando se fez o tal destaque.

Depois, procura-se as melhores companhias para cada volume. Coisa difícil, pois alguns são inclassificáveis, sugerindo dois ou mais lugares nas estantes. Outros, de tão importantes em nossa vida, merecem um pedestal ou uma prateleira inteira para cada um deles. E tem o proletariado dos livros didáticos, além dos exilados para as prateleiras superiores pelo simples pecado de não fazer parte dos nossos interesses atuais. Mas cada um com o seu quinhão de história para lembrar.

Arrumar os livros é uma tarefa exaustiva, tanto do ponto de vista físico quanto do emocional. Na minha idade, já não é tão fácil subir e descer escada com alguns livros na mão. Também é difícil conter a emoção que me desperta cada um desses companheiros deste já não muito curta existência.            

05 julho 2011

A feira, a vida




“Morrer é não mais ir à feira”, diz o poeta Águia Mendes, no poema de abertura do seu livro “Sol de algibeira”. É por isso que vou á feira duas vezes por semana: para me sentir vivo. E não estou falando daquele amontoado sem graça de frutas e verduras compradas às pressas nos supermercados. Feira, pra mim, é um lugar sagrado, aonde vou conversar com as pessoas, ouvir suas queixas, escutar histórias, aprender novas formas de maldizer.

Claro que compro coisas. Tenho meus fregueses fixos a quem só abandono quando descubro que estão me enganando. Por exemplo, passei mais de vinte anos comprando peixe a um velho de muito boa prosa, até que um dia ele me vendeu um peixe estragado. Quando voltei lá para reclamar, ele me disse na maior cara de pau: a gente tenta passar a mercadoria ruim. Se colar, colou. Nunca mais comprei nada a ele, embora continuasse parando em frente à sua pedra para escutar suas histórias.

Muita gente não vai mais à feira. Prefere a comodidade dos supermercados. De alguma forma, já estão meio mortos. Meio mortas estão também as nossas próprias feiras. A que freqüento, no bairro dos Estados, é uma espécie de cloaca, em que o sangue das carnes postas á venda a céu aberto se mistura com as águas sujas e os restos de frutas e verduras estragadas que os feirantes jogam em qualquer canto.

Toda vez que vou a São Paulo, faço questão de ir a uma feira. Gosto de ver as frutas e verduras bem arrumadas, o chão limpo, o cuidado com a higiene, a pluralidade de produtos refletindo o pluralismo étnico da cidade. Bem que as feiras daqui poderiam minimamente se aproximar desse modelo mais higiênico e confortável. Desde que não perdêssemos o gosto pela conversa, pela pechincha, pelo maldizer.

É fundamental que as feiras continuem vivas, para que eu também continue vivo. Pois a vida é aquele burburinho, aqueles riachos de gente passando entre as barracas. Aquela catinga de tantos cheiros misturados. O poeta Águia Mendes tem toda razão: “morrer é não mais ir à feira”. Vida longa, portanto, ao poeta, a nós e à feira.

Ilustração: Aracy. Acrílico sobre tela.

27 junho 2011

Vista cansada





Às vezes me dá um certo cansaço de ver as coisas. Principalmente quando elas se repetem, sem me causar nenhum espanto. E neste mundo uniformizado, é muito raro aparecer algo que realmente chame nossa atenção. Veja a moda, por exemplo. Monte um posto de observação em qualquer lugar de um shopping e espere passar as moças. Todas elas, ou quase todas, passarão de short bem curto, sapatos de salto agulha, uma camiseta estampada e os indefectíveis óculos escuros enormes, cobrindo metade do rosto. Os moços, então, nem me falem. É um exército fardado de bermudões no meio da canela, tênis de marca, camisas de malha com uma estampa esquisita e uma frase em inglês indecifrável. Coroando tudo, um boné de aba longa que esconde as caras, acentuando a uniformidade. Claro que existem variações, mas são variações previsíveis, também ditadas pelos ditadores da moda.

Me cansa muito também ver a repetição dos fatos na televisão, no rádio e nos jornais. Violência, corrupção, desastres naturais ou artificiais. Celebridades escandalosas, motoqueiros suicidas, fugas de prisioneiros e os padres disputando venda de cd com forrozeiros de plástico.

A ciência chama de presbita a pessoa que não vê direito as coisas mais próximas. Mas não é por acaso que a palavra presbítero, com que os antigos chamavam as pessoas velhas, é usada também para designar os pastores de algumas religiões protestantes. Ser um presbítero é, ao mesmo tempo, ser experiente e capaz de tomar conta de um rebanho de almas. De certa forma, é uma pessoa que vê melhor, com sabedoria, as coisas distantes, difíceis de ser discernidas pelos mais jovens.

Gostaria muito que o cansaço de minha vista fosse devido apenas ao tempo em que gastei olhando o mundo. Mas o cansaço maior se deve ao trabalho permanente de procurar alguma coisa que me surpreenda em meio a tanta banalidade, tanta repetição. Alguma coisa que me encha os olhos, que faça descansar a minha vista cansada.

21 junho 2011

Inverno

As moças do tempo informam que o inverno começou na terça-feira, 21 de junho, exatamente às 14 horas e 16 minutos. E dizem mais: que este mesmo inverno vai nos chatear durante 93 dias, 15 horas e 49 minutos.

Não sei para que serve tanta precisão. Pelo menos aqui no litoral do nordeste, inverno é sempre um período indefinido em que a chuva atrapalha nossa praia. No mais, a temperatura baixa um pouco, o que leva alguns (algumas) extravagantes a usar a roupa de frio que estava guardada desde a última viagem a São Paulo.

Puxando pelo que me resta de memória, lembro das tardes chuvosas em que as luzes da rua se acendiam mais cedo com a chegada apressada da noite, o que dava a impressão que meu pai demorava mais a voltar do trabalho. Da janela da frente, o futuro nostálgico já se demorava vendo a água correr ligeira pelo meio-fio da rua deserta e encharcada.

No mais, tinha as férias do primeiro semestre, quando eu ia com meu irmão para a casa dos meus tios numa usina de Alagoas. Ali sim, fazia frio. A gente acordava de manhã e a serração não permitia que víssemos a parede dos fundos do grupo escolar que ficava a uns cinqüenta metros da casa. E se tiritava na volta do cinema, lá para as dez da noite. Aí ganhava sentido aquela música junina da “noite fria tão fria de junho”.

Sei que cada um tem um inverno dentro de si, pessoal e intransferível. Mas desconfio que o inverno de todo mundo é triste. É um tempo de ficar trancado em casa, sentindo o cheiro de mofo que sai das estantes e dos guarda-roupas. De vez em quando um pigarro na garganta, vez por outra o nariz escorrendo.

Com um pouco de boa vontade, porém, é possível criar alguns momentos bons no inverno. Pode ser bom assistir um filme em boa companhia. Pode-se jogar cartas ou conversa fora, dependendo da boa companhia. E em boa companhia também se pode inventar alguma coisa boa de fazer para esquentar o corpo.

15 junho 2011

Thesouro


Ela chegou na minha casa antes de mim. Desde que me entendo de gente que os dezoito volumes da coleção do “Thesouro da juventude” me olham do alto da estante do meu pai. Sempre pensei que ela ficaria, depois de mim, na estante da casa de um dos meus filhos. Mas foi com o maior pesar que descobri que os volumes de capa dura azul e miolo de papel couchê estavam cobertos de mofo. Quase todas as páginas estavam úmidas, algumas já se desmanchando ao mais leve toque.


Vocês podem muito bem imaginar a minha desolação. Cheguei a pensar em me desfazer dela. Não jogando-a fora, simplesmente. Haveria de ser com um ritual crematório digno da sua importância. Mas não tive coragem. Sob as ordens de minha mulher, duas boas samaritanas se dedicaram ao trabalho de expô-las ao sol para depois limpar todas as páginas, uma a uma, com um pano embebido em vinagre. Era como assistir o lento trabalho de uma equipe médica contra a morte de um ente querido.

Os livros ainda estão lá, no terraço da frente, arrumados em duas bacias de plástico para receber os raios generosos que o sol ofertou como uma trégua nesses dias chuvosos e friorentos. Em breve, estarão de volta ao seu lugar na estante do meu escritório. E de lá continuarão me olhando, saudosos dos meus olhos e mãos de menino que neles iam encontrar as respostas para minhas primeiras perguntas e os primeiros rumores de beleza e sabedoria que iria continuar a buscar vida a fora.

Talvez suas páginas nunca mais sejam visitadas, nem mesmo por mim. Mas é fundamental que esses livros continuem ali, me olhando do alto. Pois de toda a multidão que me guarda as costas e os flancos, eles foram os primeiros a mostrar a minha pequenez frente ao conhecimento do mundo. Muito mais que isto, eles servem para me lembrar que o mundo ainda tem muito o que mostrar aos meus antigos olhos de menino.

07 junho 2011

Gina

Para Branca, Rubens e Gesiel


Para mim, a moça da caixa dos palitos Gina era uma prova da existência da fonte da juventude. Como diz a embalagem, os palitos Gina existem desde 1947, o ano em que eu nasci. Ora, se há 64 anos a tal Gina já era uma moça feita, de seus vinte anos, como mostrava a foto, então ela deveria estar passando dos oitenta. E sempre com aquele ar de caipira saudável, os vastos dentes à mostra, como se devessem sua beleza ao uso dos tais palitos.

A curiosidade, dizem, matou o gato. A mim, ela matou uma ilusão. Fui ver no Google se existia alguma referência à moça dos palitos Gina. Existia sim. E muitas. No site de relacionamentos Orkut existem comunidades como "Eu amo Gina” e “Eu tenho medo da Gina”. Mas acontece que na vida real a Gina se chama mesmo Zofia Burk, uma das modelos publicitárias mais requisitadas em sua época. Sua foto ilustra a caixa de palitos desde 1975. São 36 anos de sorriso em nossas mesas.

Mas a carreira de Zofia terminou exatamente quando ela se eternizou na embalagem de palitos. Sua identificação com a marca foi tamanha que inviabilizou a assinatura de outros contratos. Dali em diante, ela seria apenas a Gina Palito. E não ganhou nada com isto além do cachê para a foto. Chegou a processar a empresa, em busca de uma justa participação no faturamento, mas desistiu da ação. Tocou sua vida, cursou psicologia e se tornou guia turística. E ainda guarda um pouco de mágoa por nunca ter sido convidada para conhecer a fábrica que ajudou a tornar famosa.

Depois de conhecer a história de Zofia Burk, decidi deixar de comprar os palitos Gina. Não gosto de ingratidão. Ainda mais que esses palitos estão vindo mal-acabados, quebrando fácil, soltando lascas. Pretendo voltar aos velhos palitos Monroe, achatados, macios, em sua caixa branca onde ondulava ao vento uma floresta de eucaliptos, que por certo ainda existem em algum lugar perdido da minha infância.

01 junho 2011

Esconde-esconde

A memória brinca de se esconder comigo. Certos fatos correm de mim agora, e só mais tarde ou nunca mais mostram sua cara. Esta semana mesmo, a memória me pregou uma peça. O escritor Nilto Maciel, um caro amigo virtual, mandou um e-mail dizendo que tinha postado uma crônica minha no seu blog. Fui lá conferir e tomei um susto, pois o texto estava ilustrado com uma foto da pequena Ana Torrent no filme “Cria Cuervos...”, do Carlos Saura. Intrigado, perguntei ao Nilto se ele era algum médium sensitivo pitonisa, ou se tinha algum informante dentro da minha casa, pois de alguma forma ele sabia que eu tinha comentado o “Cria cuervos...” no sábado passado, no cine-clube do Zarinha Centro Cultural. O Nilto não demorou muito para desfazer minhas suspeitas sobrenaturais. A informação sobre o filme estava justamente na minha crônica que ele havia publicado. Eu simplesmente tinha me esquecido deste detalhe.

É a idade. Só pode ser a idade, respondi para o Nilto. E acrescento aqui: para envelhecer sem muita angústia, é preciso aprender a brincar com a memória. Se sabemos que ela esconde os fatos mais recentes, podemos aprender a registrá-los de alguma forma. Ter uma agenda facilita muito. Meu Outlook me avisa com uma semana de antecedência os compromissos mais importantes. O risco é esquecer de anotá-los.

Mas se a memória falha nos fatos mais recentes, ela fica mais colorida com as coisas mais antigas. Por uma razão muito simples: a maioria dessas lembranças são invenções, brincadeiras da memória para nos esconder também o que vivemos de amargo e doloroso.
Envelhecer é aprender a brincar de esconde-esconde com as lembranças. Mesmo que algumas vezes seja uma brincadeira de mau-gosto. Mas aí já não é culpa da memória. Tem uma coisa a mais nos roendo por dentro. Daí a memória não quer mais brincar e vai embora.

24 maio 2011

Sombras e melancolia


Sobre o novo livro de Hildeberto Barbosa
À sombra do soneto e outros poemas

O poeta é aquele que se debruça nas bordas do seu próprio abismo e dali contempla o que não é e poderia ter sido. O poeta é um saudoso de si mesmo. Por isso, todo poeta é triste.

Hildeberto é poeta. Logo, é triste. Sofre dessa saudade de si mesmo a que se convencionou chamar melancolia. E o seu novo livro, À sombra do soneto e outros poemas é o seu testamento melancólico.

O teor melancólico começa pela própria escolha da forma da maioria dos poemas que compõem a obra. Como se vivesse ofuscado pelo excesso de luz com que o contemporâneo fere seus olhos, o poeta refugia-se na sombra geométrica dos sonetos, contrapondo aos excessos sonoros das ruas este pequeno som (soneto) para vasculhar as sombras do seu abismo.

E lá, no fundo do poço, passeiam as imagens irrecuperáveis do seu relicário poético. As coisas do amor, da terra de nascença, da infância vivida nas léguas de sol e cinza e as lições definitivas das pedras. Um cata-vento, um juazeiro, um vaqueiro, um boi e um canário vivem ali. E ali morre uma mãe. Tudo o que o poeta perdeu e ainda permanece.

Permanece o berço de pedra, a comarca das pedras, permanece o amor e a espera da morte que Hildeberto mente em não temer, pois para ele a morte “é apenas a névoa batendo no rochedo”.

Vencido o ciclo asfixiante dos sonetos, o poeta nos dá Outros poemas, em que disfarça mal o fumo melancólico do seu poço. Lá está um arroubo perdoável, uma loa à flama ardente que consome o seu coração rubro-negro. Mas logo volta o tema recorrente: “sempre amei as pedras”. Desde as pedras de sua trágica Aroeiras à pedra preciosa da poesia. E o poeta avisa a quem lima o diamante das palavras “que a poesia/é sagrada matéria/coroada de luz/ e abismo”. Lembra ainda “que em cada artéria/de sílaba e silêncio/pulsa o coração/de Deus/ e sangra o coração/do homem.”

Convido o leitor a se debruçar sobre o abismo do livro de Hildeberto Barbosa. Tenho certeza de que cada um de nós nele encontrará suas próprias sombras. E pagará o preço do encontro com a moeda da sua própria melancolia.

15 maio 2011

Invasão bárbara


Estava tudo programado para ser um sábado sofisticado. Começou logo nas primeiras horas, quando saímos de um bom restaurante onde jantamos um excelente salmão acompanhado de um vinho razoável. O que estava previsto em seguida, depois de umas boas horas de sono, era dedicarmos o dia a atividades exclusivamente culturais. Precisava me preparar para um encontro com a escritora Ana Miranda, o que incluía ler e reler alguns de seus livros e consultar sobre ela na internet. Além disso, precisávamos assistir “Cria cuervos”, de Carlos Saura, pois tinha sido convidado para comentá-lo numa sessão especial de cinema. Iríamos passar o sábado numa espécie de levitação.
Acontece que o homem põe, Deus dispõe e a mulher impõe. Deus até parece que havia concordado com a programação cultural. Mas minha mulher lembrou de uma receita de churrasco feito em panela de pressão que tínhamos visto no início da semana no programa de Ana Maria Braga. O problema era que nenhuma das nossas panelas estava em condições dignas de participar de semelhante evento culinário. Ante à proposta de minha mulher de adiar o prato para um dia em que tivéssemos uma panela de pressão decente, me indignei e tomei a decisão que se espera de um verdadeiro varão: hoje vai ter churrasco nesta casa, nem que eu tenha que mover céus e terras. Mover céus e terras, neste caso, consistia em pegar o carro e dar um pulo no shopping, o que foi feito em pouco menos de uma hora.
Nem precisou que o portão automático se abrisse todo para que aparecesse a figura arredondada do meu irmão, impaciente por não ter ainda iniciado os trabalhos do sábado. Daí em diante, dá pra imaginar o que aconteceu com o meu programa cultural. Livros e filme foram alegremente substituídos por fartos pedaços de carne, metros de lingüiça, generosos goles de cachaça e decalitros de cerveja bem gelada.
Saura e Ana Miranda que nos perdoem, mas não é todo dia que se compra uma panela de pressão.

10 maio 2011

Duas faces da maldade



Foi num mesmo dia da semana passada. Em dois canais diferentes de televisão. Primeiro, passou um documentário sobre a ablação do clitóris, ainda praticada em 28 países africanos. Depois, foi uma reportagem sobre os maus-tratos sofridos pelas pacientes da Maternidade Leila Diniz, na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro.
O documentário exibia cruamente um ritual de extirpação do clitóris de uma adolescente que aparece depois, evolvida num manto azul, falando do tamanho da dor que acabara de sentir.
A reportagem, depois de mostrar as cenas já batidas de enfermarias lotadas e corredores apinhados de macas, mostra uma mulher recém saída da sala de cirurgia, colocada numa cadeira desconfortável, que reclamava: “Sentada em cima dos pontos, dói. Dói pra caramba.”
Estima-se que cerca de 115 milhões de mulheres sofreram mutilações genitais em todo o mundo. Mas esta prática vem sendo combatida através de movimentos internacionais pelo direito ao controle do corpo e da sexualidade. E para que estes direitos sejam respeitados, é necessário o recurso às leis.
Não sabemos quantas mulheres têm negado o seu direito a um tratamento digno num dos momentos mais importantes de suas vidas, em que dão à luz um novo ser humano. Mas sabemos que há leis obrigando o Estado a cuidar da saúde dos seus cidadãos, principalmente dos pequenos cidadãos recém-nascidos e suas mães.
Talvez o que esteja faltando seja um movimento internacional que chame a atenção do mundo para a maldade que se comete não apenas com as mulheres recém-paridas neste País. Somos todos nós que somos postos a sentar em cima dos pontos dados às pressas nessa ferida vergonhosa em que se transformou a saúde pública no Brasil.

03 maio 2011

Generosidade cotidiana

Não vou falar da morte de Bin Laden, nem dos espetáculos midiáticos patrocinados pelas monarquias decadentes da Inglaterra e do Vaticano. Tampouco me interessa a composição da comissão de ética do Senado nem os rumores sobre a volta da inflação. Nada disso tem valor se comparado aos atos de generosidade com que somos contemplados no cotidiano.

Vejam se não tenho razão: cheguei em casa um dia desses e encontrei sobre a mesa o novo livro de poemas de Eloi Firmino de Melo, “Um floral de sombras”. A capa é bonita, os poemas são bons e me deixaram alegre um bom tempo. Outro dia, depois de algum tempo de aborrecimento numa agência bancária, ainda na fila do caixa eletrônico, recebo das mãos amigas do Águia Mendes outros dois livros de poemas: “Sol de algibeira”, em que o poeta passeia entre a morte e a paixão, e “Um boi pastando nas nuvens”, escrito para os nossos resquícios de infância.

É raro o dia em que não saio de casa de mãos abanando e volto com algum presente impresso dado por algum amigo poeta. Às vezes, nem tão amigo, às vezes nem tão poeta, mas a generosidade é boa e verdadeira.

Mas a generosidade que me cerca não se resume a livros bem ou mal escritos. Esta semana, uma vizinha, até que nem muito próxima, nos deu três abacates colhidos em seu próprio quintal. Me fez lembrar uns vizinhos que tive no Recife, com nossos quintais separados por um muro baixo que nos permitia saber das novidades sem sair de casa. O bom dessa intimidade é que, todos os sábados, entre as onze e o meio dia, lá estava um copo de cuba-libre me esperando suado em cima do muro.

Parece mentira que ainda existam vizinhos assim, por trás desses muros altos e cercas eletrificadas. Mas eles existem e nos dão de presente o fruto secreto de sua generosidade.

27 abril 2011

Como diz o ditado


Quando botou a baleadeira no bolso de trás das calças, ouviu sua mãe dizer: “boa romaria faz quem em sua casa está em paz”. Bateu a porta da casa e saiu.

“Cachorro que muito anda, apanha pau ou rabuge”, disse-lhe o pai que cuidava do jardim. Saiu sem fechar o portão.

Lembrou o que dizia sua avó: “junta-te aos bons e serás um deles, Junta-te aos maus e serás pior do que eles”. Juntou-se ao bando que o esperava na esquina. Ganharam o mundo em direção ao sítio de mangas.

“Quem com muitas pedras bole, uma lhe cai na cabeça”. Era a voz do tio que ouvia sempre quando acertava uma manga com a baleadeira.

“Mais vale uma pomba na mão do que duas voando”. Foi o que lhe veio à cabeça quando encheu cada bolso das calças com duas mangas espada.

Quando entrou em casa, seu pai garantiu que o matava se saísse com aquele bando de moleques novamente. Sua mãe disse que ele ia para o inferno se continuasse roubando mangas do sítio alheio. Sua irmã mais velha contou que não era apenas mangas que esses moleques roubavam. “Quem cala consente”, ouviu da velha empregada. E se trancou no banheiro.

Com a chegada da noite, os barulhos da casa voltaram ao normal. Ele deu uma carreira para o quarto e se escondeu na cama. "Quem não trabalha não come", falou a raiva do pai antes de mandar recolher a comida da mesa.

“Quem não arrisca, não petisca”, foi a última coisa que pensou antes de cair no sono, sem se importar com os fiapos de manga entre os dentes.

19 abril 2011

Rosbife


Ela morreu e não fez meu rosbife. Mas não foi por má vontade. Foi falta de tempo. Pois fazer um rosbife, para ela, demandava muito tempo. Primeiro, era preciso ir de véspera para o açougue escolher uma boa peça de filé. Limpar a carne era um trabalho de joalheria. Não podia ficar um fio de nervo, uma nesga de gordura. Já perto do almoço, às vezes do jantar, ela exercia sua tirânica vontade sobre toda a cozinha. Tudo devia estar à mão. Todos os temperos, todos os legumes, o azeite, o vinho e certos segredos sovinamente guardados. Panela aquecida, era o momento da mágica: a peça rolava sobre o azeite fervente no tempo exato para criar uma crosta dourada e revelar, ao fio da faca, o interior macio e avermelhado.

Na última vez que ela veio em minha casa, não toquei no assunto do rosbife. Sua saúde estava abalada e eu sabia que, se pedisse, ela tirava forças das entranhas e fazia o prato pra mim. Mas não valeria a pena. Não queria que o meu prazer custasse o seu sacrifício.

Daí que ela morreu. Agora, se eu quiser rosbife, que o faça. E é o que vou fazer. Qualquer dia desses crio coragem e vou no açougue. É provável que ela também vá, pois nunca confiou na minha capacidade de escolha no que tange às carnes. É só deixar que o seu espírito implicante guie minhas mãos revolvendo, apertando e afundando a unha do polegar em todas as peças até achar aquela que prometa a crosta mais crocante, o interior mais macio. Depois vai ser fácil seguir suas ordens estritas e deixar que a mágica se faça mais uma vez.

Cada um que se vai, mais do que uma imagem, deixa um cheiro na nossa memória. Meu pai me deixou o cheiro de jenipapo misturado com o suor do seu corpo. De minha mãe ficou o perfume do óleo que usava no cabelo negro e espesso. Cada um que se foi, deixou um cheiro. O cheiro que Zita deixou foi o de rosbife incensando a cozinha.

13 abril 2011

Só depois


Primeiro, é o tempo do trauma. A compreensão vem só depois. Estamos todos traumatizados com a tragédia do Realengo. É impossível para todos nós compreender o que leva um homem a invadir uma escola e atirar a esmo, matando e ferindo crianças e adolescentes. É doloroso assistir pela televisão o drama das mães, colegas e professores das vítimas, todos atônitos, como nós, frente à brutalidade do acontecimento.

Não satisfeita com o nível de dramaticidade inerente ao fato, a mídia se encarrega de multiplicá-la, aumentando, assim, o impacto traumático sobre os indivíduos atônitos. Numa pressa irresponsável em busca de audiência, exibem a opinião de supostos especialistas que, lisonjeados pelo privilégio, ofertam peças mal-acabadas de achismos travestidas em afirmações científicas.

Nada que se diga agora poderá nos explicar os motivos da mortandade do Realengo. Não adianta tentar compreender um ato não-racional com os argumentos surrados da velha razão cartesiana. O fato de não suportarmos a ambigüidade e a falta de sentido nos leva à busca apressada de causas que justifiquem os efeitos e nos leve de volta ao terreno seguro das certezas.

No caso específico do Realengo, estamos ainda no primeiro tempo. O tempo do trauma. Agora, nenhuma compreensão é possível, pois é próprio do trauma a falta de sentido. Só depois, a paciência nos mostrará o caminho para uma outra racionalidade. Uma maneira nova de ver e ouvir solidariamente o sofrimento humano. Uma forma de acolher e conviver com o estranho e inquietante que se move nos outros e em nós mesmos. Por enquanto, sejamos pacientes. Chegará o momento de uma outra razão que nos trará novos sentidos. Mas não agora. Só depois.

06 abril 2011

Memória das sombras



Ninguém manda na memória. E quanto mais se insiste em esquecer, com mais força volta a coisa que se quer esquecida. Por isso é que não foi possível deixar passar em branco o aniversário do golpe militar de 64.
A data inaugural de todo o tempo sombrio em que a liberdade nos foi cerceada bem que poderia passar despercebida, se não fosse um certo deputado federal vociferar saudosamente na televisão o nome de todos os militares que mandaram neste País durante 21 anos.
É claro que este homem só está no poder porque foi eleito por um número considerável de cidadãos. Pessoas que concordam com o seu pensamento truculento e retrógrado. Gente que apóia a violação das liberdades individuais, o banimento do direito à associação, as prisões sem mandato judicial, a tortura como método de interrogatório e as execuções sumárias como forma de se livrar dos inimigos.
Vivi a ditadura como um cidadão comum, participando de atos públicos e aproveitando os espaços possíveis para divulgação das idéias que achava e acho mais adequadas a uma vida digna para todos. Não tenho nenhum ato de heroísmo no currículo. Mas tenho na memória uma dose muito forte de medo. Um medo que fiz o possível para não transmitir aos meus filhos e do qual defendo minhas netas. Um medo que emanava de cada desconhecido que nos rondava. Medo de perder o emprego ou o curso por uma delação ou pela má vontade do chefe ou do diretor da faculdade.
É a memória deste medo que me faz, hoje, temer pessoas como o deputado saudoso e seus eleitores. Porque sei que os métodos brutais que eles defendem ainda existem e são aplicados nas celas escuras das delegacias e presídios, nas favelas e nos ermos deste País. São os restos das sombras do longo período de sombra que manchou a história deste País. E se não fizermos alguma coisa para eliminar estes restos, veremos uma grande sombra de iniqüidades se abater indiscriminadamente sobre todos nós.
Eu sei que as boas memórias nos trazem alegrias. Mas as memórias más nos trazem lucidez. Mesmo as memórias das sombras.

Imagem obtida em: http://www.moba.be/

29 março 2011

A crônica


Acho muito engraçado certos editais de concursos de literatura que exigem crônicas inéditas. Que se guarde um conto, um romance ou mesmo um poema na gaveta para tentar a glória de um primeiro lugar no mais profundo cafundó do judas, tudo bem. Mas guardar uma crônica por mais de um dia é a mais pura perda de tempo. A crônica é feita para ser jogada fora com o jornal em que for impressa. No máximo, alcançará o mérito de embrulhar peixes na feira.

Drummond dizia que suas crônicas eram como croissants servidos no café da manhã. Uma coisa gostosa, mas rapidamente digerida, dando lugar aos alimentos mais sólidos servidos nas páginas de economia, política ou policial.

Cony, por sua vez, concebendo o romancista como um peixe de águas profundas, que porta sua própria luz, compara o cronista com um peixinho de aquário que enfeita a sala.

Ninguém escreve crônicas pensando na eternidade. Escreve-se da mão pra boca, num sentido de urgência que não permite contorcionismos sintáticos ou exibições xaroposas de erudição. Rubem Braga contava que uma leitora vivia reclamando dos erros que encontrava em suas crônicas. Dizia que ele era um escoteiro ao contrário. Todo dia cometia uma má ação contra a língua portuguesa.

Crônica guardada cheira a mofo. Se não for logo dada ao público, seja num blog, no mural da escola ou no café da manhã da família, perde a sua função de portadora de contingências. Ou então não é crônica. Será um arremedo de conto, um pretenso poema em prosa, a catarse de uma dor de corno mal curada.

Mesmo aquilo que nasceu crônica, se não conhecer de imediato a luz, perderá o direito ao título. Será uma lembrança de si mesma, como qualquer uma dessas que são publicadas em livro. Já foram crônicas. Não são mais. São apenas testemunhas dos malogros do cronista todas as vezes em que tentou registrar o efêmero de um momento nessa forma efêmera, fadada ao lixo, ao esquecimento.

22 março 2011

Teatros


Não podia ser em lugar melhor. Foi o Teatro Municipal do Rio de Janeiro que Barack Obama escolheu para falar ao povo brasileiro. O espetáculo foi perfeito. O cenário, deslumbrante, com várias bandeiras brasileiras e americanas intercaladas, como coristas servindo de fundo ao artista principal. E ele estava num dos seus melhores dias. Saudou o público em português, sem esquecer de particularizar os nacidos em alguns estados que julgou importantes, tais como os mineiros e as « baianas ». Foi comovente e surtiu o efeito esperado em boa parte da população, muito bem documentado pela televisão.

Um dia antes, porém, o chefe da nação amiga já deixava claro as suas verdadeiras intenções: vender, vender mais, vender muito, vender tudo o que os EUA têm para vender. Mal disfarçando sob o manto da presidência o seu verdadeiro papel de camelô da indústria bélica americana, Obama cochichou no ouvido de Dilma Roussef as maravilhas dos seus aviões de caça FA-18.

O Brasil está interessado em comprar 36 aviões, numa trasação avaliada em cerca de seis bilhões de dólares. O negócio é tão bom, que, antes da visita de Obama ao Brasil, outro camelô internacional, Nicolas Sarkozy, barganhou o apoio da França à candidatura do Brasil a uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU em troca da compra dos caças Rafale, de fabricação francesa.

Enquanto os videotas brasileiros se embasbacavam com as maravilhas de segurança e conforto dos automóveis e aviões da presidencia americana, os sessenta empresários da comitiva ofereciam seus préstimos na construção da infraestrutura para a Copa e os Jogos Olímpicos da terrinha.

E para mostrar que não estava para brincadeira, Obama fez uma demonstração prática da utilidade do seu produto. Mandou bombardear as posições estratégicas das forças leais a Kaddafi. O recado estava dado. Se o espetáculo do Teatro Municipal não foi suficientemente sedutor, ali estava um argumento mais convicente: a eficácia dos seus mimos no teatro de operações. Deve ter sido mais ou menos isto que Obama cochichou no ouvido da Dilma.

16 março 2011

A grande onda


Dentre as mais de trinta mil obras que Katsushika Hokusai deixou, a mais conhecida é a xilogravura “A grande onda de Kanagawa”, publicada em 1830 ou 1831. Ali o artista flagra o enorme contraste entre a força inexorável da natureza e a extrema fragilidade do engenho humano. Uma onda gigantesca ameaça engolir três barcos movidos a remos. Ao longe o Monte Fuji, impassível e soberano, testemunha o embate.

O artista nasceu em Tóquio, 1760, com o nome de Tokitarō, no bairro de Katsushika. Daí o nome que adotou em 1805: Katsushika Hokusai. Mudava de nome quando mudava de estilo. Dizem que teve mais de trinta nomes em sua vida.

Definitivamente, Hokusai era um artista de vanguarda, de fazer inveja a qualquer geniosinho contemporâneo. Já em 1804, durante um festival de Tóquio, pintou com vassouras e baldes de tinta um retrato de 180 metros de um monge budista. Desafiado por um Shogun a competir com artistas mais velhos, pintou, na frente do chefe guerreiro, uma curva azul no papel, pondo para caminhar em cima dela uma galinha com os pés mergulhados em tinta vermelha. Inventou que era a paisagem de um rio com folhas vermelhas flutuando. Ganhou a competição.

Exatamente por ser obra de um gênio, “A grande onda” causa espanto a quem a vê agora, depois da tragédia que se abateu sobre a terra do artista. Ali, os homens desafiam a natureza e tudo faz crer que serão derrotados. É impossível olhar a xilogravura e não sentir a angústia que a fúria das forças naturais causa quando nos ameaça de morte. É impossível não sentir a fragilidade dos instrumentos com que desafiamos as forças da natureza.

Em todos os tempos, os barcos naufragam e os artistas nascem e morrem. O Monte Fuji permanecerá soberano, alheio ao sofrimento dos homens e aos movimentos das ondas.