14 abril 2010

Dôra, a comendadôra



O filho de um fazendeiro foi eleito governador do Lions em sua cidade. O velho pai pergunta ansioso:
- Quer dizer que a gente agora pode prender os inimigos?
- Pode não, meu pai.
- Mas mandar soltar os amigos a gente pode, não pode?
- Pode também não, meu pai.
- Então, pra que diabo serve ser governador?
A minha amiga Dôra Limeira acaba de receber, da Câmara Municipal de João Pessoa, a Comenda Cultural Ariano Suassuna. É a minha vez, então, de perguntar: pra que serve ser Comendadora?
Em primeiro lugar, serve pra enfeitar. Dôra ficou imponente com aquela medalha enorme enfeitando seu colo. Parecia uma Super-Filha-de-Maria.
Em segundo lugar, serve para deixar vaidosos todos que gravitam em torno dela. Irmãos, filhas, netos, futuro bisneto e a montanha de amigos, todos nos sentimos agraciados na pessoa grandiosa de Dôra Limeira.
Em terceiro lugar, serve para lembrar a nós todos que sensibilidade, garra e talento não tem idade nem escolhe gênero. Dôra é um exemplo vivo, vivíssimo, do que pode uma mulher lançada no mundo para nele deixar sua marca.
Dôra foi a última das meninas Limeira que conheci. Primeiro conheci Nara e Dea. Depois, vieram Ruth e Raquel. Por fim, ganhei este presente da vida: o direito de brigar com Dôra, frente-a-frente ou pelo telefone, todas as vezes em que falo com ela. Porque com Dôra, não tem refresco. Você tem que ser claro e verdadeiro. Assim como ela é clara e verdadeira. Basta ler qualquer um dos seus livros de contos para saber do que estou falando.
Eis, enfim, para que serve a Comenda Cultural Ariano Suassuna que Dôra recebeu. Para reconhecer que vale a pena viver com intensidade e se doar aos outros e à sua cidade. Para mostrar que existem pessoas que dignificam a comenda, mais do que são engrandecidos por ela.

12 abril 2010

Trilhas sonoras













Desde menino que ouço rádio. A trilha sonora de minha vida começou a ser composta com as músicas que o rádio me ensinou. Os discos vieram depois. No princípio, era o rádio.
Lá pras bandas da década de cinqüenta – do século passado, menina, do século passado -, as músicas tinham época para tocar. Não era essa esculhambação de hoje. Tinha música de Natal, música de carnaval, depois vinham as músicas juninas. Só nos intervalos dessas festas é que se lançavam as músicas românticas, os boleros, os sambas-canção. Na semana-santa, então, só tocava música de “morreu-galego”. Isto que hoje se chama música clássica.
Uma das maiores emoções da minha vida, foi ouvir, quase adolescente, a programação da Rádio Tamandaré, do Recife: “música, somente música e um só anúncio por intervalo”. Foi quando senti o espanto dos acordes dissonantes da bossa-nova e do jazz.
Foi no rádio que ouvi pela primeira vez Alegria, alegria, de Caetano, e Penny lane, com os Beatles. Sons que apontavam para um outro mundo para além dos muros do quartel em que servia a, contragosto, em Maceió.
Depois de um tempo de desgosto com o lixo que as rádios vêm há muito nos servindo, descubro novamente a alegria de ouvir rádio. Tenho algumas estações selecionadas pela internet. Em uma delas, a Espace Musique, do Canadá, escuto o que há de mais significativo da música de todo o mundo. Inclusive muita música brasileira que nunca irão tocar nas rádios do Brasil. Até Selma do Coco já ouvi por lá. De repente, tenho uma nova Rádio Tamandaré em casa. É uma pena que, para ter acesso a um bem de cultura tão essencial como a música, eu tenha que me valer de um equipamento sofisticado, fora do alcance da grande maioria das pessoas. Pobres pessoas, condenadas a uma trilha sonora pobre e repetitiva, incapaz de realçar a emoção dos bons e maus momentos de suas vidas.

06 abril 2010

Boas notícias




Estou cansado de más notícias. A televisão não me deixa em paz. Padres pedófilos, terremotos, políticos corruptos, enchentes, homens-bomba, desabamentos, mensalões, erupções. Agora mesmo estou com a alma encharcada de tanta chuva no Rio de Janeiro. Será, minha gente, que não existe mais uma notícia boa?
Me lembro de quando servia ao exército, em Maceió, e dormia na casa de um primo que era sargento no mesmo batalhão que eu. Uma noite, já madrugada, ouvi no rádio uma convocação urgente para que todos os militares da cidade se apresentassem no quartel. Levantei assustado e bati na porta do quarto do meu primo avisando da convocação. Desliga o rádio, ele respondeu, não se dando sequer o trabalho de acender a luz do quarto.
Será que não estamos precisando exatamente disto? Desligar o rádio, a televisão, os computadores, fechar os jornais e as revistas e olharmos em nossa volta? Será que, neste exato momento, não está acontecendo nada de bom?
Há poucos dias, uma mocinha, de seus treze para catorze anos, atravessou na frente do meu carro, subiu a calçada e tomou um susto. Duas borboletas amarelas vieram não sei de onde e começaram a fazer festa em volta dos seus cabelos. A televisão não estava lá, não tinha nenhum fotógrafo por perto, nenhum locutor de rádio deu a notícia alarmante: duas borboletas amarelas deram um susto na moça que subiu a calçada. Mas meus olhos registraram a cena e, quando cheguei em casa, contei para minha mulher. Dou a notícia agora, nesta crônica, para que mais pessoas fiquem sabendo que uma moça se assustou com duas borboletas.
É em cenas pequenas como esta que a poesia se revela aos olhos atentos à surpresa do belo. Muitas cenas como estas estão acontecendo agora em frente aos nossos olhos. E nem precisam ser tão inusitadas. Pode ser um cheiro de jasmim na frente de uma casa. Pode ser uma risada gostosa de um homem. Pode ser a mão de uma neta batendo de leve no rosto de um avô. Cenas prosaicas, que acontecem às centenas à nossa volta, mas das quais não nos damos conta, pois nossos olhos e ouvidos estão aprisionados pelos aparelhos eletrônicos que nos enchem de pânico e angústia.


Ilustração obetida em: vivi-dick.spaces.live.com

30 março 2010

A Páscoa dos inocentes



Neste momento, em diversos lugares do mundo, milhares de crianças estão sendo molestadas por adultos. Em muitos lugares do mundo, estas crianças estão sendo sexualmente molestadas por padres católicos.
Se a pedofilia se alastra como uma epidemia em todo o mundo, é no seio da igreja católica que ela mais se destaca, pois os criminosos são presumidamente pessoas responsáveis pela propagação da ética e da espiritualidade entre aqueles que confiam em seu amor pastoral. Dizendo-se pastores de almas, é o corpo dos pequenos fiéis que eles cobiçam.
O número dos crimes é alarmante. Só para termos uma noção do nível de crueldade, basta citar um caso dos Estados Unidos, em que o padre Lawrence Murphy, que morreu em 1998, é suspeito de ter abusado de até 200 meninos em uma escola para surdos entre 1950 e 1974.
Na Alemanha, país natal do Papa Bento XVI, 18 das 27 dioceses estão sendo investigadas. Desde o início de 2010, pelo menos 300 pessoas acusaram padres católicos da Alemanha de abuso sexual ou físico. Entre as acusações, está o abuso de mais de 170 crianças por padres em escolas jesuítas, além de casos dentro de um coral de meninos dirigido durante 30 anos pelo monsenhor Georg Ratzinger, irmão do papa.
E o que diz o papa disto tudo? Em sua homilia do Domingo de Ramos, disse que Deus guiará os fiéis “no caminho da coragem que precisamos para não nos deixarmos intimidar pela fofoquinhas da opinião dominante...” É isto, pois, o que o papa pensa de tudo isto: somos fofoqueiros que nos metemos em assuntos internos da sua igreja.
É Páscoa, minha gente. Para os católicos, um tempo de renovação e renascimento. Para muitas crianças formadas nessa fé, será um tempo de vergonha e sofrimento. E somente a justiça secular poderá reparar os danos decorrentes da ação criminosa dos seus agressores. Mas não haverá justiça, deste ou de outro mundo, que possa reparar os danos da inocência perdida.
Ilustração: Ziraldo

24 março 2010

Ponto para a barbárie

O shopping e a favela. Contraste e confronto

Três assaltantes invadiram uma casa no bairro de Manaíra, em João Pessoa, onde havia uma festa. Aproveitando-se de um descuido, as pessoas da casa desarmaram um dos homens e começaram a bater nos três. Um deles conseguiu fugir, outro foi entregue à polícia bastante ferido e o terceiro morreu de tanto apanhar. Uma cena de barbárie cada vez mais comum nas cidades brasileiras.

Há muito tempo sabemos que para a humanidade só existem duas opções: socialismo ou barbárie. Sabemos também que o socialismo é o nome político da solidariedade. A principal dificuldade em fazermos a opção pelo socialismo é que a solidariedade não é um atributo natural do homem. A partir dos laços familiares mais estreitos, o nosso instinto gregário vai se alargando em forma de círculo até um limite que varia segundo certas circunstâncias sociais. A fronteira pode estar na casa vizinha, no outro bairro, em outra cidade, outro estado ou país. O limite também pode estar na diferença de etnias, cor da pele, escolhas religiosas ou sexuais. Cada um de nós tem um limite para além do qual nossa solidariedade não avança. O limite mais resistente, porém, está entre as classes sociais.
O que aconteceu em Manaíra foi apenas mais uma manifestação dessa luta entre as classes que muita gente, não sei com quais fundamentos, acredita ter sido abolida. O bairro de Manaíra é, todo ele, um monumento à luta de classes. Basta ver o contraste entre a monumentalidade do Shopping e a degradação urbana do Bairro São José. Não é de espantar que as pessoas segregadas em seu gueto à beira do mangue descarreguem seu ódio naqueles que mais parecem com os representantes da classe antagônica. Estão apenas obtendo pela força os bens impossíveis de obter graças à omissão histórica do Estado.
Não é de espantar, também, que a classe média de Manaíra reaja à ação dos marginais oriundos do gueto que entrem em suas casas e ameacem suas vidas. Estão apenas defendendo suas integridades corporais e patrimoniais que cabe ao Estado proteger.
Só um estado forte e generoso pode garantir a igualdade de condições para que todos os cidadãos possam usufruir de uma vida digna. Quando o Estado falha neste papel primordial, perde-se toda a racionalidade que poderia levar a um comportamento solidário entre as classes. Cria-se o terreno fértil para o recrudescimento da barbárie, esta erva daninha que não precisa de nenhum cultivo para se alastrar.

Foto: Oriel Farias





16 março 2010

Excessivamente humano


A marca do humano é o excesso. Se você discorda, olhe em sua volta. Essas pessoas todas que passam correndo, a pé, de carro, ou espremidas em ônibus desgovernados, correm para o nada, movidas por uma sensação inexplicável de pressa e de perda iminente.

Mas não precisa olhar para tão longe. Veja as coisas que lhe rodeiam no seu dia-a-dia. Esse monte de livros, essa pilha de CDs, esses papéis velhos entulhados nas estantes que você nunca irá reler. Seus sapatos surrados, essas meias velhas, aquelas camisas desbotadas, as calças fora de moda abarrotando o guarda-roupas, quando você vai usar de novo? No entanto essas coisas ficam ali, ocupando espaço e tempo, restos insepultos da sua vida que delas nunca mais se servirá.

Quer um outro exemplo do excesso? Veja uma família festejando a classificação no vestibular de um dos seus rebentos. Nada, nem a qualidade da faculdade, a seriedade do curso, a futura carreira profissional, nada mesmo justifica aquela euforia somente mantida às custas de muita cerveja. Outro exemplo? Chegue perto de um apaixonado. Ouça o que ele tem a dizer a respeito do objeto de sua paixão e depois vá conferir essas qualidades com o dito objeto. Mais ainda: assista este mesmo apaixonado quando se transformar num desiludido do amor. Ele vai morrer, ele vai matar, ele vai largar tudo pra ser monge no Nepal.

Agora, se quiser uma prova mais fidedigna do excesso humano, olhe um pouco para dentro de você. Conte as vezes por dia em que sua garganta aperta, sua respiração se encurta, seu coração se acelera. Procure os motivos para tudo isso e você verá que as mínimas coisas são capazes de nos tirar do sério. E aqueles pensamentos terríveis causados pelo mais mínimo atraso da pessoa amada? E aquela sensação de angústia que não conseguimos encontrar a causa?

Pois é. Nós somos seres excessivos. E toda essa forma ruidosa de ser serve apenas para nos mostrar o quanto somos mínimos em nosso egoísmo.


Ilustração: Multidão 2, Pedro Charters

09 março 2010

Solidão e morte

Fazia três anos que o velho senhor não pagava o condomínio de um pequeno prédio em Asnières, na periferia de Paris, onde morava só, em um pequeno apartamento. Coisa estranha, pois era um bom pagador, indo pessoalmente todo mês ao escritório do síndico honrar o seu débito. Depois de não receber resposta a nenhuma carta de cobrança, o síndico percorreu a vizinhança em busca de informações sobre o septuagenário. Ninguém o tinha visto há um bom tempo. Impedido de violar as áreas privadas do prédio, o síndico recorreu a um especialista em genealogia para localizar a família do desaparecido. Existia, sim, um irmão, mas esta também não via o velho homem há muito tempo. Acionada, a polícia arromba o apartamento e encontra o cadáver do morador em total estado de decomposição.
Este é apenas mais um caso de pessoas que morrem sozinhas sem que ninguém dê por sua falta. O fato é comum, principalmente em cidades da Europa. Durante a onda de calor que em 2003, só na França, matou mais de 13 mil pessoas, a grande maioria de idosos, mais de mil famílias não se apresentaram para recuperar o corpo de seus parentes. Foi preciso a intervenção do governo para que algumas centenas de familiares assumissem o enterro de seus mortos.
A morte solitária e anônima é um dos sintomas mais graves do comportamento individualista a que somos incentivados pela economia neoliberal. A luta fraticida pelos recursos escassos faz com que esqueçamos os nossos laços sociais. Amigos, parentes, vizinhos, conterrâneos, toda e qualquer categoria que antes nos animava à convivência afetuosa ou apenas cordial, são agora uma ameaça à nossa sobrevivência. Tornaram-se estrangeiros ao círculo mínimo do meu mínimo eu.
Daí que cada vez mais vamos envelhecer sozinhos. E quanto mais nos isolarmos em nosso individualismo, maior será nossa chance de sermos encontrados mortos em nossos cubículos, sem que ninguém dê por nossa falta.


Ilustração: Fábio Cavalcanti

04 março 2010

A outra de mim


Tenho muito medo da mulher. De seus abismos, do seu silêncio. E nem era pra ter. Fui criado por minha mãe e duas tias, com duas irmãs de lambuja. Devia, pois, desde o berço, estar acostumado ao modo de ser feminino. Com suas sombras, com seus segredos. Devia estar, mas não estou. E quanto mais vivo, mais me assombro com seus mistérios, com seus bruxedos.


Tenho mulher e duas filhas, uma nora, três netas e várias sobrinhas. Tenho muitas amigas. Minha casa é impregnada pela alma feminina. Passei décadas da minha vida ensinando a classes formadas por grande maioria feminina. Oitenta por cento de minha clientela também é formada por mulheres. Já era tempo, vocês hão de pensar, de não mais me espantar com o feminino. Mas isso, no meu fraco entender, é impossível.


Não depende da idade nem de qualquer atributo físico. A mulher, toda mulher, traz consigo um quinhão de estranheza que resiste a qualquer tentativa de tradução. Inclusive por elas mesmas. É esta face obscura, que nos olha do outro lado da fronteira de um país estrangeiro, que nos lança o desafio permanente da decifração. Com a decorrente ameaça de devoramento, é claro.

Desde menino guardo a imagem dessas alegres esfinges, em cochichos, rabos de olhos, meneios de cabeça, finalizados pela risada cabulosa que me tinha por alvo. Pobres de nós, os meninos, indefesos, encabulados, batendo em retirada para longe daquele exercício incipiente do maldoso mistério a que ficamos a mercê pelo resto da vida.

Com uma porção tão grande de estranheza, dá pra entender porque a mulher é alvo de tanta violência. Poucas pessoas suportam conviver com a diferença. Principalmente com essa diferença radical que o feminino representa.

Eu, que tenho por fardo a obviedade masculina, sou grato àquela que me põe cotidianamente em frente ao seu mistério. Essa outra de mim, que me ensina a conviver com meus abismos, com meus escuros.
Ilustração: Gustav Klint.

25 fevereiro 2010

As grandes decisões

Acompanhemos aquele homem que caminha pela praia. Veja que não falei que ele anda ou passeia. Caminhar, hoje em dia, na praia ou em qualquer outro lugar, tem um sentido preciso de prescrição médica. Seu colesterol está alto, você precisa caminhar. A ordem está dada. O problema é tomar a decisão de cumpri-la. Segunda-feira começo, diz o homem, seguro dessa primeira tomada de posição. O próximo ponto a decidir é qual a segunda-feira em que começará.

Mas se já o estamos vendo caminhar é porque, de uma forma ou de outra, tal decisão já foi tomada. Precisamos agora acompanhá-lo mais de perto, pois a qualquer instante terá de tomar uma das mais difíceis decisões de sua vida: girar o corpo e fazer o caminho de volta. Quem caminha só, sabe o quanto é difícil decidir o momento e o lugar dessa meia-volta. Isto porque não há nenhuma convenção, nenhum acordo, nenhum condicionante exterior à decisão. Neste momento o homem está só e inseguro. O seu olhar para os circundantes é de puro desamparo.

Chamo agora a atenção para a desenvoltura com que os homens públicos tomam suas decisões. Vamos exterminar os judeus. Vamos invadir o Iraque. Vamos confiscar a poupança dessa cambada. Vamos elevar a taxa de juros. Vamos fazer caixa dois e mentir para esses otários nos elegerem novamente. Diferentemente do nosso caminhante da praia, o homem público nunca está só. Há sempre um grupo interessado em se locupletar com a sua decisão. Outra diferença é que suas decisões nunca o implicam pessoalmente. Ele não é judeu, não vive no Iraque, não é burro para ter poupança em banco nacional, há sempre um jeito de se ganhar alguma coisa com a inflação e, se não for reeleito, haverá sempre um lugar para ele e seus afilhados em alguma estatal.

Só e entregue à angústia de sua decisão, o homem da praia tem um privilégio que nenhum homem público jamais desfrutará. Pelo menos ali e então, ele prova a liberdade de decidir sobre o seu próprio destino.

22 fevereiro 2010

A nova Malu


Eu era assim:

Agora sou assim:




Agora é pra valer:
muito prazer, Malu.

16 fevereiro 2010

As coisas se ajeitam





Eu estava começando minha vida de adulto, com mulher, uma filha, uma faculdade para pagar, sem falar de feira e aluguel. Some-se a isto, um pequeno detalhe: estava desempregado. Por mais que meus cabelos grandes, minhas calças jeans e uma bela bolsa de couro de alça longa fizessem pensar o contrário, depois de algum tempo comecei a ficar apavorado. Comecei a ter dúvidas sobre o futuro que havia traçado para mim. Não lembro muito bem qual era, mas era um bom futuro. Era impossível alguém na minha idade não ter um bom futuro. Pois bem, alguma coisa ruim dentro de mim começou a querer envinagrar os meus sonhos.


Foi quando aconteceu uma das poucas coisas extraordinárias na minha vida. Estava chamando o sono, naquele estado de lusco-fusco entre a vigília e o sonho, quando me apareceu um anjo velho, cabelos compridos em caracóis, poucos dentes na boca semi-aberta. Ele me olhou com uma cara marota, feito quem não estava ligando a mínima para o meu sofrimento. Aproximou-se bem da minha cara e me disse com firmeza: toque em frente que as coisas se ajeitam.


Saí do meu estado hipnótico com um sentimento de grande simpatia pelo velho anjo. Com a sua experiência, sabia muito bem que eu não tinha condições de assimilar nenhuma máxima filosófica. Tampouco teria paciência para aquele discurso metido a besta dos anjos do Velho Testamento. Disse-me tudo o que eu precisava ouvir nos meus vinte e poucos anos. E foi exatamente o que fiz. Toquei em frente e as coisas se ajeitaram.


Muito tempo depois, as coisas devidamente ajeitadas, o anjo velho me apareceu de novo. Desta vez, não me disse nada. Remava lentamente uma canoa sobre um rio escuro e lento. Vi, de longe, suas asas lodosas, com as pontas mergulhadas nas águas. Ele olhou para mim com o seu sorriso maroto e fez um leve sinal com a cabeça me mostrando o muito que ainda tinha a remar. Lembrava um pouco Caronte, o barqueiro da morte. Mas não levava ninguém no bojo da canoa. Passava apenas para me lembrar que ele mesmo tinha como sina tocar para frente a barca dos seus dias. E se as coisas se ajeitavam para um anjo, haveriam também de se ajeitar para um pobre mortal como eu.

10 fevereiro 2010

Um certo mal-estar




Existe algo no ar que não está nos deixando sentir muito bem. Comente com qualquer pessoa ao seu lado, seguramente ela também está sentindo o incômodo. Ninguém está dormindo direito, o tempo não está dando para nada, o resultado é pouco para o muito que se gasta de energia. Há um palpável excesso de mal-estar pairando em nossa volta.


O mal-estar, a angústia, são companheiros inseparáveis em nossa permanência no mundo. E se os suportamos é porque há sempre dentro de nós um projeto, uma esperança de que um dia essa coisa ruim vai passar. É uma ilusão necessária para que permaneçamos vivos. Os que perdem suas esperanças, os desesperados, fazem a opção extrema de desistir do mundo. Matam-se.

Até um certo tempo não era muito difícil ter um projeto de vida. A gente nascia já com um percurso esboçado pela família, pela geografia e pela classe social. Podíamos pensar em seguir a profissão dos nossos pais, ou entrar para o seminário, o convento ou o exército, se quiséssemos dar uma turbinada no projeto. Os mais abastados não precisavam mudar nada. Bastava seguir o curso tranqüilo do macro-projeto familiar.


De uns tempos pra cá, a maioria das profissões dos nossos pais desapareceu. Mais do que isso, desapareceram os postos de trabalho. Com isto, desapareceram muitos projetos de vida. O mundo de hoje, simplesmente, não dá para todos. A maior categoria de excluídos, hoje, é a dos sem-projeto. Sem esperança, portanto.



Antes, havia um jogo de cartas marcadas, em que se sabia de antemão quem ia ganhar ou perder. Hoje, ficou patente, com o recente desmantelo global, que nem o croupier nem o dono do cassino sabem como o jogo vai terminar.

O que fazer, então, frente ao caos e a incerteza? Só encontro uma resposta: manter a esperança, esta teimosia inata que nos mantém vivos. E junto a ela, construir uma coisa que não faz parte da natureza humana: a solidariedade. Você pode até discordar, mas a solidariedade não é uma qualidade inata. Inato é o nosso apego ao que nos é mais próximo, mais semelhante. A solidariedade exige o cuidado com o distante, o diferente, o estrangeiro. E a nossa tendência natural de humanos é nos fecharmos em nossa etnia, nossa família, nossa classe social. Em nosso mínimo eu.


Quanto mais nos excluirmos mutuamente, mais nos sentiremos sós e desesperançados. Pensemos nisto quando olharmos alguém à nossa frente com distância, indiferença e estranheza. A ponte que construirmos em direção a esse outro é a única saída para o nosso mal-estar no mundo.


Foto: Ana Patrícia Almeida - http://www.flickr.com/photos/anap/page7/

04 fevereiro 2010

Os olhos de Anita



Eu gostaria de viver no mundo refletido nos teus olhos. Mundo de manhãs serenas, tardes apenas mornas e noites de ilha sem farol.

Eu gostaria de dormir nas redes avarandadas dos teus olhos. Para ter pequenos sonhos, realizar ínfimos desejos e acordar ávido de novas imagens.
Teus olhos já choraram lágrimas prematuras que o amor e o cuidado estancaram. Sentiste cedo que o mundo dói, pois o mundo, então, era teu corpo. Agora já sabes toscamente que existe um mundo fora de ti. E sorves este mundo com teus olhos, filtrando já o que é bom e o que é mau. Tua mãe é boa. A ausência de tua mãe é má. O peito que dá o leite é bom, é mau o peito que não chega na hora em que dele necessitas. O aconchego morno é bom, muito calor ou frio não presta. É isto e mais teus olhos que constroem um mundo dentro de ti.
Eu queria teus olhos emprestados para fazer um mundo novo para mim. Um mundo diferente deste que meus olhos me mostram. Eu queria teus olhos para ver novas manhãs, inaugurar um céu e um mar estalando novidades em minhas retinas. Para ver o sol arrastar as sombras das coisas tarde a fora até que viesse a noite e com ela o meu descanso sossegado.

Eu queria morar nos teus olhos para olhar nos olhos dos outros e decidir na hora para quem estender os braços. Eu queria fitar-me com teus olhos para me ver um pessoa melhor, mais solidária, mais confiante naqueles que repartem comigo esta visão de terra devastada que eu não queria que teus olhos vissem.

28 janeiro 2010

O mal e os outros



Há exatamente 65 anos, revelava-se aos olhos do mundo um dos retratos mais hediondos do mal. No dia 27 de janeiro de 1945, o Exército Vermelho liberava o mais importante dos campos de extermínio alemães: Auschwitz Birkenau. Ali, a poucos quilômetros da Cracóvia, na Polônia, morreram mais de um milhão e duzentas mil pessoas. Muitas delas foram conduzidas para a câmara de gás imediatamente após a chegada ao campo.
Aproximadamente, seis milhões de homens, mulheres e crianças desapareceram da face da terra vítimas da loucura ideológica que contaminou uma das nações mais cultas de toda a história.
Não me interessa agora, todos esses anos depois, se eram judeus as vítimas e alemães os algozes. Os papéis históricos são permutáveis e as vítimas de ontem podem ser vistas, hoje, como algozes de outras vítimas. Outros massacres mais ou menos espetaculares aconteceram antes e depois de Auschwitz, mostrando que o mal não é privilégio de nenhum povo ou nação. Hiroshima ainda fere nossas retinas e a faixa de Gaza está aí, agora, fumegando.
O que me interessa hoje é compreender esta intemporal e onipresente insanidade destruidora e sua capacidade de contaminação. É uma doença, acreditem, é uma doença que leva um povo a ver em outro povo a encarnação do mal a ser destruído. É a mesma doença que leva uma torcida de futebol a avançar sem piedade contra seus adversários pelo simples fato de torcerem por um outro time qualquer. É o mesmo impulso que leva um motorista apressado a avançar sobre os pedestres na faixa, por conta da única diferença de andarem a pé.
É uma doença que nos leva a projetar no outro tudo aquilo de mal que rejeitamos em nós. Para tanto, é necessário que se fabrique esse outro para que seja destruído por nós, em nosso lugar. São muitos esses outros: judeus, muçulmanos, negros, asiáticos, mulheres, pobres, homossexuais, doentes mentais... Enfim, qualquer indivíduo, grupo ou etnia que possamos eleger como causa das nossas carências e fraquezas.

21 janeiro 2010

Oposição






Um dia, minha filha mais nova chegou em casa muito irada. Sua chapa havia perdido a eleição para o Diretório Acadêmico. Além de irada, estava inconsolável. Mas os pais existem para consolar os filhos. Fui cumprir minha missão de pai. Disse então que fazer oposição é também uma forma de governar. É a vigilância da oposição que arrefece a voracidade dos governantes, exercendo uma crítica permanente aos atos de poder que possam prejudicar os membros da coletividade a que deve servir, seja ela um país, um estado, um município ou um diretório acadêmico.


Disse isto com a convicção de quem viveu o tempo da ditadura militar, em que os parlamentares do MDB, que mais tarde veio a ser o PMDB, faziam uma oposição ferrenha aos donos do poder, correndo o risco da cassação política, do exílio e até mesmo da morte. Os nomes de Ulisses Guimarães, Tancredo Neves e Mário Covas vieram corroborar meus argumentos. São exemplos históricos de como se pode exercer o poder a partir da oposição.


Difícil seria defender meu argumento com exemplos de hoje. Para onde me volte, só encontro uma oposição louca para deixar de ser oposição. Busca-se o poder a qualquer custo, não valendo mais nada as posições ideológicas ou programas partidários. Inimigos ferrenhos de ontem tornam-se repentinamente amigos de infância. Amigos de infância tornam-se inimigos execráveis. Acordos são rasgados, histórias esquecidas.


Ainda bem que não preciso mostrar isto a minha filha. Ela já pode ver com seus próprios olhos. Ela vê e mais uma vez fica irada. É uma pena que eu não possa mais cumprir o meu papel de pai.

13 janeiro 2010

Uma morte bonita



"Ela morreu de uma maneira muito bonita, morreu na causa que sempre acreditou." Foram estas as palavras do cardeal Evaristo Arns quando soube da morte de sua irmã. Zilda Arns estava no Haiti para começar o trabalho de divulgação que antecederia a implantação da Pastoral Infantil em um dos países mais pobres do mundo.
Zilda Arns tinha o olhar obstinado dos santos e o sorriso bondoso dos anjos. Mas era uma mulher de carne e osso, de inteligência e sentimento. E foi assim, de corpo e alma, que ela se entregou ao trabalho de salvar as crianças da subnutrição e da morte.
Seu trabalho começou em Florestópolis, no interior do Paraná, onde o índice de mortalidade chegava a 127 mortes a cada mil crianças. Um ano depois, o trabalho da Pastoral tinha reduzido este número para 28 por mil.
Hoje, são cerca de 2 milhões de crianças e mais de 80 mil gestantes atendidas pela Pastoral em todo o mundo. São mais de 155 mil voluntários trabalhando em mais de 32 mil comunidades em mais de 3.500 cidades brasileiras. Seu trabalho serve de inspiração a ações similares em muitos países da África, Ásia e América Latina. Em 2008, Zilda participou da criação da Pastoral da Criança Internacional, no Uruguai. Incansável, foi também fundadora e coordenadora da Pastoral da Pessoa Idosa, a partir de 2004.
Zilda Arns morreu soterrada no terremoto que arrasou o Haiti. Morreu de pé, a caminho de um auditório onde lhe esperavam pessoas inflamadas pela sua capacidade de trabalho e de amor ao próximo.

Seu irmão tinha razão. Esta é uma maneira muito bonita de morrer.

08 janeiro 2010

O velho e o antigo





Tenho sessenta e dois anos e guardo uma fotografia de quando tinha uns quatro anos de idade. Agora, pergunto: quem é velho, eu ou o menino da foto? Uma das respostas que me ocorrem é que a foto seria antiga, enquanto eu sou contemporâneo. Pelo menos contemporâneo de mim mesmo. Deste ângulo, velho seria o menino da foto, enquanto o cara que escreve estas linhas é um fenômeno atual.
De um certo ponto de vista, o menino da foto e o escriba são exatamente a mesma pessoa. Ou não? Vejamos. Será que as células do sessentão são exatamente as mesmas do garoto? As feições do velhote lembram minimamente a cara rechonchuda da velha fotografia? A memória do pré-ancião recorda as coisas vividas pelo menino? Pode ainda o atual candidato a proveta olhar o mundo com os mesmos olhos ingênuos da antiga criança? Pode o gasto coração sentir com o mesmo frescor as emoções que abalavam o coração nascente?
Enquanto escrevo, vai se firmando uma certeza: sou um ser de memória. E no âmbito da memória, tudo gira entre o velho e o antigo. Velho sou eu. Antigo é o menino. E de mãos dadas, o velho e o antigo vasculham os escombros da memória para com isto construir algo de verdadeiramente novo. Algo que estará além de mim e do menino.

02 janeiro 2010

Recriar o tempo




Único animal que sabe que vai morrer, o homem inventou o tempo para domar o seu medo da morte. Precisamos do tempo. Precisamos do ontem para trancar nossas lembranças, precisamos do amanhã para adiar nossas frustrações. Passado e futuro são âncoras que nos protegem do fluxo vertiginoso do agora.
A natureza nos ensina os ciclos das estações. Com ela aprendemos a nos deixar passar, mantendo a ilusão que sempre voltaremos. Mesmo sabendo que um dia não voltaremos.
Precisamos recriar o tempo. Precisamos dos dias, dos meses e dos anos para contar. Para nos contar. Foi um dia... Era uma vez... Faz muito tempo...
Fruto do nosso medo e de nossas esperanças, inventamos a cada ano o ano-novo. Precisamos desta fronteira entre passado e futuro para corrigir rumos, descartar excessos, refazer as malas.
Façamos isto mais uma vez. Sem remorsos, sem promessas. Sem querer descobrir a pólvora, inventar a roda. Basta redescobrir o outro ao nosso lado. Basta reinventar a nossa humanidade. Redescobrir e reinventar uma forma de estar no mundo que nos permita lembrar com prazer nosso passado e esperar com prazer pelo futuro.

Imagem obtida em: marcellolima.wordpress.com

30 dezembro 2009

Seconda chance




Se trovate a Gaza
un bambino in una mangiatoia,
circondato dai genitori,
tre magi
e alcuni animali,
per favore, proteggetelo.


Perché la mattanza degli innocenti
è già cominciata
e la strada per la fuga in Egitto
è chiusa.


Ronaldo Monte.
Traduzido por Rosella Pristera
http://bottega27.splinder.com/post/21906325



SEGUNDA CHANCE


Se for achado em Gaza
um menino em uma manjedoura,
rodeado pelos pais,
três magos
e alguns bichos,
por favor, protejam-no.


Pois a matança dos inocentes
já começou
e a rota de fuga para o Egito
está interditada.



(Ronaldo Monte. 16.01.2009)

21 dezembro 2009

O milagre possível


Pobre humanidade esta, que deposita suas esperanças no nascimento de uma criança que aconteceu, supostamente, há dois mil e nove anos. Pobre e contraditória humanidade, que deposita esperanças num evento que já aconteceu. Não há mais nada o que esperar. A não ser por um milagre. Mas se algum milagre tivesse de acontecer, não se deixaria esperar por mais de dois mil anos.
Se algum milagre tiver que acontecer, ele terá de ser feito pelas nossas próprias mãos. E não há mais tempo para esperar. A tarefa é urgente, para ontem. O planeta está exaurido. Os homens estão exaustos. O que era semelhante transforma-se no estranho que deve ser abatido.
Aos que ainda mantêm um mínimo de lucidez, resta insistir na construção de um mínimo fio de solidariedade. Coisa difícil, pois esta qualidade não é natural no ser humano. Ela tem de ser construída racionalmente. Mas é a única qualidade que pode nos salvar da barbárie. Solidariedade. Este é o nome do milagre.