27 julho 2008

Política no diminutivo



Impressiona como tem zezinhos, joãozinhos, almeidinhas e silveirinhas candidatos a um cargo nas próximas eleições. É fácil de entender. Os josés, joões, almeidas e silveiras estão pendurando as chuteiras, mas não querem largar o osso.
O protótipo da jogada é o Diduzinho, da novela das oito. Seu pai, Romildo Rosa, é uma velha raposa que chegou onde está por conta de muita mutreta e mal-caratismo. Seu plano em continuar por cima, porém, desmoronou por conta do próprio filho. Diduzinho é alcoólatra, sem nenhuma vocação política e um ferrenho crítico dos métodos paternos.
É uma pena que Diduzinho seja um personagem de ficção. Na vida real, os diminutivos dos pais topam a jogada. E lá estão, rosados e de banho tomado, a nos sorrir desde o vidro traseiro dos carros. Em breve serão vereadores, logo mais, deputados estaduais, depois virão os plenários de Brasília e, se der, uma cadeira de governador.
A prática é uma velha conhecida nossa. É de se esperar que as velhas raposas queiram legar a seus filhotes a chave do galinheiro. O que chama a atenção é a quantidade de propostas de continuísmo para as próximas eleições. Não deve ser cansaço dos pais. Este tipo de trabalho não cansa. Fico até tentado a pensar que tem muita gente com medo de se submeter diretamente ao julgamento do eleitor. E em vez de suas caras manjadas nos oferecem o rosto angelical de seus filhinhos, tentando nos convencer de que estes nos tratarão melhor do que seus pais.
Enquanto nós, eleitores, não interrompermos este jogo de cartas marcadas, continuaremos cúmplices desta política pequena, chifrim. Política de pai para filho. Diminutiva.

Ilustração:Diduzinho, personagem de Fabrício Boliveira na novela A Favorita.
Obitada em :
http://afavorita.globo.com/Novela/Afavorita/Personagens/

20 julho 2008

Guerra santa




A borracharia já estava lá quando a igreja se instalou na casa em frente. E desde o começo dos tempos os cartazes enfeitavam as paredes encardidas com aquelas mulheres exuberantes, algumas mal cobertas no essencial, outras generosamente nuas. Perto da hora dos cultos, lá vinham os irmãos, paletó, gravata e o indefectível livro de capa preta nas mãos. Curioso é que vinham pelo lado da borracharia, só atravessando depois de um olhar furtivo para os cartazes. As irmãs, não. Ajuntavam-se na porta da igreja e ficavam dando muxoxos para o lado dos borracheiros. Deus estava vendo. Vão todos queimar no fogo do inferno. Uma pouca vergonha, confirmava um irmão. Eu vi com meus próprios olhos.
As coisas caminhavam assim, quando um fato novo quebrou a monotonia da desavença. O poster da Mulher Melancia. Era gritante demais, volumoso demais, pecaminoso demais para ser tolerado por aquelas ovelhas prontas para ruminar nos pastos divinos. Depois do culto da noite, o assunto foi discutido a portas fechadas. Na manhã seguinte, decidiu-se, o pastor iria falar com o dono da borracharia. Ele mesmo se comprometeu a avaliar o teor pecaminoso do cartaz e exigir sua retirada da parede.

Não adiantou nada. O borracheiro estava irredutível. A borracharia é minha, o poster é meu. Quem não quiser olhar, vire a cara ou feche os olhos. Acho que as irmãs sentem inveja da melancia da moça. E o senhor precisa ver o tanto de crente que deixa para atravessar a rua aqui em frente da borracharia. O senhor me desculpe, pastor, mas eu tenho mais o que fazer. Depois da Mulher Melancia, aumentou muito o movimento por aqui.
A indignação tomou conta do rebanho. Se a missão de paz não obteve resultado, o borracheiro ia ver o quanto podia a ira do Senhor manifestada em seus servos. No outro dia de manhã, toda a congregação estava presente, excitada pela voz estridente do pastor, pronta para invadir a borracharia e expulsar de lá o demônio dos fartos glúteos.
Convocados pelo celular, borracheiros de toda a vizinhança acudiram em defesa do colega ameaçado. Os ânimos se exaltaram. A ocasiões como esta não se ajusta melhor expressão. Definitivamente, os ânimos se exaltaram. Igreja, ataque a borracharia, bradou o pastor. Em resposta, ouviu-se o grito roufenho do inimigo: borracharia, enfrente a igreja.
Os irmãos não tiveram tempo de dar um passo. O borracheiro arrancou o poster da parede, mostrou fervorosamente o seu conteúdo ao valorosos companheiros e avançou com aquela bunda enorme lhe cobrindo o peito em direção ao exército inimigo. Atrás dele, tomados pelo espírito de Thor, armados com seus martelos de borracha maciça, os homens gritavam seu grito de guerra: Créu – Créu – Créu.
A massa de fiéis abriu-se como o Mar Vermelho. Créu – Créu – Créu, avançava o exército igreja adentro. Aleluia, Aleluia, gritavam os irmãos, alucinados pelas formas excessivas da mulher que ondulava ao sabor dos passos do borracheiro. Créu – Aleluia – Créu – Aleluia, gritavam as irmãs, muitas já sem as longas saias, comparando suas bundas com a da mulher do cartaz, fazendo bruscos movimentos de ir e vir com a pélvis, numa cópula frenética com o nada.
Em nome de Deus, tire este demônio daqui. Atirou-se o pastor aos pés do borracheiro. O homem enrolou cuidadosamente o pôster e ordenou a seus comandados: borracharia, abandonar a igreja. Saíram em silêncio, mas sem esconder um ar triunfante. Atrás deles, os irmãos tentavam cobrir as vergonhas de suas mulheres que acordavam do transe ainda aos estertores.
No culto seguinte, o pastor teve trabalho para botar pra dentro da igreja os homens e mulheres que vagavam em frente da borracharia.

18 julho 2008

Sejamos injustos


No final de 2005, Angélica Aparecida de Souza tinha dezenove anos e um filho de dois. Estava desempregada e seu filho tinha fome. Angélica entrou num mercadinho e escondeu um pote de 200 gramas de manteiga debaixo do boné. O dono do mercadinho, Seu Dadiel de Araújo, chamou a polícia. Azar de Angélica. Presa em flagrante, passou 128 dias no Cadeião de Pinheiros, em São Paulo. Quatro vezes o seu advogado pediu a sua liberdade provisória. Só conseguiu depois de apelar ao Superior Tribunal de Justiça. Depois de um tempo em liberdade, Angélica foi julgada e condenada a quatro anos de prisão em regime semi-aberto. Vai poder trabalhar durante o dia, só voltando à noite para a prisão. Vejam só o privilégio. Angélica, antes desempregada, agora pode sair para trabalhar. Não adianta perguntar onde. Isto não é problema da Justiça.
No dia oito de julho de 2008, a Polícia Federal botou na cadeia o banqueiro Daniel Dantas, o megainvestidor Naji Nahas e o ex-prefeito de São Paulo, Celso Pitta. Todos com ficha suja na polícia, acusados de comandar uma quadrilha responsável por desvio de verbas, lavagem de dinheiro, remessa ilegal de valores para o exterior, envolvendo altas autoridades do atual Governo Federal e do anterior.
Três dias depois, todos estavam soltos por decisão do Presidente do Supremo Tribunal Federal. Preso novamente onze horas mais tarde, o banqueiro Daniel Dantas foi presenteado novamente com um habeas corpus do STF. Não adianta a suspeita de que, em liberdade, terão todo o tempo e espaço para destruir provas, intimidar testemunhas, subornar autoridades. Isto não é problema da justiça.
Eis aqui dois casos em que a justiça foi aplicada em todo o seu rigor técnico. Mas existe alguma coisa dentro de nós que denuncia, em ambos os casos, a ausência de um critério ético na aplicação das leis.A fome de Angélica e a ganância de Daniel Dantas não podem ser julgadas pelo mesmo padrão de legalidade. A discrepância entre os seus crimes exige algo mais do que uma suposta igualdade de todos perante a lei. Daniel Dantas é mais “igual” do que Angélica. Ele é igual aos criminosos de colarinho branco, aos poderosos corruptos, aos freqüentadores de paraísos fiscais. Ela é igual aos milhões de famintos desesperados que escondem o furto no boné.
Se a aplicação dos códigos da justiça resulta em tratamentos tão díspares como nos casos de Angélica e Daniel, está na hora de sermos injustos. Antes do código penal, apelemos para o código de ética.


Imagem obtida em www.eu2007.pt/.../tribunal_de_justica.htm

16 julho 2008

Vesga


Encomendado por Betomenezes

Antes disso - ela falou, interrompendo o trabalho ávido dos dedos dele no primeiro botão da blusa -, preciso lhe contar uma coisa: eu sou vesga. Ele ficou parado olhando para os olhos dela que não davam o menor sinal de desencontro.
Não é dos olhos que estou falando. Virou-se de costas e ela mesma tirou a blusa. Voltou-se girando colada ao corpo dele, entregando a boca, entretendo os olhos.
O corpo do homem exausto na cama não notou quando ela foi ao banheiro. Só a viu voltar, enrolada no roupão. Ele quis espionar pelas frestas, mas tudo o que conseguiu foi um beijo em cada olho.
Ele tomava um café forte na mesa da cozinha quando ela veio lá de dentro já pronta para sair. Curvou-se para o beijo de despedida com a mão protegendo o decote.
Ele a viu se afastar, ouviu seus passos ecoando pela sala e sentiu uma leve tristeza quando a porta bateu. Passou o resto do dia todo assim, os olhos pulando de uma coisa para outra, procurando algo que ele sabia que não estava ali.

Clube do Conto, 19.07.2008

11 julho 2008

Caros amigos



A primeira coisa que fiz hoje de manhã foi abrir a caixa de correspondência para ler os e-mails de parabéns pelo meu aniversário. Não fui frustrado em minha expectativa. Estavam lá três mensagens carinhosas: uma do meu provedor de internet, outra do Orkut e a terceira de um desses catálogos de endereços de que não lembro de ter me inscrito.
Que boa memória, a das máquinas. E quanto amor em suas palavras. Elas me desejam toda a felicidade do mundo, agradecem pela minha existência e me prometem bons serviços até a morte.
Os amigos não me mandaram emails. Alguns telefonaram, outros ficaram de dar uma passadinha para um abraço. Mas nenhum se dignou a me mandar uma mensagem pelo mais sublime dos meios de comunicação. As máquinas sabem disso. E por saberem, alçam-se acima dos homens no que tange a demonstrações de apreço e consideração.
Sigo, pois, a tendência geral das gentes pós-modernas. Vou prescindir do amor dos homens. Somente as máquinas me escrevem. Há muito amor por mim no coração das máquinas.

O presente



Era véspera do meu aniversário. Era também dia de oficina de leitura no Centro Comunitário de Mandacaru. Quando cheguei, havia uns panos coloridos no chão e, sobre eles, alguns livros meus, além de outros escritos que o grupo conhecia. Durante duas horas, ouvi de vozes amigas os poemas, crônicas e contos que escrevi ao longo da minha vida. No terraço onde nos encontramos, havia um painel com um retrato meu feito a lápis por um dos componentes. No final, todos os presentes escreveram mensagens de carinho para mim. Não podia ganhar presente melhor.
O melhor presente, porém, não era a simples devolução aos meus ouvidos das palavras que um dia de mim haviam saído. O verdadeiro presente era assistir um punhado de jovens repartir o poder e a beleza das palavras, superando todas as resistências de um meio hostil e degradante.
O melhor presente é saber que existem muitos grupos iguais ao nosso pelo País afora. O verdadeiro presente é constatar que a palavra ainda não foi destituída do seu poder em resgatar a dignidade do ser humano.
Somos seres de fala. A palavra é nossa carne. Temos sede de invenção e beleza. E a prova disto é o trabalho dos meninos e meninas de Mandacaru. Eles alimentam minha crença em um mundo mais rico, em que cada um tenha direito a dizer sua palavra e repartir sua beleza com os seus semelhantes.

07 julho 2008

Rosa

"Ladrão? se pega com tiro." - CDA




Ele era leiteiro. No tempo em que os leiteiros deixavam as garrafas de leite nas portas.
Ela era Rosa. No tempo em que as rosas casadas mal saíam às portas.
Ele amava as rosas. E colhia rosas nos jardins das casas em que deixava o leite para deixá-las nas casas de jardins sem rosas.
Ela amava as rosas. E gostava quando ele deixava uma rosa junto com o leite em sua porta.
Ele não sabia de Rosa. Rosa não sabia dele.
Mas o marido sabia que ela entrava feliz com o leite, sem mostrar-lhe a rosa.
Uma manhã, um tiro, um vidro estilhaçado.
Por debaixo da porta deslizava a cor trágica da aurora.

Clube do Conto, 05.07.2008
Ilustração obtida em: mapadonada.blogspot.com

29 junho 2008

Assunto


Aconteceu hoje, no começo da tarde. Duas moças e um rapaz caminhavam por uma rua deserta de muros altos, quando ouviram gritos vindos de uma casa. Uma mulher suplicava que alguém telefonasse chamando uma ambulância. Seu filho tinha se sufocado. Nenhum vizinho saiu da sua paz dominical para acudi-la O grupo atendeu ao pedido. Em poucos minutos, a criança era atendida por uma equipe de para-médicos. Mas já estava cianótica. Talvez já estivesse morta.
O que chamou a atenção do grupo de jovens foi que, depois que a ambulância chegou, com sua sirene e seu aparato de filme de televisão, os vizinhos se acotovelaram nos portões de suas casas, especulando, dando opiniões.
Sei que mais uma vez estou me expondo à crítica dos amigos por criticar mais uma pequena perversão dos meus semelhantes. Mas não é de hoje este alheamento ao sofrimento vizinho. Fazemos de tudo para adiar o compromisso com a dor ao lado.
Os gritos da mãe não foram suficientes para tirar os vizinhos da pachorra dominical. Somente quando soou a sirene, quando abriram-se as portas para o espetáculo das urgências é que deram as caras. Para ver, para fruir, para contar depois no escritório ou no salão de beleza.
. Agora sim. Terão um bom assunto para animar o almoço e rechear os intervalos do Domingão do Faustão.

Imagem obtida em: artigosdepsicologia.files.wordpress.com/2007/...

20 junho 2008

Migrantes

Somos todos migrantes. Para ter o direito à vida, somos expulsos de um lugar que nos guardava como um paraíso. E o nosso primeiro trabalho é construir um simulacro desse espaço dentro de nós. Construímos um eu. E jogamos para fora dele tudo o que ousar perturbar a paz reencontrada. E assim criamos um outro diferente do que pensamos ser.
Somos todos migrantes. Fugimos da solidão procurando a união com os mais próximos, os mais parecidos a nós mesmos. Criamos um grupo e jogamos para fora dele tudo aquilo que ameaçar esta frágil comunhão. E assim criamos nossos inimigos. Pode ser os vizinhos, os moradores de outra cidade, outro estado, outro país. O de outra cor, outro credo, outra ou nenhuma posse.
Somos todos migrantes. Migramos da nossa humanidade e prendemos, humilhamos e devolvemos ao horror aqueles que nos procuram em busca de um pouco de paz e trabalho. Se antes fazíamos isto às escondidas, agora criamos leis que nos permitem o mal sem culpa.
Ainda somos migrantes. Nosso desejo nos faz migrar para um lugar onde todos poderemos nos reconhecer como semelhantes. Onde todas as diversidades serão acolhidas, onde a diferença será o nosso traço de união. O outro, o diferente, alegrará com luz e cor o cinza da nossa mesmice. Este lugar ainda está longe. Mas é para lá que migramos.

Imagem recolhida em www.radio.usp.br

17 junho 2008

Se arrependimento matasse...


Bem que Glória me avisou. Eu não tinha nada que falar sobre o assunto da porta aberta. Não desconfiava do tamanho do vespeiro em que estava metendo a mão. Fui chamado de ranzinza, insensível, desviante e portador de “neura de psicólogo”. Teve até uma coisa mais séria, o relato da mãe e da irmã de uma amiga muito querida que foi jogada para fora de um táxi aos quatro anos de idade, por causa de uma porta mal fechada.
Não sabia que estava criticando uma instituição nacional tão consolidada. E olha que já falei mal do PT, dos católicos, dos protestantes, até do Créu e a respectiva bunda da mulher melancia. Nunca recebi tanto e-mail em protesto quanto agora.
De qualquer forma, é bom saber que as pessoas se interessam pelo que escrevo. Melhor ainda é ver uma opinião minha ser criticada com respeito e carinho, mostrando a boa vontade de muitos em acolher um pensamento que foge à unanimidade.
Claro que continuo achando que a má fé e a hipocrisia costumam se esconder por trás de certos comportamentos estereotipados. Mas se alguém notar qualquer porta do meu carro mal fechada e minha neta Gabriela estiver lá dentro, me avise, pelo amor de Deus.

Imagem obtida em gatocomvertigens.blogs.sapo.pt

13 junho 2008

A porta e a senha


Eu voltava para casa num fim de tarde, o carro passeando pelas ruas internas do bairro. De repente, um carro de trás buzina, dá sinal de luz. Encosto para deixá-lo passar, mas ele emparelha com o meu. Lá de dentro, o motorista e o carona gritam quase com raiva: a porta. A porta está aberta.
Este é um comportamento urbano que me intriga. Ninguém pode ver uma porta de carro mal fechada. Já cheguei a pensar que seria uma das poucas demonstrações sobreviventes do famoso estilo cordial brasileiro. Já não penso assim. Esta pretensa solidariedade esconde, a meu ver, pelo menos duas atitudes em nada louváveis. Uma delas seria a necessidade de se mostrar preocupado com o semelhante, sem se comprometer com o seu bem-estar. Dá-se um grito, faz-se uma cara simpática de compreensão e toca-se (literalmente) em frente. A outra atitude, mais autêntica, seria aquela dos ocupantes do carro no meu bairro: eu sou melhor do que você e estou me dando ao trabalho de denunciar o seu erro.
Outro comportamento, de desenvolvimento mais recente, ocorre quando o vendedor da loja ou do posto pede para você registrar sua senha na maquininha. Ostensivamente, ele (e quem mais estiver ao redor) vira a cara para o lado, como quem diz: veja como sou honesto. Não quero saber a sua senha. Um mínimo de psicologia de botequim serve para deduzir o tamanho do seu desejo em nos roubar a senha.
A porta e a senha: dois símbolos do acesso a lugares restritos, são boas metáforas para a aproximação entre as pessoas. Pena que estejam sendo usadas como expressão da má fé e da vaidade.


Ilustração obtida em picasaweb.google.com/.../XcviuxGFKuV6XMOXjahU9w

08 junho 2008

Cara nova


Enquanto físicos, filósofos, psicanalistas e poetas não chegarem a um acordo a respeito do tempo, vamos sempre ter problemas ao falar dele. Ontem mesmo, conversando com Glória a respeito da idade de uma apresentadora de televisão, lembrei que a cara antiga dela era bem diferente da nova cara que víamos agora na televisão. Vejam bem, neste pequeno exemplo, a confusão que dá falar do tempo. A cara de antigamente era de uma pessoa nova. É, portanto, uma cara velha. A cara nova é a cara de uma mulher sábia e rodada, que se apresenta como novidade.
Perde-se no passado a cara nova que um dia já tivemos. Emerge da velha pele a nova cara que o tempo nos fabrica. Se gostamos ou não da nova cara, se aceitamos ou não a novidade, não é problema do tempo. O operário silencioso molda nossas máscaras à nossa revelia. E vinga-se dos que tentam mascarar o seu trabalho. A todos nós, sujeitos passivos do tempo, resta o trabalho de contemplar a cada dia as novidades que o espelho nos revela.


Imagem obtida em blogdajetx.blogs.sapo.pt

01 junho 2008

O poema roubado

São muitos os destinos dos poemas. Coração na chuva, um poema meu, feito quase de brincadeira, foi roubado. O ladrão é um cara de uns dezesseis anos, da Oficina de Leitura de Mandacaru. Desde que foi lido, o poema fez o maior sucesso entre a moçada. E o cara estava apaixonado por uma menina do grupo. Coisa séria e sabida por todos. Um dia, a menina trouxe uma cópia do poema diagramado por ela no computador, ilustrado por dois corações em chamas. Daí, ele passou a dizer que o poema era dele. E, na maior cara de pau, afirma que fui eu que roubei e publiquei no livro o poema que ele fez.
Acho que a forma simples e direta do poema cai no gosto da turma. Ele é assim:

Os olhos do meu amor
são muito grandes
e chovem.
E o meu seco coração
fica secando os olhos dela,
querendo se molhar nos olhos dela.
Eu digo ao meu coração: esquece.
Meu coração não está nem aí.
Meu coração está lá,
debaixo dos olhos dela,
dos enormes olhos dela
que chovem.
Que chovem muito,
deixando meu coração ensopado,
encharcado,
resfriado de amor.


Dos muitos destinos dos poemas, coube ao Coração na chuva servir de brinquedo a um amor adolescente, fornecendo juntos, amor e poema, um pouco de leveza ao mundo tenso em que se encontraram.

Imagem obtida em essenciafeminina1.spaces.live.com

22 maio 2008

Nossas senhoras



Eu fui fazendo vista grossa, deixando para a semana que vem e de repente minha casa virou um inferno de pequenos defeitos.
Comecemos pelo muro da frente e vamos contando pela ordem dos cômodos. O interruptor da campanhinha estava quebrado pela enésima vez, pois um maluco dá um murro nele toda vez que lhe é negada uma esmola. O portão automático estava fora do trilho, com a fechadura emperrada e uma das placas magnéticas danificada. Na certa tentaram arrombá-lo. Na área de serviço, a máquina de lavar, uma torneira e uma telha transparente esperavam conserto. Na cozinha, o gelágua parecia ter queimado o motor. O micro de apoio só ligava quando bem queria. O aparelho de ar condicionado do quarto estava com o compressor furado.
Podem não acreditar, mas esta revolta geral das coisas se concentrou numa única semana. O suficiente para deixar claro quem manda aqui em casa.
Tem pra mais de trinta anos que escrevi um poema sobre o poder que as coisas têm sobre nós. Veja que coisa singela:
O direito das coisas
meus óculos
meu relógio
minha caneta
minha maquina de escrever
meu carro
meu copo gravado com meu nome.

meus livros
meus discos
meu toca-discos
minha calça listrada
meus tamancos
minha carteira profissional.

as coisas a que pertenço
exercem sobre mim o seu direito
dando-me forma e movimento
determinando o que sou
mantendo a ilusão de que são minhas.

Quando escrevi o poema, não tinha a menor idéia do que me esperava pela frente. As coisas ainda disfarçavam a sua ascendência sobre mim. Hoje, elas jogaram suas máscaras fora. Exercem abertamente sua tirania e não perdoam qualquer tentativa de insubordinação.

imagem obtida em: casa.hsw.uol.com.br

18 maio 2008

Meia hora


Todo mundo tem medo de alguma coisa. André tinha medo de meia hora. Seu analista chegou a interpretar que ele temia perder a virilidade. Por isso lhe dava pavor o ponteiro dos minutos totalmente voltado para baixo do mostrador. Erro freudiano. André também tinha medo da meia hora em relógio digital.
A coisa era tão séria que, ao ver o ponteiro se aproximar do tempo fatal, ele tirava o relógio do pulso e ia se esconder em um lugar seguro. Só voltava quando já fosse qualquer hora e trinta e poucos minutos.
Não sabia muito bem o que poderia lhe acontecer de meia em meia hora. Mas a coisa era automática. Uma ponta de angústia lhe tomava o peito e ele já sabia. Nem precisava olhar o relógio. Prendia a respiração, fechava os olhos, controlava o tremor das pernas para depois ver tudo ir embora junto com o ponteiro em direção ao trigésimo sexto minuto.
Poeta famoso no quarteirão onde mora, André costumava ser reconhecido pelas meninas da vizinhança como aquele rapaz delicado que fazia versos de amor muito bonitos. Foi por isso que Marcela sentou junto dele na sorveteria e pediu: faz uma poesia pra mim. Olha, são quatro horas. Daqui a meia hora eu volto pra buscar.
O problema não era o prazo, pois André vivia treinando umas rimas para ocasiões extraordinárias como essa. O problema era a hora. Pegou o guardanapo, traçou as catorze linhas do soneto, mexeu um pouco para disfarçar o plágio, ficou uma beleza. Ainda admirava a obra quando começou a sentir o aperto no peito. Marcela não podia encontrá-lo assim, tremendo, resfolegando, suando as mãos. Correu para o banheiro.
Quando voltou, Marcela já saía pela porta da sorveteria. O relógio marcava quatro e trinta e cinco.
Clube do Conto da Paraíba, 17.08.2008
Imagem obtida em brandusblog.blogspot.com

15 maio 2008

Revisitando Millor





"Até aqui me ajudou o Senhor", disse o crente suicida ao passar pelo décimo andar, depois de se jogar do vigésimo.

Tristes tempos estes, em que os crentes se suicidam.

imagem obtida em investclub.blogspot.com

11 maio 2008

Estação Mandacaru


08 maio 2008

Ainda é maio


Não sei o que Dôra Limeira estava fazendo em maio de 68, ou antes e depois dele. Sei que ela tem o hábito de usar a bolsa com a alça cruzada no peito, sinal de que ela já levou muita carreira da polícia. Agora, eu sei bem o que Dôra estava fazendo no fim da tarde do dia quatro de maio de 2008. Estava participando da Marcha da Democracia, junto com a filha e o namorado desta. Quero só esclarecer que esta marcha foi organizada como protesto à proibição pela justiça de uma marcha anterior a favor da legalização da maconha. Vamos deixar a própria Dôra dizer o que viu, do alto dos seus setenta anos:
“Havia muitos jovens, muitas cores, sorrisos, brincadeiras e palavras de ordem. Era muita a energia que ali estava canalizada. Portavam e exibiam toscos cartazes em cartolinas, com mensagens escritas com pincel atômico. O que queriam aqueles jovens assim irmanados naquele momento, naquele espaço? O que diziam aqueles cartazes e faixas rústicas, algumas, podia-se ver, confeccionadas em casa? (...) Queriam eles que fossem respeitadas as suas opiniões, seu direito de ir e vir, queriam falar, dizer. Queriam sorrir, jogar fora mordaças, bradar por liberdade de manifestação.
“(...) No entanto, em dado momento, percebi um tumulto se formando em torno do carro de som. O que seria? Policiais de trânsito e policiais militares anunciaram que o carro não podia prosseguir, alegavam irregularidades burocráticas.
“Aquilo foi mesmo que jogar água fria na fervura. Mas a turma acatou, mesmo que a contragosto, fazer o quê?. A turma era gente do bem. Fariam a festa ali mesmo, em volta do carro, os microfones ligados, a música tocando, a multidão dançando no meio da rua. Não haveria a caminhada, mas apenas um protesto. Gentes sentavam no asfalto, encenavam mordaças, alguns iniciavam coros dizendo abaixo a repressão, democracia sim. Mas as autoridades só queriam truculências, tumultos. Policiais desligaram o som do carro, repuxaram fios, danificaram a instalação e fizeram um cinturão em torno do carro de som, como quem diz aqui ninguém encosta mais. Exacerbaram-se os jovens, até então muito calmos. Os policiais disseram ‘vamos levar o carro’. Os jovens disseram que não. Um rapaz se deitou na frente do carro para impedir, os policiais arrastaram o corpo do rapaz para que saísse da frente à força. Os policiais extrapolaram em suas posturas e levaram o carro embora. Vi quando os policiais espancaram um moço. (...) Ouvi impropérios, gritos de ‘abaixo a repressão’, insultos de lado a lado.
“De repente, que horror. Tropa de cavalaria invadiu a rua, os cavalo’s se postaram em posição de atacar. A turma se irmanou (...). O hino nacional avançou nas vozes afinadas dos manifestantes. Os cavalos ameaçaram pisotear todos. Vi repentinamente quando os animais avançaram na multidão, bombas de efeito moral explodiram. Meninos, rapazes e moças, senhores e senhoras, anciãs e anciãos correram atabalhoados para escapar das patas dos animais. Entrei em pânico, todos entraram em pânico. Algumas pessoas tentaram se proteger entrando nos bares, os cavalos entraram também nos bares, uma multidão correu para a areia da praia, tentando se proteger, os cavalos invadiram a areia galopando atrás da multidão. Eu não via mais nada, sabia apenas que precisava correr muito na areia. Finalmente, senti braços protetores em meus ombros e ouvi alguém me dizendo palavras de conforto. Era minha filha e o namorado dela falando comigo. Alguns rapazes desconhecidos também me cercaram em gestos de proteção.
Dôra está aí para nos lembrar que ainda existe maio. Que a chama que se alastrou pelas ruas do mundo em 68 ainda não se extinguiu. Ela ainda arde nos corações de pessoas como Dôra, prontas para ir às ruas com a alça da bolsa cruzada no peito, dispostas ao que der e vier.

01 maio 2008

O poema e o créu



O que pode um poema contra uma foto de Andressa Soares, a mulher melancia, na capa da Playboy? Para os pouquíssimos que ainda não sabem, a garota é aquela que fez o maior sucesso no último carnaval, e depois dele, agitando os 121 centímetros de diâmetro de sua bunda na famigerada dança do créu. Ela já deu entrevista no Jô, já apareceu no Casseta & Planeta, tornando-se figura obrigatória em qualquer aglomerado de celebridades.
Numa demonstração cabal da importância cultural que a mulher melancia alcançou, a revista com o seu imenso glúteo na capa foi lançada na livraria Nobel, em um Shopping do Rio, com sessão de autógrafos da própria fotografada. A foto está aí, para não me deixar mentir.
Uma das minhas preocupações com a garotada da oficina de leitura que ajudo a tocar no Bairro de Mandacaru, em João Pessoa, é com o nível das letras de música que eles, principalmente elas, cantam nos intervalos entre as atividades. É pornografia no seu nível mais direto e grosseiro. Sem metáforas ou meias-palavras. Isto sem falar na coreografia que ilustra os temas das peças musicais.
Constatando que de nada adiantava a minha reprovação verbal a cada demonstração áudio-visual, resolvi pedir que as meninas trouxessem as letras das músicas, com a intenção de fazer um paralelo entre o seu conteúdo e alguns poemas eróticos de autores como Drummond ou Bandeira, ou gente mais nova, como Marta Medeiros, Márcia Maia ou Vitória Lima. Ainda não posso relatar o resultado da experiência, pois ela ficou programada para o próximo módulo. Prometo prestar contas assim que tiver algum resultado, seja ele qual for.
Mesmo que não consiga muita coisa, sei que o meu trabalho irá se somar ao de muitos outros viciados em esperança. É muito pouco o que pode fazer um punhado de agentes sociais bem intencionados contra o poder de fogo das grandes redes de comunicação de massa. A luta é desigual. O créu está ganhando. Mas o poema insiste, como um mosquito da dengue.

28 abril 2008

Um problema adiado


Existe vida após a morte, afirmam crentes de vários credos. Acho que a frase está invertida. O certo mesmo é que existe morte após a vida. Não vejo nenhum sentido, por exemplo, em receber, depois de morto, um camisolão branco e uma lira para cantar loas eternas ao Criador. Por maior que seja a paciência divina, um dia Ele enxotaria o bando de puxa-sacos para o andar de baixo.
Muito menos aceito a idéia de que exista um mundo um pouco acima do nosso, em tudo idêntico ao nosso, de onde os mortos dariam palpites em nossa vida. Se é para continuar a fazer o mesmo que fazemos em vida, pra quê, me digam, morrer?
Isto sem falar na hipótese da transmigração, em que eu posso voltar a este mundo na forma de algum animal, vegetal, ou mesmo mineral. Claro que sentiria um certo orgulho em ter sido a pedra inspiradora do célebre poema do Drummond, mas não me sentiria muito bem sendo a barata de Clarisse Lispector.
Talvez o leitor esteja perguntando o motivo dessas digressões sobre a morte. É que andei meio doente esta semana e me botei a pensar no que aconteceria depois da minha morte. Claro que não me preocupei com os sobreviventes. Mais cedo ou mais tarde, eles se acostumariam com minha ausência e continuariam tocando suas vidas. O problema maior era comigo.
É impossível para qualquer pessoa pensar o mundo sem a sua presença. Freud já dizia que não há representação da morte em nosso inconsciente. Pela razão pura e simples de que ainda não tivemos a experiência da morte. Pelo menos da morte deste eu que insistimos em idolatrar. De minha parte, tenho a maior dificuldade em me imaginar vivo depois da morte. Por mais que seja eu que esteja vivo, serei sempre um eu... morto. E se houver reencarnação não serei, ainda bem, o mesmo desta vida.
Felizmente, começo a semana bem melhor de saúde. Posso deixar este problema para mais tarde. Bem mais tarde, espero.
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